Uma voz na escurido
Sandra brown

Nota da contra-capa:
Austin poderia ser o lugar ideal para paris gibson esquecer seu trgico passado.
Apresentadora de um programa de rdio, seus conselhos e as canes que pe no ar 
harmonizam conflitos e enternecem as madrugadas de seus ouvintes. De quase 
todos.

Nota da orelha do livro:
Paris gibson tem um programa radiofnico, na madrugada, que funciona como uma 
vlvula de escape, alm de ser seu nico verdadeiro contato com o mundo externo.
Desde a mudana para austin, onde tenta aliviar o sofrimento provocado por 
trgicos erros do passado, ela leva uma vida praticamente solitria, e s se 
anima durante
A apresentao do programa. Para seus fiis ouvintes,  uma amiga, sensata e 
confivel, que, alm de atender aos pedidos de canes, ouve seus problemas com 
ateno
E, eventualmente, lhes d conselhos.
O mundo de isolamento de paris  brutalmente ameaado quando um ouvinte  que se 
identifica apenas como "valentino"  diz que o conselho que paris deu no ar  
garota
Que ele ama fez com que ela o deixasse. Para vingar-se, valentino planeja matar 
a namorada que seqestrou, em setenta e duas horas, e, em seguida, promete matar
Paris.
Junto com a polcia de austin, paris mergulha numa corrida contra o tempo para 
encontrar valentino antes que ele cumpra sua ameaa. Fica consternada ao 
descobrir
Que uma das pessoas com quem tem de trabalhar  o psiclogo criminal dean 
malloy, com quem teve um caso no passado. A presena dele desperta antigas 
paixes e obriga
Paris a encarar lembranas dolorosas.
Tenso e estimulante at o clmax, uma voz na escurido  o melhor do suspense 
dessa magistral contadora de histrias.

Sandra brown escreveu numerosos bestsellers do new york times, incluindo, mais 
recentemente, obsesso, inveja e a troca, todos publicados pela rocco.
Ela vive com o marido em fort worth, texas.



Uma voz na escurido
Sandra brown

Traduo de alyda christina sauer
#ttulo original hello, darkness
Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens, localidades
E incidentes so produtos da imaginao do autor ou foram usados
De forma ficcional. Qualquer semelhana com acontecimentos
E locais reais, pessoas vivas ou no,  mera coincidncia.
Copyright  2004 by sandra brown management ltd.
Todos os direitos reservados, incluindo os de reproduo
No todo ou em parte sob qualquer forma.
Edio brasileira publicada mediante acordo com mana carvamis agency.
Primeira publicao nos eua pela simon &c schuster, nova york
Direitos para a lngua portuguesa reservados com exclusividade para o brasil 
Editora rocco ltda. Avenida presidente wilson, 231 - s- andar
20030-021 - rio de janeiro - rj
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Www.rocco.com.br
Printed in brazil/impresso no brasil
Preparao de originais mnica martins figueiredo
Cip-brasil. Catalogao-na-fonte. Sindicato nacional dos editores de livros, rj.
B897v   brown, sandra, 1948-
Uma voz na escurido / sandra brown; traduo de alyda chnstma sauer. - rio de 
janeiro: rocco, 2006.
Traduo de: hlio, darkness. Isbn 85-325-2030-8
1. Jovens mulheres - crime contra - fico.   2. Fico americana.   I. Sauer, 
alyda chnstma.   Ii. Ttulo.
06-0635
Cdd-813 cdu-821.111(73)-3

Prlogo
At seis minutos antes do trmino da transmisso, o expediente foi rotineiro.
- est muito calor na regio das colinas. Obrigada por me ouvirem aqui na 101.3. 
Adorei a sua companhia esta noite, assim como em todas as outras da semana. Sua 
Apresentadora de msicas romnticas clssicas, paris gibson.
"hoje vou me despedir com um trio das minhas preferidas. Espero que estejam 
ouvindo ao lado de algum que amem. Fiquem bem juntinhos."
Paris apertou o boto no painel de controle para desligar o seu microfone. A 
srie de msicas tocaria sem interrupo at uma hora, cinqenta e nove minutos 
e trinta 
Segundos. Nos ltimos trinta segundos do programa, ia agradecer mais uma vez  
audincia, desejar boa noite e encerrar a transmisso.
Enquanto tocava "yesterday", fechou os olhos e girou a cabea sobre os ombros 
tensos. Comparado com um dia de trabalho de oito ou nove horas, um programa de 
rdio 
De quatro devia passar de estalo. Mas no era assim. Quando acabava, estava 
fisicamente cansada.
Paris operava a mesa sozinha, pondo para tocar as msicas que havia selecionado 
e separado antes do programa. Os pedidos dos ouvintes exigiam ajustes na lista e 
Muita ateno no cronometro de contagem decrescente. Tambm monitorava sozinha 
as linhas telefnicas abertas ao pblico.
A mecnica daquelas tarefas era automtica para ela, mas no suas reaes e 
respostas. Nunca deixava o programa cair na rotina, nem fazia concesses ao 
desleixo. 
Paris gibson tinha se empenhado pessoalmente com fonlogos e sozinha, para 
aperfeioar o "tom" paris gibson, ao qual devia grande parte da sua fama.
Esforava-se mais do que seria capaz de avaliar pessoalmente para manter a 
inflexo e o diapaso perfeitos, porque depois de
240 minutos no ar, os msculos do pescoo e dos ombros queimavam de cansao. 
Aquela ardncia muscular era prova da excelncia do seu desempenho.
Na metade do clssico dos beatles, a luz vermelha piscou numa das linhas 
telefnicas, indicando uma ligao. Ficou tentada a no atender mas, 
oficialmente, ainda 
Restavam quase seis minutos do programa e ela prometia aos ouvintes receber 
ligaes at as duas da madrugada. Era tarde demais para pr aquele ouvinte no 
ar, mas 
Pelo menos ia atender  chamada dele.
Apertou o boto que piscava.
- aqui  paris.
- al, paris. Aqui  valentino.
J o conhecia de nome. Ele telefonava periodicamente, e o nome incomum era fcil 
de lembrar. A voz tambm era marcante, pouco mais que um sussurro, que devia 
usar 
Para provocar impacto, ou como disfarce.
Paris falava ao microfone suspenso sobre a mesa de controle, que servia de fone 
quando no era usado para transmisso. Assim ficava com as mos livres para 
cuidar 
Do seu trabalho, mesmo quando conversava com algum ouvinte.
- como vai voc esta noite, valentino?
- nada bem.
- sinto saber disso.
- . Voc vai sentir.
Os beatles deram lugar a "broken hearted me", de anne murray.
Paris olhou para o monitor das msicas e registrou automaticamente que a segunda 
msica das ltimas trs tinha comeado. No sabia se ouvira bem o que valentino 
Tinha dito.
- perdo, o que disse?
- voc vai sentir muito.
O tom dramtico era tpico de valentino. Sempre que ligava, estava muito 
animado, ou muito deprimido, raramente num nvel emocional intermedirio. Paris 
nunca sabia 
O que esperar dele, e por isso mesmo era um ouvinte interessante. Aquela noite, 
porm, ele parecia sinistro, pela primeira vez.
- no entendi o que quis dizer.
- eu fiz tudo que voc me aconselhou a fazer, paris.
- eu aconselhei voc? Quando?
- todas as vezes em que liguei. Voc sempre diz, no s para mim, mas para todo 
mundo que telefona, que devemos respeitar a pessoa que amamos.
- isso mesmo. Eu penso que...
- ora, respeito no leva a lugar nenhum, e no me importo mais com o que voc 
pensa.
Paris no era psicloga, nem conselheira formada, apenas uma personalidade do 
rdio. Fora isso, no tinha nenhuma credencial. Mesmo assim, levava a srio seu 
papel 
De amiga da madrugada.
Quando um ouvinte no tinha ningum com quem conversar, paris funcionava como 
uma caixa de ressonncia annima. Sua audincia a conhecia apenas pela voz, mas 
confiava 
Nela. Servia de confidente, conselheira e confessora.
Os ouvintes partilhavam suas alegrias, faziam suas queixas e eventualmente 
desnudavam suas almas. As ligaes que paris considerava interessante pr no ar 
atraam 
A simpatia de outros ouvintes, inspiravam congratulaes e s vezes geravam 
controvrsias acaloradas.
Em geral, quem telefonava queria apenas desabafar. Paris agia como pra-choque. 
Era uma vlvula de escape conveniente para quem estava furioso com o mundo. 
Raramente 
Era alvo da raiva do ouvinte, mas obviamente enfrentava um desses casos, e era 
bem perturbador.
Se valentino estava  beira de uma crise emocional, paris no podia resolver o 
que tinha provocado aquilo, mas talvez pudesse afast-lo da borda do poo com 
uma 
Boa conversa e depois insistir para ele procurar ajuda profissional.
- vamos conversar sobre isso, valentino. O que est acontecendo?
- eu respeito as meninas. Quando tenho um relacionamento, ponho a menina num 
pedestal e a trato como uma princesa. Mas isso nunca  suficiente. Elas nunca 
so fiis. 
Todas elas me traem. E depois, quando me deixam, eu ligo para voc e voc diz 
que no foi culpa minha.
- valentino, eu...
- voc diz que eu no fiz nada de errado, que no tive culpa de ser abandonado. 
E sabe de uma coisa? Voc tem toda razo. A culpa no  minha, paris. A culpa  
sua. 
Dessa vez, a culpa  sua.
Paris olhou para trs, para a porta com isolamento acstico do estdio. Estava 
fechada,  claro. O corredor atrs da parede de vidro nunca pareceu to escuro, 
apesar 
Do prdio estar sempre s escuras durante seu programa da madrugada.
Desejou que stan aparecesse por l. At marvin seria uma viso bem-vinda. Queria 
que algum, qualquer pessoa, ouvisse aquela ligao e ajudasse a conduzi-la.
Pensou em desligar. Ningum sabia onde ela morava, no conheciam seu rosto. 
Estava estipulado no contrato com a estao de rdio que paris no apareceria 
publicamente. 
E nenhuma fotografia seria usada em material promocional, incluindo, mas no se 
limitando, a todo e qualquer anncio impresso, de televiso ou cartaz. Paris 
gibson 
Era apenas um nome e uma voz, no um rosto.
Mas, em s conscincia, no podia desligar o telefone na cara daquele homem. Se 
tinha levado a srio algo que ela disse no ar e as coisas acabaram dando errado, 
A raiva dele era compreensvel.
Por outro lado, se fosse uma pessoa mais racional, discordando de algo que paris 
tinha dito, simplesmente teria extravasado. Valentino havia atribudo a ela uma 
Influncia sobre a vida dele, muito maior do que ela merecia ou desejava.
- explique de que modo foi culpa minha, valentino.
- voc disse para ela terminar comigo.
- eu nunca...
- eu ouvi voc! Ela telefonou para voc anteontem. Eu estava ouvindo o seu 
programa. Ela no deu o nome, mas reconheci a voz. Contou a nossa histria. 
Depois disse 
Que eu tinha me tornado ciumento e possessivo.
"voc disse que se ela achava que o nosso relacionamento estava ficando 
opressivo, devia fazer alguma coisa. Ou seja, voc a aconselhou a dar o fora", 
ele parou 
Um pouco, e ento continuou: "e vou fazer voc se arrepender de ter dado esse 
conselho para ela."
A cabea de paris estava patinando. Em todos aqueles anos na rdio, nunca tinha 
visto nada parecido.
- valentino, vamos nos acalmar e conversar sobre isso, est bem?
- eu estou calmo, paris. Muito calmo. E no temos nada que conversar. Eu a pus 
onde ningum vai encontr-la. Ela no pode fugir de mim.
Com essa afirmao, o que era sinistro ficou definitivamente assustador. 
Certamente o que ele acabava de dizer no era literal. Mas antes de paris poder 
dizer isso, 
Ele continuou.
- ela vai morrer em trs dias, paris. Eu vou mat-la, e a morte dela ficar na 
sua conscincia.
A ltima msica da srie j estava tocando. O relgio no monitor do computador 
se aproximava da hora de encerrar a transmisso. Paris deu uma olhada rpida no 
vox 
Pr para certificar-se de que um gremlin eletrnico no tinha provocado um mau 
funcionamento. Mas no, a mquina sofisticada funcionava como devia. A ligao 
estava 
Sendo gravada.
Paris umedeceu os lbios e suspirou nervosa.
- valentino, isso no tem graa nenhuma.
- e no  para ter.
- eu sei que voc no pretende realmente...
- eu pretendo fazer exatamente o que eu disse. Eu merecia pelo menos setenta e 
duas horas com ela, voc no acha? Por ter sido to bonzinho? Trs dias do tempo 
e 
Da ateno dela no so o mnimo que eu mereo?
- valentino, por favor, oua...
- estou farto de ouvir voc. Voc s diz merda. D conselhos de merda. Eu trato 
uma menina com respeito, a ela vai e abre as pernas para outros homens. E voc 
diz 
Para ela terminar comigo, como se eu tivesse estragado o relacionamento, como se 
eu fosse o traidor. Justia seja feita. Vou trepar com ela, at ela sangrar, 
depois 
Vou mat-la. Daqui a setenta e duas horas, paris. Tenha uma boa noite.



Captulo um
Dean malloy levantou da cama. Tateando no escuro, localizou a cueca no cho e 
levou para o banheiro. Fechou a porta com o mnimo barulho possvel, e s depois 
acendeu 
A luz. Liz acordou mesmo assim.
- dean?
Apoiou os braos na beirada da pia e olhou para seu reflexo no espelho.
- j vou sair.
A imagem olhou de volta para ele, com desespero ou desgosto, no sabia bem. No 
mnimo, reprovao.
Continuou olhando para o reflexo mais alguns segundos, abriu a torneira e jogou 
gua fria no rosto. Usou a privada, vestiu a cueca samba-cano e abriu a porta.
Liz tinha acendido a lmpada de cabeceira e estava apoiada num cotovelo. O 
cabelo louro todo despenteado. Havia uma mancha de rmel embaixo de um olho. De 
algum 
Modo, porm, conseguia fazer a aparncia desarrumada parecer encantadora.
- vai tomar banho? Ele balanou a cabea.
- agora no.
- lavo as suas costas.
- obrigado, mas...
- a parte da frente? Dean sorriu para ela.
- aceito um vale.
A cala estava dobrada sobre a poltrona. Foi peg-la, e liz deitou de novo sobre 
a pilha de travesseiros.
- voc vai sair.
- eu preferia ficar, liz.
- voc no fica uma noite inteira h semanas.
- eu no gosto disso mais que voc, mas por enquanto  assim que tem de ser.
- caramba, dean. Ele tem dezesseis anos.
- certo. Dezesseis. Se fosse um beb, eu saberia onde est o tempo todo. Saberia 
o que est fazendo, e com quem. Mas gavin tem dezesseis anos e carteira de 
motorista. 
Para um pai, isso  um pesadelo, ativo vinte e quatro horas por dia.
- provavelmente ele nem vai estar l quando voc chegar
Em casa.
-  bom que esteja - resmungou dean, pondo a camisa para dentro da cala. - ele 
chegou depois da hora ontem  noite, por isso o deixei de castigo esta manh. 
Proibi 
De sair de casa.
- por quanto tempo?
- at ele se redimir.
- e se isso no acontecer?
- o qu, ele ficar em casa?
- se redimir.
Aquela era uma pergunta muito mais complexa. Exigia uma resposta mais 
complicada, e ele no tinha tempo para isso aquela noite. Enfiou os ps nos 
sapatos, sentou 
Na beira da cama e segurou a mo dela.
-  injusto o comportamento de gavin determinar o seu futuro.
- o nosso futuro.
- o nosso futuro - corrigiu dean, baixinho. -  muito injusto. Por causa dele, 
os nossos planos foram adiados indefinidamente, e isso  uma merda.
Liz beijou-lhe as costas da mo.
- no consigo nem convenc-lo a passar a noite comigo, e tinha esperana de 
estarmos casados no natal, imagina.
- pode acontecer. A situao pode melhorar mais cedo do que imaginamos.
Liz no concordava com aquele otimismo todo, e a testa franzida confirmava isso.
- tenho sido paciente, dean. No tenho?
- tem.
- nesses dois anos que estamos juntos, acho que cedi at demais. Mudei para c 
sem reclamar. E, mesmo sendo mais sensato morar com voc, concordei em alugar 
esse 
Apartamento.
A memria de liz era seletiva e equivocada. Morar junto nunca foi uma opo. 
Dean nem teria pensado nisso enquanto gavin morasse com ele. E tambm no havia 
motivo 
Algum para reclamar da mudana para austin. Nunca sugeriu que ela fizesse isso. 
Na verdade, at preferiria que tivesse continuado em houston.
Por conta prpria, liz tomou a deciso de mudar tambm, quando dean se mudou. 
Jogou aquela surpresa em cima dele, e dean teve de fingir felicidade, esconder 
uma 
Vaga irritao. Ela impunha sua presena, quando a ltima coisa que dean 
precisava era de mais uma imposio.
Mas em vez de mexer no gigantesco vespeiro que seria aquela discusso naquele 
momento, concordou que liz tinha sido excepcionalmente paciente com ele e com 
sua situao 
Atual.
- sei muito bem que a minha situao mudou muito desde que comeamos o namoro. 
Voc no merecia se envolver com um pai solteiro de um adolescente. Tem tido 
mais 
Pacincia do que tenho o direito de esperar.
- obrigada  disse ela, mais tranqila. - mas meu corpo no conhece pacincia, 
dean. Cada ms que passa significa menos
Um ovo no cesto.
Ele sorriu com a sutil referncia ao relgio biolgico dela.
- reconheo os sacrifcios que fez por mim. E continua fazendo.
- e estou disposta a fazer mais ainda. - ela acariciou-lhe o rosto. - porque o 
problema, dean malloy,  que voc vale esses sacrifcios.
Dean sabia que ela estava sendo sincera, mas aquela sinceridade no contribua 
em nada para elevar seu estado de esprito, ao contrrio, s aumentava o seu 
abatimento.
- tenha mais um pouco de pacincia, liz. Faz esse favor? Gavin tem sido 
impossvel, mas h motivos para esse mau comportamento. Vamos dar mais um tempo. 
Vamos torcer para ele logo encontrar um meio-termo e chegarmos a um 
entendimento, ns trs.
Ela fez uma careta.
- meio-termo? Continue usando expresses como essa e logo, logo ter um programa 
s seu na televiso.
Ele deu um sorriso largo, contente de poder concluir aquela conversa sria num 
tom mais leve.
- ainda vai para chicago amanh?
- passar trs dias l. Reunies de portas fechadas com o pessoal de copenhagen. 
S homens. Tipos robustos, verdadeiros vikings. Est com cime?
- verde-ervilha.
- vai sentir a minha falta?
- o que voc acha?
- que tal se eu der uma coisa para voc lembrar de mim?
Ela empurrou o lenol. Nua e praticamente ronronando, deitada na cama 
desarrumada onde j tinham feito amor, elizabeth douglas parecia mais uma 
cortes mimada do 
Que a vice-presidente de marketing de uma cadeia internacional de hotis de 
luxo.
Seu corpo era voluptuoso, e ela gostava dele. Diferente da maioria das mulheres 
contemporneas, no tinha obsesso com cada caloria. Considerava malhao ter de 
Carregar a prpria bagagem, e nunca deixava de comer sobremesa. Tinha belas 
curvas. Na verdade, eram sensacionais.
- tentador - suspirou ele. - demais. Mas teremos de nos contentar com um beijo.
O beijo de liz foi profundo. Ela sugou a lngua de dean de um jeito que talvez 
fizesse os tipos viking rosnarem de inveja. Mas, ele interrompeu o beijo.
- eu tenho de ir mesmo, liz - sussurrou dean com a boca encostada na dela, antes 
de se afastar. - faa uma boa viagem.
Ela puxou o lenol para cobrir sua nudez e deu um sorriso amarelo para esconder 
a decepo.
- telefono quando chegar l.
- acho bom.
Dean saiu e procurou no dar a impresso de que estava fugindo. O ar l de fora 
foi como um cobertor molhado em cima dele. Quando respirou, parecia at ter a 
textura 
De l molhada. A camisa grudou nas costas depois da curta caminhada at o carro. 
Ligou o motor e o ar-condicionado no mximo. O rdio
Comeou a funcionar automaticamente. Elvis cantava "are you lonesome tonight?".
Aquela hora no havia praticamente trnsito nenhum nas ruas. Dean diminuiu a 
marcha com o sinal amarelo e parou quando a msica terminou.
- est muito calor na regio das colinas. Obrigada por me ouvir aqui na 101.3.
A voz esfumaada de mulher reverberou no interior do carro. As ondas sonoras 
pressionaram o peito e a barriga de dean. A voz era perfeitamente modulada por 
oito 
Alto-falantes estrategicamente instalados por engenheiros alemes. O ambiente 
com som da mais alta qualidade fazia a apresentadora do programa parecer mais 
prxima 
Do que se estivesse sentada no banco do carro, ao lado dele.
- vou me despedir com um trio das minhas preferidas. Espero que estejam ouvindo 
ao lado de algum que amem. Fiquem bem juntinhos.
Dean apertou os dedos no volante e encostou a testa nas mos enquanto o quarteto 
fabuloso relembrava o passado.
Assim que o juiz baird kemp pegou seu carro com o valete do hotel four seasons e 
sentou, ele afrouxou a gravata-borboleta e tirou o palet.
- meu deus, ainda bem que acabou.
- foi voc que insistiu em vir. - marian kemp tirou os sapatos bruno magli sem 
calcanhar e os brincos de diamante, e fez uma careta quando a circulao 
retornou 
Dolorosamente aos lbulos das orelhas. - mas tinha de nos incluir nesse fim de 
festa?
- bem, foi um bom sinal estar entre os ltimos a sair. Havia gente muito 
influente naquele grupo.
Jantar tpico de premiao, o evento tinha sido insuportavelmente demorado. Em 
seguida, deram uma festa numa sute do hotel e o juiz nunca perdia uma 
oportunidade 
De fazer campanha pela sua reeleio, at informalmente. No resto do caminho 
para casa, os kemp falaram das outras pessoas presentes, ou, como o juiz, 
zombeteiro, 
Se referia a eles, "os bons, os maus e os feios".
Ao chegar em casa, ele foi direto para seu gabinete, onde marian mantinha o bar 
bem provido com suas marcas preferidas.
- vou tomar uma saideira. Posso servir duas?
- no, obrigada, querido. Vou subir.
- esfrie o quarto. Esse calor est insuportvel.
Marian subiu a escada em curva que tinha aparecido recentemente numa revista de 
decorao. Para a foto, tinha usado um vestido de gala de grife e o colar de 
brilhantes 
Amarelo-canrio. O retrato ficou muito bom. O juiz ficou satisfeito com o artigo 
que acompanhava a foto, que elogiava marian por ter transformado a casa deles 
naquele 
Espetculo.
O corredor no segundo andar estava s escuras, mas ela ficou aliviada de ver luz 
por baixo da porta do quarto de janey. Apesar das frias de vero, o juiz 
impunha 
Horrios para a filha de dezessete anos. Na vspera, havia desobedecido as 
regras e chegado em casa quase ao amanhecer. Era bvio que tinha bebido e, a 
menos que 
Marian estivesse enganada, o fedor da roupa dela era de maconha. O pior de tudo 
 que tinha voltado para casa dirigindo sozinha, naquele estado.
- paguei sua fiana pela ltima vez - o juiz havia berrado. Se for pega outra 
vez dirigindo sob efeito de drogas, vai ter de se virar sozinha, senhorita. No 
vou 
Mexer nenhum pauzinho. Vou deixar ir direto para a sua ficha.
- e da, porra? - janey tinha respondido, entediada.
A cena foi to escandalosa e vituperiosa que marian teve medo dos vizinhos 
poderem ouvir, apesar do acre de cinturo verde de topiaria entre a propriedade 
deles 
E a vizinha. A briga terminou quando janey saiu marchando, bateu e trancou a 
porta do quarto por dentro. E no falou mais com nenhum dos dois.
Aparentemente, porm, a ameaa mais recente do juiz tinha provocado algum 
impacto. Janey estava em casa e, pelos seus padres, ainda era cedo. Marian 
parou na frente 
Da porta do quarto da filha e levantou o brao para bater. Atravs da porta, 
entretanto, dava para ouvir a voz daquela mulher dj do rdio que janey ouvia 
quando 
Estava deprimida. Era uma mudana bem-vinda dos djs irritantes das estaes que 
tocavam rock cido e rap.
Janey costumava ter um ataque toda vez que sentia que sua privacidade era 
violada. E a me dela no estava disposta a perturbar aquela paz to tnue, por 
isso, sem 
Bater, abaixou o brao e continuou pelo corredor at a sute principal.
Toni armstrong acordou assustada.
Ficou imvel, tentando decifrar o barulho que a fez despertar. Uma das crianas 
tinha chamado? Brad estava roncando?
No, a casa estava silenciosa, exceto pelo rudo suave das sadas do ar-
condicionado central no teto. No tinha acordado com barulho nenhum. Nem mesmo 
com a respirao 
Ruidosa do marido. Porque o travesseiro ao lado do dela estava vazio.
Toni levantou da cama e vestiu um robe leve. Olhou para o relgio. Uma e 
quarenta e dois. E brad ainda no tinha voltado para casa.
Antes de descer, verificou os quartos das crianas. Apesar das meninas irem cada 
uma para sua cama  noite, invariavelmente acabavam dormindo juntas em uma nica 
Delas. Com apenas um ano e quatro meses de diferena de idade, muitas vezes eram 
confundidas com gmeas. Agora estavam praticamente idnticas mesmo, seus 
corpinhos 
Firmes aninhados juntos, as cabeas despenteadas dividindo o mesmo travesseiro. 
Toni puxou o lenol sobre as duas, depois ficou algum tempo admirando a beleza 
inocente 
Das filhas antes de sair do quarto na ponta dos ps.
Naves espaciais de brinquedo e bonecos de super-heris coalhavam o cho do 
quarto do filho. Toni evitou com todo o cuidado pisar neles quando se aproximou 
da cama. 
O menino dormia de barriga para baixo, as pernas abertas, um brao pendurado ao 
lado da cama.
Aproveitou a oportunidade para acariciar seu rosto. Estava na idade em que as 
demonstraes de afeto da me provocavam caretas e rejeio. Ele era o 
primognito 
E achava que tinha de agir como homenzinho.
Mas pensar na transformao do menino em homem enchia toni de desespero, quase 
pnico.
Ao descer a escada, algumas tbuas rangeram, mas toni gostava das peculiaridades 
e imperfeies que davam personalidade 
Casa. Tiveram sorte de compr-la. Ficava num bairro timo, e havia uma escola 
bem perto. Os antigos donos reduziram o preo, ansiosos para vender. Partes dela 
precisaram 
De ateno maior, mas toni se ofereceu para cuidar pessoalmente da reforma, de 
modo que a compra coubesse no oramento deles.
Ficou ocupada com o trabalho na casa enquanto brad se firmava na nova prtica. 
Aproveitou o tempo e a disposio para fazer os reparos necessrios antes de 
terminar 
O trabalho esttico. A pacincia e a diligncia valeram a pena. A casa, alm de 
mais bonita, ficou muito slida, de dentro para fora. Os defeitos no foram 
apenas 
Cobertos com uma nova camada de tinta, mas previamente consertados.
Infelizmente, nem tudo era fcil de consertar como casas.
Como toni j temia, os cmodos do primeiro andar estavam escuros e vazios. Na 
cozinha, ligou o rdio para afastar a presso agourenta do silncio. Serviu-se 
de um 
Copo de leite que no queria e se obrigou a beber calmamente.
Talvez estivesse fazendo um desservio ao marido. Ele podia muito bem estar 
assistindo a um seminrio sobre impostos e planejamento financeiro. Tinha 
anunciado no 
Jantar que ficaria fora a maior parte da noite.
- lembre, querida - disse ele quando ela manifestou surpresa -, que expliquei 
para voc no incio da semana.
- no explicou no.
- desculpe. Pensei que tinha comentado. Era o que eu pretendia. Quer passar a 
salada de batata, por favor? Alis, est tima. O que tem no tempero?
-  endro. Esta  a primeira vez que ouo falar desse seminrio, brad.
- os scios recomendaram. O que eles aprenderam no ltimo representou uma 
economia gigantesca em impostos.
- ento talvez eu deva ir tambm. Eu podia aprender mais sobre isso tudo.
- boa idia. Vamos ficar de olho no prximo. Voc tem de se inscrever com 
antecedncia.
Brad disse a hora e o lugar onde seria o seminrio, disse para ela no esperar 
por ele acordada porque teriam uma sesso informal de debates depois da 
apresentao, 
E que no sabia quanto tempo ia demorar. Deu um beijo nela e nas crianas antes 
de sair. Foi at o carro com um jeito de andar lpido demais para algum que ia 
para um seminrio de impostos 
E planejamento financeiro.
Toni acabou de beber o leite.
Telefonou para o celular do marido pela terceira vez e sua ligao caiu na caixa 
de mensagens como nas outras vezes. No deixou recado. Pensou em ligar para o 
auditrio 
Onde tinham feito o seminrio, mas seria perda de tempo. No teria mais ningum 
l a essa hora.
Depois de se despedir de brad, toni lavou os pratos do jantar e deu banho nas 
crianas. Os trs j estavam na cama quando tentou entrar no escritrio dele, 
mas descobriu 
Que a porta estava trancada. Saiu pela casa como doida,  procura de um grampo, 
uma lixa de unha, alguma coisa com que pudesse destrancar a porta.
Acabou recorrendo a uma chave de fenda e provavelmente danificou 
irremediavelmente a fechadura, mas nem se importou. Humilhao maior foi ver que 
no havia nada 
No escritrio que justificasse sua histeria ou suspeita. Havia um jornal com o 
anncio do seminrio em cima da mesa. Brad tinha anotado o seminrio na agenda. 
Era 
bvio que planejava assistir.
Mas ele tambm era muito bom em criar cortinas de fumaa bem plausveis.
Toni sentou  mesa e ficou olhando para a tela do computador desligado. Chegou a 
passar o dedo no boto que ligava a torre, tentada a pr para funcionar e 
iniciar 
Uma investigao que apenas ladres, espies e esposas desconfiadas fariam.
No tocava no computador dele desde que brad comprara um s para ela. Ao ver as 
caixas com etiquetas que ele carregou e ps sobre a mesa da cozinha, ela 
exclamou.
- voc comprou outro computador?
- j era hora de voc ter o seu. Feliz natal!
- estamos em junho.
- ento estou adiantado. Ou atrasado. - brad deu de ombros com aquele seu jeito 
sedutor. - agora que tem o seu, quando quiser trocar e-mails com o seu pessoal, 
ou 
Fazer compras pela internet, ou qualquer coisa, no ter de pegar carona no meu.
- uso o seu computador durante o dia, quando voc est na clnica.
-  isso que estou querendo dizer. Agora voc pode entrar na internet a qualquer 
hora.
E voc tambm.
Foi como se brad tivesse lido os pensamentos dela.
- no  o que voc est pensando, toni - disse ele, ps as mos na cintura e fez 
cara de injustiado. - eu estava navegando na loja de computadores esta manh. 
Vi 
Essa mquina cor-de-rosa pequena, compacta, que faz praticamente tudo, e pensei, 
feminino e eficiente. Exatamente como a minha querida mulher. Por isso comprei, 
obedecendo 
A um impulso. Pensei que ia gostar.  bvio que me enganei.
- eu gostei - disse ela, imediatamente contrita. - foi um gesto muito atencioso, 
brad. Obrigada - ela olhou meio desconfiada para as caixas. - voc disse cor-de-
rosa!
E os dois riram. Brad deu um abrao de urso em toni. Ele cheirava a sol, 
sabonete e sade. Seu corpo era aconchegante, familiar e gostoso, encostado no 
dela. Os 
Temores de toni foram aplacados.
Mas s por um tempo. Recentemente tinham aflorado de novo.
No ligou o computador dele aquela noite. Tinha muito medo do que poderia 
encontrar. Se precisasse de uma senha de acesso, suas suspeitas seriam 
confirmadas, e no 
Queria isso. Meu deus, no, no queria mesmo.
Por isso fez o melhor que pde para consertar a maaneta da porta, foi para a 
cama e depois de algum tempo acabou dormindo, com a esperana de que brad a 
acordasse 
Logo, transbordando de conhecimentos sobre estratagemas financeiros para 
famlias com o nvel de renda deles. Uma esperana desesperada.
- adorei a companhia de vocs esta noite - dizia a voz sexy no rdio. - aqui  a 
sua apresentadora de msicas romnticas clssicas, paris gibson.
Nenhum seminrio acabava s duas horas da madrugada. E nenhuma reunio de 
terapia de grupo ia at essa hora tampouco. Fora esta a desculpa de brad na 
semana anterior 
Para ficar fora quase a noite inteira. A explicao que ele deu foi que um dos 
homens no seu grupo estava tendo dificuldades.
- depois da reunio, ele me pediu para tomar uma cerveja com ele, disse que 
precisava de um ombro compreensivo. Esse cara era realmente um problema, toni. 
Caramba! 
Voc no ia acreditar em certas coisas que ele contou. Estou falando de um cara 
doente. De qualquer modo, sabia que ia entender. Voc sabe como so essas 
coisas.
Ela sabia bem demais. As mentiras. As negaes. O tempo passado fora, sem dar 
satisfao nenhuma. Portas trancadas. Ela sabia muito bem como era. Era assim.


Captulo dois

J estava ficando nervosa. Isto , realmente nervosa.
Ele tinha sado havia algum tempo, e ela no sabia quando ia voltar. No estava 
gostando daquela novidade, e queria ir embora.
Porm estava de mos atadas. Literalmente. E de ps tambm. Mas o pior de tudo 
era a fita adesiva com gosto metlico que ele grudara em sua boca.
Quatro, talvez cinco vezes nas ltimas semanas, tinha ido para aquele lugar com 
ele. Naquelas ocasies, saram dali esgotados, sem energia e com uma sensao 
maravilhosa. 
A expresso "se matar de tanto foder" veio  cabea dela.
Mas ele nunca sugeriu amarr-la, nem qualquer outra tara. Bem... Nenhuma tara 
to esquisita. Aquela era a primeira vez e, francamente, podia passar sem essa.
Uma das primeiras coisas que chamaram sua ateno foi que ele parecia 
sofisticado. Realmente se sobressaa na multido migratria que em geral era 
composta de alunos 
Do segundo grau e universitrios  procura de bebida, drogas e sexo casual.  
claro que de vez em quando havia aquele babaca pattico espreitando atrs dos 
arbustos, 
Mostrando o pinto para qualquer infeliz que reparasse nele. Mas aquele cara no 
era nada disso. Era muito na dele.
E parecia que tambm tinha achado que ela se sobressaa. Ela e a amiga melissa 
perceberam que as observava com muito interesse.
- ele pode ser da polcia - especulou melissa. - voc sabe, trabalhando  
paisana.
Melissa estava muito deprimida aquela noite porque tinha de viajar para a europa 
no dia seguinte com os pais, e no conseguia imaginar sofrimento maior. Fazia 
uma 
Fora danada para ficar completamente chapada, de olho vidrado, mas nada tinha 
funcionado ainda. A sua viso do mundo era amarga.
- um policial dirigindo aquele carro? Acho que no. Alm do mais, os sapatos 
dele so bons demais para um tira.
No  que ele tivesse simplesmente olhado para ela. Os caras sempre olhavam. Era 
o jeito de olhar que a excitava. Estava encostado no cap do carro, com as 
pernas 
Cruzadas nos tornozelos, os braos tambm cruzados, casualmente, perfeitamente 
imvel e, apesar da intensidade do olhar, parecia muito tranqilo.
No olhava boquiaberto para os seios, ou para as pernas dela, definitivamente 
objetos de olhares boquiabertos, mas diretamente para os seus olhos. Como se a 
reconhecesse 
Naquele instante. No s como se a reconhecesse, ou soubesse o nome dela, mas 
como se a conhecesse realmente, soubesse tudo que havia de importante para saber 
sobre 
Ela.
- voc acha ele bonito?
- acho que sim - respondeu melissa, indiferente, concentrada no seu complexo de 
vtima.
- bem, eu acho.
Ela terminou de beber seu cuba-libre, chupando o canudo do jeito provocante que 
havia aperfeioado praticando horas diante do espelho. O ato sugestivo deixava 
os 
Caras malucos e ela sabia, por isso sempre fazia aquilo.
- eu vou nessa.
Estendeu o brao para trs para deixar o copo de plstico na mesa de piquenique 
onde melissa e ela estavam sentadas, e partiu com a graa sinuosa de uma 
serpente 
Deslizando sobre uma pedra. Jogou o cabelo para trs e deu uma puxadinha na 
bainha do top, enquanto respirava bem fundo e inflava os seios. Como uma atleta 
olmpica, 
Passava por uma rotina preparatria antes de cada grande evento.
E assim, foi ela que deu o primeiro passo. Deixou melissa e aproximou-se 
lentamente do cara. Quando chegou perto do carro, parou ao lado dele e encostou 
no cap 
Tambm.
- voc tem um mau hbito.
Ele virou apenas a cabea lentamente e sorriu.
- s um?
- que eu saiba.
O sorriso dele ficou mais largo.
- ento precisa me conhecer melhor.
Sem necessidade de nenhum convite mais elaborado, porque, afinal, era para isso 
que estavam l, ele segurou o brao dela e a fez dar a volta no carro at o lado 
Do carona. Apesar do calor, a mo dele estava fria e seca. Ele abriu a porta 
educadamente e ajudou-a a sentar no banco estofado de couro. Na sada, deu um 
sorriso 
Triunfante para melissa, mas a amiga vasculhava sua pochete de "estimulantes de 
humor" e no viu.
Ele dirigia com cuidado, as duas mos no volante e olhando para a frente. No 
olhava faminto para ela, nem ficava tentando apalp-la, o que certamente era uma 
mudana. 
Normalmente, no minuto em que ela entrava no carro de um cara, ele comeava a 
agarr-la, como se no acreditasse na sorte que tivera, como se ela fosse se 
desintegrar 
Se no a pegasse, ou ento mudar de idia se ele no se apressasse e fizesse 
tudo logo.
Aquele cara, porm, parecia um pouco distante, e ela achou aquilo legal. Era 
maduro e seguro. No precisava agarrar e apalpar para se certificar de que ia 
lev-la 
Para a cama.
Perguntou o nome dele.
Quando parou num sinal fechado, ele virou para ela.
-  importante?
Ela deu de ombros com um gesto exagerado, j ensaiado, que levantava os seios e 
os apertava no meio, melhor do que qualquer suti especial.
- acho que no.
Ele ficou olhando para os seus seios alguns segundos, o sinal abriu e ele tornou 
a concentrar-se na direo.
- qual  o meu mau hbito?
- voc olha fixo. Ele deu risada.
- se voc considera isso um mau hbito, ento realmente tem de me conhecer 
melhor.
Ela estava com a mo na coxa dele e disse, num tom apaixonado:
- mal posso esperar.
O lugar onde ele morava foi uma enorme decepo. Era um apartamento numa penso. 
Uma faixa vermelha esfarrapada pendurada na frente do prdio de dois andares 
anunciava 
Preos especiais por ms. Ficava num bairro decadente que no combinava com o 
carro nem com as roupas dele. Ele notou o desapontamento dela.
-  um pardieiro - disse ele -, mas foi o que consegui encontrar, assim que me 
mudei para c. Estou procurando outro lugar
- e acrescentou calmamente: - vou compreender se quiser que a leve de volta.
- no  no ia deixar que ele pensasse que era uma menina fresca e burra, sem 
esprito de aventura.  brega chique est na moda.
O principal cmodo do apartamento servia como sala de estar e quarto ao mesmo 
tempo. A quitinete mal acomodava uma pessoa. O banheiro era ainda menor.
Na sala principal, havia uma cama e uma mesa-de-cabeceira, uma cmoda com quatro 
gavetas, uma poltrona com um abajur de p ao lado e uma mesa dobrvel com rea 
suficiente 
Para acomodar os componentes de um elaborado computador. A moblia tinha 
qualidade de "venda por motivo de viagem", mas estava tudo limpo.
Ela foi at a mesa. O computador j estava ligado. Com alguns cliques do mouse, 
encontrou o que j sabia que ia encontrar. Olhou para trs e sorriu para ele.
 ento voc no estava l esta noite por acaso - comentou ela.
- eu estava l  sua procura.
- especificamente?
Ele fez que sim com a cabea.
Ela gostou disso. Muito.
O bar de frmica que separava a cozinha da sala de estar era usado para guardar 
equipamento fotogrfico. Ele tinha uma cmera 35mm, diversas lentes e vrios 
acessrios, 
Inclusive um trip porttil. Tudo parecia complicado e caro, meio deslocado no 
apartamento vagabundo. Ela pegou a cmera e olhou para ele pelo visor.
- voc  fotgrafo profissional?
-  apenas um hobby. Quer beber alguma coisa?
- claro.
Ele foi at a quitinete e voltou com dois copos de vinho tinto. A bebida 
revelava que ele tinha um gosto refinado e classe. Tambm no combinava com o 
apartamento, 
Mas ela achava que a explicao que ele dera era uma mentira. No devia morar 
ali, era apenas seu parque de diverses. Longe da mulher.
Bebericando o vinho, ela olhou em volta.
- onde esto as suas fotos?
- eu no exponho nenhuma.
- por qu?
- so da minha coleo particular.
- coleo particular? - ela deu um sorriso malicioso e enrolou uma mecha de 
cabelo num dedo. - parece interessante. Que-
Ro ver.
- acho que no devo mostrar.
- por que no?
- elas so... Artsticas.
Ele olhava para ela daquele modo direto de novo, como se avaliasse sua reao. 
Aquele olhar fixo fez seus dedos dos ps formigarem, o corao acelerar, e isso 
no 
Acontecia havia muito tempo na companhia de um cara. Em geral, era ela que 
provocava formigamento e coraes acelerados. Era raro e maravilhoso ser a parte 
insegura 
Do que estava para acontecer. Excitante  bea.
- quero ver a sua coleo particular - ela disse, atrevida. Ele hesitou alguns 
segundos, depois ajoelhou e tirou uma
Caixa de baixo da cama. Removeu a tampa e pegou um lbum de fotografias comum, 
encadernado em couro sinttico preto. Ficou de p e abraou o lbum contra o 
peito.
- quantos anos voc tem?
A pergunta era uma afronta, porque ela se orgulhava de parecer muito mais velha 
do que realmente era. No pediam seus documentos havia anos, mas uma espiada na 
tatuagem 
De borboleta no seio direito em geral deixava os fiscais apatetados demais para 
pedir qualquer documento.
- que diferena isso faz? Eu quero ver as fotos. E de qualquer maneira, tenho 
vinte e dois anos.
Ele obviamente no acreditou. At tentou, sem sucesso, disfarar o sorriso. 
Mesmo assim, ps o lbum na mesa e se afastou. Procurando parecer despreocupada, 
ela 
Foi at l e abriu a capa.
A primeira foto era bem descritiva e espantosa. Pelo ngulo com que tinha sido 
feito o close-up, ela presumiu, e mais tarde descobriu ter razo, que era um 
auto-retrato.
- ficou ofendida? - perguntou ele.
- claro que no. Voc pensa que nunca vi uma ereo antes? A reao dela no foi 
to blas como seu tom de voz indicava.
Ficou imaginando se ele podia ouvir seu corao aos pulos.
Virou a pgina para a prxima foto, depois outra, e outra, at folhear o lbum 
inteiro. Estudou cada fotografia, fingindo ser analtica como uma crtica de 
arte. 
Algumas eram coloridas, outras preto-e-branco, mas todas, exceto a primeira, 
eram de mulheres jovens e nuas em poses provocantes. Qualquer pessoa poderia 
consider-las 
Obscenas, mas ela era sofisticada demais para ficar chocada com genitlias 
expostas.
Porm, de jeito nenhum eram estudos de nus "artsticos". Eram imagens 
pornogrficas.
- gostou delas?
Ele estava to perto que dava para sentir sua respirao no ar.
- no so ruins.
Ele estendeu o brao por trs dela e virou algumas pginas at chegar a uma foto 
especfica.
- esta  a minha preferida.
Ela no viu nada de especial na menina retratada. Os mamilos pareciam picadas de 
mosquito no peito achatado e ossudo. Podia-se contar cada costela, e o cabelo 
tinha 
Pontas bifurcadas. Havia perebas nos ombros. Um vu escondia-lhe o rosto, 
provavelmente por um bom motivo.
Ela fechou o lbum, depois virou para ele e deu seu sorriso mais sedutor. Ele 
puxou-lhe o top lentamente pela cabea e deixou-o cair no cho.
- voc quer dizer que era a sua preferida, at agora.
Ele prendeu a respirao, depois soltou, meio desconcertado. Movendo-se bem 
devagar, segurou a mo dele e ps sob um seio, modelando-o com a palma, como se 
oferecesse 
Para ele.
Ele deu o sorriso mais doce e mais terno que ela havia visto.
- voc  perfeito. Eu sabia que seria. O ego dele alou vo.
- estamos perdendo tempo.
Ela abriu o zper do short e j ia tir-lo quando ele a fez parar.
- no. Fique assim, com o short bem baixo. Assim.
Ele pegou a cmera rapidamente. Devia estar com filme e pronta para disparar, 
porque ele s olhou pelo visor.
- essa vai ficar tima - ele chegou mais perto do abajur de p ao lado da 
poltrona e arrumou a cpula encardida, depois se afastou e espiou de novo 
atravs da cmera. 
- abaixe o short mais um pouco. Pronto. Assim mesmo.
Ele tirou vrias fotos numa rpida sucesso.
- ah, moa, voc me mata - ele abaixou a cmera e olhou para ela com o mais puro 
prazer. - voc nasceu para isso. Deve ter feito isso antes.
- nunca posei profissionalmente.
- incrvel - disse ele. - agora senta na beira da cama.
Ele ajoelhou no cho na frente dela e arrumou a pose que queria. Pernas. Mos. 
Cabea. Antes de pegar a mquina de novo, beijou a parte de dentro de uma das 
coxas, 
Chupou a pele contra os dentes e deixou uma marca.
A sesso de fotos durou mais uma hora, junto com as preliminares. Quando 
finalmente transaram, ela j estava para l de pronta. Depois, ele serviu mais 
vinho e ficou 
Deitado ao lado dela, acariciando suavemente todo o seu corpo e dizendo que ela 
era linda.
E ela pensou, ora, esse  um cara que sabe como tratar uma mulher.
Acabaram de beber o vinho e ele perguntou se podia tirar mais fotos.
- quero capturar as cores quentes do depois.
- para ter o antes e o depois?
Ele riu e deu-lhe um beijo breve e cheio de afeto.
- mais ou menos isso.
Ele a vestiu... Sim, ele a vestiu pessoalmente, como ela costumava vestir suas 
bonecas quando era pequena. Levou-a de volta at a beira do lago no parque onde 
se 
Encontraram, e, em segurana, at o carro dela. Ao fechar a porta, beijou os 
lbios dela suavemente.
- eu te amo.
Caramba! Aquilo a pegou de surpresa. Uma centena de caras tinham dito que a 
amavam, mas em geral quando se empenhavam em pr uma camisinha. O mais comum era 
que 
Aquelas declaraes de amor acontecessem no interior calorento dos seus carros 
ou picapes.
O amor, entretanto, nunca tinha sido declarado daquele jeito suave, terno e 
significativo. Ele at beijou as costas da mo dela antes de solt-la. Ela achou 
tremendamente 
Doce e cavalheiresco.
Estiveram juntos algumas vezes desde aquela primeira noite, e foi sempre bom. 
Mas em pouco tempo, como j era de esperar, ele comeou a choramingar. Onde 
esteve 
A noite passada? Com quem estava? Fiquei esperando horas, mas voc no apareceu. 
Quando posso v-la de novo?
A possessividade acabou com a graa de ficar com ele. Alm do mais, as surpresas 
e a novidade j estavam desgastadas. A fotografia dele no parecia mais extica, 
S esquisita, e muitas vezes deprimente. Era hora de acabar com aquilo.
Talvez ele tivesse percebido que ela ia terminar aquela noite, porque tudo tinha 
comeado mal. Discutiram imediatamente depois que ela entrou no carro. E a 
partir 
Dali as coisas s foram piorando.
Ele ficou esquisito e assustador com aquela merda de querer amarr-la. Deixou-a 
l, presa h horas. E se aquele buraco pegasse fogo? E se aparecesse um tornado 
ou 
Qualquer coisa assim?
Ela no estava gostando. Queria sair dali. Quanto mais cedo melhor.
Pelo menos, antes de sair ele ligou o rdio e sintonizou no programa de paris 
gibson. Um pouco de companhia para ela. No se sentia to abandonada como 
aconteceria 
No silncio total que acompanhava a completa escurido.
E ficou l ouvindo a voz de paris gibson, imaginando quando ele ia voltar e que 
brincadeira teria em mente.


Captulo trs

A luz vermelha na mesa de controle apagou. Valentino tinha desligado o telefone.
Paris levou alguns segundos para perceber que o nico som que ouvia era o das 
batidas do seu corao. A msica tinha acabado. No monitor da programao, ela 
viu 
Uma srie de zeros onde nmeros decrescentes deviam estar marcando os segundos 
que restavam da cano. Quanto tempo ser que tinha ficado transmitindo nada?
Faltavam ainda vinte e trs segundos para o fim do programa. Ela apertou o boto 
do microfone. Tentou falar. No conseguiu. Tentou de novo.
- espero que tenham gostado dessa noite de clssicos de msicas romnticas. 
Espero vocs de novo amanh  noite. At l, paris gibson, fm 101.3. Boa-noite.
Apertou dois botes da mesa e saiu do ar. Ento, pulou rapidamente do banco 
giratrio, abriu bem a pesada porta do estdio, saiu correndo pelo corredor 
escuro e 
Entrou esbaforida na sala de engenharia de som.
Exceto por uma quentinha de frango frito na mesa de stan, a sala estava vazia. 
Ela continuou correndo pelo corredor, virou  direita na primeira interseo de 
corredores 
E colidiu literalmente com marvin, que passava um pano sujo numa janela interna.
- voc viu o stan? - disse ela, sem flego.
- no.
Uma coisa se podia dizer de marvin: era um homem de poucas palavras. Geralmente, 
falava em monosslabos.
- ele j foi embora?
Dessa vez, ele nem sequer deu uma resposta, apenas deu de ombros.
Ela desistiu do faxineiro, correu at o banheiro dos homens e abriu a porta. 
Stan estava no mictrio.
- stan, venha c.
Atnito com a interrupo, ele virou a cabea para trs de estalo.
- o que... Eu estou ocupado aqui, paris.
- ande logo.  importante.
Ela voltou correndo para o estdio e rodou o banco at vox pr. O aparelho 
gravava todas as ligaes externas para serei ouvidas de novo, se quisessem. 
Havia tambm 
Uma gravao obrigatria de tudo que ia ao ar. Mas isso era outra mquina outra 
histria. Naquele momento, paris s estava interessada no telefonema.
- o que est acontecendo? - stan chegou calmamente, olhando para o seu relgio. 
- tenho planos para esta noite.
- oua s isso.
- lembre que meu turno termina quando voc encerra sua transmisso.
- cale a boca, stan, e preste ateno.
Ele se apoiou na beirada da mesa de controle.
- tudo bem, mas realmente preciso ir embora logo.
- psiu. - valentino acabava de se identificar. - esse cara ligou antes.
Stan parecia mais interessado no vinco da sua cala de linho mas, quando 
valentino disse que ela sentiria muito, as sobrancelhas do colega de trabalho 
subiram.
- o que  isso?
- oua.
Ele ficou calado durante o resto da gravao. Quando terminou, paris olhou para 
ele, aflita. Stan ergueu um pouco os ombros estreitos.
- ele  um maluco.
- s isso? Essa  a sua concluso? Que ele  um maluco? Ele fungou.
- o que ? Acha que ele estava falando srio?
- eu no sei.
Paris deu meia-volta, apertou um boto na mesa de controli era a linha 
telefnica para uso pessoal dos djs.
- vai ligar para quem? - perguntou stan. - para a polcia?
- acho que devo.
- por qu? Essa gente doida liga para voc o tempo todo. No teve um na semana 
passada que queria que voc segurasse o caixo no enterro da me dele?
- mas isso  diferente. Converso com um monte de gente todas as noites. Esse 
cara... Eu no sei - disse ela, ressabiada.
Quando atenderam no 911, ela se identificou e deu  operadora uma breve 
descrio do que tinha acontecido.
- no deve ser nada. Mas achei que algum deveria ouvir
Essa conversa.
- eu ouo o seu programa nas minhas noites de folga, srta. Gibson - disse a 
operadora. - no me parece do tipo que entra em pnico com qualquer coisa. Vamos 
enviar 
Uma viatura para a.
Paris agradeceu e desligou.
- eles esto vindo para c. Stan fez uma careta.
- eu preciso ficar?
- no, pode ir. Ficarei bem. Marvin ainda est aqui.
- no est mais. Acabou de ir. Eu o vi quando vinha do banheiro para c, depois 
de ser grosseiramente interrompido na metade do jato. Um susto como esse e o 
cara 
Pode se machucar, voc sabe.
Paris no estava disposta a ouvir as gracinhas de stan aquela noite.
- duvido que venha a sofrer qualquer dano - ela acenou para ele ir embora. - 
pode ir. Tranque a porta depois. Eu abro para a polcia.
O nervosismo dela deve ter ficado muito claro e fez stan sentir-se como um 
desertor.
- no, eu espero com voc - disse ele, taciturno. - v fazer um ch ou qualquer 
coisa. Parece muito abalada.
Estava mesmo abalada. Ch pareceu uma boa idia. Foi para a cozinha dos 
funcionrios, mas no chegou l. Uma campainha irritante soou no prdio todo, 
avisando que 
Tinha algum na entrada principal.
Ela correu para o outro lado, para a frente do prdio, e ficou aliviada ao ver 
dois policiais uniformizados do outro lado da porta de vidro. No fazia mal que 
parecessem 
Recm-sados da academia. Um deles parecia jovem demais para ter de se barbear.
Mas foram muito competentes e se apresentaram, lacnicos, muito srios.
- obrigada por virem to depressa.
- estvamos aqui perto e j amos voltar quando recebemos seu chamado - um deles 
explicou.
Os dois olhavam para ela com estranheza, como quase todo mundo quando a via pela 
primeira vez. Os culos escuros provocavam uma curiosidade imediata.
Sem mencionar seus culos ou a curiosidade deles, paris levou os policiais 
griggs e carson atravs do labirinto de corredores escuros.
- temos uma gravao da ligao no estdio.
A discreta parte externa do prdio no havia preparado os policiais para a 
sofisticao eletrnica do estdio. Ficaram olhando em volta, curiosos e 
maravilhados. 
Paris os trouxe de volta  realidade, apresentando-lhes stan. Os cumprimentos 
foram breves. Ningum apertou mo de ningum. Paris usou o mouse do computador 
vox 
Pr para reproduzir a gravao do telefonema de valentino.
Ningum disse nada enquanto ouviam a conversa. O policial griggs ficou olhando 
para o teto, carson para o cho. Quando terminou, griggs pigarreou e parecia 
constrangido 
Com a linguagem grosseira de valentino.
- recebe muitas ligaes como essa, srta. Gibson?
- estranhas e doidas, s vezes. Caras ofegantes e que fazem propostas 
indecentes, mas nada como o que acabaram de ouvir. Nunca ameaadoras. Valentino 
j telefonou 
Para c antes. Sempre falando de alguma namorada nova maravilhosa, ou de um caso 
que acabou e ele ficou de corao partido. Mas nunca disse nada assim. Nem 
parecido.
- acha que  o mesmo cara?
Todos viraram para stan, que fez a pergunta.
- outra pessoa pode ter usado o nome valentino - continuou ele - porque ouviu no 
seu programa e sabe que ele costuma ligar.
- acho que  possvel - disse paris, devagar. - tenho quase certeza de que a voz 
de valentino  disfarada. Nunca parece natural.
- e esse nome tambm no  comum - disse griggs. - acha que  verdadeiro?
- no tenho como saber. s vezes quem telefona no quer dar nem o primeiro nome, 
e prefere permanecer completamente annimo.
- tem algum jeito de rastrear as ligaes?
- com um identificador comum. Um dos nossos engenheiros acrescentou o programa 
no nosso vox pr para nos dar o nmero, se estivesse disponvel. Cada chamada 
tambm 
Tem a data e a hora marcadas.
Paris puxou a informao na tela do computador. No havia nome, apenas um nmero 
de telefone local, que carson anotou.
- esse  um bom comeo - disse ele.
- talvez - disse griggs. - se ele ligou para dizer essas coisas, por que usaria 
um nmero rastrevel?
Paris leu nas entrelinhas.
- acha que foi um trote?
Nenhum dos policiais respondeu diretamente.
- vou ligar para esse nmero e ver se algum atende - disse carson.
Usou o celular dele e, depois de ficar ouvindo o telefone tocar muitas vezes, 
concluiu que ningum ia atender.
- tambm no tem caixa postal.  melhor investigar. - ele apertou os nmeros e, 
enquanto dava o nmero de valentino para algum do outro lado da linha, griggs 
disse
Para paris e para stan que iam rastrear a ligao.
- mas aposto que foi s um cara usando um nome que ouviu no seu programa, 
querendo apenas assust-la.
- como os doentes que passam trotes obscenos - disse stan. Griggs balanou a 
cabea raspada.
- exatamente. Aposto que vamos descobrir um bbado solitrio, ou um grupo de 
adolescentes entediados querendo se divertir falando obscenidades, qualquer 
coisa
Assim. 
- espero que tenha razo. - paris esfregou os braos para se aquecer. - no 
consigo acreditar que algum faria isso como uma  brincadeira, mas certamente 
prefiro
A brincadeira  alternativa.
Carson desligou o celular. 
- j esto rastreando. No deve demorar.
- podem me contar o que descobrirem?
- claro que sim, srta. Gibson.
Stan ofereceu-se para acompanh-la at em casa, mas foi uma oferta meio 
desanimada, e pareceu aliviado quando paris recusou. Deu boa-noite para todos e 
foi embora.
- como podemos entrar em contato se descobrirmos alguma coisa? - perguntou 
griggs enquanto percorriam os corredores, indo para a entrada.
Paris deu seu telefone de casa, enfatizando que no estava na lista.
-  claro, srta. Gibson.
Os dois policiais se surpreenderam ao ver que era ela quem trancava o prdio  
noite.
- fica sozinha aqui todas as noites? - perguntou carson quando a acompanhavam 
at o carro.
 s o stan fica comigo.
- o que ele faz, e h quanto tempo trabalha aqui?
Ele no faz grande coisa, pensou. Mas respondeu que era engenheiro.
- ele fica de prontido, caso acontea algo de errado com o equipamento. Est 
aqui h uns dois anos.
- ningum mais trabalha no turno da noite?
- bem, tem o marvin. Ele faz a faxina h alguns meses.
- sobrenome?
- eu no sei. Por qu?
- nunca se sabe - disse griggs. - a senhorita se d bem com esses dois?
Ela deu risada.
- ningum se d bem com marvin, mas ele no  do tipo que passa trotes 
ameaadores. Ele s fala quando falam com ele, e so quase grunhidos.
- e o stan?
Paris sentiu que seria uma deslealdade falar dele pelas costas. Se fosse 
sincera, no seria uma descrio lisonjeira, por isso s contou o que era 
relevante.
- ns nos damos bem. Tenho certeza que nenhum dos dois teve nada a ver com 
aquela ligao.

Griggs sorriu e fechou seu pequeno bloco de notas com um movimento decisivo.
- no custa nada investigar.
O telefone estava tocando quando paris entrou em casa. Correu para atender. -
al?
- srta. Gibson, aqui  o policial griggs. -sim?
- chegou bem em casa?
- cheguei. Acabei de desligar o meu alarme. J soube de alguma coisa?
- aquele nmero  de um telefone pblico perto do campus da universidade do 
texas. Um carro da polcia foi l verificar mas no havia ningum por perto. O 
telefone 
Fica do lado de fora de uma farmcia que fecha s dez. O lugar e o 
estacionamento estavam desertos.
E assim, estavam de volta ao ponto de partida. Paris esperava que associassem o 
nmero a algum indivduo triste e solitrio como griggs havia descrito, uma alma 
Penada ameaando paris e uma prisioneira imaginria, querendo chamar ateno.
A apreenso inicial voltou.
- e agora?
- bem, na verdade no h nada a fazer, a no ser que ele ligue de novo. Mas acho 
que no vai ligar. Deve ter sido algum que s queria perturb-la. Amanh  
noite 
Teremos carros patrulhando a rea em torno daquele telefone pblico, para ver se 
encontramos algum escondido por l.
Isso no bastava, mas era tudo que teria. Paris agradeceu. O policial e seu 
parceiro tinham feito tudo que se podia esperar que fizessem, mas paris no 
estava pronta 
Para aceitar que a ligao de valentino tinha sido um trote e que no tinha nada 
com que se preocupar. At a origem do telefonema era preocupante. Uma pessoa que 
Queria chamar ateno no deixaria pistas bvias para poder ser rastreada e 
identificada, repreendida pela polcia, talvez at citada nos jornais?
Valentino havia usado um telefone pblico para no ser rastreado. No queria ser 
identificado.
Aquela idia perturbadora no saa da cabea de paris enquanto ela atravessava a 
sala da sua casa, passava pelo corredor e entrava no quarto. Como sempre 
acontecia 
Quando voltava para casa do trabalho, os cmodos estavam todos s escuras e 
silenciosos.
As casas vizinhas tambm tinham as luzes apagadas quela hora, tambm estavam 
silenciosas, mas havia uma diferena. Naquelas casas, as oraes das crianas 
tinham 
Sido ouvidas antes de serem postas na cama. Maridos e mulheres tinham dado 
beijos de boa-noite. Alguns fizeram amor antes de se acomodar sob o cobertor. 
Eles compartilhavam 
Uma cama, calor fsico, sonhos. Compartilhavam suas vidas. A escurido era 
compensada pelas luzes noturnas, pequenos faris de conforto que brilhavam em 
quartos 
Cheios de brinquedos e sapatos, e todas as coisas que faziam parte de uma vida 
familiar ativa.
As luzes noturnas na casa de paris s enfatizavam a ordem estril dos cmodos. 
Seus movimentos eram a nica fonte de sons. Dormia sozinha. No era sua primeira 
opo, 
Mas a realidade era essa, e teve de acabar aceitando.
Naquela noite, porm, a solido era enervante. E o motivo era a ligao de 
valentino.
Tinha anos de experincia ouvindo vozes, captando nuances da fala, dando recados 
subliminares, separando a verdade das mentiras, e ouvindo mais do que era dito 
em 
Voz alta. Era capaz de tirar algumas concluses a respeito de uma pessoa, com 
base unicamente nas inflexes da fala. Os telefonemas transmitiam alegria, 
tristeza, 
Deixavam paris pensativa, aborrecida e, de vez em quando, muito zangada.
Nenhum tinha provocado medo. At aquela noite.


Captulo quatro
Estava comeando a sentir cimbra nas pernas por ficar tanto tempo na mesma 
posio, e enlouquecendo com uma coceira na sola do p. O rosto doa e sentia o 
inchao. 
O corpo todo doa.
Aquele filho-da-puta, pensou, sem poder xing-lo em voz alta por causa da fita 
adesiva na boca.
Por que tinha inventado de achar que ele era to especial? No a levava a 
lugares fabulosos, nem gastava dinheiro com ela. Nunca estiveram juntos em lugar 
nenhum, 
A no ser aquele, e era uma espelunca.
No sabia nada dele, onde trabalhava, nem mesmo seu nome. Nunca soube o nome 
dele, nem por acaso. No aparecia impresso em lugar nenhum no apartamento, nem 
na assinatura 
De revistas, nem na correspondncia, nada. Ele continuava annimo, e essa devia 
ter sido a primeira pista de que no tinha classe nem era intrigante, mas apenas 
Completa e bizarramente esquisito.
A segunda vez em que se encontraram, ele definiu a natureza do relacionamento 
deles. Estabeleceu as regras bsicas, por assim dizer. Iniciou a conversa 
enquanto 
Espalhava leo de beb nela, para obter um efeito especial numa srie de 
fotografias.
- a sua amiga... Aquela com quem voc estava na noite em que nos conhecemos.
- voc quer dizer a melissa? - perguntou ela, sentindo uma pontada de cime.
Ser que queria convidar melissa para um mnage  trois com eles?
- o que tem ela?
- contou para ela sobre ns?
- no tive oportunidade. Os pais dela a levaram para passar as frias na frana. 
No vi nem falei com ela desde aquela noite em que o conheci.
- comentou com algum sobre mim e sobre o que fazemos aqui?
- ah, claro. Anunciei para os meus pais no caf da manh a expresso furiosa 
dele a fez rir baixinho. -no, seu bobo! No contei para ningum.
- ainda bem. Porque isso  to especial que gosto de pensar que voc e eu somos 
o maior segredo um do outro.
- ns somos o segredo um do outro. Eu nem sei o seu nome.
- mas voc me conhece.
Ele olhou intensamente para os olhos dela e ela lembrou da primeira impresso 
que teve, de poder ver bem fundo a alma dele. Achava que ele devia ter sentido 
aquela 
Sua ligao instantnea. Afinal, na primeira noite, disse que a amava. <
O segredo devia ser necessrio por causa de uma esposa que no sabia do seu 
"hobby". Ela imaginou a mulher dele, uma puritana que s fazia papai-e-mame, 
que jamais 
Ia entender, menos ainda consentir, com aquela necessidade de variedade e 
paixo. Imagens da sra. Sem nome se masturbando? Caia na real. Nunca, em um 
milho de anos. 
Provavelmente nem uma foto de seios nus.
Aquela noite o sexo que eles fizeram foi especialmente ardente. Ele focalizou, 
pode-se dizer, no s a sua cmera. Ela perdeu a conta do nmero de vezes que 
transaram, 
Mas era sempre diferente, por isso nunca entediante. Ele queria sempre mais, e 
disse isso para ela. Foi uma experincia muito excitante, ser praticamente 
venerada 
Por um homem com tanta classe, que devia conseguir qualquer mulher. Ela pensou 
que no queria que aquilo terminasse nunca.
Mas isso foi naquele dia.
Toda vez que o via, o cime dele aumentava, at comear a irrit-la e a priv-la 
do prazer de estar com ele. Por melhor que fosse o sexo, no valia as cobranas 
Que ele fazia em relao aos outros homens.
Tinha pensado em dar um bolo nele aquela noite, mas depois mudou de idia. Ele 
nunca reagiria bem se ela dissesse que no queria mais v-lo. Tinha medo da cena 
que 
Ele faria, mas era melhor acabar com o sofrimento dele mais cedo do que mais 
tarde.
Ele estava  espera dela no lugar combinado. E, diferente da noite em que se 
conheceram, no parecia nada tranqilo e relaxado. Estava agitado e irritado. 
Assim que ela entrou no carro, ele comeou.
- voc esteve com outro cara, no esteve?
Ela achou que devia gostar daquela demonstrao de cime, mas estava com dor de 
cabea e nada a fim de um interrogatrio.
- tem um baseado a?
Ele sabia que ela gostava de fumar maconha, e sempre tinha um baseado para ela.
- no porta-luvas.
Havia trs num saco plstico. Ela acendeu um e inalou profundamente.
-  a melhor coisa para dor de cabea.
Ela deu um suspiro, encostou a cabea no banco e fechou os olhos.
- quem era ele?
- quem era quem?
- no brinque comigo.
O tom de voz dele fez com que ela levantasse a cabea.
- voc j esteve com algum esta noite, no esteve? - os dedos dele apertavam o 
volante. - nem precisa se dar ao trabalho de mentir. Eu sei que acabou de fazer 
sexo 
Com outro cara. Sinto o cheiro em voc.
Primeiro, ela ficou surpresa e um pouco irritada com o fato de ele ter 
descoberto. Ser que a vigiava? Mas a apreenso logo deu lugar  raiva. No era 
da conta dele 
Com quem, e quando, ela transava.
- olha aqui, acho que talvez no seja uma boa idia a gente sair hoje - disse 
ela. - estou com tpm e no preciso de ningum enchendo meu saco. Est bem?
A raiva dele se dissolveu imediatamente.
- desculpe eu ter levantado a voz.  s que... Eu pensei...
- o qu?
- que ns tnhamos uma ligao especial.
Nesse momento, ela devia ter dito que no queria v-lo mais. Ele lhe dera uma 
oportunidade naquela hora, mas, que merda, ela no aproveitou. Em vez disso, 
disse:
- no gosto que voc fique cobrando aonde eu vou, o que eu fao, e com quem eu 
fao. J tenho tudo isso em casa. - ela
Recostou no banco e deu uma longa tragada no baseado. - esfrie a cabea ou leve-
me de volta para o meu carro.
Ele se acalmou. Ficou amuado, at meio mal-humorado, quando chegaram ao 
apartamento.
- quer vinho?
- e no quero sempre?
Ela j estava doidona com a erva. Podia muito bem ir at o fim e ficar 
completamente chapada. Uma trepada de misericrdia, e diria para ele que tinham 
de dar um 
Tempo - leia-se para sempre - e ento daria o fora dali para nunca mais voltar.
O monitor do computador dele era a nica fonte de luz naquele conjugado onde as 
cortinas estavam sempre fechadas. Uma das fotos mais escandalosas dela estava no 
Descanso de tela.
Quando viu, ela disse, estalando a lngua:
- tsk, tsk. Esta  certamente uma das "cores quentes do depois", no ? Eu sou 
muito safadinha. Safadinha mas legal, certo?
Ela piscou para ele e pegou o copo de vinho que ele trouxera da quitinete.
Bebeu o vinho como gua, deu um arroto sonoro e molhado, depois ofereceu o copo 
para ele num gesto impenitente de quem quer mais.
- voc est agindo como uma vadia.
Pegou o copo calmamente da mo dela e ps na mesa-de-cabeceira. E, ento, deu-
lhe um tapa. Um tapa to forte que as lgrimas saltaram dos seus olhos antes 
mesmo 
Da dor do rosto atingir o crebro.
Ela gritou, mas ficou chocada demais para dizer qualquer coisa.
Ele a empurrou para a cama. Ela caiu com fora. O quarto parecia girar; estava 
mais chapada do que pensava. Fez fora para levantar.
- ei! Eu no quero...
- ah, quer sim.
Ele ps a mo sobre o peito dela para imobiliz-la deitada, enquanto tentava 
tirar o cinto e abrir a braguilha. E comeou a rasgar-lhe a roupa. Ela estapeava 
as 
Mos dele, chutava e xingava-o de todos os nomes que conhecia, mas ele no 
parava.
Penetrou nela com tanta fora que ela gritou. Cobriu-lhe a boca com uma das 
mos.
- cale a boca - sibilou ele, to perto do seu rosto que ela sentiu uma chuva de 
perdigotos.
Ela mordeu a carne logo abaixo do polegar dele. Ele gemeu e tirou a mo.
- seu filho-da-me - berrou ela. - saia de cima de mim. E ficou atnita quando 
ele comeou a rir baixinho.
- voc acreditou. Pensou que eu falava srio. Ela parou de lutar.
- hein?
- eu estava s realizando sua fantasia de estupro.
- voc  maluco.
- ah, sou? - ele lhe deu uma estocada violenta. -  capaz de dizer sinceramente 
que no gosta?
- sou sim. Eu detesto isso. Detesto voc, seu filho-da-puta.
E ele sorriu, porque, apesar do que ela havia dito, estava correspondendo. 
Quando acabou, ambos estavam exaustos e brilhando de suor.
Ele se recuperou primeiro e foi pegar a cmera.
- fique exatamente como est - disse ele, e tirou a primeira
Foto.
O flash parecia excepcionalmente brilhante. Ela estava completamente chapada 
mesmo.
- no se mexa - disse ele. - tive uma idia.
Mexer? Estava letrgica demais para se mexer. Todo o seu corpo latejava, a 
comear pela ma do rosto - como  que ia explicar a mancha roxa? - at as 
coxas abertas. 
Meu deus, ainda estava de sandlias. Que graa tinha aquilo? Mas estava cansada 
demais para tir-las. Alm do mais, ele tinha dito para ela no se mexer.
Talvez tivesse cochilado um ou dois minutos. Quando se deu conta, ele estava de 
volta, inclinado sobre ela, juntando seus pulsos.
- o que  isso? - ela ergueu o corpo e viu que ele usava uma gravata para 
amarrar seus pulsos.
- uma montagem para uma fotografia. Voc foi uma menina m. Precisa ser 
castigada.
Ele desceu da cama, pegou a mquina fotogrfica e ajustou o foco.
Foi a que a histria comeou a ficar assustadora e ela sentiu os primeiros 
sinais de apreenso. Fez fora para sentar,
- eu no disse que no fao esse negcio de sadomasoquismo?
- isso no  sadomasoquismo, isso  castigo - disse ele, distrado, indo at o 
abajur de p.
Ele arrumou a cpula, inclinou para um lado, depois para outro, fazendo a sombra 
mudar no corpo dela.
Tudo bem. Ento chega. Ela no agentava mais. Depois daquela noite, nunca mais 
queria v-lo. Posar tinha sido divertido. Era algo diferente, e tinha de admitir 
Que depois era muito legal ver suas fotos.
Mas ele estava ficando possessivo demais e... Doido demais tambm.
- olha - ela lembrou de ter dito muito sria -, eu realmente quero que voc 
desamarre minhas mos agora.
Finalmente satisfeito com a iluminao, ele comeou a montar o trip.
Ela adotou outra ttica e suavizou o tom:
- fao qualquer coisa que voc quiser. Voc sabe que eu fao. S precisa pedir. 
Qualquer coisa.
Ele ainda parecia no ouvir nada. Enquanto estava distrado, ela deslizara para 
a beira da cama, calculando a distncia at a porta. Mas quando olhou para l, 
notou 
Algo estranho e uma glida onda de medo percorreu-lhe o corpo quando percebeu 
que do lado interno da porta no tinha maaneta, e, em seu lugar havia apenas um 
disco 
De metal.
Foi quando ele parou de mexer com a cmera. Sem dvida, percebeu o susto dela e 
sorriu.
- aonde voc pensa que vai?
- quero que voc me desamarre.
- voc se mexeu e estragou a iluminao - ele a repreendeu suavemente.
- iluminao  o caralho, eu vou me mandar.
Seus dias de lder de torcida serviram para alguma coisa. Ela pulou da cama com 
fora e agilidade surpreendentes. Porm, no foi muito longe. Ele a segurou pelo 
Cabelo, puxou-a de volta e a jogou na cama.
- voc no pode me prender aqui - gritou ela.
- voc tinha de estragar tudo, no ?
- estragar o qu?
- ns.
- no existe nenhum "ns", seu tarado, doente.
- voc tinha de me trair. Como as outras. Achou que eu no ia descobrir? Eu 
tambm escuto o programa da paris gibson, sabe? Ela ps o seu telefonema no ar. 
Milhares 
De pessoas ouviram voc dizer que eu a sufocava com a minha possessividade. Voc 
ia seguir o conselho dela e me deixar, no ia?
- oh, meu deus!
De p bem junto dela, com os punhos cerrados ao lado do corpo, parecia que ele 
se esforava para controlar a raiva.
- no pode tratar as pessoas como papel higinico e sair impune, sabe?
E como ele estava assustador demais, ela resolveu calar a boca.
Ele tirou mais algumas fotos, depois achou que tambm tinha de amarrar os ps 
dela. Ela lutou como se sua vida dependesse disso, mas ele acabou dando-lhe um 
tapa 
To forte que seus ouvidos zuniram. Foi a ltima coisa que ela ouviu.
Quando voltou a si, estava de pernas abertas, mos e ps amarrados na cama, por 
baixo do colcho de molas, a boca tampada com fita adesiva. O apartamento estava 
Vazio. Ele tinha sado. Estava sozinha e ningum sabia onde ela estava.
Com o passar das horas, ela imaginou uma dzia de fugas, mas descartou as idias 
quase na mesma hora que as teve. Nenhuma ia funcionar. No podia fazer nada, a 
no 
Ser esperar que ele voltasse para recomear seus jogos sexuais doentios.
Meu deus, ela pensou, no que foi que eu me meti?
- espero que tenham gostado dessa noite de clssicos de msicas romnticas. 
Espero vocs de novo amanh  noite. At l, paris gibson, fm 101.3. Boa-noite.
Que timo. Agora no tinha nem a companhia de paris gibson.


Captulo cinco

Gavin malloy estava completamente bbado. O zumbido agradvel da tequila barata 
no era mais to agradvel. Fazia calor demais para beber tequila. Devia ter 
ficado 
S na cerveja. Mas precisava de alguma coisa mais forte e amarga para afogar sua 
depresso.
O pior  que continuava deprimido.
A noite tinha se deteriorado para ele mais cedo. A bebedeira no levou a nada, 
s o deixou zonzo, suarento e nauseado. Com a viso embaada, olhou para um 
grupo 
De cedros mal-cuidados e imaginou se conseguiria cobrir aquela distncia no 
terreno pedregoso, antes de vomitar. Provavelmente no.
Alm do mais, tinha visto um casal desaparecer atrs das rvores um tempo antes. 
Se ainda estivessem fazendo o que tinham ido fazer l, no iam gostar se ele 
aparecesse 
Com um acesso de vmito. Por falar em coitus interruptus...
Ele riu da idia.
- do que est rindo? - perguntou o novo amigo, dando-lhe uma cutucada na 
barriga, que fez a tequila chacoalhar.
O nome do cara era craig qualquer coisa. Se  que ouvira o sobrenome dele alguma 
vez, j tinha esquecido. Craig dirigia uma picape dodge ram, a maior que 
existia. 
Negra como breu. Totalmente equipada. Muito incrementada.
Gavin, craig e alguns outros tinham se reunido nas caambas das picapes e 
ficaram assim horas, esperando alguma coisa acontecer. Um grupo de meninas 
apareceu mais 
Cedo, bebeu um pouco da tequila deles, mostrou bastante pele para deix-los 
excitados, depois foi embora, prometendo voltar. E at aquela hora no tinham 
voltado.
- qual  a graa? - perguntou craig de novo.
- nada. Estava s pensando.
- pensando o qu?
No que ele estava pensando? No conseguia lembrar. No devia ser muito 
importante.
- no meu velho - ele disse, arrotando.
, o seu velho esteve no fundo dos seus pensamentos a noite toda, incomodando 
como uma coceira que no se consegue alcanar.
- o que tem ele?
- vai ficar puto porque sa hoje. Ele me deixou de castigo.
- que merda.
- est de castigo? - zombou outro cara. - quantos anos voc tem, doze?
Gavin no sabia o nome dele, s que era um babaca com a pele ruim e o hlito 
pior ainda, que pensava que era muito mais legal do que realmente era.
Gavin tinha se mudado de houston para austin uma semana depois do semestre da 
primavera terminar. Formar um novo grupo nas frias de vero no foi fcil, mas 
tinha 
Se juntado quele, que o aceitou depois que souberam que era um cara que gostava 
tanto de sair quanto eles.
- ai, o gavin est com medo do papai - debochou o chato.
- no estou com medo dele. S dele encher o meu saco de
Novo.
- poupe-se do aborrecimento - isso partiu do otimista que mostrou mais cedo sua 
coleo de camisinhas. - espere at ele ir para a cama para sair de casa.
- j experimentei isso. Ele  um maldito morcego. Tem um radar embutido ou 
alguma coisa parecida.
Aquela conversa estava tornando ainda pior a noitada que j era ruim. Nada ia 
anim-lo aquela noite, nem mais tequila, nem mesmo o retorno das meninas, e era 
muito 
Provvel que no voltassem, conforme tinham prometido. Por que desperdiariam 
tempo com aquele bando de bundes como ele?
Gavin ficou de p e cambaleou perigosamente.
-  melhor eu me mandar. Se tiver sorte, ele ainda vai estar na rua. Saiu com a 
namorada.
Abriu caminho no meio dos outros e pulou da carroceria. Mas calculou mal a 
distncia at o cho e a fraqueza das pernas, e acabou de cara na terra.
Seus novos amigos zoaram. Fraco de tanto rir tambm, gavin levantou com certa 
dificuldade. A camiseta estava to molhada de suor que, quando tentou espanar a 
terra, 
Deixou marcas de lama na parte da frente.
- at amanh  noite - disse ele para os amigos, cambaleando. Onde  que tinha 
deixado o carro?
- no esquea que amanh  a sua vez de trazer a bebida avisou craig.
- estou duro.
- roube do seu velho.
- no posso. Ele verifica as garrafas.
- meu deus, ele  policial nas horas vagas?
- vou ver o que posso fazer - resmungou gavin, indo na direo do lugar onde 
achava que tinha estacionado o carro.
- e se a srta. Teso vier te procurar? - era o babaca, gritando para ele com voz 
melodiosa. O sorriso era feio e provocador. O que dizemos para ela? Que voc 
teve 
De voltar para casa, para o seu papai?
- vai se foder.
O garoto antiptico assobiou.
- bom, voc certamente no vai. Pelo menos no esta noite. Um dos outros 
reclamou:
- cale a boca, babaca.
- , d um tempo - disse o cara das camisinhas.
- qual ? O que foi que eu fiz? Craig falou baixinho:
- ela terminou com ele.
- ah, ? Quando?
Gavin no podia mais ouvir as vozes deles, o que at foi bom. No queria ouvir 
mais nada.
Localizou seu carro. No era to difcil avist-lo entre os outros, porque era 
todo ferrado. No era nenhuma picape incrementada, nenhum carro esporte. Ah, 
no, 
Nada disso para gavin malloy. E podia esquecer a motocicleta. No ia acontecer 
enquanto seu velho estivesse no comando, e provavelmente nunca, enquanto ainda 
respirasse.
O carro dele era uma bosta. Um meio de transporte sensato, resistente, que 
estragaria a imagem veloz de uma me mrmon. E esperavam que ele agradecesse.
Teve de escutar um sermo quando emitiu crticas ao carro.
- um carro no  brinquedo, gavin. Nem smbolo de status. Esse  um carro 
confivel. O seu primeiro. Quando provar que  suficientemente responsvel para 
tomar conta 
Dele e us-lo com segurana, vou pensar num melhor. At l...
Bl, bl, bl.
O troo era uma vergonha. Quando comeasse o semestre da primavera na nova 
escola, provavelmente seria motivo de chacota no campus por causa daquela merda. 
O mais 
Idiota dos idiotas no ia querer ser visto com ele.
No seu estado atual, no devia dirigir coisa nenhuma, e tinha um pingo de 
sobriedade para saber disso. Concentrou-se muito em manter a linha central em 
foco. Mas 
Isso s fazia aumentar a tontura.
Ainda faltavam alguns quarteires para chegar em casa e ele teve de parar e sair 
do carro para vomitar. Despejou um rio de tequila no canteiro de flores que 
formava 
Um perfeito crculo de cor em volta da caixa do correio de algum pobre coitado. 
Algum ia ter uma surpresa nojenta quando sasse para pegar a correspondncia de 
Manh. Sem falar do carteiro.
Sem coordenao, gavin entrou no carro e dirigiu o resto do caminho para a nova 
casa que o pai tinha comprado para eles. No era nada m. Na verdade, gavin 
gostava 
Dela. Especialmente da piscina. Mas no queria que o pai soubesse que gostava da 
casa.
Ficou aliviado ao ver que o carro do pai no estava na entrada. Mas gavin sabia 
que o pai era capaz de montar uma armadilha para ele, por isso entrou 
sorrateiramente 
Pela porta dos fundos, parou e ficou escutando. O pai ia adorar peg-lo se 
esgueirando, para poder deix-lo de castigo mais tempo, tirar seu celular, seu 
computador, 
Seu carro, e tornar sua vida ainda pior do que j era.
Aquela era a principal misso da vida dos pais dele. Tornar a sua vida 
miservel.
Certo de que no tinha ningum em casa, gavin foi para o quarto. O velho ainda 
devia estar com liz. Trepando que nem
Coelhos, sem dvida. Nunca transavam na cama dele, em casa. Ser que pensavam 
que ele era burro, que no sabia que faziam sexo quando ele passava a noite na 
casa 
Dela?
Era fcil imaginar liz na cama. Tinha um corpo tesudo. Mas o seu velho? No cio? 
De jeito nenhum. Gavin no conseguia imaginar nada mais abjeto.
Ligou o computador no quarto antes mesmo de acender o abajur da mesa. No 
entendia a vida sem um computador. Como  que as pessoas sobreviviam antes dele? 
Se seu 
Pai realmente quisesse puni-lo, era esse o privilgio que devia revogar.
Verificou seus e-mails. Havia um da me, que apagou sem ler. Qualquer coisa que 
ela tivesse a dizer seria para aplacar a prpria conscincia, e gavin no queria 
Saber.
Voc vai entender que isso  o melhor para todos.
Voc e o seu futuro so a nossa maior preocupao, gavin.
Depois que voc se adaptar  mudana...
Claro, me. Tem razo, me. Que besteira, me.
Sentou diante do computador e comeou a compor uma carta no e-mail. Mas no para 
a me. A raiva que sentia dela era pequena, comparada com o dio que sentia de 
quem 
Ia receber aquela carta. No que planejasse envi-la. E justamente por no 
pretender enviar, desabafou toda a fria que se acumulava dentro dele h dias.
- por que voc se acha to maravilhosa? - escreveu. - j vi melhores. J tive 
melhores.
- gavin?
A luz do teto acendeu e ele quase caiu da cadeira de susto. Saiu rapidamente do 
e-mail, antes que o pai pudesse ler o que havia na tela. Virou para trs, 
torcendo 
Para no parecer culpado.
- o que ?
- cheguei.
- e da?
- voc est bem?
- e por que no estaria? No sou criana.
- voc jantou?
- ah, sim - disse ele, estalando os lbios. - sobra de pizza no microondas.
- voc foi convidado a jantar comigo e com liz. No foi porque no quis.
- aposto que isso partiu seu corao.
Com a voz suave e tranqila que gavin odiava, o pai disse:
- se no quisesse que voc fosse, eu no teria convidado. Ele entrou no quarto. 
E gavin pensou, oh, que maravilha.
- o que esteve fazendo a noite toda?
- nada. Surfando na net.
- o que  isso na sua camiseta?
Perfeito. Tinha esquecido da terra na camiseta. E devia ter vmito tambm. 
Ignorou a pergunta e virou de frente para o computador de novo.
- estou ocupado.
O pai segurou gavin pelos ombros e o fez virar para ele.
- voc saiu. O seu carro no est no mesmo lugar que estava quando sa, e o cap 
est quente.
Gavin deu risada.
- est verificando a temperatura do motor do meu carro? Vai cuidar da sua vida.
- e voc tem de cuidar de me obedecer - disse o pai, elevando o tom de voz, 
coisa rara. - voc est fedendo a vmito e est bbado. Dirigindo embriagado, 
podia ter 
Matado algum.
- bem, no matei. Por isso, relaxe e me deixe em paz. Dean estendeu a mo, com a 
palma para cima.
- d-me as chaves do seu carro. Gavin olhou furioso para ele.
- se pensa que tirando as chaves vai me prender aqui, est muito enganado.
Dean no disse nada, s continuou com a mo estendida. Gavin pescou as chaves do 
bolso da cala jeans e deixou cair na palma da mo do pai.
- eu odeio a merda do carro mesmo, por isso no  grande perda.
O pai embolsou as chaves mas no saiu do lugar. Sentou na beira da cama 
desarrumada.
- e agora, o que ? - gemeu gavin. - um dos seus famosos sermes sobre como 
estou desperdiando a minha vida?
- voc acha que gosto de castig-lo, gavin?
- , acho que gosta. Acho que tem o maior prazer de ser o pai grande e mau, 
mandando em mim o tempo todo. Voc gosta de dizer tudo que fao de errado.
- isso  ridculo. Por que diz isso?
- porque voc nunca fez nada de errado em toda a sua maldita vida. Voc  o sr. 
Perfeito. Deve ser chato pra caramba estar certo o tempo todo.
Ficou surpreso ao ver o sorriso triste do pai.
- longe de mim estar certo o tempo todo e no sou nada perfeito. Pergunte para a 
sua me. Ela pode dizer. Mas sei que estou certo em uma coisa.
Dean parou e olhou srio para gavin, provavelmente esperando que ele perguntasse 
que coisa era essa. Podia esperar at o inferno congelar. Finalmente, ele disse:
- o que  certo  que voc est morando comigo agora. E estou feliz com isso. Eu 
quero que voc fique aqui.
 certo. Tenho certeza que voc est animadssimo com esse novo esquema de 
coisas. Voc adora ter a mim por perto, perturbando, atrapalhando voc.
- atrapalhando? O qu?
- tudo - a exclamao fez a voz de gavin falhar. Esperava que o pai no 
confundisse com emoo, que certamente no era.
- estou atrapalhando a sua vida. Seu novo emprego. Liz.
- voc no atrapalha nada, gavin. Voc  minha famlia, meu filho. Liz e eu 
queramos a sua companhia esta noite.
Ele bufou em tom de deboche.
- para um jantarzinho ntimo? S ns trs. A sua nova famlia. E depois, o qu? 
O que eu ia fazer quando voc a levasse para casa? Esperar no carro enquanto 
voc 
Entrava para uma chupadinha rpida?
Na mesma hora, gavin percebeu que tinha ido longe demais. O pai no era do tipo 
que perdia a cabea quando ficava zangado. No ficava violento, no vociferava 
nem 
Xingava, no saa batendo os ps, no berrava nem quebrava coisas. Em vez disso, 
o sr. Autocontrole ficava perfeitamente imvel. Seus lbios se afinavam e uma 
coisa 
Engraada acontecia com os olhos, pois eles pareciam endurecer e enxergar 
melhor, e atravessavam voc como alfinetes de ao.
Mas parecia que havia um limite para o controle do pai, e gavin tinha acabado de 
atingi-lo.
Antes mesmo de processar tudo isso, o pai dele j estava de p, e gavin do lado 
de quem recebe um tapa com as costas da mo que pegou sua boca com toda fora e 
abriu 
Um corte no lbio.
- voc no quer ser tratado como criana? timo. Vou tratlo como adulto. Era 
isso que eu teria feito com qualquer homem adulto que dissesse uma coisa dessas 
para 
Mim.
Gavin lutou para controlar as lgrimas.
- eu te odeio.
- bem, isso  uma pena. Voc tem de ficar comigo. Dean saiu e fechou a porta.
Gavin caiu na cadeira. Ficou no meio do quarto desarrumado, fervendo de raiva e 
de frustrao. Mas vendo que no tinha para onde fugir, e que no tinha meios 
para 
Fugir se tivesse para onde, jogou-se na cama.
Passou a mo para secar o ranho, as lgrimas e o sangue que se misturavam no 
rosto. Teve vontade de chorar. Queria se encolher na posio fetal e chorar como 
um 
Beb. Porque sua vida era uma bosta. Tudo nela. Odiava tudo e todos. Seu pai. 
Sua me. A cidade de austin. Mulheres. Seus amigos burros. Seu carro horrendo.
E, acima de tudo, odiava a si mesmo.


Captulo seis
Sem parecer bvio demais, o sargento robert curtis tentava ver atravs das 
lentes escuras dos culos de paris. Percebeu que estava olhando fixo para ela, e 
rapidamente 
Ofereceu uma cadeira.
- perdoe minha falta de modos, srta. Gibson. Admito que fiquei meio deslumbrado 
de ver uma estrela. Sente-se. Quer um caf?
- eu estou bem, obrigada. E no sou uma estrela.
- tenho de discordar.
Curtis era detetive do bureau central de investigaes do departamento de 
polcia de austin. Tinha uns cinqenta e poucos anos, corpo compacto e todo 
produzido, 
At o par de botas de vaqueiro bem engraxadas, cujos saltos acrescentavam uns 
quatro centmetros  sua estatura. Apesar de nem assim ficar mais alto que ela, 
transmitia 
Um ar de autoridade e segurana. Havia um palet esporte pendurado num cabide de 
p, mas o n da gravata estava muito bem dado sob o colarinho engomado. Nos 
punhos, 
Um monograma com as iniciais do nome dele.
Nas paredes da pequena sala, havia um mapa detalhado do estado, um outro do 
municpio de travis e um diploma emoldurado. A mesa embutida estava quase 
completamente 
Coberta de papis e de componentes de um computador, mas no parecia 
desarrumada.
Curtis sentou  mesa e sorriu para ela.
- no  todo dia da semana que recebo a visita de uma personalidade do rdio. O 
que posso fazer pela senhorita?
- no sei se pode fazer alguma coisa.
Agora que estava ali, escondida com um detetive no seu cubculo compacto, onde 
ele provavelmente trabalhava muito, servindo ao pblico capturando criminosos, 
paris 
Repensava a idia de procur-lo.
Coisas que aconteciam s duas horas da madrugada adquiriam uma aparncia 
diferente  luz do dia. De repente ir at l pareceu uma reao melodramtica e 
um pouco 
Egocntrica ao que provavelmente seria apenas um trote.
- eu liguei para o 911 ontem  noite - ela comeou a dizer.
- na verdade, foi nesta madrugada. Dois policiais, griggs e carson, atenderam ao 
meu chamado. Tenho um nmero de protocolo para sua referncia.
Deu para ele o nmero que griggs tinha deixado.
- que tipo de 911, srta. Gibson?
Paris contou o que tinha acontecido. Ele ouviu atentamente. Com a expresso 
aberta e preocupada. No ficou inquieto como se ela estivesse desperdiando seu 
tempo 
Com uma coisa sem importncia. Se estava fingindo interesse, o fazia muito bem.
Ela terminou o relato, tirou da bolsa uma fita cassete e entregou ao detetive.
- fui at a estao bem cedo esta manh e fiz uma cpia da
Ligao.
Paris lutou contra a insnia at o amanhecer, quando finalmente rendeu-se a ela. 
Levantou da cama, tomou um banho, vestiu-se e j estava de volta na estao de 
rdio 
Quando charlie e chad, os djs dos programas matinais para quem ouvia rdio no 
carro, a caminho do trabalho, liam as manchetes do noticirio das sete.
- terei prazer em ouvir a sua fita, srta. Gibson - disse curtis.
- mas esse departamento investiga homicdios, estupros, assaltos, roubos. 
Telefonemas ameaadores... - ele abriu bem as mos. Por que veio me procurar?
- li seu nome no jornal de ontem - admitiu ela, mortificada,
- sobre o seu testemunho num julgamento. Pensei que obteria uma ateno mais 
pessoal se pedisse para falar com um detetive especfico, em vez de simplesmente 
aparecer 
Aqui sem hora marcada.
Agora era ele que parecia mortificado.
- e deve ter razo.
- e se a pessoa que ligou para mim fizer o que ameaou fazer, caber a este 
departamento investigar, no ?
Recuperando imediatamente a seriedade, curtis levantou da cadeira e saiu do 
cubculo. Dirigiu-se ao salo como um todo, perguntando se algum tinha um 
gravador  
Mo. Segundos depois, apareceu um detetive  paisana com um.
- aqui est.
Ele olhou para paris com curiosidade evidente quando entregou a mquina para 
curtis.
- obrigado, joe - disse curtis bruscamente, numa clara atitude de dispensa.
O outro homem se retirou.
O sargento curtis tinha sido uma escolha casual, mas paris estava achando bom 
ter ido procur-lo. Era bvio que tinha algum poder, e que no relutava em usar.
Ele retornou para a sua cadeira, ps a fita no toca-fitas e disse  meia-voz:
- j vi que andaram espalhando por a quem a senhorita .
Pode ser, pensou paris. Ou ento o outro detetive podia estar apenas imaginando 
por que ela no tirava os culos escuros. Aquela sala no era um lugar 
especialmente 
Iluminado. Na verdade, era uma cela sem janelas.
Curtis e o outro detetive deviam ter concludo que paris usava culos escuros, 
como fazem as celebridades, para esconder a identidade em pblico, ou para 
alimentar 
O mistrio de personalidade da mdia que usava os culos para excluir as outras 
pessoas. Jamais podiam imaginar que paris usava os culos escuros para se 
fechar.
- vejamos o que o senhor... Como era mesmo? Valentino?... Tem a dizer.
Curtis apertou o boto play. Aqui  paris. Ol, paris. Aqui  valentino.
Quando a fita terminou, curtis cutucou o lbio inferior, pensativo, depois 
perguntou.
- importa-se se eu puser para tocar de novo?
Sem esperar o consentimento dela, ele rebobinou a fita e reiniciou. Enquanto 
ouvia, curtis franzia a testa concentrado e rodava o anel da universidade do 
texas no 
Dedo curto e grosso.
No fim da fita, paris perguntou:
- o que o senhor pensa, sargento? Estou levando a srio demais o trote de um 
maluco?
E ele tambm fez uma pergunta:
- voc tentou ligar para o nmero dele?
- eu estava to atordoada que nem pensei em ligar imediatamente, mas acho que 
devia ter feito isso.
Ele afastou a preocupao dela com um gesto.
- de qualquer maneira, ele provavelmente no ia atender.
- ele no atendeu quando carson telefonou mais tarde. Tambm no tinha caixa de 
mensagens. Ficou s tocando.
- o nmero do identificador de chamadas, a senhorita disse que foi rastreado 
para um telefone pblico?
- tenho certeza que os detalhes esto no relatrio, mas griggs me disse que 
enviou uma viatura quela rea para verificar a cabine telefnica. Mas naquela 
hora - 
Pelo menos meia hora depois, talvez mais - quem tinha feito a ligao j no 
estava mais por
Perto.
- algum deve ter visto quando ele usou a cabine telefnica.
Os policiais perguntaram por l?
- no havia ningum para perguntar. De acordo com griggs, o lugar estava deserto 
quando a viatura chegou - as perguntas de curtis estavam validando a preocupao 
Dela, mas isso s fazia aumentar a angstia. - o senhor acha que valentino 
estava dizendo a verdade? Que ele realmente seqestrou a menina que
Planeja matar?
Curtis encheu as bochechas de ar antes de expelir lentamente.
- eu no sei, srta. Gibson. Mas se estava, e se cumprir o prazo que deu de trs 
dias, no temos tempo para ficar aqui sentados conversando a respeito. No quero 
Outro caso de seqestro-estupro-assassinato na minha mesa, se puder evitar.
Curtis se levantou e pegou o palet.
- o que ns podemos fazer?
- vamos comear procurando determinar se ele fala srio ou se  apenas um maluco 
querendo atrair a ateno da sua celebridade favorita.
A essa altura, curtis j conduzia paris pelo labirinto de cubculos similares ao 
dele, indo para as portas duplas pelas quais ela havia entrado no bureau central 
De investigaes.
- e como  que se determina isso?
- procuramos a autoridade no assunto.
Bem na hora que dean ia sair, liz telefonou do aeroporto de houston.
- voc j est em houston?
- o meu vo partiu de austin s seis e meia.
- horror.
- nem me fale - depois de uma breve pausa, ela perguntou:
- o que aconteceu com gavin quando voc chegou em casa ontem  noite?
- uma guerra franca bsica, os dois lados marcando pontos e sofrendo baixas.
Ele equilibrou o telefone sem fio entre o queixo e o ombro e serviu um copo de 
suco de laranja. Tinha ficado horas acordado na cama na noite anterior, e quando 
finalmente 
Caiu no sono, foi como entrar em coma. O despertador ficou tocando meia hora at 
ele acordar. No tinha mais tempo de fazer caf aquela manh.
- bem, pelo menos ele estava em casa quando voc chegou
- disse liz. - no desobedeceu sua ordem.
Sem querer comentar a discusso que teve com gavin, dean concordou com um 
grunhido no verbal.
- a que horas  a sua primeira reunio em chicago?
- assim que eu chegar no hotel. Espero que o o'hare no esteja muito movimentado 
para eu poder sair depressa de l. O que voc tem na agenda hoje?
Ele descreveu seu dia. Liz disse que tinha de correr, que s queria dizer oi 
antes do vo para chicago. Dean disse, ainda bem que me pegou em casa, e 
desejou-lhe 
Uma boa viagem.
- eu te amo - disse ela.
- tambm te amo - respondeu ele.
Depois de desligar, dean abaixou a cabea, fechou os olhos e bateu o telefone 
com fora na testa, como se pagasse algum tipo de penitncia heterodoxa de 
autoflagelao.
Em vez de significar o bom comeo de dia que liz certamente pretendia, a ligao 
deixou dean irritado. Acrescentando a isso o calor insuportvel e o trnsito 
matinal 
De austin, ele estava
Com um humor pssimo quando chegou na sua sala alguns minutos atrasado.
- bom-dia, srta. Lester. Algum recado?
Dean dividia a secretria com outras pessoas. Ela era competente. E simptica. 
No primeiro dia dele no emprego, a srta. Lester havia informado que era me 
divorciada 
De duas meninas, e que ele podia cham-la pelo primeiro nome.
A no ser que estivesse enxergando mal, e no achava que estava, desde a sua 
chegada, os decotes tinham ficado progressivamente mais profundos, e as bainhas 
mais 
Curtas. Essa reduo gradual de tecido podia estar associada  temperatura 
crescente do vero, mas duvidava disso. S para se garantir, ele continuou 
chamando-a 
De srta. Lester.
- os recados esto na sua mesa. Estou fazendo caf. Assim que estiver pronto, 
levo uma xcara para a sua sala.
Servir caf no estava includo na descrio das funes dela, mas naquela manh 
dean ficou feliz com a oferta.
- timo, obrigado.
Entrou na sala e fechou a porta, desencorajando qualquer conversa. Pendurou o 
palet no cabide de parede, afrouxou a gravata e desabotoou o colarinho. Sentou 
 mesa 
E folheou os recados, feliz de ver que no havia nada de urgente. Precisava de 
alguns minutos para descomprimir.
Rodou na cadeira e arrumou a persiana para poder ver pela janela. A luz do sol 
era ofuscante, mas no foi por isso que enfiou os dedos nas rbitas e depois 
passou 
As mos no rosto.
O que ia fazer com gavin? Quantas vezes podia deix-lo de castigo? Quantas 
outras mordomias poderia tirar? Quantas cenas iguais  da noite anterior eles 
iam suportar? 
Discusses como aquela provocavam danos que muitas vezes eram irreparveis. Ser 
que algum relacionamento sobreviveria a ataques constantes
Como aquele?
Lamentava profundamente ter dado o tapa nele. No que gavin no merecesse, pelo 
insulto que havia proferido. Mas mesmo assim no devia ter batido no filho. Ele 
era 
Adulto e devia ter se comportado como tal. Perder o controle daquele jeito era 
infantilidade. E perigoso. A perda de controle podia provocar uma destruio 
muito 
Grande, e sabia disso melhor do que ningum.
Alm do mais, tinha decidido ser um exemplo positivo para gavin. No queria 
fazer sermes, queria ser um modelo de comportamento. Na vspera, dera um recado 
equivocado 
De como lidar com a raiva e estava arrependido.
Passou os dedos no cabelo e se perguntou por que o caf estava demorando tanto.
Ser que devia mandar gavin de volta para a me dele?
- no  uma opo - dean resmungou em voz alta.
De jeito nenhum. Por uma longa lista de motivos que inclua descumprir o acordo 
que pat e ele tinham feito a respeito do filho, mas o principal era que dean 
malloy 
Detestava o fracasso. Em qualquer coisa. S jogava a toalha quando era 
absolutamente forado a faz-lo.
Gavin tinha dito, alis, tinha praticamente acusado o pai, de ter sempre razo. 
Disse que devia ser chato  bea estar certo o tempo todo. No era nada disso, 
gavin, 
Ele pensou cinicamente. No achava que tinha razo em nada. E obviamente no 
estava agindo corretamente com o filho.
Ou com liz. Nem de longe estava agindo bem com liz. Quanto tempo mais podia 
adiar a providncia que tinha de tomar?
- dr. Malloy?
Pensando que a srta. Lester estava chegando com o to esperado caf de alta 
octanagem, continuou de costas para a porta.
- ponha na mesa, por favor.
- tem uma pessoa aqui que quer falar com o senhor. - dean rodou na cadeira. - o 
sargento curtis, do bureau central de investigaes, pediu um minuto do seu 
tempo 
- disse a secretria.
- ele pode entrar?
- certamente.
Dean tinha encontrado o detetive apenas uma vez, mas parecia o tipo de cara 
direito. Sabia que era trabalhador e muito respeitado na polcia de austin. 
Ficou de 
P quando curtis entrou na sala.
- bom-dia, sargento curtis.
- apenas curtis.  assim que todos me chamam. O senhor prefere doutor ou 
tenente?
- que tal dean?
Os dois se encontraram no meio da sala e apertaram-se as
Mos.
- cheguei em m hora? - perguntou curtis. - perdo por invadir assim sua sala 
sem ser anunciado, mas isso pode ser importante.
- no tem problema. O caf est a caminho.
- ento pea para trs. No estou sozinho.
Curtis recuou at a porta e fez sinal para algum se aproximar.
Apesar dos culos escuros, paris teve medo da cara que fez no ser menos 
reveladora que a de dean.
Ele parecia to aturdido como paris tinha ficado alguns minutos antes, ao ler o 
nome dele na porta da sala em que ia entrar, desavisada, despreparada, 
desprotegida 
E sem poder impedir o
Inevitvel.
Dean olhou para ela boquiaberto alguns segundos antes de
Conseguir articular em tom de espanto.
- paris?
Curtis olhou para um e para outro, surpreso.
- devo trazer mais xcaras, dr. Malloy? - quis saber a secretria.
Dean continuou olhando fixo para paris quando respondeu:
- por favor, srta. Lester.
A secretria saiu e deixou paris, dean e o detetive de p, paralisados, formando 
uma cena estranha, como atores que esqueceram suas falas. Finalmente, curtis ps 
A mo sob o cotovelo de paris e a fez chegar para a frente. Contra a sua 
vontade, paris entrou mais na sala, no territrio de dean.
E como qualquer territrio que dean j havia ocupado, ele o dominava. No apenas 
fisicamente, com sua estatura acima da mdia e ombros largos, mas com a fora da 
Sua personalidade. Num instante dava para sentir que aquele era um homem de 
princpios, de convices inabalveis e determinao muito firme. Podia ser seu 
aliado 
Incondicional ou seu mais temido adversrio.
Paris conhecia os dois.
Sua garganta se contraiu, como se todos os vasos sangneos que saam do corao 
convergissem para l. O oxignio na sala parecia insuficiente. Respirava com 
dificuldade 
E ao mesmo tempo lutava para parecer perfeitamente calma.
Dean tambm no estava se saindo muito bem. Quando ficou bvio que o choque 
havia privado o homem de suas boas maneiras, curtis fez paris sentar na cadeira 
mais 
Prxima. Isso fez dean despertar do transe.
- oh, sim, por favor, sentem-se. Os dois. Enquanto ocupavam seus lugares, curtis 
disse:
- no sou detetive por acaso. Percebi que vocs dois se conhecem.
Paris contava com a voz para ganhar a vida, mas estava sem ela. Deixou dean 
explicar.
- de houston - disse ele. - anos atrs. Eu trabalhava na polcia e paris...
Ele olhou para ela aflito, sem deixar escolha, seno de continuar a explicao.
- eu era reprter de uma estao de televiso. Curtis ergueu as sobrancelhas 
claras, surpreso.
- televiso? Pensei que sempre tivesse trabalhado no rdio. Ela olhou para dean 
e balanou a cabea.
- passei da televiso para o rdio.
Curtis murmurou alguma coisa, indicando que compreendia a transio, mas 
obviamente no estava entendendo nada.
- com licena-a srta. Lester entrou carregando uma bandeja. Ps na mesa de dean 
e perguntou: - creme e acar, algum?
Todos recusaram. Ela serviu trs canecas com caf de uma garrafa trmica de ao 
inoxidvel, depois perguntou para dean se ele queria mais alguma coisa. Ele 
balanou 
A cabea indicando que no e agradeceu.
Curtis ficou observando a secretria sair da sala. Virou para a frente de novo e 
disse:
- estou impressionado. Eles no so partidrios de assistentes pessoais no 
bureau.
- o qu? - dean olhou para ele confuso, depois para a porta.
- ah, a srta. Lester. Ela no  minha assistente pessoal.  s... Ela  muito 
eficiente, s isso. Trata todo mundo por aqui desse jeito.
"por aqui" era o anexo vizinho ao prdio principal do quartel general da 
polcia. Era bem acessvel atravs de uma garagem para os dois, que tinha sido o 
caminho 
Tomado por paris e curtis. O detetive no parecia ter engolido a explicao dada 
por dean para a ateno da secretria, e paris tambm no, mas no tocou
Mais no assunto.
Paris ps as duas mos em volta da caneca de caf fumegante, grata pelo calor 
que emanava dela. Dean deu um gole no seu e provavelmente queimou a lngua.
- no tinha idia de que estaria reunindo amigos de longa data - comentou 
curtis.
- paris no sabia que eu tinha sido transferido para c - disse dean, observando 
paris com muita ateno. - se soube...
- eu no sabia. Imaginei que ainda estivesse em houston.
- no.
- humm.
Curtis preencheu a lacuna na conversa:
- at o dr. Malloy vir trabalhar conosco, usvamos civis e pagvamos honorrios 
pela consulta. Mas j fazia muito tempo que estvamos querendo e precisando de 
um 
Psiclogo na equipe, um membro do departamento, algum com experincia e com 
treinamento da polcia, alm de psiclogo. No incio deste ano, finalmente 
aprovaram 
A verba e tiramos a sorte grande de conseguir atrair o dr. Malloy para c.
- que bom - paris incluiu os dois no sorriso formal. Depois de mais um breve 
silncio, dean pigarreou de novo
E virou para o detetive.
- voc mencionou um assunto que podia ser importante. Curtis procurou uma 
posio mais confortvel na cadeira.
- voc conhece o programa da srta. Gibson no rdio?
- escuto todas as noites.
Paris levantou a cabea rapidamente e olhou surpresa para dean. Ficaram se 
entreolhando alguns segundos, e depois dean virou para curtis outra vez.
- ento sabe que ela recebe pedidos de msica pelo telefone e outras ligaes 
tambm - disse o detetive. Dean meneou a cabea. - na noite passada ela recebeu 
uma 
Ligao que a deixou assustada. E com motivo. - curtis explicou a natureza da 
ligao de valentino e concluiu dizendo: -achei que talvez voc pudesse ouvir a 
fita e dar sua opinio profissional.
- ser um prazer. Vamos ouvir a fita.
Curtis tinha levado o toca-fita. Ps em cima da mesa, voltou a fita e depois de 
alguns comeos falsos, pelos quais pediu desculpas, a voz de paris preencheu o 
silncio 
Tenso: aqui  paris.
Naquela altura, paris j conhecia o dilogo, palavra por palavra. Enquanto era 
reproduzido, ela ficou olhando para a caneca de caf, mas com a viso perifrica 
observava 
Dean. Partes separadas dele. Ele todo. Disfaradamente, olhou para as mos, 
apoiadas na beirada da mesa, com os dedos cruzados. Dean esfregava os polegares 
lentamente, 
E isso, apenas isso, provocou um tremor no fundo do seu ventre.
S uma vez se permitiu olhar para o rosto dele. Dean olhava para o vazio, mas 
deve ter sentido o olhar de paris, porque focalizou nela rapidamente. Os olhos 
dele 
Ainda eram capazes de fazer paris se sentir como uma borboleta espetada num 
quadro de cortia.
Um dia, anos atrs, j tinha sido excitante ser observada com aquela 
intensidade. Agora, contudo, s fazia paris lembrar-se de coisas que devia ter 
esquecido h 
Muito tempo. Fazia renascer sensaes e emoes que tinha tentado abafar e que, 
at poucos minutos atrs, pensava ter enterrado. Olhou de novo para a caneca de 
caf.
Quando a fita terminou, dean perguntou se podia fazer uma cpia.
- claro que sim - respondeu curtis.
Dean ejetou a fita e saiu da sala tempo suficiente para despachar a srta. Lester 
com aquela incumbncia. Quando voltou, curtis perguntou:
- ento, no acha que esse cara est inventando tudo isso?
- quero ouvir a gravao mais algumas vezes, mas a primeira impresso que tive  
que , no mnimo, preocupante. J recebeu algum outro telefonema como esse 
antes, 
Paris?
Ela balanou a cabea.
- os ouvintes j falaram de ovnis, infiltrao terrorista, asbesto no sto. 
Certa noite, uma mulher telefonou para contar que tinha uma cobra na banheira e 
perguntou 
Se eu sabia dizer
Se era venenosa. Recebo pelo menos uma proposta de casamento por semana. Tive 
uma oferta de um doador de esperma. Centenas de propostas obscenas. Mas nada 
igual 
A isso. Esse... Eu sinto que esse  diferente.
- apesar de ter ligado antes para voc.
- um homem que se identifica como valentino telefona de vez em quando. Creio que 
 o mesmo homem, mas no posso jurar.
- acha que  algum que voc conhece? Paris hesitou antes de responder.
- sinceramente? No consegui dormir a noite passada pensando nisso. Mas no 
reconheo essa voz, e acho que reconheceria.
- voc deve ter um ouvido timo para vozes - disse dean, pensativo. - mas parece 
que ele est disfarando a dele.
- tambm acho isso.
- ento pode ser algum que voc conhece.
- acho que pode. Mas no consigo pensar em ningum que faria uma brincadeira 
horrvel dessas.
- recentemente voc pisou no calo de algum?
- no que eu saiba.
- discutiu?
- no me lembro de nenhum incidente assim.
- voc disse alguma coisa que podia ser considerada uma afronta? Para um colega 
de trabalho. Caixa do banco. Garom. Empacotador do supermercado. Para o cara 
que 
Seca seus vidros no lava a jato.
- no - respondeu ela, irritada. - no tenho o hbito de provocar as pessoas.
Dean ignorou a irritao de paris e continuou.
- brigou com seu namorado? Terminou um relacionamento? Partiu o corao de 
algum?
Ela olhou furiosa para ele durante segundos poderosos, depois balanou a cabea.
Funcionando como rbitro diplomtico num conflito que no entendia, curtis ps a 
mo na boca e tossiu.
- dois novatos, griggs e carson, cuidaram disso  noite passada - disse ele para 
dean. - iam checar o pessoal da estao do
Rdio hoje cedo. Vou falar com eles agora mesmo, para ver se descobriram alguma 
coisa. Com licena.
Antes de paris protestar - e como poderia? - curtis tirou o celular da capa 
presa ao cinto e saiu da sala.
Em vez de esquentar as mos, a caneca de caf tinha esfriado em contato com 
elas. Paris chegou para frente e ps na ponta da mesa de dean, prestando mais 
ateno 
Na caneca e na mesa do que era necessrio.
Sem ter mais como evitar, olhou para ele.
- eu no planejei isso, dean. Quando cheguei aqui esta manh, no tinha idia... 
Eu no sabia que voc estava em austin agora.
- eu podia ter dito para voc no enterro do jack. Voc no quis falar comigo.
- e, no quis.
- por que no?
- no seria direito.
Dean aproximou-se dela e disse, em voz baixa mas zangado:
- depois de sete anos?
Jack tinha sido o primeiro a dizer que ningum atingia dean como paris. Parecia 
que ela era a nica pessoa no planeta capaz de tirar uma lasca do seu rgido 
autocontrole.
Ainda zangado, dean disse:
- pensei que os culos escuros fossem s para o enterro. Voc ainda tem...
- no vou falar sobre isso, dean. Iria embora se pudesse. Se eu soubesse quem o 
sargento curtis vinha procurar...
- voc teria dado meia-volta e fugido. Esse  o seu modus operandi, no ?
Paris nem sequer pde formular uma resposta e curtis j estava de volta.
- esto investigando o faxineiro, marvin patterson. Nada de concreto at agora. 
Parece haver uma certa confuso que esto tentando resolver. Devo receber 
informaes 
Logo. Stan crenshaw... - ele fez uma pausa e olhou para paris. - ele  parente 
do dono da emissora?
-  sobrinho de wilkins crenshaw.
- nepotismo?
- certamente - disse ela sinceramente. - stan faz o mnimo possvel e no  
muito bom no pouco que faz. A preguia dele  irritante, e em geral 
inconveniente para 
Quem trabalha com ele, mas pessoalmente nos damos bem. Alm do mais, no poderia 
ter sido nem ele, nem marvin, mesmo que qualquer um fosse capaz de fazer isso. 
Os 
Dois estavam no prdio quando recebi a
Ligao.
- j que os telefones so equipamentos de alta tecnologia hoje em dia, pedi para 
o gnio da eletrnica do departamento investigar isso. Os policiais tambm esto 
Conversando com as pessoas que trabalham na farmcia, para ver se conseguem 
alguma coisa. Um funcionrio ou fregus obcecado pela senhorita. Mas...
- ele parou de falar e puxou o lbulo da orelha. - na verdade, no temos um 
crime consumado aqui. S a ameaa de um.
-  uma ameaa sria.
- certo - o detetive admitiu, pensativo. - valentino disse que ouviu a mulher 
falando sobre ele no seu programa. Lembra-se de uma ligao como a que ele 
descreveu?
- assim de pronto, no. Mas deve ter sido bem recente, e foi uma ligao que 
botei no ar. Isso reduz a busca consideravelmente. Mas eu nunca diria para 
algum "dar 
O fora" no namorado.
- ele podia estar mentindo quanto a isso - disse dean. Curtis e paris olharam 
para ele sem entender.
- a ligao da namorada podia ser uma inveno para justificar, at para ele 
mesmo, o que planeja fazer com ela.
Era uma suposio desagradvel. Enquanto os trs refletiam em silncio, a srta. 
Lester voltou com a fita original e a cpia pedida. Dean ps a fita para rodar 
de 
Novo.
- tem uma coisa que me preocupa - disse ele quando terminou. - ele se refere a 
"meninas", no a mulheres.
- reduz o status da mulher - observou curtis.
- na avaliao dele, sim. Isso d uma pista do que se passa na cabea desse 
cara. O fato de no gostar e de desconfiar das mulheres fica muito claro. Se eu 
tivesse 
De fazer um perfil dele baseado apenas nessa conversa, diria que ele  um 
estuprador raivoso com desejo de retaliao.
Aparentemente, curtis conhecia o termo.
- ele tem raiva das mulheres em geral, devido a injustias concretas ou 
imaginadas.
- . Possivelmente resultado de abuso sexual, at incesto. Uma motivao muito 
perigosa - disse dean. - sexo  seu mtodo de punio. E isso normalmente se 
traduz 
Em estupro violento. Se ele quer fazer a vtima sangrar, como disse para paris, 
no ter nenhum escrpulo em mat-la - formou uma linha fina com os lbios, 
manifestando 
A apreenso que todos sentiam. - e outra coisa, o nico valentino de quem j 
ouvi falar foi o rodolfo.
- o astro dos filmes mudos - disse paris.
- isso mesmo. E o filme mais famoso dele foi o sheik.
- no qual ele seqestra e seduz, de certa forma forada, uma jovem - paris 
conhecia o filme. Jack e ela tinham assistido num festival de clssicos. - voc 
acha que 
 por isso que ele usa esse nome?
- podia ser uma coincidncia, mas no posso descartar essa hiptese - dean 
pensou uns dois segundos. - na verdade, curtis, no posso descartar nada disso. 
Recomendo 
Que levem esse cara a srio.
O detetive concordou meneando a cabea, preocupado.
- infelizmente eu concordo.
- gostaria de trabalhar com vocs nesse caso.
- agradeceria a sua ajuda. Vamos levar a srio a ameaa de valentino at provar 
que no passa de um trote.
- ou provar que  real - paris disse baixinho.


Captulo sete
O juiz kemp atendeu ao pedido do advogado de defesa, de um recesso de meia hora 
para consultar seu cliente, com a esperana de convenc-lo a aceitar o acordo 
para 
Reconhecer a culpa que encerraria o julgamento e liberaria a sua tarde.
Aproveitou aquela meia hora para se retirar para os seus aposentos e cortar os 
plos do nariz com uma minscula tesourinha de prata. Usou um espelho que 
ampliava 
Cinco vezes o tamanho normal. Mesmo assim, era um procedimento delicado. O toque 
sbito do telefone celular quase provocou uma espetada
No septo.
Meio irritado, atendeu o telefonema da mulher dele.
- janey no est no quarto - declarou ela sem prembulo. No esteve em casa a 
noite toda.
- voc me disse que ela estava a quando chegamos em casa.
- pensei que estivesse, porque ouvi o rdio ligado. E continuava tocando esta 
manh. Achei estranho, porque voc sabe que ela costuma acordar muito tarde, mas 
pensei 
Que tinha dormido
Com ele ligado.
"bati na porta mais ou menos s dez horas. Queria lev-la para almoar naquela 
nova casa de ch. Era uma coisa que podamos fazer juntas. E  realmente um 
lugar 
Muito agradvel. Bea e eu fomos l na semana passada, e eles tm um gazpacho 
excelente."
- marian, estou num recesso. Ela deu uma parada e continuou.
- janey no atendeu quando bati. s quinze para as onze, resolvi entrar e 
acord-la. O quarto estava vazio e a cama no fora desfeita. O carro dela no 
est na garagem 
E nenhum dos empregados a viu.
- talvez tenha acordado cedo, arrumado a cama e sado.
- e talvez o cu desabe hoje  tarde.
Marian tinha razo. Era uma suposio absurda. Janey nunca arrumou uma cama em 
toda a sua vida. Justamente por se recusar a fazer isso, tinha sido enviada de 
volta 
Do acampamento de vero, na nica vez em que os pais ignoraram seus protestos e 
insistiram para ela ir.
- quando foi a ltima vez que a viu?
- ontem  tarde - respondeu marian. - ficou deitada horas ao lado da piscina. Eu 
a convenci a entrar. Ela vai estragar a pele toda. Ela se recusa a usar protetor 
Solar. Tentei explicar isso, mas  claro que ela no escutou. Diz que protetor 
solar  a coisa mais idiota que j viu, porque frustra o propsito da coisa.
"e baird, eu realmente acho que voc devia conversar com ela sobre tomar sol sem 
o suti do biquini. Sei que  o quintal dela, mas tem sempre homens trabalhando 
Por aqui numa obra ou outra, e eu me recuso terminantemente a dar-lhes um 
espetculo de voyeur gratuito. J basta ela usar aquele fio-dental que, se quer 
saber, 
Alm de feio e sem classe nenhuma, deve ser terrivelmente desconfortvel."
Dessa vez ela parou sozinha, antes de desembestar pela tangente:
- de qualquer modo, ontem eu a convenci a entrar, na hora mais quente do dia. 
Lembrei que amos ao jantar da premiao e que ela estava de castigo, no podia 
sair. 
Janey subiu correndo sem falar comigo, bateu e trancou a porta do quarto. Deve 
ter sado depois de ns ontem  noite, e no voltou para casa at agora.
Baird no tinha notado que o carro de janey no estava na garagem porque tinha 
deixado o carro dele na rua. Na prxima vez que deixasse janey de castigo, tinha 
de 
Lembrar-se de confiscar as chaves do carro dela. No que isso fosse impedir que 
ela sasse para se encontrar com aqueles seus amigos estranhos, cuja influncia, 
Sem dvida, era a causa do mau comportamento.
- ligou para o celular dela?
- s cai na caixa postal. Deixei inmeros recados.
- j tentou falar com os amigos dela?
- alguns, mas ningum a viu a noite passada.  claro que podem estar mentindo 
para proteg-la.
- e aquela vadia, melissa, com quem ela sempre est?
- foi para a europa com os pais.
A secretria do juiz bateu de leve na porta, ps a cabea pela abertura e disse 
que todos j tinham voltado para a sala do tribunal.
- oua, marian, tenho certeza que ela s est nos punindo por t-la posto de 
castigo. Ela quer assustar voc, e est conseguindo. Vai aparecer. No  a 
primeira 
Vez que passa a noite
Fora.
A ltima vez que janey no voltou para casa, quase foi parar na cadeia do 
municpio de travis por atentado ao pudor em pblico. Ela e um grupo de amigos 
tinham usado 
Uma piscina de gua quente externa de um hotel. Os hspedes reclamaram do 
barulho. Quando os seguranas do hotel verificaram o que estava acontecendo, 
descobriram 
Um caldeiro borbulhante de jovens em vrios estgios de embriaguez e nudez, 
empenhados em todo tipo de atividades sexuais.
A filha deles era a das mais bbadas. E definitivamente a mais despida, segundo 
o policial de austin que a pescou pessoalmente da gua e a separou do rapaz com 
quem 
Estava agarrada.
Cobriu-a com um cobertor antes de transport-la para casa, e no para a cadeia. 
Fez isso como um favor ao juiz, no por bondade com a menina que lhe disse 
improprios 
Quando a deixou na porta da casa dos pais.
O policial recebeu uma nota de cem dlares como agradecimento, que tacitamente 
comprou a promessa de excluir o nome de janey do relatrio do incidente.
- graas a deus a mdia no ficou sabendo daquela histria
- disse marian, lendo os pensamentos do juiz. - d para imaginar o prejuzo que 
seria para a sua reputao? - ela fungou delicadamente e perguntou: - o que voc 
Vai fazer, baird? - e assim jogou concretamente o problema no colo dele.
- ficarei o dia inteiro no tribunal. No tenho tempo para
Cuidar da janey.
- bem, no pode esperar que eu saia procurando por ela por toda austin. Ia me 
sentir uma coletora de cachorros sem dono. Alm disso,  voc que tem seus 
contatos.
E as notas de cem dlares tambm, o juiz pensou com amargura. Naqueles ltimos 
anos, tinha espalhado liberalmente notas
De cem dlares para garantir que as travessuras da filha ficassem no anonimato.
- vou ver o que posso fazer - resmungou ele. - mas quando ela aparecer - e tenho 
certeza de que vai aparecer -, no se esquea de me avisar. Vou deixar meu 
celular 
No vibrador enquanto estiver no tribunal. Digite trs trs. Para eu saber que 
ela est em casa e no desperdiar meu tempo procurando.
- obrigada, querido. Sabia que podia contar com voc para cuidar disso.
Curtis convidou dean para almoar e ele aceitou, mas no ingenuamente. Percebeu 
que o detetive queria obter informaes sobre a vida de paris. No podia culpar 
curtis 
Por estar curioso, especialmente depois da atmosfera carregada que os dois 
tinham criado na sala dele aquela manh.
No ia revelar nada, nada que curtis no pudesse saber por conta prpria, lendo 
alguma biografia publicada, mas seria interessante observar o detetive em ao.
J estavam descendo os degraus na frente do prdio quando algum atrs deles 
chamou curtis. O jovem policial uniformizado que gritou o nome de curtis tinha 
acabado 
De sair pela porta de vidro. Pediu desculpas, ofegante.
- no queria incomod-lo, sargento curtis.
- ns s vamos almoar. Conhece o dr. Malloy?
- s de nome. Demorei mais do que devia para dar-lhe as boas-vindas do 
departamento de polcia de austin. Eddie griggs
- ele estendeu a mo. -  um prazer, senhor.
- obrigado - disse dean quando apertaram as mos. - vocs dois no precisam se 
apressar. Eu espero aqui na sombra.
- acho que o sargento curtis no vai se importar se o senhor ouvir isso, j que 
est trabalhando com ele naquela ligao para paris gibson.  sobre isso que vou 
Falar. Bem, mais ou menos. Indiretamente.
- ento vamos todos para a sombra - sugeriu curtis. Chegaram mais perto do 
prdio para aproveitar a faixa de
Sombra que se projetava na calada ensolarada. Os carros passavam ruidosos pela 
interestadual 35 ali perto, mas o novato se fez ouvir.
- o senhor distribuiu um memorando de alerta? - perguntou ele a curtis. - sobre 
pessoas desaparecidas?
- isso mesmo.
- bem, senhor... Sabe o juiz baird kemp?
- o que tem ele?
- ele tem uma filha. Adolescente, no segundo grau. Rebelde como poucos. De vez 
em quando, ela exagera na rebeldia e passa dos limites. Os policiais que fazem a 
ronda 
Depois da meia-noite a conhecem muito bem.
Ele olhou em volta, para ver se algum, entrando ou saindo do prdio, podia 
ouvir o que dizia.
- o juiz  muito generoso com qualquer policial que a leva para casa, que evita 
que ela v para a cadeia e que exclui o nome dela dos boletins de ocorrncia.
- j entendi - disse o detetive.
- e hoje - continuou griggs -, o juiz telefonou e fez um pedido especial para 
seus amigos da polcia. Parece que janey esse  o nome dela - no voltou para 
casa 
Esta noite. Pediu para todo mundo ficar de sobreaviso, e, se a virem, 
agradeceria muito ao policial que a levasse para casa.
Dean ainda no tinha sido apresentado ao juiz, mas o conhecia de nome. Uma das 
suas primeiras misses em austin tinha sido tentar convencer um prisioneiro a 
ajudar 
A polcia a prender seu parceiro de crime que, em comparao, era o mais 
perverso dos dois e continuava foragido.
O preso no quis cooperar.
- no vou dizer merda nenhuma para eles, cara.
"eles" e no "voc", porque dean havia ficado do lado do preso, tornou-se amigo 
dele, simpatizante e confidente. O bom
Policial.
- o meu julgamento foi armado! Armado, porra - esbravejou o preso. - ouviu o que 
eu disse, cara? O juiz influenciou o jri. Aquele filho-da-puta convencido.
A viso que tinha do juiz no diferia da maioria dos criminosos condenados. 
Raramente falavam bem do indivduo togado que, com uma batida final do martelo, 
selava 
Seus futuros sem esperana.
Depois de um tempo, o preso deu informaes para dean que resultaram na priso 
do cmplice, mas o homem manteve a opinio negativa sobre o juiz kemp e, baseado 
no 
Que griggs tinha acabado de contar, dean achava que talvez tivesse razo.
- s nesse municpio - disse curtis - talvez haja uma centena de adolescentes 
que no voltou para casa esta noite, cujo paradeiro  um mistrio para os pais. 
E essa 
Pode ser uma estimativa conservadora.
Dean pensava no seu adolescente, que tinha assustado a me mais de uma vez no 
voltando para casa at a metade do dia seguinte.
- eu concordo.  cedo demais para tirar concluses sobre a menina, especialmente 
se ela costuma passar a noite fora.
- o juiz kemp vai cuspir fogo se seu "pedido especial" ficar no boletim geral de 
ocorrncias - observou curtis, demonstrando sua antipatia. - mesmo assim, 
obrigado 
Por vir nos contar, griggs. Trabalhou rpido e com eficincia. Por que chegou 
to cedo hoje?
- estou fazendo hora extra, senhor. Alm disso, esperava poder, o senhor sabe, 
ajudar paris gibson. Ela estava muito abalada ontem  noite.
- tenho certeza que ela vai agradecer a sua diligncia. Curtis fez essa 
afirmao com ironia. Tinha notado a mesma
Coisa que dean. O rapaz tinha se encantado com paris.
- vamos dar  srta. Janey kemp mais algumas horas para recuperar o juzo e 
encontrar o caminho de casa, antes de associla ao cara que ligou para a srta. 
Gibson 
- disse curtis.
- sim, senhor - a atitude do jovem policial era to correta que dean chegou a 
pensar que ia fazer continncia. - bom almoo, senhor. Dr. Malloy.
Curtis foi andando pela calada, mas dean ficou para trs, sentindo que griggs 
ainda queria dizer alguma coisa. Se fosse sobre paris, queria saber o que era.
- com licena, griggs? Se est preocupado com alguma coisa, gostaramos de 
saber.
Era bvio que o novato no queria pisar no calo de um detetive graduado, nem de 
um oficial com uma sopa de letrinhas de credenciais atrs do nome e um dr. Na 
frente. 
Mesmo assim, ficou aliviado quando dean pediu para dizer o que estava pensando.
-  s que essa menina est sempre procurando encrenca, senhor - ele baixou a 
voz, num tom confidencial. - sabe um dos nossos da narcticos que trabalha  
paisana 
No colgio? Ele diz que ela  um avio, e que sabe disso. Uma... Uma verdadeira 
boneca. Diz que tentou seduzi-lo e que ele quase esqueceu que usava um 
distintivo.
As orelhas de griggs ficaram vermelhas. At seu couro cabeludo estava 
ruborizado, por baixo do corte de mquina quatro. Querendo tranqilizar o rapaz, 
dean brincou:
- detesto quando isso acontece.  um dos motivos de eu nunca ter querido 
trabalhar  paisana.
Griggs deu um sorriso largo como se ficasse contente de saber que, afinal de 
contas, dean era apenas um cara.
- , bem, o que estou querendo dizer  que ela pode ter se exposto de tal forma 
que algo de ruim poderia acontecer.
- flertado com o perigo e obtido mais do que pretendia? Perguntou curtis.
- mais ou menos isso, senhor. Pelo que sei dela, ela faz o que quer, quando 
quer, e no d satisfao para ningum. Nem mesmo para os pais. A candidata 
perfeita 
A vtima de rohypnol. Se cruzou o caminho desse valentino, e ele fez o que diz 
que fez, ningum saber por um bom tempo. E isso pode ser muito ruim.
Curtis perguntou se algum tinha procurado janey kemp nos lugares que ela 
costumava freqentar.
- j, senhor. Era isso que o juiz queria. Discretamente,  claro. Dois policiais 
da inteligncia esto cuidando do caso, alm dos patrulheiros habituais. Mas  
vero, 
Por isso o clube do sexo costuma se reunir mais ao ar livre, e os locais dessas 
reunies noturnas mudam sempre para o pessoal da narcticos, e os pais...
- clube do sexo? - dean olhou para curtis pedindo explicao, mas o detetive deu 
de ombros.
Ambos olharam de novo para griggs. Nervoso outra vez, o jovem policial trocou o 
peso do corpo de um sapato bem engraxado para outro.
- o senhor nunca ouviu falar do clube do sexo?
Paris chegou em casa exausta. Aquela era a hora que normalmente levantava da 
cama. Costumava tomar caf da manh quando todo mundo estava almoando. Tinha 
sado 
Da rotina aquele dia. Se no dormisse algumas horas  tarde, ficaria um zumbi 
quando encerrasse a transmisso aquela noite.
Mas depois do encontro inesperado com dean, era improvvel que conseguisse 
dormir.
Fez um sanduche de pasta de amendoim que nem queria comer e sentou  mesa da 
cozinha, guardanapo no colo, fingindo que era uma refeio de verdade. Enquanto 
comia, 
Verificou a correspondncia.
Quando chegou ao envelope pequeno, azul-claro, com o logotipo conhecido no canto 
superior esquerdo, parou de mastigar. Engoliu um pedao do sanduche com um copo 
Inteiro de leite, como se quisesse ganhar fora para enfrentar o contedo do 
envelope.
A carta de trs pargrafos era do diretor do hospital meadowview. Educadamente, 
mas com firmeza, com uma linguagem que no dava margem a uma interpretao 
errada, 
Ele pedia para ela retirar os pertences do antigo paciente, falecido, sr. Jack 
donner.
"como no respondeu aos meus inmeros telefonemas", dizia a carta, "tenho de 
supor que no recebeu os recados. Portanto, esta carta se presta a notificar que 
os 
Pertences do sr. Donner sero retirados do hospital, caso no venha peg-los."
O prazo para pegar as coisas era at o dia seguinte. Amanh. E ele falava srio. 
A data estava sublinhada.
Enquanto jack era paciente do meadowview, paris tratava todo o pessoal de l 
pelo primeiro nome, desde o diretor at o zelador. Aquilo parecia uma carta para 
uma 
Pessoa estranha. A pacincia dele tinha se esgotado com ela, sem dvida por ter 
ignorado suas mensagens telefnicas.
Paris no tinha voltado mais  clnica particular desde o dia em que jack morreu 
no quarto 203. Nos seis meses seguintes, no teve mais foras para ir at l, 
nem 
Para pegar as coisas dele. Com pouqussimas excees, ia ao hospital todos os 
dias, durante sete anos, mas depois de sair de l naquele ltimo dia, no 
conseguiu 
Mais retornar.
A relutncia dela no era s egosmo. No queria desrespeitar jack lembrando 
dele deitado naquele leito de hospital, braos e pernas definhando, apesar dos 
exerccios 
Dirios com a eficiente equipe de fisioterapeutas de meadowview. No era mais 
auto-suficiente do que um beb, no conseguia falar, s balbuciava, no se 
alimentava 
Sozinho, no podia fazer nada, a no ser ocupar espao e contar com a dedicao 
dos profissionais de sade para cuidar das suas necessidades mais pessoais.
E foi nessas condies em que ele viveu - existiu - nos ltimos sete anos da 
vida. Merecia mais do que ser lembrado daquele jeito.
Paris cruzou os braos sobre a mesa e apoiou a cabea neles. Fechou os olhos e 
visualizou jack donner como era quando o conheceu. O jack forte, bonito, cheio 
de 
Vida e seguro de si...
- ento voc  a novata que est causando toda essa sensao. Quando disse isso, 
ele estava atrs dela. A primeira impresso que teve ao olhar para ele foi a 
arrogncia 
Do seu sorriso. O cubculo que ela ocupava na sala do noticirio mal dava para 
um giro completo. Estava entulhado de caixas que ainda tinha de esvaziar. Jack 
fingiu 
No notar que contribua para a falta de espao.
- a novata - repetiu ela com frieza.
- voc est sendo falada por aqui. No me force a repetir o que ouvi para no me 
arriscar a ser processado por assdio sexual.
- acabei de entrar para a equipe de jornalismo, se  isso que quer dizer.
- para a equipe de jornalismo "premiada" - corrigiu ele, e o sorriso ficou ainda 
maior. - voc no presta ateno nas promoes da nossa emissora?
- voc trabalha no departamento de promoes?
- no, sou o responsvel pelo comit de recepo. Na verdade, eu sou o comit de 
recepo oficial. A minha funo  dar boas-vindas a todos os recm-chegados.
- obrigada. J me considero bem recebida. Agora, se me der...
- na verdade, sou do departamento de vendas. Jack donner. Ele estendeu a mo, e 
ela o cumprimentou.
- paris gibson.
- bom nome.  artstico ou verdadeiro?
- verdadeiro.
- quer almoar comigo?
A audcia de jack no era ofensiva. Ao contrrio, fez paris rir.
- no. Estou ocupada - ela ergueu os braos, indicando as caixas em volta. - vou 
levar a tarde toda para organizar essa tralha. Alm do mais, acabamos de nos 
conhecer.
-ah, .
Ele ficou pensando naquele dilema e mordeu o lbio inferior de um jeito que 
devia saber que parecia simptico e afetuoso. Ento, sorriu de novo.
- jantar?
Paris no jantou com ele aquela noite. Nem nas trs vezes seguintes em que ele a 
convidou. Trabalhou muito, semanas a fio, cobrindo o maior nmero possvel de 
histrias 
Que o editor tinha para ela. Era sempre candidata a todo tempo no ar que 
conseguisse, sabendo que a exposio era o nico modo de criar o reconhecimento 
do seu nome, 
Da sua voz e do seu rosto para o pblico.
Visava o cargo de ncora do noticirio da noite. Podia levar um ou dois anos 
para chegar l. Tinha muito que aprender e muita coisa para provar, mas no via 
motivo 
Para ambicionar qualquer coisa a no ser o mximo. Por isso, estava sempre 
ocupada demais se estabelecendo no mercado televisivo de houston para aceitar 
convites.
E jack donner estava seguro demais de que ela acabaria sucumbindo ao seu charme. 
Ele tinha a beleza tpica do garoto americano. Personalidade cativante, humor 
contagiante. 
Todas as mulheres do prdio, desde as estagirias at a av, que administrava o 
departamento de contabilidade, eram apaixonadas por ele. O mais surpreendente 
era 
Que os homens tambm gostavam dele. Jack mantinha o recorde de vendas h vrios 
anos consecutivos, e no era segredo para ningum que estava sendo preparado 
para 
A diretoria.
- diretoria do primeiro escalo - confidenciou ele para paris.
- eu quero ser diretor geral, e depois, quem sabe? Um dia posso at ter a minha 
estao.
Jack certamente possua ambio e carisma para conquistar o que quisesse, e 
conseguir sair com ela era seu principal objetivo a curto prazo. Finalmente, 
paris acabou 
Cansando, e aceitou.
Na primeira vez que saram, ele a levou para um restaurante chins. A comida era 
horrorosa e o servio ainda pior, mas jack fez paris rir o tempo todo, criando 
histrias 
Para cada um dos infelizes garons. Quanto mais bebia o saque, mais engraadas 
ficavam as histrias.
Quando abriu seu biscoito da sorte, ele assobiou.
- caramba, escuta s isso - ele fingiu ler. - parabns. Depois de meses tentando 
seduzir uma certa dama, esta noite voc ter sorte.
Paris quebrou o biscoito dela e tirou a sorte.
- o meu diz, "desconsidere a sorte anterior".
- voc no vai dormir comigo?
Ela riu da expresso desanimada dele.
- no, jack, no vou dormir com voc.
- tem certeza?
- tenho.
Mas, depois de quatro meses saindo juntos, ela dormiu. Depois de seis, todos na 
emissora de televiso j os tratavam como namorados. No natal, jack pediu paris 
em 
Casamento, e no anonovo ela aceitou.
Em fevereiro, nevou. Houston, onde a neve era rara como o cometa hale-bopp, 
parou, e por isso as equipes de reportagem passaram a trabalhar tempo dobrado 
para cobrir 
Todas as histrias relacionadas ao clima, desde o fechamento das escolas aos 
abrigos para os sem-teto, aos inmeros acidentes nas estradas geladas. Paris 
trabalhou 
Dezesseis horas seguidas, ficou muito tempo  merc das intempries numa van da 
reportagem que no a protegia do vento, tomando caf morno, cumprindo prazos 
apertados.
Quando finalmente voltou para casa, jack estava na cozinha, mexendo uma panela 
de sopa caseira.
- se eu nunca amei voc antes - disse ela, levantando a tampa e respirando fundo 
-, agora eu amo.
- eu cozinharia para voc todas as noites se viesse morar comigo.
- no.
- por que no?
- ns j falamos disso um milho de vezes, jack - disse ela, desanimada, 
enquanto tirava as botas encharcadas.
Ele se abaixou para massagear-lhe os dedos congelados.
- vamos recapitular. Eu sempre esqueo suas desculpas esfarrapadas. Voc sabe 
que meu pau  maior do que a minha capacidade de concentrao. E voc no fica 
contente 
Com isso?
Paris tirou o p das suas mos quentes. A massagem estava boa demais para ter, 
ao mesmo tempo, aquela discusso to repetida.
- antes do casamento eu quero manter a minha independncia. - vendo que ele j 
ia impor seu argumento, ela acrescentou:
- e se voc continuar a insistir nisso, vou adiar o casamento por mais seis 
meses.
- voc  uma mulher durona, paris gibson, em breve donner. Tomaram a sopa e 
acabaram com a garrafa de vinho que
Jack tinha aberto antes de paris chegar. Ele nem sugeriu passar a noite com ela, 
e paris agradeceu-lhe a sensibilidade de perceber sua exausto.
Quando foi at a porta para se despedir, paris notou que os trs centmetros de 
neve que imobilizaram a cidade j comeavam a derreter. Toda aquela ralao da 
cobertura 
Do noticirio ia virar histria por causa de alguns graus no termmetro.
- graas a deus que amanh  sbado - disse ela, suspirando, encostada no 
batente da porta. - vou dormir o dia inteiro.
- trate de acordar a tempo para amanh  noite.
- o que tem amanh  noite?
- voc vai conhecer o meu padrinho de casamento.
Recentemente, jack tinha dito que seu melhor amigo do colgio estava se mudando 
de volta para houston depois de formarse em alguma coisa, numa universidade em 
outro 
Estado, que naquele momento ela no conseguia lembrar qual era. S sabia que 
jack estava muito animado com o retorno do amigo e mal podia esperar para 
apresent-los.
- o que ele est achando da polcia de houston? - perguntou ela, bocejando.
- ele disse que ainda  cedo para saber, mas acha que vai gostar. Vamos tentar 
organizar um jogo de basquete no ginsio
Enquanto voc estiver dormindo. Passamos para peg-la por volta das sete da 
noite.
- estarei pronta. - paris j ia fechar a porta, e ento chamou jack. - desculpe, 
jack, mas como  mesmo o nome dele?
- dean. Dean malloy.
Paris levantou a cabea, sem ar.
Estava na cozinha da casa dela, mas levou algum tempo para se orientar. O 
devaneio dera lugar ao sonho. Estava dormindo profundamente. O ngulo da luz do 
sol que 
Entrava pela janela tinha mudado. Seus braos formigavam porque tinha deitado 
sobre eles e impedido a circulao do sangue. Sacudi-los s piorou a sensao 
desagradvel. 
Estendeu a mo insensvel para atender o telefone. Por causa dele tinha 
despertado de repente.
- aqui  paris - disse ela, por fora do hbito.


Captulo oito
- quando foi a ltima vez que foi ao dentista, amy?
- no lembro. Talvez alguns anos.
O dr. Brad armstrong franziu a testa muito srio.
- tempo demais entre uma reviso e outra.
- tenho medo de dentista.
- ento no consultou o dentista certo - ele piscou para ela.
- at agora.
Ela deu uma risadinha.
- tem sorte de eu ter encontrado apenas uma crie.  pequena, mas precisa de uma 
restaurao.
- vai doer?
- doer? Devo informar que, neste consultrio, dor  palavra proibida - ele deu 
um tapinha no ombro dela. - o meu trabalho  consertar seu dente. O seu  deitar 
e 
Relaxar enquanto fao isso.
- o valium ajuda muito. J estou ficando sonolenta.
- no vai demorar.
A assistente havia pedido permisso da me de amy para dar uma pequena dose de 
calmante a fim de deix-la menos aflita e tornar o trabalho menos estressante 
para 
A paciente e o dentista. A me ia voltar para lev-la para casa. Assim, ele 
podia cuidar da restaurao enquanto ela flutuava nas nuvens.
De acordo com a ficha, amy tinha quinze anos, mas era bem desenvolvida. Tinha 
pernas timas. A saia curta revelava coxas macias e bronzeadas, e batata da 
perna musculosa.
Ele adorava o vero. Vero significava pele. J temia a chegada do outono e do 
inverno, quando as mulheres abdicavam das sandlias e passavam a usar botas, e 
trocavam 
As pernas nuas por meias opacas. As saias ficavam mais compridas e os ombros, 
expostos no vero por frentes-nicas e alas finas, ficavam escondidos sob 
suteres. 
A nica coisa boa dos suteres era que s vezes
Eram bem justos, e a sugesto do que havia por baixo podia ser maravilhosamente 
inspiradora.
A paciente respirou fundo e o babador de papel deslizou para um lado. Ele ficou 
tentado a levant-lo para dar uma espiada nos seios dela. Se amy reclamasse, 
podia 
Dizer que estava pondo o babador de volta no lugar, s isso.
Mas ele se conteve. A assistente podia entrar na sala e, diferente da paciente, 
no estava dopada com valium.
Examinou novamente as pernas da menina. Relaxadas, tinham rolado para fora, 
deixando vrios centmetros de espao entre os joelhos. O tecido elstico da 
saia funcionava 
Como uma segunda pele. Moldava a depresso entre as coxas e delineava a vulva. 
Estava de calcinha? Ele imaginou. A possibilidade de no estar deixou o dentista 
excitado.
Tambm ficou imaginando se amy era virgem. Depois dos catorze, poucas eram. De 
acordo com as estatsticas, a probabilidade era grande da menina j ter estado 
com 
Um homem. Ela saberia o que esperar de um homem com teso. No ficaria muito 
chocada se...
- dr. Armstrong? - a assistente apareceu, interrompendo o sonho acordado. - ela 
est pronta para a anestesia?
Ele jamais deixava os pacientes sequer ouvir a palavra "injeo". Desceu do 
banquinho, fingindo estudar as radiografias da paciente.
- est. Pode dar. Vamos fazer para dez minutos.
- j estou com tudo pronto.
O dr. Brad armstrong tirou as luvas de ltex, foi para a sua sala particular e 
fechou a porta. Sua pele ardia. O corao batia acelerado. Se no fosse pelo 
jaleco 
Que usava, a assistente teria visto sua ereo. E se no fosse a interrupo 
dela, bem na hora, talvez tivesse cometido um erro terrvel. E no podia cometer 
mais 
Um.
Mas aquela outra vez... Ora, no tinha sido culpa dele.
A menina esteve na cadeira dele trs vezes em dois meses, e mais simptica a 
cada consulta. Simptica uma ova, flertava com ele abertamente. Sabia exatamente 
o que 
Estava fazendo. Seu jeito provocante de sorrir toda vez que deitava na 
cadeira... Aquilo no tinha sido praticamente um convite para passar a mo nela?
E ento, quando ele fez isso, ela armou um escndalo to grande que os scios, 
todos os higienistas e a maioria dos pacientes se desabalaram pelo corredor e 
entraram 
No consultrio, onde a encontraram berrando acusaes contra ele.
Se tivesse os vinte e cinco anos que aparentava ter, e no fosse menor de idade, 
as acusaes seriam desconsideradas. Mas acontece que acreditaram nela, e ele 
foi 
Convidado a largar a prtica. Na manh seguinte, quando chegou no consultrio, 
os scios o esperavam na porta com a ruptura do contrato que inclua um cheque 
de 
Aviso prvio de trs meses de rendimentos. Naquelas circunstncias, consideravam 
isso justo. Adeus e boa sorte.
Babacas puritanos.
Mas as repercusses no pararam por a. Os pais da menina, enfurecidos porque um 
macho heterossexual e normal havia reagido aos sinais convidativos transmitidos 
Pela filha tesuda, moveram um processo contra ele, por atos libidinosos com uma 
menor. Como se ela fosse uma criana. E como se no tivesse pedido aquilo. E 
como 
Se no tivesse gostado da mo dele deslizando entre suas coxas.
Ele foi arrastado para o tribunal como criminoso e, seguindo o conselho do seu 
advogado incompetente, forado a pedir desculpas para a vadia conivente. Ele se 
declarou 
Culpado das alegaes humilhantes para receber uma "sentena leve" de 
aconselhamento obrigatrio e sursis.
Mas a deciso do juiz foi muito mais branda do que a de toni.
- essa  a ltima vez, brad - avisou ela.
J que tinha conseguido escapar da priso, no era lgico que deviam comemorar? 
Mas no. A mulher dele tinha outros planos, que incluam bater naquela tecla do 
"vcio" 
Dele at a morte.
- no agento passar por outra provao como essa - disse toni.
E passou horas resmungando sobre o seu "comportamento destrutivo".
Tudo bem, tinham havido outros incidentes, como o da clnica onde comeou a 
praticar odontologia. Tinha mostrado algumas fotografias para uma higienista. 
Era uma 
Brincadeira, pelo
Amor de deus! Como  que ia saber que ela era fantica pela bblia e que 
provavelmente pensava que os bebs deviam nascer com enormes folhas de parreira 
pregadas 
No umbigo? A mulher espalhou uma fofoca to maldosa a respeito dele que brad 
acabou saindo da clnica por livre e espontnea vontade. Mas toni continuava 
achando 
Que a responsabilidade era dele.
E ela finalmente concluiu, dizendo:
- vou deixar isso ainda mais claro para voc, brad. Eu me recuso a passar por 
outra provao como essa. E no vou permitir que nossos filhos sofram com isso. 
Eu 
Te amo - ela declarou com lgrimas nos olhos. - no quero me divorciar de voc. 
No quero destruir o nosso lar e a nossa famlia. Mas vou deix-lo se no 
procurar 
Ajuda e controlar o seu vcio.
Vcio. E da se tinha um impulso sexual muito forte? Isso era um vcio} ela dava 
a entender que ele era um depravado.
S que no era idiota. Sabia que tinha de se adaptar ao mundo em que vivia. Se a 
sociedade ia ser puritana, tinha de se ajustar s regras consensuais. Precisava 
Andar na trilha estreita e reta definida pela igreja e pelo governo, e os dois 
caminhavam juntos naquela questo. Um passo em falso, fora dos seus limites 
idiotas, 
Da chamada decncia, e, alm de pecador, voc se transformava num criminoso 
tambm.
At uma simples paquera com outra paciente poderia custar sua carreira. Tinha 
levado oito meses para conseguir aquele trabalho em austin, bem depois do 
dinheiro 
Do aviso prvio ter sido gasto e a conta da poupana raspada.
Aquela clnica no era to prspera quanto a anterior. Seus scios atuais no 
eram to especializados, nem to renomados, como eram os antigos parceiros. Mas 
o trabalho 
Pagava o financiamento da casa. E sua famlia gostava de austin, onde ningum 
conhecia o motivo da mudana deles para l.
Nas semanas que se seguiram ao pesadelo no tribunal, toni fazia careta cada vez 
que brad encostava nela. Continuava a dividir a cama com ele, s que brad achava 
Que era apenas um disfarce, pelo bem das crianas.
Depois de um tempo, toni permitiu que a segurasse e beijasse, e ento, quando o 
responsvel pela terapia de grupo deu a ele uma estrela dourada pelo progresso 
que 
Tinha feito no caminho
Da "cura", recomeou a fazer sexo com ele. Parecia razoavelmente satisfeita, at 
algumas noites atrs, quando brad se descuidou e passou a noite inteira fora de 
Casa.
Inventou uma histria plausvel, e ela talvez continuasse acreditando, se no 
tivesse chegado to tarde na vspera. A histria sobre o seminrio de impostos 
no 
Colou. Ele foi at l e assinou a folha de presena para haver um registro do 
seu comparecimento. Mas jamais pretendeu ficar, e saiu logo depois da primeira 
hora 
Entediante.
E se viu num inferno aquela manh por causa disso. Toni espantou as crianas da 
mesa do caf e mandou que fossem l para cima, incumbidos de diversas tarefas. 
Depois, 
Sem aviso, perguntou:
- onde voc esteve a noite passada, brad?
Nenhuma introduo, apenas aquele ataque surpresa raivoso, que o deixou 
imediatamente irritado.
- voc sabe onde estive.
- fiquei acordada at depois das duas da madrugada e voc no tinha voltado. 
Nenhum seminrio sobre impostos dura esse tempo todo.
- e no durou. Terminou por volta das onze. Conheci uns caras l. Samos para 
beber uma cerveja. Descobrimos que estvamos com fome. Pedimos comida.
- que caras?
- eu no sei. Uns caras. S trocamos o primeiro nome. Joe, acho que era esse o 
nome dele, um executivo da motorola. Grant ou greg, algo parecido,  dono de 
trs 
Lojas de tintas e materiais de construo. O outro...
- voc est mentindo - exclamou ela.
- bom, obrigado por me dar o benefcio da dvida.
- voc no fez por merecer, brad. Tentei entrar no seu escritrio ontem  noite. 
A porta estava trancada.
Ele ficou de p e empurrou a cadeira com tanta fria que arranhou o cho 
ruidosamente.
- grande coisa. A porta estar trancada. No fui eu que tranquei. Uma das 
crianas deve ter trancado. Mas o que voc ia fazer l? Ver se podia encontrar 
alguma coisa 
Contra mim? Bisbilhotar? Espionar?
-.
- pelo menos voc admite. - ele soltou o ar demoradamente, como se precisasse de 
tempo para se recuperar. - toni, o que h de errado com voc ultimamente? Toda 
vez 
Que saio de casa, voc me pe para assar em fogo lento.
- porque voc anda saindo de casa com mais freqncia, e fica fora tempo demais, 
um tempo do qual no quer, ou no pode, dar satisfao.
- dar satisfao? O que  isso? No sou adulto? No posso ir e vir aonde quero? 
Tenho de avisar a voc se resolver parar para tomar uma cerveja? Quando tiver de 
Mijar, devo telefonar primeiro para voc e pedir permisso?
- isso no vai funcionar, brad - disse toni, numa compostura de enlouquecer. - 
no vou deixar voc virar a mesa e fazer com que eu me sinta culpada de 
perguntar 
Por que voc ficou fora de casa at de madrugada. V para o trabalho. Seno vai 
se atrasar.
E essa foi a ltima coisa que toni disse. Saiu da cozinha pisando firme, com a 
coluna reta como se tivesse uma viga mestra enfiada no rabo.
Brad deixou toni ir. Ele a conhecia. Quando chegava naquele ponto de indignao 
virtuosa, ele podia ficar rastejando horas, que nada que dissesse ou fizesse 
iria 
Satisfaz-la. Ficaria uma pedra de gelo vrios dias. Com o tempo, acabaria 
derretendo, mas enquanto isso...
Meu deus! Era de admirar que ele no sentisse vontade de ir para casa aquela 
noite? Quem ia querer se enroscar com um picol? Se sasse da linha aquela 
noite, a 
Culpa seria de toni, no dele.
Estava feliz pois tinha encontrado uma nova vlvula de escape para o seu 
"vcio". Era sexo, em todas as variantes possveis, para ele escolher quando bem 
quisesse. 
Pensando no que estava  sua disposio, ele sorriu.
Enfiou a mo por baixo do jaleco e esfregou o pnis. Gostava de ficar com uma 
semi-ereo, por isso passava o dia todo dando espiadinhas espordicas e 
furtivas nas 
Fotos que mantinha trancadas na gaveta da escrivaninha, ou ento, se tivesse 
certeza de que no ia ser flagrado, visitava seus sites preferidos. Um ou dois 
minutos 
Bastavam. Algumas pessoas bebiam caf para bater uma
Punheta rpida. Ele descobriu uma coisa muito mais estimulante do que cafena.
A tarde ia ser longa, mas mesmo a simples idia do que ia fazer j era 
deliciosa.
Apresse-se, noite.


Captulo nove
Quando paris entrou na sala onde j a esperavam, dean e os outros dois homens se 
levantaram. Tinham se reunido numa pequena sala dentro do bureau central de 
investigaes 
Que normalmente era usada para entrevistar testemunhas ou interrogar suspeitos. 
Era apertada, mas garantia o sigilo.
Curtis puxou uma cadeira de baixo da mesa para paris. Ela agradeceu meneando a 
cabea e sentou. Ainda usava culos escuros. Dean mal podia ver os olhos dela 
atrs 
Das lentes escuras. Odiava imaginar por que jamais os tirava.
- espero que no tenha sido inconveniente demais voltar para o centro - comentou 
curtis.
- vim o mais depressa que pude - disse paris.
Todos olharam juntos para o relgio de parede. Eram quase duas horas da tarde. 
Ningum precisava ser avisado que doze horas do prazo de valentino j tinham 
passado.
O detetive apontou para o terceiro homem na sala.
- este  john rondeau. John, paris gibson.
Paris chegou para a frente e estendeu a mo por cima da mesa.
- sr. Rondeau.
-  um prazer, srta. Gibson. Sou seu f - disse ele quando
Apertou a mo dela.
-  bom ouvir isso.
- escuto sempre o seu programa.  uma honra conhec-la. Dean resolveu se 
concentrar no policial, a quem tinha sido
Apresentado minutos antes de paris chegar. Rondeau era jovem, em boa forma e 
bonito. Halterofilista, pela aparncia dos bceps. O rosto dele brilhava como 
uma rvore 
De natal quando olhava para paris. Era bvio que rondeau tinha se apaixonado  
primeira vista por paris, como o novato griggs.
E dean suspeitava que o mesmo tivesse acontecido com o sargento curtis. Tinham 
ido almoar no stubb's. O restaurante
Mais famoso de austin, conhecido pelo churrasco, pela cerveja e pela msica, 
ficava a poucos quarteires do quartel-general da polcia. Foram a p.
No horrio do almoo, no havia nenhuma banda tocando no anfiteatro sob os 
carvalhos nos fundos, mas funcionrios famintos da assemblia legislativa 
estadual e dos 
Escritrios do centro faziam fila s dzias para pedir carne defumada com molho 
picante.
Preferindo no esperar por uma mesa, curtis e ele pediram sanduches de fil que 
levaram para a varanda, onde comeram  sombra.
Dean esperava que curtis fizesse perguntas sobre paris, mas achava que a 
abordagem do detetive seria sutil. Em vez disso, curtis deu uma dentada no 
sanduche e depois 
Perguntou diretamente:
- o que h entre voc e paris? Chamas antigas?
Talvez fosse a candura de curtis o motivo dele ser um investigador to bem-
sucedido. Pegava os suspeitos de surpresa, com a guarda abaixada. Esforando-se 
para parecer 
Despreocupado, dean deu uma mordida no sanduche antes de responder.
-  mais como gua por baixo da ponte.
- e imagino que seja muita gua. Dean continuou a mastigar.
- voc no quer falar sobre isso? - insistiu o detetive. Dean limpou a boca com 
um guardanapo de papel.
- eu no quero falar sobre isso.
Curtis meneou a cabea como se dissesse,  justo.
- voc  casado?
- no. Voc ?
- divorciado. Vai fazer quatro anos.
- filhos?
- um menino e uma menina. Moram com a me.
- a sua mulher casou de novo? Curtis bebeu um gole de ch gelado.
- eu no quero falar sobre isso.
Deixaram o assunto morrer e voltaram a conversar sobre o caso, que na verdade 
ainda no era um caso, mas temiam que viesse a se tornar um. Mas agora dean 
sabia que 
Curtis estava
Solteiro, e o detetive nunca perdia a oportunidade de dar a paris uma exibio 
de cavalheirismo.
Paris atraa esse tipo de ateno dos homens. Naquele tempo todo que a conhecia, 
nunca tinha visto paris fazer papel de sedutora. Ela no tinha afetao, no 
ficava 
Sorrindo o tempo todo. No flertava, nem chamava ateno deliberadamente, 
tampouco usava roupas provocantes. No era nada que ela fazia. Era o que
Ela era.
Bastava olhar para ela uma vez para desejar ter muito tempo para estud-la. O 
corpo no era voluptuoso como o de liz. Na verdade, o corpo de paris era meio 
anguloso 
E de menino, e ela era mais alta do que a mdia. O cabelo, castanho-claro com 
mechas em diversos tons de louro, sempre parecia meio despenteado, o que 
certamente 
Era sexy, pensava dean. Mas s isso no bastaria para atrair a ateno dos 
machos.
Talvez fosse a boca. As mulheres se sujeitavam a injees dolorosas de colgeno 
para conseguir aquele bico. Paris recebera o dela geneticamente. Ou ser que 
eram 
Os olhos? Eram simplesmente espetaculares. Azuis e abissais, convidavam para um 
mergulho, uma nadada neles, para ver se algum dia voc poderia chegar ao fundo. 
No 
Que algum pudesse ver qualquer coisa nos olhos dela agora, pois estavam 
escondidos atrs dos culos escuros.
O jovem john rondeau, no entanto, parecia no se importar. Estava praticamente 
petrificado.
- descobriram mais alguma coisa desde hoje de manh? -
Perguntou ela.
- descobrimos, mas no sabemos se  importante.
Paris tinha feito a pergunta para curtis mas, ao responder, dean forou-a a 
olhar para ele, coisa que ela evitava sistematicamente desde que ele entrara na 
sala.
- estamos aqui para discutir a validade dessa informao.
Curtis fez coro.
- rondeau trabalha na nossa unidade de crimes de informtica.
- eu no estou entendendo - disse paris. - o que crimes de
Informtica tm a ver com o que vocs me pediram?
- vamos chegar l - respondeu o detetive. - eu sei que parece no ter relevncia 
nenhuma, e talvez no tenha mesmo.
- por outro lado - disse dean -, tudo podia estar ligado.  isso que estamos 
tentando determinar. Essas so as fitas? - ele apontou para a sacola de lona que 
paris 
Tinha levado junto com a bolsa.
- so. O vox pr armazena mil minutos de material gravado.
- de modo que quando ligam para l ele grava automaticamente? - perguntou 
curtis. -  assim que vocs selecionam as ligaes e evitam que as pessoas 
gritem obscenidades 
Para os seus ouvintes?
Ela sorriu.
- algumas j tentaram. Por isso cada chamada  gravada. Depois, eu posso 
escolher guard-la e pr no ar, ou apag-la.
- como faz para passar as gravaes para as fitas cassete? Perguntou dean.
- no  fcil. Um dos engenheiros me fez o favor de descobrir um meio. 
Periodicamente, ele descarrega - o termo  dele, no meu - as gravaes do 
computador vox 
Pr em fitas cassete para mim.
- por qu?
Ela deu de ombros, meio constrangida.
- nostalgia, talvez. As conversas mais interessantes tambm podem ser teis se 
um dia eu resolver fazer uma fita de demonstrao.
- bem, sejam quais forem os seus motivos para guard-las, agora estou contente 
que tenha feito isso - disse curtis.
- espero que entendam que se perde qualidade nesse processo de duplicao - 
disse ela. - as fitas no so to claras quanto a original.
- no tem importncia - retrucou dean. - a qualidade s pode adquirir 
importncia mais tarde, se for necessrio fazer uma impresso de voz. Mas, no 
momento, tudo 
Que queremos saber  se a ligao  qual valentino se referiu  verdadeira ou 
inveno.
"por isso pedimos para ouvir as fitas que voc recebeu nessa ltima semana. Se 
realmente houve tal ligao, e se ouvi-la no seu programa foi estmulo para 
valentino, 
Ento temos de rastrear essa chamada at a mulher que a fez."
- se no for tarde demais - murmurou paris.
A julgar pelas expresses em volta da mesa, todos na sala concordavam com a 
preocupao dela.
- voc se lembra de algum telefonema como o que valentino descreveu? - perguntou 
curtis.
- pode ser. Andei pensando nisso desde a nossa conversa esta manh. Recebi uma 
ligao trs noites atrs. Quando estava vindo para c, ouvi essa conversa no 
toca-fitas 
Do meu carro. Marquei a fita e deixei no ponto.
Dean encontrou a fita marcada entre as outras na sacola, enfiou no toca-fitas e 
apertou play. Aqui  paris. Oi, paris.
No que est pensando esta noite, ouvinte? Bem, sabe, conheci um cara poucas 
semanas atrs. E ns nos demos muito bem. Quero dizer, uma paixo muito louca. 
(uma risadinha.) 
Meio extico.
Ns no precisamos de mais detalhes num programa familiar. (outra risadinha da 
ouvinte.) Mas gosto de sair com outros caras tambm. Por isso agora ele inventou 
de 
Ter cime o tempo todo. Ficou possessivo, sabe?
Voc quer levar o relacionamento para um outro nvel? Voc quer dizer sentir 
amor por ele? No, de jeito nenhum. A coisa toda  s divertimento. S isso. 
Talvez 
No seja para ele. Ento isso  problema dele. Eu apenas no sei o que fazer
Com ele.
Se voc acha que o relacionamento est opressivo, deve fazer alguma coisa. O meu 
conselho  terminar da forma mais rpida e indolor possvel. Seria cruel ficar 
dando 
Corda para ele quando o seu corao no est mais nisso.
Est bem, obrigada.
-  s isso - disse paris. - ela desligou.
Dean desligou o toca-fitas. Fez-se um silncio pesado alguns segundos, depois 
todos comearam a falar ao mesmo tempo. Curtis indicou paris, dando a palavra a 
ela.
- eu s ia dizer que essa ligao pode no ter absolutamente nenhuma conexo com 
valentino. Foi uma conversa bem boba.
Eu s pus no ar porque ela estava muito animada. Pela voz, percebi que era muito 
jovem. A minha audincia  composta principalmente de pessoal um pouquinho mais 
Velho. Eu quis ampliar para incluir a galera mais jovem, por isso, quando 
aparece uma chamada de algum jovem, costumo usar.
- voc pegou o nmero do telefone?
- verifiquei no vox pr. O identificador de chamadas dizia "indisponvel".
- os outros ouvintes reagiram  sua conversa com ela?
- vocs podem ouvir alguns comentrios na fita. Algumas pessoas deram conselhos 
interessantes, de como ela devia terminar com ele. A outras, eu agradeci terem 
ligado 
Mas no pus no ar e apaguei no vox pr.
"no lembro de ter atendido mais ningum essa semana falando sobre o fim de um 
namoro, nem fora do ar. Mas converso com dezenas de pessoas todas as noites. A 
minha 
Memria no  cem por cento."
- importa-se de deixar essas fitas conosco um tempo? - perguntou curtis.
- essas so suas. Mandei fazer cpias.
- acho que vou pedir para algum ouvir todas... Quantas horas de gravao tem 
a?
- algumas, eu acho. Peguei trs semanas. So quinze noites no ar, mas  claro 
que apago mais do que gravo.
- vou pedir para algum ouvir e ver se h alguma ligao parecida que escapou da 
sua lembrana.
- valentino respondeu a essa? - dean perguntou.
- aquela noite, voc quer dizer? No. Ele sempre se identifica pelo nome. A 
noite passada foi a primeira vez que falei com ele depois de muito tempo. Tenho 
certeza 
Disso.
Curtis ficou de p.
- obrigado, paris. Agradecemos a sua ajuda. Espero que no tenha sido 
inconveniente t-la chamado para c mais uma vez.
- estou to preocupada quanto vocs.
Parecia que ele queria acompanh-la na sada, mas paris continuou sentada. 
Curtis hesitou.
- tem mais alguma coisa?
Dean sabia por que paris relutava em partir. A intuio de reprter dava sinais 
de vida. Ela queria a histria completa, e no ia parar at conseguir.
- imagino que ela queira saber o que est acontecendo - disse ele.
- , quero sim - ela confirmou, balanando a cabea.
Curtis se esquivou.
- mas  assunto da polcia.
- para voc, . Mas para mim  assunto pessoal, sargento. Especialmente se 
descobrirem que valentino  algum que eu conheo. Eu me sinto responsvel.
- mas no  - retorquiu dean, falando com mais rispidez do que pretendia. Todos 
olharam para ele. - se ele for o que diz,  um psicopata. Podia fazer uma coisa 
dessas 
Conversando ou no com voc no rdio.
Curtis concordou.
- ele tem razo, paris. Se esse cara  perturbado como parece, vai acabar 
fazendo uma loucura, mais cedo ou mais tarde, de qualquer jeito.
- s est fornecendo um plpito para ele, srta. Gibson - disse rondeau.
- e por causa disso,  o nosso nico elo com ele - dean olhou para curtis, ainda 
de p ao lado da cadeira de paris. -  por isso que ela acha que tem o direito 
de 
Saber que pistas estamos investigando.
Curtis franziu a testa, mas sentou de novo. Ento olhou bem para paris e, com 
sua franqueza caracterstica, declarou:
- talvez tenhamos uma menina desaparecida.
- talvez?
Dean observou paris enquanto curtis resumia o que griggs tinha dito para eles 
sobre a filha do juiz baird kemp. J conhecia os fatos, por isso pde se 
concentrar 
Unicamente em paris, que se agarrava a cada palavra.
Era bvio que paris tinha cultivado uma audincia considervel na rdio, mas ele 
ficou pensando se ela sentia falta dos noticirios na televiso. Como maquiagem 
Especial para teatro, aquilo no ficava no sangue da pessoa?
Paris tinha o dom para isso, conquistava a confiana dos
Espectadores com suas reportagens firmes e imparciais. Era suficientemente 
inteligente para saber que se agisse com cortesia ou charme demais, iam 
consider-la uma 
Cabea-de-vento que provavelmente tinha chegado  funo pulando de cama em 
cama. Levado para o extremo oposto, iam pensar que ela era uma mulher chata e 
pernstica, 
Com inveja do pnis.
Paris conseguiu o equilbrio perfeito. Era uma reprter agressiva, como qualquer 
um dos seus colegas homens, mas sem sacrificar em nada a sua feminilidade. Podia 
Ter levado sua carreira at onde quisesse.
Se.
A exclamao suave fez dean voltar para o presente.
- no se teve notcia nenhuma dessa menina por quase vinte e quatro horas, e s 
agora os pais dela comearam a se preocupar?
-  difcil de acreditar, no ? - disse dean. - eles no notificaram 
formalmente a polcia, por isso o desaparecimento de janey no  oficial. Mas 
no tivemos queixa 
De ningum mais desaparecido.  uma probabilidade em mil, mas uma coincidncia 
que curtis e eu achamos que devemos investigar.
Paris rapidamente associou as coisas.
- e se a pessoa que fez a ligao for a filha do juiz...
- foi por isso que pedimos as fitas - disse dean. - ela deu o nome?
- infelizmente, no. Vocs ouviram a gravao. E no me lembro desse nome. Se 
tivesse ouvido falar em janey recentemente, ou kemp, que  mais incomum ainda, 
acho 
Que me lembraria. Alm do mais, isso no  um certo exagero?  coincidncia 
demais para servir de base para uma investigao.
- achamos isso tambm. At saber desse clube na internet. O clube do sexo.
- o qu? Rondeau se animou.
-  a que eu entro - ele olhou para curtis como se pedisse permisso para 
continuar.
Curtis deu de ombros.
- v em frente. Ela poderia descobrir isso sozinha. Rondeau contou sua histria.
- o site est na internet h uns dois anos. Janey kemp foi uma das... 
Fundadoras, digamos assim. Comeou como um quadro de recados onde os 
adolescentes podiam se 
Comunicar, mais ou menos anonimamente. Usando apenas seus apelidos de usurios e 
endereos de e-mail.
"com o tempo, as mensagens foram ficando mais explcitas, o assunto mais 
picante, at o objetivo evoluir e virar o que  hoje, basicamente uma coluna de 
recados 
Pessoais via internet. Eles paqueram no ciberespao."
- paqueram? - zombou dean. - as mensagens que eles trocam so mais como 
preliminares.
O policial mais jovem disse:
- eu no queria ofender a srta. Gibson.
- ela  adulta, e no estamos na escola dominical. - dean olhou para paris 
diretamente. - o nico objetivo do clube do sexo  anunciar sexo. Os garotos 
pem mensagens 
Divulgando o que fizeram e o que querem fazer com o parceiro certo. Se querem 
mais privacidade com algum, entram em salas de bate-papo e dizem sacanagens uns 
para 
Os outros. Eis um exemplo - ele abriu uma pasta e tirou a folha que tinham 
impresso no computador de curtis.
Paris deu uma lida rpida com ar de desnimo.
- mas so crianas - disse ela, levantando a cabea.
- a maioria do segundo grau - explicou rondeau. - eles se renem num lugar 
determinado toda noite.  um imenso mercado de troca.
- parece que parte da diverso - disse curtis -  tentar juntar os indivduos 
com seus apelidos da rede, ver se conseguem descobrir quem  quem.
- e se um casal que j conversou na internet se encontra,
Eles fazem sexo - disse dean.
- ou no - disse rondeau, corrigindo dean. - as vezes no gostam do que vem. A 
outra pessoa no corresponde s expectativas. Ou algum melhor aparece nesse 
meio-tempo. 
Ningum  obrigado a ser fiel.
- os caras dos crimes no computador descobriram o site disse curtis - e, como a 
maioria dos usurios  menor de idade, chamaram a ateno da unidade de 
atentados 
Contra menores,
Que investiga crimes sexuais contra crianas e pornografia infantil, que esto 
sob os auspcios do bureau central de investigaes.
- ele cruzou os braos sobre o torso atarracado. -  uma investigao com muitas 
ramificaes, de modo que podemos pr muita gente trabalhando nela.
- essa  a boa notcia - disse rondeau. - a m  que impedir isso  praticamente 
impossvel.
Paris balanava a cabea, incrdula.
- vamos ver se entendi direito. Meninas como janey kemp vo a um lugar 
determinado para encontrar estranhos que provocaram pela internet, insinuando 
que fariam sexo 
Com eles.
- certo - disse rondeau.
- ser que so loucas? Ser que no percebem o risco que esto correndo? Se 
encontram o parceiro da sala de bate-papo, e ele  menos do que um brad pitt, 
elas dizem 
"no, obrigada" e ficam  merc de um homem que deixaram excitado e que fica... 
Decepcionado, para dizer o mnimo.
- elas raramente ficam  merc de qualquer um, srta. Gibson
- disse o jovem policial em voz baixa. - no estamos falando de freiras. So 
meninas de programa. Em geral, cobram por seus servios.
- elas pedem dinheiro?
- no pedem. Exigem - explicou rondeau. - e conseguem. Muito dinheiro.
Essa informao provocou um silncio atnito generalizado. Depois de um tempo, 
curtis disse:
- o que nos preocupa, paris, fora o bvio,  que qualquer um que queira entrar 
para esse suposto clube  aceito. Para conseguir uma senha e acesso a esse site, 
voc 
S precisa dar alguns cliques no mouse. O que significa que qualquer predador 
sexual, qualquer depravado, saberia aonde ir procurar a prxima vtima.
- o que  pior - disse dean -  que a vtima provavelmente iria com ele por 
livre e espontnea vontade. Ele teria de empenhar pouqussimo esforo.
- isso  alarmante, tendo ou no ligao com valentino disse paris.
- e  uma batalha perdida - comentou rondeau. - ns acabamos com o picadeiro de 
pornografia infantil. Mas para cada
Um que estouramos, outras dzias aparecem e prosperam. Trabalhamos com os 
federais, com a operao trovo blue ridge, uma rede de informao no pas todo 
que lida 
Especificamente com crimes contra crianas via internet. No temos como cuidar 
de tudo. A troca consensual de e-mails pornogrficos feita pelos adolescentes 
no 
 prioritria.
-  como distribuir multas por atravessar a rua fora da faixa, enquanto do outro 
lado da cidade membros de gangues trocam
Tiros.
- e quanto aos pais de janey? - perguntou paris. - eles j
Sabem disso?
- eles tiveram problemas com ela - respondeu curtis. - ela tem um histrico de 
mau comportamento, mas eles provavelmente no sabem de tudo que ela faz. Ns no 
quisemos 
Alert-los dessa possvel conexo entre o seu desaparecimento e o telefonema de 
valentino at termos mais dados. Espervamos que as suas fitas esclarecessem 
alguma 
Coisa.
- no ajudaram muito, no ? - disse paris. - sinto muito. Depois de uma batida 
discreta, a porta se abriu e outro detetive apareceu.
- desculpe interromper, curtis. Tenho um recado para voc. Curtis pediu licena 
e saiu da sala.
Paris consultou o relgio.
- se no precisam mais da minha ajuda, tenho de ir. Rondeau quase quebrou o 
pescoo levantando da cadeira
Para puxar a dela.
- a que horas tem de estar na rdio, srta. Gibson?
- por volta das sete e meia. E, por favor, chame-me de paris.
- tem de preparar muita coisa antes da hora?
- eu seleciono as msicas e preparo a programao diria a ordem em que as 
msicas so tocadas. Um outro departamento, chamado de "trnsito", pe os 
anncios antes.
"apesar disso, grande parte da programao  espontnea. Eu nunca sei a msica 
que algum ouvinte pode pedir. Mas posso inserir essa msica na programao na 
mesma 
Hora, porque temos uma discoteca computadorizada."
- nunca fica nervosa quando vai ao ar?
Ela deu risada e balanou a cabea, ficou mais despenteada e mais atraente.
- fao isso h tempo demais para sentir aquele n no estmago.
- voc opera o equipamento todo sozinha?
- se est se referindo  mesa de controle, sim. E opero as minhas linhas 
telefnicas tambm. Eu no quis ter um produtor. Gosto de ter um programa do eu-
sozinha.
- quando comeou, teve de aprender muita coisa tcnica?
- um pouco, mas, sinceramente, voc deve saber muito mais sobre o funcionamento 
de um computador do que eu sei sobre a fsica das ondas de rdio.
O cumprimento implcito produziu um sorriso apatetado em rondeau.
- trabalhar sozinha  chato, s vezes?
- no. Eu gosto de msica. Todas as pessoas que telefonam me mantm ligada. Cada 
transmisso  diferente da outra.
- no se sente sozinha trabalhando l toda noite?
- na verdade, eu gosto.
Antes que rondeau pedisse para ser o pai dos filhos dela, dean intercedeu.
- acompanho voc at l fora, paris.
Enquanto dean a conduzia at a porta, paris disse:
- gostaria que me mantivessem informada. Faa o favor de pedir para o sargento 
curtis telefonar para mim quando souberem de alguma coisa.
O sargento curtis. No ele. A afronta no podia ser mais direta, e dean ficou 
tremendamente irritado. Ele era da polcia, assim como o sargento robert curtis. 
E 
Mais graduado.
Dean passou a mo pelas costas de paris para segurar a maaneta. Mas a porta se 
abriu sem a ajuda dele, e curtis estava do outro lado. Sua pele estava bem mais 
vermelha 
Do que de costume. O que restava do cabelo claro parecia estar todo em p.
- bem, a merda j est no ventilador - anunciou ele. - de alguma maneira, um 
reprter do tribunal ficou sabendo que a polcia estava procurando janey kemp. 
Ele perguntou 
Diretamente ao juiz quando voltava do recesso do almoo. O meritssimo no est 
contente.
- a vida da filha dele pode estar em risco e ele se preocupa com exposio na 
mdia? - exclamou paris.
- exatamente o que eu acho - disse dean. - no estou nem a se ele est contente 
ou no.
- timo. Voc ter a oportunidade de dizer isso na cara dele. O chefe mandou 
procurar kemp e tentar amansar o bicho. Agora.


Captulo dez

Paris subiu com o carro na entrada circular da casa dos kemp logo atrs do 
taurus comum do sargento curtis. Desceu do carro dela ao mesmo tempo que ele. E, 
antes 
De curtis ter a chance de dizer qualquer coisa, paris disse:
- eu vou tambm.
- isso  trabalho para a polcia, srta. Gibson.
Se tinha resolvido voltar a usar o tratamento formal era porque estava 
aborrecido. Mas paris no recuou.
- fui eu que comecei essa histria toda quando fui procurlo esta manh. Se 
nunca mais souber do valentino e descobrir que o telefonema de ontem  noite foi 
um trote, 
Terei de me desculpar com voc, com a polcia de austin e especialmente com essa 
famlia. E se no for trote, estou envolvida diretamente, e eles tambm, o que 
me 
D o direito de falar com eles.
O detetive olhou para dean como se quisesse conselhos para lidar com paris 
quando ela adotava aquela postura insistente.
-  voc que decide, curtis - disse dean. - mas paris  muito boa para conversar 
com as pessoas.  o que ela faz.
Partindo de um negociador treinado, aquilo era um elogio e tanto. Curtis pensou 
um pouco e disse, a contragosto:
- est bem, mas no sei por que quer se envolver mais ainda nisso.
- no foi escolha minha. O valentino me ps nisso. Dean e paris seguiram o 
detetive at a porta.
- obrigado por me apoiar - disse paris s para dean.
- no me agradea ainda - ele inclinou a cabea para a larga porta da frente que 
se abria enquanto subiam os degraus da varanda. - parece que ele estava  
espreita.
O juiz baird kemp era alto, tinha aparncia distinta e era um homem bonito, 
quando no fazia aquela cara feia, olhando para curtis, que obviamente conhecia 
bem.
- estou tentando abafar isso, curtis, e o que  que a polcia de austin faz? 
Manda mais policiais para a minha casa. Que merda est acontecendo com vocs? E 
quem 
So eles?
O mrito de curtis devia ser reconhecido, pois ele manteve a calma, apesar do 
rosto e do pescoo ficarem mais vermelhos
Ainda.
- juiz kemp, dr. Dean malloy. Ele  o psiclogo da polcia.
- psiclogo?
Dean nem se incomodou de estender a mo para o juiz, sabendo que seria ignorado.
- e esta  paris gibson - disse curtis, apontando para ela. Se o nome de paris 
significava alguma coisa para o juiz, ele
No deu sinal. Depois de examin-la rapidamente, olhou furioso
Para curtis.
- foi voc que inventou esse boato falso, que a minha filha
Est desaparecida?
- no, juiz, no fui eu. Foi o senhor. Quando telefonou para um dos seus amigos 
policiais e disse para ele comear a procur-la.
Uma veia saltou na testa de kemp.
- eu disse para o delegado que exigia saber quem tinha espalhado essa histria, 
que foi um exagero muito grande. E ele manda voc, um analista e uma... - ele 
olhou 
De lado para paris. No importa. Que diabos vocs vieram fazer aqui?
- baird, pelo amor de deus.
Uma mulher apareceu na porta e o repreendeu com um olhar
Srio.
- ser que podem fazer a gentileza de vir ter essa conversa aqui dentro, onde 
menos pessoas tero a oportunidade de ouvir
Por acaso?
Ela passou uma rpida vista de olhos em todos eles, que por muito pouco no foi 
hostil, e depois disse, irritada:
- querem entrar, por favor?
Mais uma vez, paris e dean seguiram atrs de curtis. Foram levados para uma sala 
de estar elaboradamente decorada, que poderia ser um salo em versalhes. O 
decorador 
Tinha superfaturado o oramento com uma sobrecarga de brocados, dourados, 
molduras e borlas.
O juiz marchou para um requintado carrinho de bebidas, serviu um drinque para 
ele de uma jarra de cristal e bebeu tudo de uma vez s, como se fosse remdio. A 
sra. 
Kemp sentou no brao delicado de um sof como se no pretendesse ficar muito 
tempo.
Curtis permaneceu de p, parecendo deslocado como um hidrante naquela sala cheia 
de frufrus.
- sra. Kemp, teve notcia de janey?
Ela olhou para o marido antes de responder.
- no. Mas quando ela chegar em casa vai enfrentar um problema muito srio.
Paris no pde deixar de pensar que a menina j podia estar enfrentando um 
problema muito mais srio naquele momento.
- ela  uma adolescente, pelo amor de deus. - o juiz tambm estava de p, 
olhando com raiva para eles como se fosse sentenci-los a vinte anos de 
trabalhos forados. 
- adolescentes inventam essas encrencas o tempo todo. S que quando  a minha 
filha que faz isso, sai em todos os jornais.
- vocs no percebem que essa publicidade negativa s piora as coisas?
Para quem? Paris ficou impressionada de ver que a principal preocupao da sra. 
Kemp era a publicidade. No devia estar mais preocupada com a ausncia da menina 
Do que com o que diriam a respeito?
Curtis ainda tentava usar diplomacia.
- senhor juiz, eu no sei quem, dentro da polcia de austin, falou com aquele 
reprter. E provavelmente nunca saberemos. O culpado no vai se apresentar e 
admitir 
Isso, e o reprter vai proteger a fonte. Sugiro que deixemos esse assunto e 
passemos para...
- para voc,  fcil falar.
- no  nada fcil - falou dean pela primeira vez, e o seu tom de voz foi to 
imperativo que todos os olhares viraram para ele. - gostaria muito que ns trs 
tivssemos 
Vindo at aqui, de chapu na mo, para implorar o seu perdo por um erro de 
julgamento, uma brecha de sigilo, um alarme falso. Infelizmente estamos aqui 
porque sua 
Filha pode estar correndo um perigo muito srio.
A sra. Kemp passou do brao do sof para a almofada.
O juiz foi pego de surpresa.
- o que quer dizer? Como sabe?
- talvez seja melhor eu dizer por que estou aqui - disse paris baixinho.
O juiz semicerrou os olhos.
- qual  seu nome mesmo? Voc  aquela caa-gazeteiros que ficava nos assediando 
no ano passado?
- no - paris apresentou-se novamente. - eu tenho um programa de rdio. Todas as 
noites de segunda a sexta, das dez at s duas da madrugada.
- rdio?
- ah! - exclamou a sra. Kemp - paris gibson.  claro. Janey
Escuta o seu programa.
Paris trocou olhares com dean e curtis antes de virar de novo para o juiz, que 
aparentemente no a conhecia, nem o seu
Programa.
- os ouvintes telefonam e s vezes ponho a conversa no ar.
- programa de entrevistas no rdio? Um bando de esquerdistas radicais falando 
disso e daquilo.
O juiz devia ser o indivduo mais desagradvel que paris tinha
Visto na vida.
- no - disse ela calmamente -, o meu programa no  de
Entrevistas.
Paris j ia descrever o formato do que fazia no rdio quando
Ele interrompeu.
- j entendi. E da?
- s vezes o ouvinte telefona para desabafar algum problema pessoal.
- com uma perfeita estranha?
- eu no sou uma estranha para os meus ouvintes.
O juiz ergueu uma sobrancelha que comeava a ficar grisalha. Aparentemente no 
estava acostumado a ser contrariado ou corrigido. Mas paris no se intimidava 
com 
Algum de quem j tivesse formado uma opinio to depreciativa.
Flagrantemente rude, o juiz descartou paris e virou de novo
Para curtis.
- eu ainda no entendi o que uma dj de rdio tem a ver
Com tudo isso.
- acho que isso pode explicar - o detetive ps o toca-fitas porttil sobre a 
mesa de centro. - posso?
- o que  isso?
- sente-se, baird - disse a mulher dele, secamente.
Paris notou sinais de apreenso nos olhos da outra mulher. Finalmente estava 
comeando a compreender a seriedade da situao.
- o que tem no gravador? - perguntou a sra. Kemp para curtis.
- queremos que vocs ouam para ver se reconhecem a voz da sua filha.
O juiz olhou para paris.
- ela telefonou para voc? Para qu?
Paris, assim como os outros, ignorou o juiz quando a fita comeou a rodar.
Bem, sabe, eu conheci um cara poucas semanas atrs.
Paris viu que dean observava atentamente a sra. Kemp. A reao dela foi 
imediata, mas ser que por ter reconhecido a voz, ou por causa da descrio que 
a menina 
Fazia do caso breve mas quente, quente, quentssimo que teve?
Quando a fita acabou, dean perguntou  sra. Kemp:
- essa  a voz de janey?
- parece que . Mas ela raramente fala conosco com essa animao toda, por isso 
 difcil dizer.
- senhor juiz? - perguntou curtis.
- eu tambm no tenho certeza absoluta. Mas que diferena faz se for ela? Ns 
sabemos que ela tem namorados. Pula de um para outro com tanta rapidez que no 
conseguimos 
Acompanhar. Ela  uma menina muito popular. O que isso tem a ver com essa 
histria toda?
- esperamos que nada - respondeu curtis. - mas pode estar relacionado com uma 
outra ligao que paris recebeu de um ouvinte.
Enquanto falava, curtis trocou uma fita por outra. Antes de ligar a segunda, ele 
disse para a sra. Kemp:
- peo o seu perdo, senhora. Algumas coisas que ele diz so bem grosseiras.
Ouviram em silncio. Quando valentino desejou boa-noite a paris, o juiz estava 
de costas para todos, espiando pela janela da frente. A sra. Kemp apertava o 
punho 
Cerrado e branco contra os lbios.
O juiz deu meia-volta bem devagar e olhou para paris.
- quando foi que recebeu essa ligao?
- logo antes de encerrar o programa, na noite passada. Liguei imediatamente para 
o 911.
Curtis comeou a explicar a partir dali e ps os dois a par de
Tudo.
- janey  a nica pessoa desaparecida da qual temos notcia. Se foi ela que 
conversou com paris no incio da semana, pode
Ter relao.
- se ouvisse uma evidncia to furada como essa no meu
Tribunal, ia ignor-la.
- talvez ignorasse, senhor juiz, mas eu no - declarou curtis.
- depois que o reprter lhe fez aquela pergunta direta, eu soube que o senhor 
ordenou que cancelassem a busca da sua filha. Bem, o senhor deve saber que 
enquanto 
Conversamos aqui, os nossos homens esto intensificando a busca e policiais da 
inteligncia esto usando todos os recursos.
O juiz parecia prestes a implodir.
- com autoridade de quem?
- a minha - disse dean. - eu fiz essa recomendao, e o sargento curtis agiu de 
acordo.
A sra. Kemp olhou para dean.
- desculpe, ns no fomos formalmente apresentados. Eu
No sei quem...
Dean apresentou-se de novo e explicou o motivo do seu envolvimento.
-  muito possvel que isso acabe sendo um trote, sra. Kemp. Mas at termos 
certeza, precisamos levar a srio essas ameaas.
Ela se levantou subitamente.
- algum quer caf?
Antes de qualquer um responder, a sra. Kemp saiu apressada da sala.
O juiz resmungou uma ladainha de improprios.
- isso era necessrio? - perguntou para dean.
Dean j estava tendo dificuldade para se conter. Paris reconheceu a tenso na 
postura e a rigidez do maxilar quando ele se levantou e encarou o juiz.
- eu estou torcendo para o senhor poder abrir um processo contra mim. Espero que 
janey entre aqui danando e faa com que eu parea um completo idiota. O senhor, 
Ento, ter o prazer de dizer isso na minha cara, e talvez at de conseguir que 
me demitam.
"mas, enquanto isso no acontece, a sua grosseria  imperdovel e sua 
obstinao, estupidez. Recebemos um prazo de setenta e duas horas, e at agora o 
senhor j 
Desperdiou vinte minutos desse tempo agindo como um tolo. Sugiro que deixemos 
de lado os nossos egos para nos concentrar em encontrar a sua filha."
O juiz e dean mediram foras com o olhar. Nenhum cedia ao outro, numa silenciosa 
disputa de temperamentos. Finalmente, curtis pigarreou.
- e... Quando foi a ltima vez que viu janey, juiz?
Kemp ficou aliviado de ter uma desculpa para interromper o contato visual com 
dean.
- ontem - respondeu rapidamente. - pelo menos marian a viu ontem.  tarde. 
Chegamos em casa tarde, ontem  noite. Pensamos que ela estava no quarto. S 
descobrimos 
Esta manh que no tinha dormido em casa. - ele sentou, cruzou as pernas 
compridas, mas a despreocupao parecia afetao. - tenho certeza que deve estar 
com as 
Amigas.
- tenho um filho mais ou menos da idade de janey - disse dean. -  terrvel s 
vezes. H momentos em que qualquer um poderia pensar que nos odiamos. 
Descontando 
Os altos e baixos da convivncia com um adolescente, o senhor diria que em geral 
tem um bom relacionamento com janey?
O juiz parecia pronto para responder a dean que a relao com a filha no era da 
conta dele. Mas controlou-se e disse, tenso:
- s vezes, ela  bem difcil.
- foge do castigo? Toma porres? Sai com uma turma que o senhor no considera boa 
companhia? Digo isso por experincia prpria, o senhor entende.
Pondo os dois no mesmo plano, dean estava desfazendo aos poucos as barreiras do 
juiz, e curtis parecia satisfeito, deixando
Que ele falasse.
- tudo isso que voc disse - o juiz admitiu antes de se virar para paris. - o 
sargento curtis disse que esse degenerado j telefonou para voc antes.
- um homem que usou esse nome, sim.
- sabe alguma coisa sobre ele?
- no.
- no tem idia de quem ele ?
- infelizmente, no.
- voc provoca esse tipo de lascvia nos seus ouvintes de
Propsito?
A pergunta incriminadora surpreendeu paris. Antes de poder elaborar uma 
resposta, dean se adiantou:
- paris no pode ser considerada responsvel pelos atos dos ouvintes do seu 
programa.
- obrigada, dean, mas posso responder sozinha. - ela encarou o olhar de censura 
do juiz. - no me importo com o que o senhor pensa de mim, ou do meu programa, 
juiz 
Kemp. No preciso, nem quero, a sua aprovao. S estou aqui porque fui a 
primeira a ouvir o recado de valentino e estou to preocupada quanto dean... O 
dr. Malloy. 
Respeito a opinio dele, como psiclogo e tambm como criminalista. A capacidade 
investigativa do sargento curtis  insupervel.  mais sensato o senhor levar 
seriamente 
Em considerao o que eles esto dizendo.
"quanto  minha opinio, ela se baseia em muitos anos de experincia. Escuto 
pessoas em todas as situaes possveis. Elas conversam comigo, rindo e 
chorando. Dividem 
Suas alegrias, tristezas, sofrimentos, coraes partidos, euforias. s vezes, 
mentem. Em geral, sei quando esto mentindo, quando fingem alguma emoo, 
querendo 
Me impressionar. s vezes fazem isso, pensando que aumentar suas chances de 
serem postas no ar."
Paris apontou para o gravador.
- ele nem sequer insinuou ser posto no ar. No foi por isso que telefonou. Ele 
telefonou para me dar um recado e no achei que estivesse mentindo ou fingindo 
nada. 
No acho que foi um trote. Acho que ele fez, e vai fazer, o que disse.
"insulte-me se isso fizer com que se sinta melhor mas, independentemente de 
qualquer coisa que diga, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para ajudar a 
polcia 
A trazer sua filha s e salva de volta."
O silncio tenso que se seguiu ao discurso de paris foi abrandado pela chegada 
de marian kemp. Parecia ter esperado justamente aquele momento para reaparecer.
- resolvi que ch gelado era melhor.
Ela foi seguida por uma empregada uniformizada que carregava uma bandeja de 
prata. Nela havia longos copos de ch gelado enfeitados com rodelas de limo e 
folhinhas 
De hortel. Cada copo sobre um porta-copos de linho bordado. Um pote de prata 
com cubos de acar e pegadores tambm de prata.
Depois que todos se serviram e a empregada se retirou, curtis ps o copo de ch 
meio sem jeito sobre a mesa de centro.
- tem um outro elemento nisso que os senhores deviam saber - disse ele para os 
kemp. - a sua filha tem um computador?
- fica o tempo todo navegando nele - respondeu marian.
O juiz e marian kemp ouviram em silncio ptreo o que curtis contou sobre o 
clube do sexo. Ao fim do relato, o juiz exigiu saber por que tinham sujeitado a 
mulher 
Dele a ouvir tanta imundcie.
- porque precisamos ter acesso ao computador de janey.
O juiz explodiu em protestos veementes. Curtis e ele mergulharam numa discusso 
acalorada sobre procedimentos investigativos, privacidade e justificativa 
putativa.
Finalmente, dean se meteu na briga.
- a segurana dessa menina no tem prioridade sobre essas questes legais? - o 
grito dele fez calar os dois e dean tirou proveito disso. - precisamos de uma 
cpia 
De tudo que h no disco rgido de janey.
- no vou permitir - retrucou o juiz. - se essa coisa de clube do sexo existe, a 
minha filha no tem nada a ver com isso.
- oferecendo-se para fazer sexo com estranhos - fungou marian kemp. -  
revoltante.
- e falando como pai  aterrador - disse dean para ela. Mas eu preferia saber do 
que ficar no escuro, a senhora no?
Aparentemente no, dean pensou, quando nem o juiz nem a mulher responderam.
- ns no queremos invadir a privacidade de janey, nem a sua. Mas o computador 
dela poderia nos dar pistas de onde ela pode estar.
- por exemplo? - perguntou o juiz.
- amigos e conhecidos que os senhores no conhecem. Pessoas que enviam e-mails 
para ela.
- se vocs descobrissem qualquer coisa incriminadora, jamais seria admitida num 
tribunal, porque foi obtida ilegalmente.
- ento por que se preocupar?
O juiz tinha criado a prpria armadilha, e sabia disso. Dean continuou:
- se janey tiver uma pasta de endereos de e-mails, e tenho certeza que tem, 
poderamos mandar uma mensagem para todos, perguntando se a viram, e para entrar 
em 
Contato com vocs.
- e anunciar para o mundo que a me dela e eu no somos capazes de cuidar da 
prpria filha.
Dean no gostava daquela gente, mas no teve coragem de afirmar o que era o 
bvio ululante: que eles no estariam ali se os kemp tivessem cuidado melhor da 
filha.
- os amigos dela vo reconhecer o e-mail e abrir a carta disse ele. - vamos 
assinar a mensagem como se fossem vocs, no a polcia, e prometer que qualquer 
um que 
Queira dar informaes poder permanecer annimo.
- sra. Kemp - disse paris gentilmente -, um e-mail atingiria muita gente, com 
mais eficincia do que uma investigao policial dos lugares que janey costuma 
freqentar. 
Alm do mais, os jovens ficam nervosos quando a polcia est por perto, mesmo 
quando no esto fazendo nada de errado. Os amigos de janey no iam querer falar 
sobre 
Ela para um policial. Responderiam com muito mais naturalidade a um e-mail.
Era um argumento persuasivo que ganhava mais fora com a voz suave de paris. A 
sra. Kemp olhou para o marido e de novo para paris.
- vou mostrar o quarto dela.
O convite parecia ser apenas para paris, que se levantou ao mesmo tempo que a 
sra. Kemp e saiu com ela da sala.
Sem dizer palavra, o juiz girou nos calcanhares e foi para a sala ao lado. Pelo 
que dean pde ver, olhando para a porta aberta antes do juiz fech-la com 
estrondo, 
Parecia ser uma biblioteca ou escritrio.
Curtis bateu de leve com as mos nas coxas ao se levantar.
- isso foi um sucesso, no acha?
Dean sorriu com a observao irnica, mas certamente no sentia vontade nenhuma 
de sorrir.
- acho que o meritssimo est se isentando de toda essa histria suja.
- aposto meu culho esquerdo que ele est l no telefone descascando o delegado 
por causa do novo psiclogo da polcia.
- eu no dou a mnima. No me arrependo de nada que disse, e diria tudo de novo.
- , bem, de vez em quando eu tenho de testemunhar nos julgamentos dele. Tenho 
de ficar pulando de um lado para outro, fazendo mdia com os dois. Mas acho que 
da 
Prxima vez que estiver no banco das testemunhas, o meu depoimento ser 
desacreditado - ele passou a mo pelo cabelo ralo. - vou at l fora fazer umas 
ligaes 
Para ver se h alguma novidade para poder dormir mais tranqilo esta noite.
Dean seguiu curtis at a escadaria.
- ficarei aqui esperando a paris.
- achei que faria isso.
Dean no tinha uma resposta adequada para a frase de despedida do detetive, por 
isso deixou passar. Enfiou as mos nos bolsos da cala e analisou o hall de 
entrada 
Formal. O piso era de placas de mrmore. No teto, havia um luxuoso lustre de 
cristal que se refletia nas superfcies de madeira polida de dois consoles 
idnticos, 
Um de frente para o outro no vestbulo espaoso.
Em cima de uma das mesas, pendurado na parede, havia um retrato pintado a leo 
de marian kemp. E na parede oposta, sobre a mesa igual  outra, um quadro do 
mesmo 
Artista, de uma menina que devia ter uns sete anos. Usava um vestido de vero, 
de um tecido branco bem leve. Estava descala. O artista havia capturado a luz 
do 
Sol brilhando nos cachos do cabelo louro-claro. Ela parecia angelical e 
completamente inocente.
O telefone celular de dean vibrou dentro do bolso do palet. Verificou o visor e 
reconheceu o nmero do celular de liz. No atendeu, convencendo-se de que aquela 
No era uma boa hora. Liz tinha ligado duas vezes antes. E em horas que tambm 
no eram boas.
Dean ouviu passos no espesso tapete da escada e viu paris e marian kemp 
descendo. Paris inclinou a cabea sutilmente para ele. Tinha nas mos um 
disquete que lhe 
Foi entregue assim que chegou ao seu lado. Dean guardou no bolso.
- obrigado, sra. Kemp.
Apesar de ter cooperado, marian no tinha simpatizado com eles.
- acompanho vocs at a porta.
Ela abriu a porta da frente e, quando viu a jovem parada na entrada com o 
sargento curtis, exclamou:
- melissa! Eu pensei que voc estivesse na europa.
Ao ouvir seu nome, a menina virou para os trs. Era alta e magra, e 
provavelmente atraente por baixo da maquiagem aplicada com a delicadeza de um 
guerreiro se preparando 
Para a batalha.
- ei, sra. K. Acabei de voltar.
- ela  amiga da janey? - perguntou dean para marian kemp.
-  a melhor amiga dela. Melissa hatcher.
Atrs do carro de paris, havia um bmw conversvel ltimo tipo, moderno e 
vistoso, mas no dava para adivinhar, pelas roupas que usava, que aquela menina 
era de famlia 
Rica. Ela usava uma cala jeans cortada, com fiapos desiguais pendurados nas 
coxas. O cs tambm tinha sido cortado fora, sobrando apenas uma franja para 
segurar 
O short nos quadris. Duas safiras piscavam do piercing no umbigo. A gola e as 
mangas da camiseta, grandes demais, revelavam que no usava nada por baixo.
As meias trs quartos listradas pareciam muito pesadas, e as botas pretas 
amarradas nos tornozelos seriam mais apropriadas para um lenhador ou um 
mercenrio em atividade. 
Contrastando, a enorme bolsa pendurada no ombro era gucci.
- falou com janey depois que voltou? - perguntou marian kemp.
- no - respondeu melissa, como se estivesse aborrecida com a pergunta. - esse 
cara aqui estava fazendo um monte de perguntas. O que est havendo?
- janey no voltou para casa a noite passada.
- e da? Ela deve ter ficado na casa de algum. A senhora sabe - ela deu de 
ombros, e com isso a gola da camiseta deslizou at o meio de um dos braos. Deu 
uma olhada 
Para dean que era obviamente um flerte.
- pode nos dar alguns nomes?
Ela virou novamente para curtis e examinou-o de alto a baixo.
- nomes?
- das pessoas com quem janey poderia estar?
- voc  tira?
O detetive abriu o palet esporte e mostrou o distintivo preso ao cinto.
- que merda. O que foi que ela fez?
- nada, at onde sabemos.
- ela pode estar em perigo, melissa - paris desceu os degraus para juntar-se a 
eles.
A menina olhou curiosa para paris.
- perigo? Que tipo de perigo? Voc  tira tambm?
- no, eu trabalho numa estao de rdio. Sou paris gibson. Melissa hatcher 
tinha pintado os lbios com um batom que
Parecia preto, de to escuro que era o vermelho. Eles se entreabriram, atnitos.
- ah, qual , porra? Voc est brincando, certo?
- no.
- oh, meu deus - o prazer era provavelmente a reao mais sincera que a menina 
demonstrava havia meses. - que barato! Eu escuto o seu programa. Quando no 
estou 
Ouvindo cds. Mas s vezes simplesmente no estou a fim de ouvir cds. E ento 
ligo no seu programa. s vezes a msica que voc toca  uma bosta, mas voc  
maneirssima.
- obrigada.
- e gostei do seu cabelo. Isso so luzes?
- melissa, voc sabe se a janey j telefonou para mim alguma vez, quando eu 
estava no ar?
- ah, j. Umas duas vezes. Mas j faz algum tempo. Ns ligamos para voc no 
celular da janey e conversamos com voc, mas no demos nossos nomes, e voc no 
ps 
A nossa conversa no rdio. E isso foi legal, porque estvamos chapadas e talvez 
desse para perceber.
Paris sorriu para ela.
- quem sabe na prxima vez.
- janey telefonou para paris recentemente? - perguntou dean.
Olhos escuros, delineados num tom ainda mais escuro, viraram para ele. Paris 
apresentou-o para a menina como dr. Malloy. Ele estendeu a mo.
Melissa ficou meio espantada com o gesto educado, mas apertou a mo dele.
- que tipo de mdico voc ?
- psiclogo.
- psiclogo? Meu deus, o que foi que a janey fez? Passou um cheque sem fundos ou 
o qu?
- ns no sabemos. Ningum tem notcias dela h mais de vinte e quatro horas. Os 
pais dela esto preocupados, e ns tambm.
- ns? Voc  tira tambm?
- sou. Trabalho para a polcia.
- humm.
Melissa olhou desconfiada para os trs, e dean sentiu que ela se recolheu, 
temerosa. Eles a estavam perdendo. Apesar de f de paris gibson, seria leal  
amiga primeiro. 
E no daria muitas informaes sobre janey.
- como eu disse, no tenho idia de onde janey est, nem para quem ela 
telefonou, porque acabei de voltar da frana. Estou acordada h umas trinta 
horas direto, 
Por isso agora vou para casa, dormir. Quando janey aparecer, diga que j voltei, 
est bem sra. K.?
A bolsa gucci formou um arco no ar quando melissa deu meia-volta e saiu 
despreocupada para o carro dela. Mas logo antes de chegar ao carro, ela virou 
subitamente 
Para trs e bateu na testa com a mo cheia de pulseiras brilhantes e inmeros 
anis.
- porra, agora entendi! - disse ela apontando para dean. No admira que seja to 
marrento! Voc  o pai do gavin.


Captulo onze
- acorda, dorminhoca.
Janey abriu os olhos. Ele estava inclinado sobre ela, o rosto perto do dela, a 
respirao formava uma nuvem entre os dois. Ele beijou sua testa. Ela gemeu de 
modo 
Deplorvel.
- sentiu a minha falta?
Janey fez que sim com a cabea e ele riu. No acreditou nela, e no seria bom 
mesmo. Porque a primeira chance que tivesse, mataria aquele filho-da-puta.
Procurou evitar que o dio que sentia transparecesse no olhar, concluiu que o 
melhor que tinha a fazer era parecer submissa. O psicopata queria brincar, 
queria que 
Ela implorasse, queria domin-la.
Ento tudo bem. Seria seu brinquedinho contrito... At ele dar as costas para 
ela, e a arrebentaria a cabea dele.
- o que  isso? - ele notou o lenol manchado e estalou a lngua.
A menina tinha urinado na cama. O que  que ele esperava? Deixou-a abandonada 
ali por deus sabe quanto tempo. Ela segurou a vontade o mximo que pde, mas 
finalmente 
No teve escolha, teve de molhar a cama.
- voc ter de trocar a roupa de cama - ele disse.
Tudo bem, eu fao a cama. Desamarre-me, d-me um lenol limpo, que estrangulo 
voc com ele.
Ele afastou uma mecha do cabelo despenteado da garota.
- voc est cheirando a mijo e suor, janey. Andou fazendo algum esforo? O qu? 
Gostaria de saber - ele olhou em volta e parou na parede atrs da cama. - humm. 
Marcas 
Na pintura. Voc andou balanando a cama para a cabeceira bater na parede, no 
foi?
Droga! Ela queria incomodar algum vizinho, que com raiva das batidas montonas 
iria at l mandar parar. Ento, ao ser
Ignorado, reclamaria at o gerente resolver verificar a origem do barulho.
Ela seria encontrada, seu pai avisado e ele providenciaria para aquele babaca 
nunca mais ver a luz do sol. Iam prend-lo numa cela no poro do presdio e 
conceder
Visitas a todos os viados sarados do lugar.
O sonho de vingana de janey e de ser resgatada morreu quando ele puxou a cama 
para longe da parede.
- isso no pode, janey - ele abaixou e beijou novamente a testa dela. - desculpe 
estragar seu plano esperto, querida.
Janey olhou para ele com um desespero que no era totalmente fingido. E gemeu, 
implorando.
- precisa ir ao banheiro?
Ela fez que sim com a cabea.
- est bem. Mas tem de prometer que no vai tentar fugir. Seno vai acabar se 
machucando, e eu no quero machucar voc.
Eu prometo, disse ela por baixo da horrvel fita adesiva.
Ele desamarrou os ps primeiro. Janey achava que assim que estivessem livres ia 
comear a chutar e a lutar contra ele, mas levou um susto, pois suas pernas 
pareciam
De borracha. No se mexiam, e quando faziam qualquer movimento, era lento 
demais.
Ele desamarrou suas mos, pegou-a nos braos e levou-a para o banheiro. Ps 
janey de p perto da privada, levantou a tampa e gentilmente a fez sentar.
Ela levantou a mo para tirar a fita adesiva da boca.
- pode tirar - disse ele suavemente. - mas, se gritar, vai se arrepender.
Janey acreditou nele. Doeu arrancar a fita, mas depois de tir-la engoliu uma 
grande quantidade de ar pela boca.
- eu queria um pouco de gua, por favor - disse ela, sua voz
Um coaxar.
- faa o que tem de fazer aqui primeiro.
Ele no fez meno de sair. Janey ficou mortificada, pois as lgrimas encheram 
seus olhos.
- saia e feche a porta.
Ele franziu a testa para ela, impaciente.
- ah, o que  isso? Essa sbita modstia  absurda. Ande logo antes que eu mude 
de idia e deixe voc molhar a cama de novo.
Quando terminou, janey pediu novamente um pouco de gua.
-  claro, janey. Assim que voc trocar a roupa da cama. Voc deixou tudo muito 
sujo. Horrivelmente sujo.
Ela morria de sede, por isso, submissa, trocou os lenis molhados por lenis 
limpos. Quando completou a tarefa e ele ficou satisfeito, janey estava exausta e 
tinha 
Comeado a suar frio.
Ele a fez sentar na poltrona, onde podia vigi-la enquanto entrava na quitinete 
e abria uma garrafa plstica de gua. Ela esperava um copo. Podia quebr-lo e 
enfiar 
Um caco na garganta dele. Se tivesse fora para isso. Estava anormalmente fraca, 
at para algum que tinha ficado deitada horas na cama. Ser que ele a tinha 
drogado 
Na vspera? E ser que estava fazendo isso de novo naquele momento? Ser que 
tinha posto alguma coisa na gua?
Na verdade, ela no se importava com isso. Estava com tanta sede que bebeu a 
gua com sofreguido.
- est com fome?
- estou.
Ele fez um sanduche de queijo com pimento e deu para janey, pegando um pedao 
pequeno de cada vez com a ponta dos dedos e pondo na boca da menina. Ela pensou 
em 
Morder os dedos dele, mas isso ainda deixaria uma de suas mos livre. No tinha 
esquecido do tapa que fez sua viso escurecer e os ouvidos zunirem. No queria 
levar 
Outro.
Provocar dor nele, mesmo que momentnea, seria um prazer enorme para ela. 
Adoraria enfiar os dentes na carne dele, tirar sangue. Mas no seu estado seria 
impossvel 
Dar continuidade ao esforo de super-lo. A satisfao que teria seria breve 
demais e custaria muito caro. At poder fazer mais que apenas deix-lo furioso e 
com 
Ganas de vingar-se, era melhor guardar suas foras e procurar arquitetar um 
plano seguro de fuga.
Ela comeu todo o sanduche, e ele disse:
- gosto de voc assim, janey - ele acariciou a cabea dela, e com os dedos tirou 
os ns do cabelo. - essa submisso  muito excitante - ele tocou de leve nos 
mamilos 
Dela. - voc fica muito desejvel.
Afastou-se apenas tempo suficiente para pegar a mquina fotogrfica. A cmera 
nojenta. A cmera que a deixou intrigada e a fez pensar que ele era especial. Um 
tarado 
Especial, talvez.
Agora janey odiava aquela mquina e gostaria muito de esfregla na cara dele at 
os ossos e a cmera ficarem em pedaos.
Mas estava muito amedrontada para resistir quando ele a preparou em poses para 
diversas fotos obscenas.
- deite na cama.
Janey pensou em implorar, suplicar, prometer dinheiro para ele, jurar que jamais 
contaria para ningum o que tinha acontecido, se ele a deixasse ir. Mas talvez 
tivesse 
Mais poder para barganhar se o satisfizesse mais uma vez.
Por isso deitou na cama e fez exatamente o que ele mandou fazer. Quando ele 
terminou, janey nem tinha mais energia para levantar a cabea. Ele a tinha 
drogado. Tinha 
Certeza disso agora.
Observou apavorada quando ele abriu a gaveta da mesa-decabeceira e tirou um rolo 
de fita adesiva.
- no - choramingou ela. - por favor.
- detesto ter de fazer isso, janey, mas voc  uma puta. O seu amor no  puro. 
Voc  desonesta. No se pode confiar em voc, nem para ficar de boca fechada.
- eu fico. Eu juro.
Foi s isso que ela foi capaz de dizer, pois ele grudou um pedao de fita na sua 
boca. Dessa vez, ele tambm usou a fita adesiva para prender seus pulsos e 
tornozelos 
Na cama, to apertado que no deixava nenhuma folga.
Ele tomou uma chuveirada e depois se vestiu. Parado ao lado da cama, enfiou 
calmamente o cinto pelos passadores da cala.
- est chorando, janey? Por qu? Voc costumava ser a menina mais animada de 
todas.
Jogou os lenis sujos num saco da lavanderia e pegou suas chaves. J estava 
quase na porta quando estalou os dedos e voltou.
- quase ia esquecendo. Tenho uma surpresa para voc. Tirou uma fita cassete do 
bolso da jaqueta e ps no gravador
Do seu som.
- gravei isso a noite passada. Vai achar interessante.
Ele apertou o boto para tocar, soprou um beijo para ela e saiu. Trancou a porta 
pelo lado de fora.
Janey ouviu trinta segundos de silncio na fita e depois um telefone tocando. 
Tocou algumas vezes, e ento ela ouviu uma voz conhecida dizer:
- aqui  paris.
- al, paris. Aqui  valentino. O nome dele  valentino?
Foi a primeira coisa que pensou, porque reconheceu imediatamente a voz dele. No 
era a voz com que falava normalmente, mas outra, a que s vezes usava quando 
estavam 
Na cama. Janey tinha achado divertido ele conseguir baixar o tom da voz natural 
daquele jeito, torn-la sussurrante, fazer com que parecesse que estava fazendo 
algo 
Proibido... Que em geral estava mesmo.
E agora, ouvir aquela voz em estreo s provocava arrepios.
Ficou ouvindo enquanto ele contava a paris a histria dos dois do ponto de vista 
dele, e respirava rpido pelo nariz, observando o gravador fascinada, escutando 
A gravao com uma angstia que logo se transformou em terror. Quando ele disse 
a paris gibson quais eram seus planos para ela, janey comeou a berrar na cmara 
Oca da sua boca selada.
Mas  claro que ningum podia ouvi-la.
Toni chegou ao consultrio dentrio do marido logo antes de fechar. Um dos 
outros dentistas da clnica parou para conversar com ela. Pediu desculpas por 
ainda no 
Ter convidado brad e ela para jantar. Trocaram promessas de marcar uma data 
logo.
Parecia que brad no tinha dificuldade para manter as aparncias. Ela faria a 
mesma coisa pelo tempo que pudesse.
Toni entrou na sala e a recepcionista ficou surpresa de v-la.
- arrumei uma bab e pensei em fazer uma surpresa e jantar fora com brad - 
explicou ela.
- ah, que pena, sra. Armstrong. O dr. Armstrong saiu daqui h umas duas horas.
Pelo menos para a outra mulher a consternao ia parecer decepo.
- oh, bem, a minha noite surpresa foi para o brejo. Ele disse para onde ia?
- no, mas tenho certeza de que est com o celular.
- vou ligar para ele. Vai te atrapalhar se eu usar a sala dele?
- de jeito nenhum. E no se apresse. Tenho de arquivar umas coisas antes de ir 
embora.
Como brad era o scio mais novo, a sala dele era a menor, mas toni tinha feito o 
mximo para torn-la agradvel. Certificados e diplomas com molduras combinando 
Formavam um arranjo bonito na parede. Fotografias da famlia intercaladas com os 
livros nas estantes atrs da mesa dele, que estava arrumada.
Toni esperava que tudo estivesse limpo como parecia estar. Sentou na cadeira 
dele e iniciou a busca. Todas as gavetas estavam trancadas, mas, prevendo isso, 
toni 
Tinha ido preparada. Um grampo de cabelo torto abriu todas elas com o mnimo de 
esforo.
Era verdade que tinha arrumado uma bab para aquela noite. Tinha cuidado do 
cabelo e da maquiagem, e escolhido a roupa com a esperana de surpreender brad 
com uma 
Noite livre, para compensar aquela manh.
A briga deles perseguiu toni o dia inteiro. Brad sara de casa zangado. Ela 
estava magoada, alm de zangada. Arrumao da casa, planejamento do cardpio e 
uma mirade 
De outras tarefas domsticas que povoavam seus dias a mantiveram ocupada. Mas 
nada a distraa da briga e da possibilidade, por menor que fosse, de talvez ter 
se 
Enganado.
E se brad no estivesse mentindo quando contou onde estivera a noite passada?
Talvez ela tivesse procurado problema onde no existia. Se ele tivesse dito a 
verdade, devia ser muito frustrante aquele esforo todo para merecer crdito, 
sabendo 
Que ela ia pensar no pior. As probabilidades eram mnimas de brad ter realmente 
assistido ao seminrio e sado para tomar uma cerveja depois, mas, para manter a 
Famlia unida, toni estava suficientemente desesperada para contar com essa 
chance nfima.
Por isso, aquela tarde esperava encontr-lo no consultrio e fazer uma surpresa 
agradvel, um ramo de oliveira com uma reserva num restaurante italiano que ela 
queria 
Conhecer. Passando a noite sozinha com ele, longe de casa e das crianas, com 
uma garrafa de vinho e fazendo amor depois, toni esperava merecer o seu perdo 
por 
T-lo julgado mal e poder deixar aquele episdio para trs.
Brad, porm, no estava onde devia estar. Tinha sado mais cedo do trabalho sem 
dar explicao e sem informar para qual-
Quer pessoa o seu destino. Era um comportamento comum, um sinal bem conhecido, 
que deixava toni angustiada e dava motivo para arrombar as trancas das gavetas 
da 
Mesa do marido.
Alguns segundos depois, sua suspeita se confirmou. Dentro da ltima gaveta da 
escrivaninha havia um tesouro de pornografia escondido.
O material impresso variava de relativamente leve a extremamente descritivo. 
Algumas fotos mais obscenas, tanto em relao ao assunto quanto  composio, 
certamente 
Tinham sido tiradas por fotgrafos amadores.
Brad era viciado. Como todos os viciados, suscetvel a compulses. E, quando 
cedia  compulso, o viciado era capaz de fazer algo que normalmente no faria, 
como 
Assediar sexualmente um colega de trabalho ou acariciar uma paciente menor de 
idade.
E deus sabe o que mais.


Captulo doze
Havia um calo de banho molhado no cho do quarto dos fundos quando dean passou 
por l, ao entrar em casa. Encontrou gavin semi-reclinado no sof da sala de 
estar. 
Apertava os botes do controle remoto da televiso aleatoriamente, mudando de 
canal a cada dez segundos. Estava s com uma toalha amarrada na cintura e o 
cabelo 
Molhado.
- oi, gavin. -oi.
- esteve na piscina?
Sem tirar os olhos da televiso, ele respondeu:
- no. Eu apenas gosto de ficar de bobeira enrolado numa toalha.
- quando levar a toalha molhada para o quartinho dos fundos, pode aproveitar 
para pegar o calo que voc deixou no cho.
Gavin apertou mais botes.
- v tomar banho e depois vamos sair para comer - disse dean.
- no estou com fome.
- v tomar banho e depois vamos sair para comer - repetiu dean.
- e se eu no for, voc vai me bater de novo?
O olhar que dean deu para ele deve ter demonstrado que sua pacincia estava 
acabando. Gavin largou o controle remoto e saiu indiferente da sala. Logo antes 
de passar 
Pela porta, ele tirou a toalha e mostrou o traseiro nu para dean. Mesmo a 
contragosto, dean deu dois pontos para gavin pelo gesto simblico.
Sem perguntar para gavin aonde ele queria ir, dean foi para um restaurante de 
uma rede que freqentavam sempre. Gavin ficou de mau humor e respondia com 
monosslabos 
As tentativas de dean de puxar conversa.
Os pedidos chegaram e dean perguntou se o hambrguer de gavin estava do jeito 
que ele gostava.
- est timo.
- quero me desculpar por no ter mais jantares em casa.
- no tem importncia. Voc cozinha muito mal. Dean sorriu.
- no posso contestar isso. Voc deve estar sentindo falta do molho de macarro 
feito em casa e do rosbife da sua me.
- , acho que sim.
- mas, de qualquer modo, voc sempre quer hambrguer ou pizza.
- algum problema? - disse gavin, ficando imediatamente na defensiva.
- no. A minha dieta era igualzinha quando tinha a sua idade. Gavin bufou como 
se insinuasse que no sabia que existia
Hambrguer e pizza naquela poca to antiga. Dean tentou de novo.
- encontrei uma velha amiga ontem. Lembra de paris gibson? Gavin olhou para ele 
com ar de deboche.
- voc pensa que sou retardado?
- foi h muito tempo, e voc era muito pequeno. No tinha certeza se voc se 
lembraria dela.
- claro que me lembro. Dela e do jack. Eles iam se casar mas ele se matou.
- no se matou. Ele sobreviveu ao acidente. S morreu alguns meses atrs.
- ha. Ela est na rdio daqui agora. Dean ficou surpreso.
- ento voc sabia?
- todo mundo sabe. Ela  muito popular.
- , eu soube que ela tem muitos admiradores. Ela me disse hoje que est 
querendo atrair uma audincia mais jovem. Voc escuta o programa dela?
- escuto. No toda noite. s vezes. - gavin molhou uma batata frita numa poro 
de ketchup. - voc telefonou para ela ou o qu?
- no. Ela recebeu uma ligao estranha de um ouvinte ontem  noite.
-  mesmo?
- humm - disse dean, mastigando o frango grelhado. - ela deu parte na polcia. 
Foram me consultar. O detetive e ela queriam saber a minha opinio.
- detetive? Foi to srio assim?
- bastante srio.
Dean fez sinal para a garonete e pediu para trazer outra coca para gavin. Para 
algum que estava sem fome, gavin devorou seu hambrguer em tempo recorde.
- e traga uma poro de queijo e batata frita tambm, por
Favor.
Gavin jamais pediria mais, mas dean sabia que ainda devia
Estar com fome.
- tambm encontrei uma amiga sua hoje - observou ele casualmente.
- eu no tenho amigos aqui. Todos os meus amigos esto em houston. Onde eu 
morava. Na minha prpria casa. At minha me se casar com aquele idiota.
L vamos ns, pensou dean.
- ela estava h muito tempo solteira, gavin.
- , porque voc se divorciou dela.
- engraado. Na noite passada voc disse que ela se divorciou de mim. Na 
verdade, voc estava certo as duas vezes. Ns concordamos em nos separar porque 
sabamos 
Que seria melhor.
- no importa - disse Gavin, com um suspiro entediado, virando a cabea para 
espiar pela janela.
- voc no acha que a sua me tem o direito de ser feliz?
- quem pode ser feliz com ele?
Dean tambm no tinha ficado muito bem impressionado com a escolha de pat. O 
marido dela era bem sem graa, to sem brilho que dava um trabalho enorme 
conversar 
Com ele. Mas parecia encantado com pat e ela com ele.
- e da se ele no tem uma personalidade dinmica, voc no pode simplesmente 
ficar contente da sua me ter encontrado algum de quem ela gosta, e que gosta 
dela?
- eu estou contente. Estou contente. Estou eufrico, est bem? Ser que podemos 
parar de falar nisso agora?
Dean poderia ter lembrado que tinha sido gavin quem puxou o assunto, mas deixou 
passar. A garonete chegou com o pedido adicional deles.
- mais alguma coisa?
Ela se dirigiu a gavin, no a ele, e pela primeira vez dean procurou ver o filho 
atravs dos olhos de uma mulher jovem. Fora a corujice dos pais, gavin era um 
belo 
Garoto. O cabelo castanho possua a textura ondulada do cabelo da me, e ele 
devia gostar, porque... Graas a deus, no tinha feito uma escultura, seguindo 
alguma 
Moda bizarra, nem tingiu de alguma cor que brilhava no escuro.
Os olhos eram cor de usque, e pareciam pensativos. No dava para ver naquele 
momento, pois gavin estava sentado com as costas curvadas, mas j tinha mais de 
um 
Metro e oitenta, o fsico forte e sem gordura nenhuma, e a elegncia flexvel de 
um atleta.
Dean sorriu para a garonete.
- no momento no, obrigado. Quando ela se afastou, ele disse:
- ela  bonitinha.
Gavin olhou para a garonete com indiferena.
- no  feia.
- mais bonita que a menina que conheci hoje. - olhando gavin bem de perto, dean 
disse: - melissa hatcher.
Sem dvida, gavin reconheceu o nome. Dean teve certeza disso. Mas o menino 
fingiu que no sabia quem era.
- quem?
- ela disse que conhecia voc.
- no conhece.
- ento por que diria que conhece?
- como  que vou saber? Ela entendeu o nome errado, ou me confundiu com outra 
pessoa.
Gavin mexia no canudo dentro do copo de coca-cola, evitando olhar nos olhos do 
pai.
- eu me apresentei para ela e depois de conversar algum tempo ela disse: "voc  
o pai do gavin." ela conhecia voc.
- talvez tivessem dito para ela se afastar de mim porque voc  da polcia.
- voc quer dizer, quem vai querer ser amigo de um filho de policial?
Ele olhou ressentido para dean.
- mais ou menos por a.
- janey kemp?
Dessa vez gavin no teve tanta facilidade para esconder sua reao. A expresso 
ficou de guarda imediatamente.
- quem?
- janey kemp. Pelo que ouvi dizer dela, no  do tipo que ficaria amiga do filho 
de um policial. Voc a conhece?
- ouvi falar dela.
- o que foi que voc ouviu?
Gavin pegou um pedao de queijo e disse, com a boca cheia:
- voc sabe, coisas.
- como o qu? Que ela  doidinha? Fcil?
- dizem.
- voc esteve com ela?
- devo ter esbarrado com ela umas duas vezes.
- onde?
- caramba, o que  isso? A inquisio espanhola?
- no, estou guardando o equipamento de tortura para mais tarde. Neste momento 
s estou curioso para saber em que lugar voc esbarrou com janey kemp e a amiga 
dela, 
Melissa. Deve ter sido algumas vezes, para o meu nome significar alguma coisa 
para ela. Mesmo antes ela me reconheceu, porque voc e eu somos parecidos.
Gavin se ajeitou no banco e deu de ombros.
- elas saem com aquele pessoal rico e esnobe. Eu as vi por a,  s isso. No 
cinema. No shopping. Voc sabe.
- no lago?
- qual deles? Da cidade ou de travis?
- diga voc.
- eu as vi algumas vezes, est bem? No lembro onde. Dean deu risada.
- gavin, no me venha com essa conversa fiada. Se tivesse a sua idade, e tivesse 
encontrado melissa hatcher, e ela estivesse usando qualquer roupa parecida com a 
Que eu vi hoje, teria lembrado nos mnimos detalhes - ele empurrou o prato para 
o lado
E inclinou o corpo sobre a mesa. - conte-me o que sabe sobre o clube do sexo.
Gavin continuou com a mesma expresso vazia, mas seus olhos o traram.
- o qu?
- ontem  noite, quando voc me desobedeceu e saiu, voc foi para o lago travis?
- talvez tenha ido. E da?
- eu sei que a garotada se rene em lugares especficos em torno do lago. Voc 
viu janey kemp no meio da galera ontem  noite? E antes de me dar alguma 
resposta 
Idiota, fique sabendo que ela est desaparecida h mais de vinte e quatro horas.
- desaparecida?
- ela no voltou para casa depois de sair ontem  noite. Ningum soube dela. No 
fim desta tarde, logo antes de eu sair da polcia, policiais encontraram o carro 
Dela. Estava estacionado perto de uma rea de piquenique no lago, num bosque de 
cedros. Nenhum sinal da janey. Parece que ela encontrou algum ontem  noite e 
saiu 
Com essa pessoa. Voc a viu? Ela estava com algum?
Gavin olhou para o prato vazio e ficou assim alguns segundos.
- eu no a vi.
- gavin - disse dean, baixando a voz -, eu sei que h essa regra rgida de no 
entregar seus amigos. A mesma regra funcionava quando eu era menino. Mas isso 
no 
 mais uma questo de lealdade ou de traio.  muito mais srio.
"por favor, no queira proteger janey ou qualquer outra pessoa omitindo 
informaes. Bebida, drogas, qualquer outra coisa que ela estivesse fazendo 
ontem  noite, 
Nada disso me interessa neste momento. Se janey saiu com o cara errado, sua vida 
pode estar em perigo. Sabendo disso, voc tem certeza absoluta de que no a 
viu?"
- tenho! Meu deus! - ele olhou em volta, percebendo que tinha chamado a ateno 
das pessoas nas mesas mais prximas. Afundou no assento e resmungou, com a 
cabea 
Baixa: - por que est me provocando?
- no estou provocando.
- est sendo um tira. Dean respirou bem fundo.
- tudo bem, pode at ser. Estou insistindo porque voc  uma fonte de 
informao. Conte-me o que sabe sobre o clube do sexo.
- eu no sei do que voc est falando. Tenho de mijar. Ele deslizou pelo banco e 
j ia levantar, mas dean mandou
Ficar onde estava.
- voc aprendeu a se controlar desde os trs anos. D para segurar alguns 
minutos. O que sabe sobre o clube do sexo?
Gavin balanou para a frente e para trs, olhando furioso para a janela, com a 
expresso hostil. Dean achou que ia se recusar a responder, mas depois de algum 
tempo 
Ele disse:
- est bem, eu ouvi uns caras falando desse site na internet onde trocam e-mails 
com as meninas. S isso.
- no  s isso, gavin.
- bem, isso  tudo que eu sei. No estudei na mesma escola dessa galera, lembra? 
Fui arrancado pela raiz e transplantado para c, por isso eles no...
- voc tem sado com um grupo desde praticamente o dia em que se mudou para c. 
Esse seu refro ah, coitado de mim, tive de deixar meus amigos, j est ficando 
meio 
Cansativo. Voc precisa inventar outra coisa para reclamar.
"e enquanto isso essa menina pode estar lutando pela prpria vida, e no estou 
exagerando. Por isso, pare de resmungar e de sentir pena de si mesmo, e responda 
direito. 
O que voc sabe sobre esse clube da internet e da participao de janey kemp 
nele?"
Gavin ficou calado algum tempo e depois, como se tivesse se resignado, encostou 
a cabea no encosto do cubculo.
- janey se encontra com os caras que conhece na internet e eles fazem sexo. Ela 
faz qualquer coisa. Ela e aquela melissa.
- ento voc as conhece.
- eu sei quem elas so. Tem muitas outras no clube. No sei o nome de todas. 
Elas vm de colgios de toda a cidade. H um frum, e os membros comentam o que 
fizeram.
- voc se filiou a esse clube, gavin? Ele se endireitou no banco.
128
- no! Voc tem de saber como entrar, e eu no perguntei porque ia me sentir um 
retardado por no saber ainda.
- no  to secreto assim. A unidade de crimes de computador da polcia j 
entrou nele.
O menino deu risada.
- ah, ? E o que eles vo fazer? No podem impedir, e todo mundo sabe disso.
- oferecer sexo  crime.
- voc deve saber - resmungou ele ressentido. - voc  da polcia.
Ele estacionou num bosque de carvalhos onde outros j tinham deixado seus 
carros. Na mala, havia uma caixa de isopor com cerveja e recipientes para gelar 
vinho. 
Pegou uma cerveja e foi caminhando devagar para a beira do lago e para o per de 
madeira que se estendia trinta metros sobre a gua.
Era o ponto de encontro daquela noite.
Ele tinha ido verificar.
Estava vestido para se misturar ao grupo. O short largo e a camiseta eram da 
gap, exatamente o que os jovens usavam. Mesmo assim, mantinha a aba do bon 
puxada bem 
Para baixo para disfarar o rosto.
Algumas pessoas ali aquela noite eram conhecidas. Ele as tinha visto antes em 
reunies similares, ou nos clubes da rua seis e em torno do campus da 
universidade. 
Outras eram novidade. Havia sempre caras novas.
Era s escolher o seu prazer... Bebida, drogas, sexo... Havia de tudo. E aquela 
noite podiam at ter o prazer do jogo. Na praia, uma menina s com a parte de 
baixo 
Do biquni e um chapu de vaqueiro fazia um boquete num rapaz, ajoelhada no 
cho. Estavam apostando quanto tempo o cara levaria para gozar.
Ele se juntou ao crculo de espectadores que tinha se formado em volta do casal 
e apostou cinco dlares. Tinha de se admirar o autocontrole dele, porque a 
menina 
Conhecia bem o ofcio. Ele perdeu a aposta.
Sem pressa, foi caminhando pelo per. No chamava ateno, mas normalmente no 
teria mesmo de fazer isso, e aquela noite
No era diferente. Logo foi abordado por duas meninas que se jogavam tanto em 
cima dele que dava para perceber que tinham tomado ecstasy.
Elas o abraavam, acariciavam, beijavam na boca, diziam que ele era maravilhoso, 
que a lua estava incrvel, o ar da noite divino e que a vida era bela.
Pediram para ele segurar suas roupas enquanto iam nadar nuas. Observou-as do 
per enquanto brincavam como ninfas aquticas, parando de vez em quando para 
acenar 
E mandar beijinhos para ele.
Quando saram da gua e se vestiram... Bem, parcialmente... Ele as levou at o 
carro e deu uma cerveja para cada uma.
Uma delas fixou os olhos vidrados nele.
- voc gosta de se divertir em grupo?
- eu estou aqui, no estou? - resposta inteligente. Sem se comprometer. A 
afirmao estava apenas implcita.
Ela passou a mo no short dele e deu uma risadinha.
- acho que gosta.
- ns adoramos nos divertir em grupo - disse a outra, com a fala arrastada.
E gostavam mesmo. Na hora seguinte, no banco de trs do carro, as duas mostraram 
at onde gostavam de se divertir em grupo. Quando ele finalmente disse que 
precisava 
Ir, elas no queriam se despedir. Beijaram, fizeram carinhos e imploraram para 
ele ficar e se divertir mais.
Ele finalmente se desvencilhou e se despediu. Quando estava saindo com o carro 
do estacionamento improvisado para a estrada principal, notou dois caras olhando 
para 
Ele com indiscutvel inveja. Deviam t-lo visto saindo do banco de trs com as 
duas garotas, procurando se soltar dos braos e pernas e dos carinhos acentuados 
pelas 
Drogas.
Ser que aqueles panacas queriam ter a sorte que ele tinha no amor? Podia 
apostar que sim.
Mas ele tambm viu o cara que reconheceu como um policial da narcticos  
paisana. Tinha trinta anos, mas no aparentava mais de dezoito. Estava 
negociando com um 
Traficante conhecido pela janela de um carro.
Qual  a diferena entre o cara da narcticos comprar drogas e o que estou 
fazendot, pensou john rondeau com seus botes.
Nenhuma. Para combater um crime de modo eficiente, era preciso entender a 
natureza e a dinmica dele. Desde que a sua unidade tinha descoberto o clube do 
sexo, ele 
Se oferecera para pesquisar. Fora do expediente e in loco,  claro.
A ambio dele era ser promovido para o bureau central de investigaes, o 
corao do departamento. Era l que todo trabalho excitante da polcia era 
feito, e era 
L que ele queria estar.
No caminho dessa promoo, ele podia se destacar bastante com aquele caso kemp. 
Tinha elementos que mereciam ateno, isto , uma celebridade, sexo e menores de 
Idade. Ponha isso junto e ter uma investigao que  o mximo.
Para a unidade de crimes no computador, o clube do sexo no era novidade alguma. 
J o conheciam havia meses e, percebendo a futilidade que seria fech-lo, meio 
que 
Tinham se esquecido daquilo.
Mas as mensagens deixadas no frum continuaram a mexer com a cabea de rondeau. 
Resolveu que ia verificar a situao, conferir se os membros realmente faziam o 
que 
Alardeavam ou se simplesmente trocavam suas fantasias mais loucas via e-mail. E 
descobriu que a maioria das afirmaes no era exagero.
E ainda bem que tinha feito a pesquisa. Se no tivesse aprendido com a mo na 
massa, no teria podido responder de modo inteligente e completo a todas as 
perguntas 
Que curtis, malloy e paris gibson lhe tinham feito aquela manh. Ento era 
realmente em benefcio do departamento de polcia que trabalhava aquelas horas 
extras 
Sem remunerao, no era?
S que havia necessidade de fazer mais trabalho investigativo. Tudo para 
conseguir a promoo para o bci. Era o trabalho dele, dever que jurara cumprir. 
Estava trabalhando 
 paisana, s isso.
No foi surpresa nenhuma o fato de brad armstrong no estar em casa quando toni 
voltou do consultrio. Ela explicou para a atnita bab que no se sentia bem e 
que 
O dr. Armstrong e ela tinham cancelado seus planos de sair aquela noite. Pagou 
cinco horas para a menina.
Tinha ligado trs vezes para o celular de brad. E trs vezes deixou recados que 
ele no respondeu. Preparou cachorro-quente para o jantar das crianas. Depois 
de 
Comerem, jogou um jogo de tabuleiro com as meninas enquanto o menino assistiu a 
uma reprise de jornada nas estrelas.
Subiam a escada para tomar banho quando brad chegou com barras de chocolate e 
abraos de urso. Para toni, havia um buqu de rosas amarelas, que ele entregou 
encabulado.
- ser que podemos fazer as pazes? Por favor?
Incapaz de olhar para o pedido insincero de desculpas nos olhos do marido, toni 
abaixou a cabea. Ele considerou aquilo como aquiescncia e deu-lhe um beijo 
rpido 
No rosto.
- voc j jantou?
- estava  sua espera.
- perfeito. Vou pr as crianas na cama. Ponha um lanche na mesa para ns. Estou 
morrendo de fome.
O que toni ps na mesa quando ele desceu para a cozinha no era o que brad 
esperava. As coisas nada apetitosas expostas fizeram brad parar de repente.
- onde conseguiu tudo isso? - perguntou zangado. - nem precisa dizer. Eu sei 
onde foi.
- isso mesmo. Descobri isso esta tarde, quando estive no seu consultrio. De 
onde voc estava conspicuamente ausente, brad. Voc no disse para ningum aonde 
ia 
E ficou horas sem atender o celular. Por isso, no me ponha na defensiva. Eu me 
recuso a me desculpar por ter invadido a sua privacidade, se  isso que a sua 
privacidade 
Est protegendo.
Assim que foi confrontado com as provas da sua doena, brad desistiu de lutar. 
Foi uma reduo fsica, um encolhimento do esprito e do corpo. Ele puxou uma 
cadeira 
E sentou  mesa, os ombros curvados, as mos inertes no colo.
Toni pegou um saco de lixo na despensa e jogou a coleo de fotografias e 
revistas srdidas dentro dele. Depois fechou com um fio e levou para a garagem.
- vou levar para o depsito de lixo amanh de manh - disse ela quando voltou 
para a cozinha. - seria terrvel se o saco se abrisse acidentalmente e os 
vizinhos, 
At mesmo os lixeiros, vissem o que tem dentro.
- toni, eu... Realmente no h como me defender, no ?
- dessa vez, no.
- voc vai me deixar? - ele pegou a mo dela e apertou, transpirando. - por 
favor, no faa isso. Eu te amo. Eu amo as crianas. Por favor, no destrua a 
nossa famlia.
- eu no estou destruindo nada, brad - disse ela, puxando a mo. -  voc que 
est.
- eu no consigo controlar.
- o que  mais um motivo para eu ir embora e levar as crianas. E se uma delas 
tivesse encontrado essas fotos?
- eu sempre tomo cuidado.
- voc toma cuidado para esconder isso, do mesmo modo que o viciado em drogas 
esconde seu vcio, e o alcolatra esconde uma garrafa para o caso de uma 
emergncia.
- ora, no  nada disso - reclamou ele.
A contrio estava se desfazendo aos poucos. Uma autodefesa hostil comeava a se 
formar. Em seguida, viria o ar de superioridade. J tinham encenado aquilo 
inmeras 
Vezes. A transio de penitente para mrtir era praticamente decorada e toni 
podia prever cada fase.
- comparar um passatempo inofensivo com um vcio  ridculo e voc sabe disso - 
disse ele.
- inofensivo? Algumas daquelas fotos so de meninas menores de idade. Que so 
exploradas por pessoas corruptas e depravadas para voc se divertir. E como pode 
dizer 
Que  inofensivo se afeta a sua carreira, sua famlia, o nosso casamento?
- casamento? - ele riu zombeteiro. - eu no tenho mais uma esposa, tenho uma 
carcereira.
- se continuar com isso, pode muito bem acabar preso, brad.  isso que voc 
quer?
Ele rolou os olhos nas rbitas, debochado.
- eu no vou para a priso.
- poderia ir, a menos que admita, para voc mesmo e para os outros, que  
viciado em sexo e procure a ajuda de que precisa.
- viciado em sexo - ele abafou uma risada. - est percebendo como isso parece 
absurdo, toni?
- o dr. Morgan no acha nada absurdo.
- meu deus. Voc falou com ele?
- no, ele ligou para mim. Voc no aparece na terapia de grupo h trs semanas.
- porque  uma perda de tempo. Todos aqueles caras s falam de tocar punheta. 
Agora eu pergunto, essa  uma forma produtiva de passar a noite?
-  uma imposio judicial voc freqentar as reunies.
- imagino que vai me dedurar para o meu fiscal da condicional. Diga que tenho 
sido um mau menino. Que no freqento a terapia com os outros pervertidos.
- no vou precisar dizer nada. O dr. Morgan j disse.
- o dr. Morgan  o mais doente do grupo! - exclamou brad.
- ele  um viciado em recuperao. Voc sabia?
Toni continuou, inabalvel:
- o dr. Morgan  obrigado a informar mais de duas ausncias consecutivas para o 
seu fiscal da condicional. Voc tem uma hora marcada com ele amanh, s dez 
horas. 
 obrigado a ir.
- acho que no tem importncia se eu cancelar consultas marcadas com clientes e 
deixar meus scios furiosos comigo.
- essa  uma conseqncia com a qual ter de arcar.
- alm de dormir no sof, imagino.
- , prefiro que faa isso.
Ele semicerrou os olhos com fria.
- aposto que prefere. J que obviamente no gosta de nada que fazemos na cama.
- isso no  justo.
- justo? Vou te dizer o que no  justo,  ter uma mulher que prefere 
bisbilhotar a foder. Quando foi a ltima vez que transamos? Voc consegue 
lembrar? No, duvido 
Que lembre. Como pode pensar em sexo se fica to ocupada espionando?
Brad ficou de p e avanou para ela. Curvou a mo na parte de trs do pescoo de 
toni e apertou, forte demais para ser confundido com carinho.
- talvez, se voc trepasse mais, eu no teria de recorrer s minhas fotos 
pornogrficas.
Ele a puxou para a frente. Toni virou a cabea para evitar o beijo e tentou 
empurr-lo para longe. Mas brad a encurralou contra a bancada da pia e 
imobilizou-a.
- pare com isso, brad - gritou toni chocada. - no tem graa nenhuma.
A raiva dela parecia excit-lo. O rosto dele ficou vermelho quando esfregou o 
quadril contra o dela.
- est sentindo isso, toni?  gostoso?
- deixe-me em paz!
Toni empurrou com tanta fora que ele foi tropeando para trs at bater na 
mesa. Ela cobriu a boca com a mo e tentou abafar os soluos. Estava ofendida e 
amedrontada 
Em doses iguais. Jamais vira brad daquele jeito. O marido tinha se transformado 
num estranho.
Brad recuperou o equilbrio e se recomps, depois pegou o palet e as chaves. A 
casa tremeu quando ele bateu a porta. Toni cambaleou at a cadeira mais prxima 
e 
Despencou nela. Chorou baixinho algum tempo, sem querer que os filhos ouvissem.
Sua vida estava desmoronando, e ela era incapaz de fazer qualquer coisa. Mesmo 
naquele momento amava brad. Ele se recusava a procurar ajuda para livrar-se 
daquela 
Doena. Por que ele se esforava tanto para destruir o amor que tiveram um dia? 
Por que preferia aquele seu passatempo "inofensivo" a ela, aos filhos? Ser que 
eles 
No valiam mais para ele do que...
Num segundo, ela correu para a porta da garagem. O saco plstico onde tinha 
posto as fotografias pornogrficas tinha sumido.
Brad tinha levado seu primeiro amor com ele.


Captulo treze
Paris tinha uma sala na estao de rdio, onde trabalhava quando no estava no 
ar. Apesar de "sala" ser uma palavra que supervalorizava o pequeno cmodo. No 
tinha 
Nada que o redimisse, nem mesmo uma janela. Dcadas atrs, as paredes de gesso 
tinham sido pintadas com uma cor feia, pardacenta. As placas acsticas do teto 
estavam 
Curvadas e tinham antigas manchas de infiltrao. A mesa era de frmica cinza, 
horrorosa, faltando pedaos, provavelmente arrancados pelo ocupante anterior, 
profundamente 
Deprimido com aquele ambiente.
Nada na sala pertencia a ela. No havia diplomas emoldurados nas paredes, nem 
cartazes de turismo que provocavam lembranas agradveis, nenhuma foto 
espontnea de 
Amigos sorrindo, nem retratos posados de famlia. O cubculo era estril, sem 
nada pessoal, e isso era proposital. Imagens e retratos geravam perguntas.
Quem  aquele?
 jack.
Quem  jack? Seu marido?
No, ns estvamos noivos, mas no nos casamos.
Por qu? Onde est o jack agora?  por causa dele que voc usa culos escuros o 
tempo todo?  por causa dele que voc trabalha sozinha? Vive sozinha?  sozinha?
Mesmo os colegas de trabalho simpticos podiam provocar sofrimento srio, por 
isso paris tentava evitar isso, mantendo os relacionamentos numa base 
estritamente 
Profissional e o local de trabalho desprovido de quaisquer pistas sobre a sua 
vida.
Mas a sala no era um deserto de coisas. A superfcie feia da mesa estava 
coberta de correspondncia. Sacos cheios eram despejados nela diariamente, 
cartas de fs, 
Grficos de ndice de audincia, memorandos internos e infinitas resmas de 
material que as gravadoras de disco mandavam para ela, promovendo seus 
lanamentos recentes. 
Como no havia espao para nenhum armrio
De arquivo na sala, paris separava e jogava fora o que no precisava com a maior 
eficincia possvel, mas mesmo assim era uma tarefa que no acabava nunca.
Tinha atacado a pilha de correspondncia depois de fazer sua seleo de msicas 
para o programa daquela noite e incluilas na programao. J trabalhava havia 
uma 
Hora quando stan se materializou na porta aberta. Com uma expresso petulante.
- muito obrigado, paris.
- por qu?
Ele entrou e fechou a porta.
- adivinha quem veio me procurar hoje?
- detesto adivinhaes.
- dois dos melhores de austin.
"ela largou o abridor de cartas e olhou para ele.
- polcia?
- e agradeo isso a voc.
- eles foram  sua casa?
Paris achava que carson, ou o animado griggs, ia procurar stan apenas para fazer 
perguntas habituais.
Ele afastou uma pilha de envelopes e sentou numa ponta da mesa.
- eles me interrogaram e escreveram as respostas que dei em pequenos caderninhos 
pretos. Bem gestapo.
- pare de fazer drama, stan.
Graas ao fato de ter voltado  delegacia de polcia e depois ter ido fazer 
aquela visita perturbadora aos kemp, paris no teve tempo de dormir. Antes de 
poder descansar, 
Tinha de fazer um programa na rdio de quatro horas, e faz-lo como se no 
estivesse acontecendo nada. Era uma perspectiva desanimadora.
Lidar com o orgulho ferido de stan no era a melhor forma de aproveitar a 
energia limitada ou o que sobrava de tempo at o dj da noite passar o estdio de 
transmisso 
Para ela.
- esta manh apresentei a ligao de valentino para um detetive - explicou 
paris. - e acontece que uma jovem daqui est desaparecida. A polcia est 
investigando 
Para ver se h alguma conexo entre este desaparecimento e o telefonema de 
valentino. Esto fazendo verificaes de rotina da histria de todas as pessoas 
envolvidas, 
Mesmo remotamente. Por isso, no se ofenda. Eles
No escolheram voc. Marvin tambm est na lista das pessoas com quem eles 
querem conversar.
- ah, que timo. Estou no mesmo nvel de um faxineiro. Agora me sinto muito 
melhor.
Para variar, paris achou que o sarcasmo dele era vlido.
- sinto muito. De verdade. A polcia est sendo minuciosa porque esto to 
convencidos quanto eu que essa ligao no foi um trote. Espero que seja exagero 
de todos 
Ns e que acabe no sendo nada. Mas, se nossas intuies estiverem certas, a 
vida de uma menina est em jogo. Mesmo assim, lamento voc ter sido envolvido 
nisso 
Por acaso.
Ele ficou mais calmo, mas s um pouco. A primeira preocupao de stan era sempre 
stan.
- a polcia tambm conversou com o nosso gerente-geral.  claro que ele ligou 
imediatamente para o tio wilkins que, por sua vez, ligou para o delegado e, pelo 
que 
Eu soube, fez o ouvido dele de penico.
- ento, tenho certeza que no tem suspeita nenhuma contra voc.
- ento eles suspeitavam de mim? - exclamou stan.
- maneira de dizer. Esquea. Saia e compre um aparelhinho novo. Deve haver algum 
no mercado que voc ainda no tenha. Mime-se. Vai se sentir melhor.
- no  to fcil assim, paris. Titio ficou ainda mais aborrecido do que eu. 
Ficou ligando a tarde toda para o gerente-geral, querendo saber "que porra est 
acontecendo". 
Estou repetindo o que ele disse,  claro. Pode contar que voc ser chamada para 
se apresentar no santurio interno.
- j fui.
O gerente-geral da rdio tinha ligado para o celular dela quando saa da 
propriedade dos kemp. Queria marcar uma reunio, mas soou como uma imposio, e 
no um pedido. 
Ela ouviu uma descompostura por no ter informado a ele sobre a ligao de 
valentino, antes de chamar a polcia. A principal preocupao dele era com a 
reputao 
Da emissora.
- pus a gravao do telefonema para ele ouvir - disse paris para stan. - ele 
ficou aflito, como todos que a ouviram. Falou com o sargento curtis, o detetive 
encarregado 
Da investigao.
O gerente-geral conversou com curtis pelo viva-voz para paris poder escutar 
tudo. Concordou que paris e todos da 101.3 deviam cooperar ao mximo com a 
polcia, mas 
Estipulou que se o desaparecimento de janey kemp se tornasse uma grande notcia, 
queria que o envolvimento da rdio fosse minimizado.
- francamente, senhor, estou mais preocupado com a vida dessa menina do que com 
o prefixo da sua estao de rdio aparecendo na imprensa - foi a resposta de 
curtis.
Antes de paris sair da sala do gerente geral, ele impertinentemente lembrou que 
seu precioso anonimato podia acabar em breve. Paris j tinha pensado nisso e 
esperava 
Que no acontecesse. Durante anos tinha guardado sua privacidade com o fanatismo 
de um sovina que protege suas barras de ouro. Nunca mais queria ser o piv de 
uma 
Notcia sensacionalista.
Porm, concordava com curtis. Salvar a vtima de valentino era mais importante 
do que todo o resto. Se fosse comparar, o impacto que provocaria na vida dela 
seria 
Trivial.
Para tranqilizar stan ainda mais, ela disse:
- pode ter certeza de que recebi uma bronca danada por no obedecer  hierarquia 
de comando. Voc no foi o nico a receber palmadas hoje. Agora, ser que posso 
Voltar para o meu trabalho, por favor?
- foi um relgio de pulso com um gps embutido.
- o qu?
- o aparelhinho que comprei para mim hoje.
Ela deu risada, stan soprou um beijo e foi para a porta. Ainda de costas, ele 
disse:
- ah, a propsito, marvin telefonou dizendo que estava doente.
- doente?
- a mesa telefnica deixou um recado na minha caixa de mensagens - respondeu 
ele. - s dizia isso.
Que ela soubesse, marvin nunca faltara ao trabalho por motivo de doena antes, e 
ficou curiosa quanto  natureza daquela doena sbita. Largou mais uma vez a 
seleo 
Da correspondncia e foi at a pequena cozinha dos empregados nos fundos do 
prdio.
Naquela hora da noite, tudo estava silencioso e pouco iluminado. O resto do 
pessoal da rdio j tinha ido embora havia muito
Tempo, as salas estavam todas vazias. Paris estava acostumada com o silncio, a 
escurido e os penetrantes odores de poeira tostada pelo equipamento eletrnico, 
Caf queimado, e um carpete que absorvera dcadas de fumaa de cigarro antes do 
fumo ser proibido por lei nos locais de trabalho.
A fm 101.3 era propriedade e operada pelo conglomerado de mdia wilkins, que 
inclua cinco jornais, trs emissoras afiliadas de televiso, uma firma de tv a 
cabo 
E sete estaes de rdio. Os escritrios da corporao ocupavam os ltimos trs 
andares de um arranha-cu luxuoso e luzidio em atlanta, com elevadores em tubos 
de 
Vidro e uma queda d'gua de dois andares no estril saguo de granito.
O prdio de austin, salvo de um proprietrio anterior falido, era to luxuoso e 
luzidio quanto um mamute peludo. No tinha cachoeira no saguo, apenas um 
bebedor 
De gua gelada que gargarejava e s vezes vazava.
O prdio feio de tijolos aparentes, de um andar s, ficava numa colina na 
periferia de austin, a alguns quilmetros da sede da assemblia legislativa 
estadual. Tinha 
Sido construdo no incio dos anos cinqenta, e aparentava a idade. Tinha 
passado pelas mos de vinte e dois donos po-duros.
Decadente e dilapidado, era praticamente ignorado pelo alto escalo da empresa, 
exceto quando eles verificavam os grficos de audincia. Aparentemente, a fm 
101.3 
Era uma verruga horrorosa na imagem brilhante da firma. Mas estava bem saudvel 
no azul, produtora confivel de renda.
Apesar dos problemas no prdio, paris gostava dele. Tinha alma. E resistia bem, 
apesar das cicatrizes.
Depois da escurido dos corredores, a lmpada fluorescente que piscava na 
cozinha parecia forte demais. Paris levou alguns segundos para se acostumar ao 
brilho da 
Luz, mesmo com seus culos escuros. Pegou no armrio um saquinho de ch do seu 
estoque pessoal e ps numa caneca com gua que aqueceu no antigo microondas. A 
gua 
Estava s comeando a ganhar cor quando paris ouviu vozes.
Espiou o corredor e ficou atnita de ver dean chegando, alguns passos atrs de 
stan, que dizia para ele:
- ela no me disse que estava esperando visita.
- ela no est  minha espera. Stan viu paris e disse:
- ele estava batendo na porta da frente. S deixei entrar quando mostrou o 
distintivo da polcia.
Procurando esconder a consternao do colega de trabalho, paris disse:
- o dr. Malloy trabalha para o departamento de polcia de austin. Ele foi 
consultado para fazer uma avaliao psicolgica da fita de valentino.
- foi o que ele disse - stan examinou dean de alto a baixo.
- dois pelo preo de um. Policial e psiclogo.
- mais ou menos isso - respondeu dean, com um sorriso tenso.
Stan olhou para um e depois para outro, e, como nenhum dos dois disse nada, deve 
ter percebido que a sua companhia no era mais bem-vinda.
- se precisar de mim - disse ele para paris -, estarei na sala da engenharia.
Dean ficou observando stan se afastar pelo corredor. Quando no podia mais ouvir 
o que diziam, virou para paris.
- aquele  o crenshaw? O sobrinho do dono? Ele  gay?
- no tenho a menor idia. O que est fazendo aqui, dean? Ele entrou na cozinha 
e reduziu imediatamente o j limitado
Espao para manobras.
- algum devia ficar aqui com voc no seu turno.
- stan est comigo.
- confiaria sua vida a ele? Ela deu um sorriso fraco.
- , tem razo.
- at sabermos mais sobre esse tipo que se diz chamar valentino, voc devia ter 
proteo da polcia.
- curtis se ofereceu para mandar griggs e carson. Eu recusei.
- conheci o griggs. Parece estar bem alerta, e  um verdadeiro escoteiro, mas 
nem ele nem...
- carson.
- ... Tem treinamento de negociador para o caso de seqestro com refm. Eu devia 
estar aqui se valentino telefonar de novo. Se eu sentir que ele est quase 
pirando, 
Posso conversar com ele
E torcer para conseguir persuadi-lo a identificar sua prisioneira e nos dizer 
onde ela est.
Sendo essa a especialidade dele, aquela era uma desculpa bem plausvel para dean 
estar na emissora. Mesmo assim, paris questionou seus motivos:
- ele pode no ligar. E voc ter desperdiado a noite inteira.
- no seria desperdiada, paris. Tambm estou aqui porque queria ver voc.
- j me viu.
- sozinha.
Ela ps a caneca de ch na bancada e deu as costas para ele.
- dean, por favor, no faa isso.
Ele se aproximou dela por trs e paris prendeu a respirao, com medo que 
encostasse nela. No sabia ao certo qual seria a sua reao se ele fizesse isso, 
portanto 
No queria ser posta  prova.
- nada mudou, paris. Ela deu uma risada triste.
- tudo mudou.
- quando voc entrou na minha sala esta manh, aquilo voltou. Tudo voltou. 
Fiquei abobalhado exatamente como na primeira vez que a vi. Voc lembra? Foi na 
noite 
Seguinte ao espetculo.
A neve que caa em houston ficou reduzida a uma chuva fria que foi soprada para 
dentro de casa quando ela abriu a porta para jack e dean.
Acenou para os dois entrarem depressa e poder fechar a porta. A apresentao de 
jack se perdeu no alvoroo de tirar os sobretudos molhados e tentar fechar os 
guarda-chuvas 
Teimosos que escorriam gua no assoalho da casa.
Ela pendurou os casacos no cabide de p e encostou os guarda-chuvas num canto, 
depois virou e sorriu para o melhor amigo do noivo.
- vamos recomear. Ol, dean. Sou paris.  um prazer conhec-lo.
- o mesmo digo eu.
O aperto de mo dele era firme, o sorriso carinhoso e simptico. Era uns quatro 
centmetros mais alto do que jack, paris observou. O cabelo castanho mostrava 
sinais 
De um grisalho precoce nas tmporas. Ele no era classicamente bonito como jack, 
e sim mais rude. Jack tinha dito que dean tinha de afastar as mulheres com um 
pedao 
De pau. E paris estava vendo por qu. As feies assimtricas eram 
arrebatadoras. E contrabalanadas pelos olhos, de um cinza-claro emoldurado por 
clios negros 
E compridos. Uma combinao muito atraente.
- pensei que jack estivesse mentindo - disse ele.
- jack, mentindo? Nunca!
- quando perguntei como voc era, ele disse que eu ia ficar embasbacado. Pensei 
que estava exagerando.
- , ele tende a fazer isso.
- mas dessa vez no fez.
Do outro lado do cmodo, jack deu um sorriso largo para eles.
- enquanto vocs dois discutem meus defeitos, vou preparar uma rodada de 
drinques.
Tiveram um jantar festivo na steak house favorita de jack. Depois do jantar, 
migraram para o bar adjacente, onde sentaram diante da lareira e tomaram caf. 
Os homens 
Regalaram paris com histrias do tempo do colgio.  claro que jack dominou a 
conversa, mas dean parecia disposto a ceder-lhe o centro do palco. Jack era um 
contador 
De histrias inteligente e talentoso.
Dean era um excelente ouvinte. Perguntou sobre o trabalho de paris, e, enquanto 
ela descrevia um dia normal, ele manteve os olhos fixos nos dela. Dean dava a 
ela 
A ateno que daria para um orculo divulgando o futuro da humanidade. 
Concentrava-se em cada palavra e fazia perguntas pertinentes. Esse era o dom 
especial de dean. 
Fazer a outra pessoa sentir que havia se tornado o centro do seu universo.
O prazer que jack estava tendo aquela noite inclua beber conhaque demais. 
Estava dormindo no banco de trs quando dean parou o carro na frente da casa de 
paris.
- acho que o perdemos - dean observou.
Ela olhou para o noivo que roncava baixinho, de boca aberta.
- acho que tem razo. Quer por favor lev-lo em segurana at a casa dele e p-
lo na cama?
- desde que no tenha de dar um beijinho de boa-noite. Ela deu risada.
- ouvi jack falar tanto de voc, que j o considero amigo meu tambm. Prometa 
que vai sair conosco de novo em breve.
- est prometido.
- timo. - paris segurou a maaneta da porta do carro.
- espere. Vou lev-la at a porta.
Apesar dos protestos de paris, dean desceu do carro e deu a volta com o guarda-
chuva quando ela pisou na calada. Foi com . Ela at a porta da frente. Tirou a 
chave 
Da mo de paris, destrancou a porta com a mo livre e esperou at ela desligar o 
alarme.
- obrigada por me trazer at aqui.
- de nada. Que dia vai ser? - perguntou ele. -dia?
- o casamento. Preciso pr na minha agenda. O padrinho tem de estar l, voc 
sabe.
- ainda no marquei a data. Deve ser em setembro ou outubro.
- tanto tempo assim? Jack me deu a impresso de que seria mais cedo.
- seria, se dependesse dele, mas eu quero usar cores do outono.
- , isso  legal. Casamento na igreja?
- presbiteriana.
- e a recepo?
- provavelmente num clube de campo.
- muita coisa para planejar.
- , demais.
- humm.
Dean parecia no notar que a gua da chuva escorria pelas pontas metlicas do 
guarda-chuva e molhava seus sapatos. Paris no notou que a chuva estava sendo 
soprada 
Para dentro da casa, molhando o cho. Mesmo naquela primeira noite, o olhar que 
os dois trocaram foi talvez alguns segundos mais longo do que devia.
Foi dean que acabou desfazendo o contato, dizendo com a
Voz rouca:
- boa-noite, paris.
- boa-noite.
Muitas vezes, quando noivos so apresentados aos melhores amigos do outro, 
desprezam-nos  primeira vista e criam uma situao complicada para quem est no 
meio 
E adora os dois. Paris gostou de dean desde o incio.
No sabia que no devia considerar isso um bom pressgio.
Dean segurou sua mo e a fez virar de frente para ele. Olhou para ela do mesmo 
jeito penetrante e perturbador daquela noite em que se conheceram, e produziu o 
mesmo 
Efeito magntico. Paris sentiu sua fora de vontade dissolvendo e sabia que se 
no combatesse aquilo imediatamente estaria perdida.
- dean, eu imploro. Pare com isso.
Paris tentou passar por ele, mas dean bloqueou seu caminho.
- nossa situao pode ter mudado, paris, mas o que vale, no.
- o que vale  o que sempre valeu. Jack.
- ele enfrentou um inferno - disse dean. - eu sei disso.
- voc nem pode imaginar que inferno foi a vida dele depois daquela noite.
Dean abaixou o rosto para ficar mais perto do rosto de paris.
- est certo, no posso. Porque voc deixou bem claro que eu no devia ir 
visit-lo. Nunca.
- porque ele no queria que voc... Especialmente voc, o visse daquele jeito - 
disse ela, com a voz entrecortada. - mas pode acreditar em mim, ele viveu a 
morte 
Durante sete anos antes do corao torn-la oficial, parando de bater.
- lamento tanto quanto voc o que aconteceu com ele - ele sussurrou aflito. - 
voc no sabe disso? Pensa que eu poderia esquecer tranqilamente? Meu deus, 
paris, 
Voc pensa que sou to insensvel? Eu tive de viver com o que aconteceu, como 
voc.
Dean deu um suspiro e passou a mo no cabelo. Ficou olhando para um ponto logo 
acima da cabea de paris algum tempo, e ento olhou para ela de novo.
- mas tenho de dizer uma coisa, mesmo correndo o risco de deix-la zangada. O 
que aconteceu com jack foi culpa dele mesmo. No sua, nem minha. Dele.
- o acidente no teria acontecido se...
- mas aconteceu. E no podemos voltar no tempo e desfaz-lo.
- administrao do sentimento de culpa, conselho 101, dr. Malloy?
- tudo bem. . Simplificando, no vou deixar o remorso me comer vivo. Eu superei 
isso.
- que bom para voc.
- ento o seu mtodo de administrar o sentimento de culpa  melhor? Mais 
saudvel emocionalmente? Voc acha prefervel cavar um buraco e se esconder 
nele? - dean 
Olhou com desprezo para a cozinha desarrumada. - olhe s para esse lugar.  
escuro, sujo, um buraco deprimente.
- eu gosto.
- porque  exatamente o que pensa que merece.
Ele avanou um passo e a reao de paris foi apertar mais os cotovelos com os 
braos cruzados, uma atitude de defesa contra a proximidade dele. Era tambm uma 
defesa 
Contra a verdade do que dean estava dizendo. Sabia que ele estava certo, o que 
reforava sua determinao de no escutar.
- paris, deus sabe que voc  boa no que faz aqui. Os ouvintes adoram voc. Mas 
voc poderia ter tido um programa s seu na televiso.
- o que voc sabe a respeito disso?
- eu sei que tenho razo. Alm disso, voc tambm sabe que tenho razo.
Sem poder olhar para os olhos persuasivos de dean, paris abaixou a cabea e 
ficou olhando para a lasca de linleo entre os ps dos dois. Controlou o impulso 
de agarr-lo 
Pelas lapelas do palet e implorar para mudar de assunto ou convenc-la de que 
sua penitncia estava paga.
- eu fiz o que tinha de fazer - disse ela baixinho.
- porque achava que era seu dever?
- era.
- era - repetiu ele enfatizando a palavra suavemente. - o que mais voc deve ao 
jack, agora que ele est morto?
Dean segurou paris pelos ombros. Era a primeira vez em sete anos que encostavam 
um no outro. Uma onda de calor percorreu
O corpo de paris e ela lutou contra a vontade de encostar seu corpo no dele.
- dean, por favor, no faa isso - disse ela. - tive de fazer uma srie de 
escolhas difceis, mas fiz. Como voc disse, o que est feito, est feito. Em 
todo caso, 
No vou discutir com voc
Esse assunto.
- eu tambm no quero discutir.
- nem falar disso - acrescentou ela.
- ento no vamos.
- eu nem quero pensar nisso.
- nunca vou deixar de pensar nisso.
O timbre da voz dele ficou mais grave. Os dedos apertaram mais os ombros dela. 
Dean chegou um pouco mais perto, o bastante para as roupas encostarem e paris 
sentir 
A respirao dele no cabelo.
O assunto tinha mudado da morte de jack para um tema que era ainda mais 
perturbador e que achava melhor evitar. Paris ousou levantar a cabea e encarar 
dean.
- por que fica se escondendo no escuro, paris?
- no fao isso.
- no faz? Eu mal conseguia enxergar qualquer coisa naquele corredor.
- voc acaba se acostumando.
- ol, escurido, minha velha amiga.
- voc est citando simon e garfunkel?
- essa tem sido sua msica tema ultimamente?
- voc poderia ter sido o dj.
Paris sorriu, esperando tornar mais leve a conversa, mas dean no se deixou 
afetar. Ele olhou para o rosto dela.
- voc  linda, mas ningum da sua audincia sabe disso.
- no  necessrio. O rdio  um meio auditivo.
- mas as personalidades do rdio costumam se promover. Voc no tem identidade, 
s a voz.
- e  toda a identidade de que preciso. No quero chamar ateno.
-  mesmo? Ento talvez pudesse deixar de usar os culos escuros.
- ela no pode. Seus olhos so sensveis  luz.
Gavin chegou para o lado, bloqueou a viso dos amigos e obrigou melissa a olhar 
para ele.
- a janey est mesmo desaparecida?
- acho que sim. Quer dizer, foi isso que seu pai me disse. Alis, ele  um gato. 
Ele tem namorada?
A droga sozinha no podia levar a culpa de melissa ser um zero  esquerda de 
cabea. J tinha nascido sem massa cinzenta suficiente para se gabar.
- melissa, o que voc sabe sobre a janey?
- nada.
- voc  a melhor amiga dela - argumentou ele.
- eu estive fora da merda desse pas - disse ela, zangada. No vejo sua 
majestade h semanas. Entendeu? - ela deu mais uma tragada no baseado. - olha, 
tem uma galera 
 minha espera. Fica frio, t?
Melissa se afastou para juntar-se a um grupo que tinha enfiado uma mangueira de 
jardim num barrilete de cerveja e fazia fila para beber. Muito se perdia pelo 
cho, 
Mas ningum parecia notar ou se importar. Havia sempre mais do lugar de onde 
tinha vindo aquela.
Gavin reuniu-se aos amigos que mais uma vez estavam em volta da picape de craig. 
Rendeu-se  garrafa fechada de maker's mark que tinha roubado do armrio de 
bebidas 
Do pai. Ocupado como estava o velho, procurando janey kemp, talvez levasse dias 
para notar que faltava uma garrafa de usque.
Craig atacou o lacre de cera vermelha com seu canivete.
- levou uma bronca ontem  noite?
- vrias.
Gavin encostou no pra-choque e ficou examinando a multido  procura de um 
rosto ou uma forma familiar.
- voc estava no maior porre.
- vomitei indo para casa.
- caramba, cara.
- no estou brincando - ele contou o incidente na caixa de correspondncia. - 
estou falando de vmito tipo projtil.
A risada dos dois foi interrompida quando um dos outros meninos mencionou o nome 
de janey.
- vocs souberam do desaparecimento dela?
- apareceu no noticirio local - disse outro. - minha me perguntou se eu a 
conhecia.
- aposto que no contou at onde a conhece.
- e, aposto que no contou para a sua me que conhece janey no sentido bblico.
- o que voc entende de qualquer coisa bblica?
- meu primo  pregador.
- e o que aconteceu com voc?
- ele tentou me salvar. No funcionou. Passe a garrafa.
Os outros continuaram a trocar insultos e goles de usque. Craig desceu da 
picape e parou ao lado de gavin.
- o que h com voc esta noite?
- nada.
- s bolado, hein?
Craig deu a gavin oportunidade de explicar por que estava amuado, mas desistiu 
com um dar de ombros e passou a examinar a turma junto com ele. Subitamente, 
sussurrou, 
Animado:
- ei, est vendo aquele cara ali?
Gavin olhou na direo que craig indicava e viu um homem descendo do banco de 
trs de um carro, arrumando a roupa e puxando para a frente um bon de beisebol. 
Duas 
Meninas saram atrs dele. Eram gatas. Do tipo bonecas barbie, louras e 
peitudas, apesar dos colos ossudos sugerirem implantes.
- os peitos so falsos - observou gavin.
- e da?
Craig obviamente no se importava com isso, pois continuou a com-las com os 
olhos.
- ser que as meninas sabem que ele  tira? Gavin levou um susto.
- tira? De jeito nenhum.
- ouvi dizer.
Enquanto os dois observavam, o trio se atracou num abrao grupal. Ento o homem 
afastou as duas, no sem antes dar um tapinha afetuoso no traseiro e prometer 
que 
Iam se ver logo,
As meninas saram andando, infelizmente na direo oposta de gavin e craig. O 
homem voltou para o carro, sentou dessa vez no banco do motorista e enquanto 
manobrava 
Por trs da ram de craig, gavin e ele se olharam nos olhos.
- filho-da-puta convencido - resmungou craig.
- voc tem certeza que ele  da polcia?
- noventa e nove por cento.
- ento o que  que ele est fazendo aqui?
- a mesma coisa que a gente, e esta noite ele marcou um ponto.
- , vezes dois.
- babaca sortudo. - ficaram olhando at a luz das lanternas traseiras 
desaparecer, ento craig disse: - vi voc falando com a melissa.
-  s isso que ela sabe fazer. Falar. - gavin contou para craig o encontro 
casual do pai com ela na casa dos kemp. - ele sabe do clube do sexo.
- no se preocupe com isso - disse craig, fungando com desprezo. - o que  que 
eles vo fazer? Confiscar todos os computadores?
- exatamente o que perguntei para o meu velho. Eles esto mijando contra o 
vento.
Gavin aparentava mais tranqilidade do que sentia. A preocupao queimava por 
dentro como a dor da fome. Por isso tinha desafiado o pai mais uma vez, saindo 
de casa 
Aquela noite. Ia ficar encrencado de qualquer maneira mesmo. Era uma questo de 
intensidade.
Semanas antes, planejando justamente para uma emergncia como aquela, tinha 
mandado fazer uma cpia da chave do carro. Assim que o pai o deixou em casa e 
foi para 
A rdio, ele tambm saiu. Mas no se sentia  vontade como indicava a atitude 
desafiadora. Estava apreensivo demais em relao ao que podia acontecer nos 
prximos 
Dias.
- onde voc acha que ela est?
A pergunta de craig entrou nos pensamentos de gavin como se o menino pudesse l-
los.
- quem, janey? E como  que eu vou saber?
- ah, pensei que talvez soubesse.
- por qu?
Craig olhou para ele irritado.
- voc estava com ela ontem  noite.
Quando os ltimos compassos de "i'll never love this way again" deram lugar ao 
silncio, paris falou ao microfone.
- essa foi dionne warwick. Espero que tenham algum na sua vida que entenda suas 
fantasias e que faa cada uma delas se tornar realidade.
O estdio parecia claustrofbico aquela noite e dean era o motivo. Tinha ficado 
as ltimas trs horas e dezesseis minutos sentado num banco giratrio bem alto, 
idntico 
Ao dela, a uma certa distncia, para dar a paris liberdade de movimentos e 
acesso a todos os controles, mas suficientemente perto para que ela tivesse 
conscincia 
O tempo todo da sua presena. A maior parte do tempo, ele ficou imvel e em 
silncio, mas seus olhos seguiam todos os movimentos dela.
E paris sentiu aquele olhar especialmente naquele momento em que mencionou a 
realizao de fantasias.
- faz um calor de vinte e oito graus  uma hora e dezesseis minutos, mas vou 
tocar para vocs clssicos tranqilos at s duas, aqui na 101.3. Quero saber o 
que 
Esto pensando esta noite. Telefonem para mim.
"recebi um pedido de marge e jim, que esto comemorando o trigsimo aniversrio 
de casamento. Essa foi a msica que tocou no casamento deles.  dos carpenters. 
Feliz 
Aniversrio, marge e jim."
Quando "close to you" comeou a tocar, paris apertou o boto para desligar seu 
microfone e olhou para dean quando pressionou um dos botes luminosos de uma 
linha 
Telefnica.
- aqui  paris.
- oi, paris. Meu nome  roger.
Durante todo o programa, cada vez que paris atendia uma das linhas telefnicas, 
dean e ela ficavam com medo e ao mesmo tempo torciam para ser valentino. Dean 
tinha 
Levado um gravador porttil. Estava carregado e pronto para gravar.
Os ombros dele relaxaram junto com os dela quando paris disse:
- oi, roger.
- voc pode fazer o favor de tocar uma msica para mim?
- voc est comemorando o qu?
- nada.  s uma msica que eu gosto.
- isso tambm  para comemorar. Que msica voc quer
Ouvir?
Com facilidade, paris inseriu a msica pedida na programao, substituindo por 
outra que j estava selecionada. Ela apertou a parte inferior da coluna, 
levantou 
E se esticou.
- cansada? - perguntou dean.
- praticamente no dormi a noite passada e no consegui nem tirar um cochilo 
hoje. Voc tambm deve estar cansado. No est acostumado com esse horrio.
- mais acostumado do que voc pensa. Eu raramente durmo a noite inteira. Fico 
cochilando e atento para ouvir quando gavin volta para casa.
- ele est passando as frias com voc?
- no,  mais ou menos permanente. Paris manifestou surpresa.
- no aconteceu nada com a pat, no ?
- no, no, ela est bem - disse ele logo, em resposta  preocupao de paris. - 
na verdade, est tima. Ela finalmente se casou de novo. Ele  um cara simptico 
Na opinio de todo mundo, menos do gavin.
Paris tinha conhecido a ex-mulher de dean num dos jogos de beisebol infantil de 
gavin, e jack e ela uma vez foram convidados para o jantar de aniversrio de 
gavin 
Na casa dela. Lembrava de pat como uma mulher mida e bonita, mas muito sria e 
organizada.
Sem que paris perguntasse, jack havia confidenciado que dean tinha se casado 
assim que se formou. A unio durou menos de
Um ano.
- na verdade, apenas o suficiente para levarem gavin da maternidade para casa. 
Os dois no combinavam, sabiam disso, e concordaram que seria melhor, mesmo para 
o 
Menino, se evitassem mais prejuzos e se separassem em bons termos naquele 
momento.
Apesar de gavin ter ficado com pat, dean o via vrias vezes por semana e se 
envolveu ativamente em todas as fases da vida do menino. Ia junto com pat s 
reunies 
De pais e mestres, treinava times de futebol e de t-ball, participava e 
contribua em tudo no
Desenvolvimento de gavin. Depois de um divrcio, a criao do filho costumava 
ser deixada inteiramente a cargo do responsvel pela custdia. Paris admirava 
dean 
Por ter levado to a srio suas responsabilidades de pai.
- o padrasto e ele no esto se dando bem? - perguntou paris.
- culpa do gavin. Ele passou de mau comportamento para simplesmente impossvel. 
Pat e eu concordamos que ele devia vir morar comigo por um tempo. - dean 
descreveu 
A coexistncia frgil dos dois. - o pior, paris,  que eu queria muito que ele 
viesse ficar comigo. Quero que esse esquema funcione.
- tenho certeza que vai funcionar,  s dar um tempo. Gavin  um bom menino.
Ele riu.
- ultimamente, peo licena para discordar. Mas espero que aquele bom menino que 
voc lembra ainda esteja l em algum lugar, por trs de toda a hostilidade e o 
mau 
Humor.
 uma e meia, paris leu algumas manchetes de notcias no monitor de informaes. 
Seguiram-se alguns minutos de anncios, enquanto ela atendia aos telefonemas. Um 
Ouvinte a convidou para sair com ele. Paris recusou educadamente.
- voc podia ter aceitado - provocou dean. - ele parecia desesperado.
- desesperadamente bbado - disse ela, retribuindo o sorriso de dean enquanto 
apagava a ligao no vox pr.
A prxima chamada foi de um casal meio alto que acabava de ficar noivo:
- ele pediu para eu abrir a garrafa de champanhe e me deu uma taa com a aliana 
dentro - nem o grito de alegria podia disfarar um charmoso sotaque britnico. - 
As minhas amigas em londres no vo acreditar! Ns assistamos ao seriado dalas 
religiosamente quando ramos meninas e sonhvamos algum dia em conhecer um 
texano 
Charmoso.
Rindo com a bvia felicidade da mulher, paris perguntou que msica eles queriam 
ouvir.
- "she's got a way." ele diz que billy joel podia ter escrito essa msica para 
mim.
- e tenho certeza que ele est certo. Vocs se importam se eu puser essa nossa 
conversa no ar?
- fantstico!
Paris anotou os nomes dos dois e atendeu mais algumas ligaes. Depois da 
seqncia de comerciais, ps a gravao da conversa com o casal de noivos no ar 
e em seguida 
A msica que eles pediram, depois "precious & few" e "the rose".
Operar a mesa de controle fazia parte da segunda natureza de paris, por isso 
conseguiu fazer tudo isso e continuar conversando com dean sobre gavin ao mesmo 
tempo.
- o que ele disse quando voc contou do encontro que teve com melissa hatcher?
- ele fingiu que no a conhecia.
Paris olhou para ele com a testa franzida e ele entendeu.
- , isso me preocupa tambm. Por que ele no quis admitir que a conhecia? E 
tambm no admitiu que conhecia janey kemp, at eu dar um aperto nele.
- at que ponto ele a conhece?
- no muito. Pelo menos foi isso que ele me disse, mas hoje em dia ele nem 
sempre diz a verdade.
- no  como daquela vez que ele entortou o aro da bicicleta.
- voc se lembra disso?
- jack e eu tnhamos ido a um churrasco na sua casa. Gavin estava passando o fim 
de semana com voc. E tinha ido andar de bicicleta com os garotos da vizinhana, 
Mas voltou para casa empurrando a dele. Os raios da roda da frente estavam 
dobrados quase ao meio. Voc perguntou se ele tinha brincado de empinar a 
bicicleta e, 
Quando gavin confessou, mandou-o para o quarto, de castigo o resto da noite.
- e deve ter sido um castigo bem duro, porque ele adorava estar com voc e com o 
jack. Mas tambm mandei fazer tarefas extras em casa para ganhar dinheiro 
suficiente 
Para trocar a roda.
- disciplina rgida, mas boa, dean.
- voc acha?
- acho. Voc deixou bem claro a questo do valor da propriedade, mas que no foi 
o estrago na bicicleta que o incomodou.
Ele deu um sorriso triste.
- eu tinha dito mil vezes para ele no brincar de empinar nem ficar pulando no 
meio-fio porque era perigoso. No queria que ele virasse um doador de rgos.
- certo. Ele podia muito bem arrebentar a cabea ou quebrar o pescoo. Voc se 
aborreceu com o que podia ter acontecido e por isso ficou zangado.
- acho que devia-ter explicado isso para ele.
- ele sabia - disse ela suavemente.
Dean olhou para ela e a conexo foi mais do que apenas visual. Durou todo o 
resto da msica de bette midler. Quando terminou, paris virou de novo para a 
mesa de 
Controle e ligou seu microfone.
- no esqueam de ouvir charlie e chad amanh de manh. Eles faro companhia 
para vocs quando estiverem dirigindo para o trabalho. Por enquanto, aqui  
paris gibson 
Com uma srie romntica de canes romnticas clssicas. As linhas telefnicas 
estaro abertas at s duas horas. Telefonem para mim.
Quando comeou a prxima srie de msicas, paris olhou para o monitor com a 
programao.
- s mais nove minutos de programa.
- no foi mais ou menos a essa hora que ele telefonou ontem? Logo antes de 
encerrar? - paris concordou com a cabea, e dean disse: - voc vai poder 
conversar com 
Ele sem ser interrompida, se ele ligar?
Ela apontou para o cronmetro na tela.
- esse  o tempo que falta para tudo que est programado para tocar. H mais 
duas selees depois dessa.
Ele fez as contas.
- ento depois da ltima msica, voc mal ter tempo para dizer boa-noite e 
desligar.
- certo.
Dean olhou para as linhas telefnicas na mesa de controle. Trs estavam 
piscando.
- se no for o valentino, no fique conversando longamente com o ouvinte. Deixe 
as linhas abertas. E se for ele, lembre-se de pedir para falar com janey.
Paris respirou fundo, deu uma espiada para ver se o dedo de dean estava no boto 
do gravador porttil, depois atendeu uma das ligaes. Rachel queria pedir uma 
msica 
Para o marido dela, pete, "it might be you".
- ah, stephen bishop.
- foi a primeira msica que ns danamos na recepo do
Nosso casamento.
-  uma tima escolha e merece lugar de destaque.
Paris prometeu tocar na primeira meia hora do programa na noite seguinte.
- maravilha. Obrigada.
Paris olhou de novo para dean antes de apertar outro boto
Que piscava.
- aqui  paris.
- ol, paris.
Seu sangue gelou ao ouvir a voz dele. Olhou freneticamente para dean, que 
apertou o boto para o gravador porttil comear a gravar. A tela do vox pr 
registrou 
Um nmero de telefone, que dean anotou. Ele ficou olhando fixo para a tela como 
se quisesse que ela desse no s o nmero do telefone, mas tambm uma imagem e 
identificao 
De quem estava ligando.
- oi, valentino.
- como foi seu dia? Muito ocupada?
- deu para levar.
- ora, vamos, paris. Conte para mim. O que voc fez hoje para se manter ocupada? 
Pensou em mim alguma vez? Ou me desprezou como um trote? Voc contou para a 
polcia?
- e por que eu faria isso? Se voc no me deixar falar com a menina, no tenho 
por que acreditar que ela existe e que tudo que voc me disse ontem  noite  
verdade.
- pare com esses joguinhos idiotas, paris.  claro que ela existe. Por que eu 
afirmaria tal coisa se no fosse verdade?
- para chamar a minha ateno. Ele deu risada.
- bem, e chamei? Dessa vez voc vai prestar ateno?
- dessa vez?
- voc me ignorou quando dei o aviso antes, e olha s o que
Aconteceu.
Paris olhou para dean e balanou a cabea, entendendo errado o que valentino 
dizia.
- do que  que voc est falando, valentino?
- voc gostaria mesmo de saber, no ? - atiou ele. - pergunte com delicadeza e 
talvez lhe d algumas pistas. Mas tem de
Perguntar com muita delicadeza. Ora, essa  uma idia excitante.
- ele respirou profundamente, ruidosamente, para paris poder ouvir. - basta a 
sua voz para eu ficar excitado. Penso em ns dois juntos, voc sabe. Muito em 
breve, 
Paris.
Ela estremeceu de nojo, mas continuou num tom ousado:
- eu no acredito que a menina esteja a com voc.  tudo conversa fiada e isso 
 um trote.
Dean meneou a cabea, aprovando.
- mais joguinhos, paris. Aconselho que pare com isso. Voc j desperdiou vinte 
e quatro de setenta e duas horas. As prximas quarenta e oito sero muito mais 
divertidas 
Para mim do que para voc. Quanto  minha prisioneira, ela est um pouco 
cansada, e toda a choradeira e as splicas j esto comeando a me irritar. Mas 
ela ainda 
 uma trepada gostosa e est me esperando.
O telefone ficou mudo.
- no  o mesmo nmero de onde ele ligou a noite passada
- disse dean, pegando o celular. - notou alguma coisa diferente hoje, paris? 
Alguma mudana na inflexo ou no tom de voz de ontem  noite?
Dean era um policial, e ela no. Enojada com a ligao, paris estava achando 
muito mais difcil ligar o comando de solucionadora de crimes.
 no  respondeu ela com a voz rouca. - parecia a mesma coisa.
- para mim tambm, mas achei que talvez voc pudesse ter captado... Ei, curtis, 
ele acabou de ligar. - dean falou no celular.
- outro nmero. Est preparado?
Dean informou o nmero ao detetive e stan abriu a porta com isolamento acstico 
do estdio.
- paris, a rdio est morta.
Paris no tinha se dado conta de que a msica tinha parado de tocar. Rapidamente 
fez sinal para ningum fazer barulho e ligou o microfone.
- cuidem-se, sejam felizes, amem algum. Aqui  paris gibson desejando uma boa 
noite.
Apertou mais alguns botes e ento anunciou:
- transmisso encerrada.
- o monstro ligou de novo? - perguntou stan.
Dean estava de costas para os dois e continuava a conversar ao telefone com 
curtis.
- deixe um bilhete para os engenheiros amanh de manh disse paris para stan. - 
pea para eles passarem a ltima ligao do vox pr para uma fita cassete e 
fazer 
Algumas cpias. Sero melhores do que as gravaes do toca-fitas porttil do 
dean.
Stan pareceu ofendido.
- eu sei como transferir para fita cassete, paris. posso fazer isso agora mesmo.
Paris hesitou um pouco, duvidando da habilidade dele. Mas stan parecia muito 
frustrado.
- obrigada, stan, seria uma grande ajuda - ela acabou dizendo.
Dean desligou o celular, deu meia-volta, pegou o palet nas costas do banco e o 
gravador porttil, tudo num nico movimento fluido.
- o nmero  de outro telefone pblico. As unidades j esto a caminho.
- eu tambm vou - disse paris.
-  claro que vai. No vou deix-la sozinha de jeito nenhum agora.
Dean abriu a porta. Os dois partiram apressados e paris gritou para stan:
- quer fazer o favor de deixar as fitas na minha casa? Dean a empurrou pela 
porta antes de stan ter tempo de responder.


Captulo quinze
Melissa hatcher tinha inveja de janey kemp por todos os motivos que normalmente 
inspiram inveja. Janey era mais rica, mais bonita, mais inteligente, mais 
popular 
E mais desejada. No entanto, havia um atributo que melissa tinha, e janey no: 
astcia.
Se melissa fizesse de janey sua rival, cairia automaticamente para um distante 
segundo lugar numa disputa de duas mulheres. Em vez disso, tinha sido 
suficientemente 
Esperta para tornar janey sua melhor amiga.
Porm, na primeira noite, assim que voltou da frana, quando devia ser o centro 
das atenes, tudo que todo mundo queria comentar era janey e seu misterioso 
desaparecimento. 
Melissa ficou zangada. Tinha histrias para contar sobre as praias de nudismo da 
cote d'azur, sobre o vinho que tinha bebido e as drogas que havia usado. A 
histria 
De como acabou pondo uma argola num mamilo em saint tropez manteria a audincia 
cativa por meia hora.
Mas ningum estava interessado nas suas recentes aventuras no exterior. Janey 
era o nome em todos os lbios, tpico de todas as conversas.
Melissa no acreditava em nenhuma das loucas especulaes que circulavam sobre o 
paradeiro da amiga. Iam desde uma fuga com o zagueiro novato do dalas cowboys 
que 
Tinha conhecido numa boate na rua seis, at o seqestro para obteno de resgate 
que o pai dela se recusava a pagar, ou que tinha sido raptada por um tarado e 
transformada 
Em escrava sexual.
Aqui, , pensou melissa, ressentida.
Se janey estivesse em lua-de-mel com algum dos dalas cowboys, faria de tudo para 
que todos soubessem. Melissa sabia que o juiz era capaz de no querer mesmo 
pagar 
Um resgate para seqestradores, mas faria isso diante das luzes e das cmeras, e 
usaria na campanha para sua reeleio. E se algum estava sendo transformado em 
Escravo sexual, devia ser o cara que estava com janey.
Janey estava chapada. Estava trepando. Fim da histria. Quando sentisse vontade, 
ia aparecer e se vangloriar da confuso que tinha arrumado. Tiraria todo o 
proveito 
Possvel. Essa era a janey. Adorava chocar e agitar as pessoas.
Era to tpico da sua suposta melhor amiga, pensou melissa, roubar os holofotes 
na sua primeira noite de volta da europa. E a noite virou uma verdadeira 
chatice, 
E estava de mau humor. Depois de ouvir falar em janey at no poder mais, 
melissa resolveu ir para casa e render-se aos fusos horrios.
Mas ao ver o cara mais velho, mudou de idia.
Tinha visto o homem antes. Sua memria no era cem por cento confivel, mas 
tinha quase certeza de que janey tinha ficado com ele pelo menos uma vez. Por 
mais irritante 
Que fosse admitir isso, ele provavelmente escolheria janey em vez dela, se janey 
estivesse presente. S que no estava.
Por isso melissa foi caminhando para onde ele estava, encostado na porta do 
carro, observando.
- voc est indo ou vindo?
Ele a examinou de cima a baixo, depois sorriu devagar.
- neste exato momento, nenhum dos dois. Melissa deu um tapinha amigvel no brao 
dele.
- acho que voc entendeu errado.
- no pretendia dar duplo sentido?
Melissa no entendeu bem o que ele queria dizer, por isso sacudiu os ombros e 
deu o seu sorriso mais malicioso.
- talvez.
Ele era bonito. Uns trinta e cinco anos, melissa imaginou. Um pouco velho e 
estranho, mas e da? Pelo menos ficaria impressionado com suas viagens.
- acabei de voltar da frana.
- e como foi?
- afrancesada.
Ele sorriu, apreciando a inteligncia dela.
- foi um barato total. Eu no sabia que porra estavam dizendo, mas gostei de 
ouvir o pessoal de l falar. Vi um cara bebendo vinho no caf da manh. Os pais 
do 
Para os filhos, voc acredita? E as pessoas tomam banho de sol nuas, nas praias.
- e voc?
Melissa deu um sorriso tmido.
- o que voc acha?
Ele estendeu a mo e alisou o brao dela.
- mosquito.
- eles esto terrveis esta noite. Acho que  melhor entrar
No seu carro.
Ele foi com ela at a porta do carona, abriu para ela, depois deu a volta e 
entrou no lado do motorista. Ligou o motor e o arcondicionado.
- humm, isso  muito melhor - disse ela, esfregando o corpo no estofamento de 
couro frio. - carro legal - disse ela, observando o interior.
Melissa olhou para o banco de trs e perguntou.
- o que  aquilo?
- um saco plstico de lixo.
- da! Isso eu sei. O que tem nele?
- quer ver?
Ele esticou o brao entre os bancos da frente, pegou o saco e ps no colo dela.
- no  roupa suja, ? - perguntou melissa, e ele deu risada. Melissa desamarrou 
o fio de arame e espiou dentro do saco,
Depois tirou uma revista. O nome e a capa no poderiam ser mais explcitos, mas 
melissa fingiu estar acostumada.
- na frana, qualquer um pode comprar revistas de fetiche como essa em todas as 
esquinas. Ningum se importa. Posso dar uma olhada?
-  vontade.
Quando melissa terminou de folhear a revista toda, ele j dedilhava as coxas 
dela. Abaixou a cabea e enfiou o rosto nos seios de melissa.
- o que  isso?
- minha lembrana da frana - ela levantou o top e mostrou orgulhosa a argola no 
mamilo. - conheci um cara na praia que conhecia um dentista que fazia piercing 
tambm.
Ele comeou a rir.
- qual  a graa?
Ele mexeu na argola de prata com a ponta do dedo.
- uma piada particular.
Havia sete ligaes de liz na secretria eletrnica da casa de dean. Ele ouviu 
os sete recados.
- no consigo entender por que voc no ligou para mim dizia o ltimo recado. - 
j passei da fase de ficar zangada, dean. Estou assustada. Alguma coisa 
aconteceu 
Com voc ou com o gavin? Se receber esse recado, por favor, ligue para mim. Se 
no tiver notcia sua daqui a uma hora, vou comear a ligar para os hospitais de 
austin.
Liz tinha deixado aquele recado s trs e vinte da madrugada. Havia um parecido 
na caixa de mensagens do celular de dean. A ltima coisa que ele queria era 
falar 
Com liz. No, a ltima coisa que queria era que ela comeasse a telefonar para 
os hospitais.
Discou o nmero do celular dela e liz atendeu ao primeiro toque.
- eu estou bem - dean foi logo dizendo. - ningum est no hospital e voc tem 
todo o direito de ficar furiosa. Pode falar.
- dean, o que est acontecendo?
Ele despencou numa cadeira  mesa da cozinha e passou os dedos no cabelo.
- trabalho. Temos uma situao de crise.
- no ouvi nenhuma notcia sobre...
- no  uma crise nacional. Nenhum acidente de avio, nenhuma greve, assassinato 
em massa, nada disso. Mas  um caso complicado. Eu me envolvi logo cedo esta 
manh... 
Na verdade, ontem de manh. Fui consultado assim que cheguei na minha sala, e 
estive trabalhando nisso o dia inteiro. Acabei de chegar em casa e estou morto. 
Mas 
Nada disso  desculpa para no ter telefonado para voc.
- que tipo de caso?
- uma menina desaparecida. O suspeito  egocntrico. Ele telefonou e disse o que 
planeja fazer com ela, a menos que seja localizada antes do prazo marcado.
Dean no tinha energia para contar mais do que isso para liz. Alm do mais, os 
detalhes teriam de incluir paris. Liz no sabia quem era paris, e aquela no era 
hora 
De tentar explicar uma situao to complexa.
- sinto muito seu dia ter sido to horrvel.
- meu deus, liz, sou eu que devo sentir muito.
E dean tinha muito que sentir mesmo. Sentir por fingir retribuir o amor dela, e 
fingir to bem que ela acreditava. Sentir por no ter dito para ela ficar em 
houston, 
Como devia. Sentir por desejar que a viagem dela para chicago demorasse mais do 
que alguns poucos dias.
- como foram as reunies com os suecos? - perguntou ele sem interesse algum.
- dinamarqueses. Eles aceitaram a minha proposta.
- timo. Mas no me surpreende.
- como est o gavin?
- ele est bem.
- no discutiram mais?
- temos evitado derramamento de sangue.
- voc parece exausto. Por isso vou desligar e deixar voc descansar.
- olha, o que aconteceu hoje...
- no tem importncia, dean.
- claro que tem. Por minha causa voc ficou preocupada, sem necessidade. Tem 
importncia sim.
Dean estava aborrecido com liz porque ela no estava mais aborrecida ainda com 
ele. Teria aliviado sua conscincia se ela ficasse furiosa. Dean no queria que 
liz 
Fosse compreensiva. No queria sair impune gentilmente. Queria que liz ficasse 
louca de raiva.
Mas uma briga aberta ia exigir energia que dean no tinha, por isso deixou 
passar e disse, desanimado:
- bem, de qualquer maneira, peo desculpas.
- aceito. Agora v para a cama. Conversamos amanh.
- prometo. Boa-noite.
- boa-noite.
Dean bebeu um grande gole direto da garrafa de gua da geladeira, depois andou 
pela casa s escuras, indo para o quarto. No havia luz por baixo da porta de 
gavin, 
Nem o brilho do monitor do computador. Ele parou para espiar.
Gavin estava dormindo. S de cueca, deitado de costas, pernas e braos compridos 
bem abertos, cobertas chutadas para longe.
Era quase do tamanho da cama. Respirava pela boca, como fazia desde beb. 
Parecia muito jovem e inocente. Aos dezesseis anos, estava na fronteira entre 
menino e 
Homem. Dormindo, no entanto, parecia muito mais criana do que adulto.
Dean descobriu, ali parado, olhando para o filho, que a pontada dolorida que 
sentia bem no fundo do peito era amor. No havia amado de verdade a me de 
gavin, nem 
Ela a ele. Mas ambos amavam gavin. Desde o dia em que souberam que gavin tinha 
sido concebido, os dois canalizaram o amor que deviam ter sentido um pelo outro 
para 
A pessoa que haviam criado.
Era bvio que falharam em comunicar a profundidade daquele amor a gavin. Ele 
ainda no acreditava que o castigo era para proteg-lo, e que a disciplina no 
era um 
Passatempo agradvel para eles, e sim uma demonstrao da importncia que ele 
tinha para os pais.
Droga, dean queria ser um bom pai. Queria fazer tudo direito. No queria que o 
filho duvidasse, nem por um segundo na vida, que era amado. Mas em algum ponto 
do 
Caminho devia ter dado algum passo em falso, cometido algum erro, deixado de 
fazer alguma coisa que devia ter feito. Agora o filho o desprezava e no fazia 
segredo 
Nenhum disso.
Sentindo o peso do seu fracasso, dean se afastou da cama de gavin, saiu do 
quarto e fechou a porta sem fazer barulho.
O quarto principal era um cmodo grande, com teto emoldurado bem alto, janelas 
amplas e uma lareira. Merecia uma decorao melhor do que a que dean tinha 
feito, 
Que no passava de moblia bsica e uma colcha na cama. Quando se mudou para 
aquela casa, disse para liz que deixaria que ela se incumbisse da decorao 
quando se 
Casassem. Mas estava mentindo para ela e para ele mesmo tambm. Jamais tinha 
sequer convidado liz para passar a noite na cama dele.
Ligou o carregador de bateria do telefone celular numa tomada na parede do 
banheiro para ficar  mo, caso algum ligasse, depois se despiu, entrou no 
chuveiro e 
Deixou a gua quente cobri-lo enquanto relembrava tudo que tinha acontecido 
depois do telefonema de valentino.
A corrida para o telefone pblico tinha sido um esforo intil para todos os 
envolvidos. Para os policiais nos trs carros de patrulha que tinham ido para 
l, para o sargento robert curtis, que chegou bem vestido como estava durante o 
dia, e para paris e ele. Os dois chegaram assim que ficou 
Claro que valentino no estava mais nas proximidades do telefone pblico de onde 
tinha feito a ligao. A loja wal-mart estava fechada havia horas. O 
estacionamento 
Era um imenso deserto de concreto. No havia testemunhas, exceto um gato vadio 
que comia os restos de um cachorro-quente que algum tinha jogado na direo de 
uma 
Lata de lixo, e errado.
- e o gato no quer falar - disse curtis quando resumiu a situao para eles.
Dean e paris estavam no carro do detetive para fazer a autpsia do esforo 
abortado para pegar valentino. Paris, sentada no banco de trs. Dean no banco da 
frente.
- eu gravei numa fita quando ele fez a ligao - disse dean para curtis.
- vamos ouvir.
Dean tocou a fita uma vez, depois voltou e ouviram a conversa uma segunda vez. 
Quando terminou, curtis observou:
- parece que ele no desconfia que estamos atrs dele.
- e isso pode funcionar a nosso favor - disse dean.
- s at amanh, quando aparecer no jornal. - curtis virou para paris. - o que 
ele quis dizer quando falou que voc no o levou a srio da ltima vez?
- exatamente como eu disse para ele, no tenho a menor idia.
- voc no se lembra de nenhum aviso anterior?
- se eu tivesse recebido uma ligao como essa, teria dado queixa na polcia.
- e foi isso que ela fez a noite passada. - dean no estava gostando do jeito 
que o detetive olhava para paris. - onde voc est querendo chegar?
- lugar nenhum. Estava s pensando.
- ento faa a cortesia de pensar em voz alta.
Curtis olhou para dean, e parecia pronto para reclamar do seu tom de voz, ento 
deve ter lembrado que dean era seu superior.
- estava s pensando na paris.
- especificamente?
- que ela faz um esforo danado para permanecer annima. E isso, sinceramente, 
eu no entendo - disse ele, virando para paris de novo. - as outras pessoas da 
sua 
rea so extrovertidas. Vivem caando publicidade. As fotos delas esto em todos 
os cartazes. Esto sempre aparecendo em pblico, coisas assim.
- eu no sou como os djs amalucados que cuidam da programao nas horas de rush. 
O meu programa no  excitante e chamativo como o deles. A msica  diferente, e 
Eu tambm. Sou a voz sem corpo, no escuro. Sou a cmera de eco quando no h 
ningum mais para ouvir. Se meus ouvintes soubessem como eu sou, as conversas 
confidenciais 
Ficariam comprometidas. Muitas vezes as pessoas acham mais fcil conversar com 
uma pessoa desconhecida do que com um amigo fiel.
- certamente  mais fcil para o valentino - observou ele. Se  que ele  
desconhecido para voc.
- agora ele pode ser, mas no quer continuar assim - comentou dean.
Paris e curtis eram suficientemente inteligentes para saber que dean se referia 
 sugesto de valentino de que paris e ele em breve seriam amantes.
Mas curtis continuava seguindo sua seqncia original de pensamentos.
- vocs sabem - disse ele -, algumas dessas pessoas que fazem sexo pelo telefone 
so bem comuns. Gordas, feias, nada parecido com o que as vozes sugerem.
Dean sabia que aquela observao no era casual.
- tudo bem, voc jogou a isca. Eu mordi.
- em vez de estarem deitadas numa cama com lenis de cetim, com camisolas 
nfimas, como querem que o cara que ligou imagine, na verdade usam cala de 
moletom e 
Tnis, e falam de suas cozinhas desarrumadas.  tudo questo de imaginao - ele 
se dirigiu para paris. - o pessoal ouve a sua voz e faz uma imagem mental de 
voc. 
At eu fiz.
- e da?
- nem cheguei perto. Visualizei voc de cabelo e olhos pretos. Do tipo cigana 
que l a sorte.
- sinto muito desapont-lo.
- eu no disse que voc me desapontou. S no tem uma aparncia to extica como 
faz supor a sua voz.
Curtis se ajeitou mais confortavelmente no banco para no ter de entortar o 
pescoo para falar com paris.
- tudo isso  para dizer que algumas pessoas podem ter formado uma imagem 
deturpada de voc. Valentino parece ser uma dessas pessoas.
- paris no pode ser responsvel pela imaginao de um ouvinte - disse dean. - 
especialmente se ele sofre de problemas mentais, emocionais ou sexuais.
- , voc j disse isso antes.
Mais ou menos dando a entender que o comentrio de dean era irrelevante, o 
detetive continuou a falar com paris:
- existe algum motivo pessoal para voc querer continuar annima?
-  lgico que sim. Para proteger a minha privacidade. Quando se  uma 
personalidade da televiso, estamos sempre expostos aos olhos do pblico, mesmo 
quando no 
Estamos no ar. Eu no gostei dessa caracterstica do meu trabalho. A minha vida 
era um livro aberto. Tudo que eu dizia ou fazia era sujeito a crticas, ou 
especulaes, 
Ou ao julgamento de pessoas que no sabiam nada sobre mim.
"no rdio eu posso permanecer no ramo, mas longe dos holofotes. Permite que eu 
v a qualquer lugar sem ser reconhecida e examinada, posso manter minha vida 
privada 
Exatamente assim."
Curtis pigarreou e deu a entender que no estava ouvindo a histria toda, mas 
que ia deixar passar por enquanto.
- quanto tempo voc disse que guarda as gravaes dos seus telefonemas?
- indefinidamente. Ele fez uma careta.
- so muitos telefonemas.
- mas lembre que s gravo os que acho que vale a pena gravar.
- mesmo assim, estamos falando do qu? Centenas? - assentiu ela, e ele disse: - 
ns usaramos grande parte das quarenta e oito horas que nos restam para ouvir 
todas 
Essas ligaes,
Tentando encontrar aquela  qual valentino se referiu hoje. Mas se entrarmos 
pela porta dos fundos...
- dando uma olhada nos casos no resolvidos - disse dean, vendo subitamente onde 
curtis queria chegar.
- certo. Telefonei para um amigo de l - a unidade de casos sem soluo 
trabalhava num outro prdio, a alguns quilmetros do quartel-general. - ele 
prometeu verificar, 
Ver se algum dos casos deles tem alguma semelhana com o de janey kemp.
- e se encontrarem algum, podemos verificar se paris recebeu algum telefonema de 
valentino na mesma poca.
- no se animem muito - avisou paris. - posso no ter gravado essa ligao. Alm 
do mais, como  que eu podia ter ignorado uma ameaa de assassinato?
- duvido que ele tivesse sido to direto na primeira vez disse dean para paris. 
-  sintomtico os estupradores em srie ficarem cada vez mais ousados. Eles 
comeam 
Muito cuidadosos e vo ficando mais temerosos com cada crime, at praticamente 
pedirem para ser capturados.
Curtis concordou.
- foi essa a experincia que eu tive tambm.
- alguns querem mesmo ser capturados - disse dean. - eles imploram para que os 
encontremos.
- no sei por qu, mas acho que valentino no se encaixa nessa categoria - disse 
paris. - ele parece muito seguro. Arrogante.
Dean olhou para curtis e percebeu que o detetive concordava com ela. E 
infelizmente dean tambm.
- por outro lado - disse ele -, valentino podia estar nos manipulando. Talvez 
voc no se lembre de nenhum telefonema assim porque realmente no houve nenhum. 
Valentino 
Podia estar tentando despistar.
- pode ser - disse curtis. - eu tenho a ntida sensao de que ele est rindo de 
ns - ele perguntou para paris. - o que voc sabe sobre marvin patterson?
- at ontem, apenas o primeiro nome dele.
- por qu? - perguntou dean para o detetive.
- ele desapareceu - disse curtis. - os policiais telefonaram para ver se ele 
estava em casa, disseram que iam at l para conversar com ele. Quando chegaram, 
marvin patterson tinha sumido. Saiu correndo. Pratos do caf da manh sujos na 
pia, e o bule de caf ainda quente. Foi com essa 
Pressa toda que ele se escafedeu.
- o que ele tem para esconder? - perguntou paris.
- estamos investigando isso agora - respondeu curtis. O nmero do seguro social 
que ele ps na ficha de emprego da estao de rdio  de uma mulher negra de 
noventa 
Anos que morreu num asilo alguns meses atrs.
- marvin patterson  um nome falso? - perguntou dean.
- aviso quando descobrir.
- marvin, ou seja l qual for o nome dele - disse paris -, pode ter alguma coisa 
a esconder, mas no acredito que ele seja valentino. Valentino usa aquele 
sussurro 
Assustador, mas  bem articulado. Se marvin fala,  um resmungo.
Dean perguntou como marvin era.
- quantos anos ele tem?
- uns trinta. Nunca prestei muita ateno, mas dava para perceber que tinha boa 
aparncia.
- vamos ver o que descobrimos - disse curtis.
- encontraram alguma coisa til no computador de janey?
- perguntou dean.
- sacanagem. Um monte. Escrita por outros garotos e garotas.
- ou predadores.
Curtis concordou com dean.
- de onde quer que tenha vindo,  coisa pesada, especialmente se partir de 
adolescentes. Rondeau imprimiu a lista de endereos de e-mail dela e est 
rastreando os 
Usurios.
Depois disso eles se separaram. Os protestos de paris contra a proteo da 
polcia foram ignorados. Curtis j havia despachado griggs e carson para a casa 
dela.
- ambos esto deslumbrados. Se estivessem protegendo o presidente, no iam levar 
mais a srio. Ficaro plantados na calada na frente da casa dela a noite 
inteira.
Dean levou paris para casa.
- e o meu carro? - perguntou paris quando dean se recusou a deix-la na estao 
de rdio para peg-lo.
- pea para um dos seus admiradores ir peg-lo de manh.
Paris mostrou o caminho para a casa dela. Ficava num bairro perifrico cheio de 
rvores e ladeiras. A casa de calcrio ficava dentro de um bosque de carvalhos 
espalhados 
E era rodeada por uma paisagem de jardins bem cuidados. O caminho da entrada 
fazia uma curva e era decorado com tinhores brancos, e subia at uma varanda 
bem larga. 
Luminrias idnticas de lato brilhavam hospitaleiras dos dois lados da porta da 
frente pintada de preto lustroso.
Incoerente com o aconchego da propriedade era a viatura policial estacionada na 
porta. Os dois jovens policiais praticamente pularam de dentro dela quando dean 
e 
Paris estacionaram atrs.
Dean fez sinal para o prestativo griggs no se abalar.
- eu vou acompanh-la.
Dean tinha insistido em entrar na casa com paris, e, apesar do painel de 
controle do alarme no ter registrado nenhuma perturbao desde a hora em que 
tinha sido 
Ligado, ele fez questo de examinar cada cmodo da casa, olhar dentro de cada 
armrio, atrs da porta do box do chuveiro, e at embaixo da cama.
- valentino no me parece o tipo que se esconderia embaixo da cama - disse 
paris.
- um estuprador muitas vezes se esconde na casa da vtima, esperando que ela 
volte para casa. Faz parte da emoo.
- voc est querendo me assustar?
- definitivamente. Eu quero voc bem assustada, paris. Esse cara quer punir as 
mulheres, lembra? Ele est zangado com a janey, pelo menos ainda achamos que  a 
janey, 
Por t-lo enganado. E est zangado com voc por ficar do lado dela.
- eu nem sabia que havia opo de lados.
- bem, essa  a percepo deturpada que ele tem, e percepo ...
- a verdade. Eu sei.
- sugerir que voc e ele logo estaro juntos como amantes na verdade significa 
que voc ser sua prxima vtima. Ele no diferencia as duas coisas.
Paris mordeu o lbio inferior.
- quando ele terminar com janey, vir atrs de mim.
- no se eu puder evitar. - dean chegou perto de paris e ps as mos nos ombros 
dela.  mas enquanto ele no estiver sob a custdia da polcia, tenha medo dele.
Paris deu um sorriso abatido.
- no estou com medo. Mas tambm no sou burra. Vou tomar cuidado.
Ela tentou se afastar e dean no deixou.
- essa  a primeira vez em todo o tempo da nossa amizade que estamos num quarto 
juntos.
- amizade?
- ns no somos amigos?
Paris hesitou alguns segundos antes de dizer baixinho:
- sim. Ns somos amigos.
- bons amigos.
Ento dean tirou os culos escuros de paris, jogou-os numa cadeira prxima, 
depois examinou ansioso seus olhos. Eram lindos como lembrava. Profundamente 
azuis, inteligentes, 
Expressivos. Olharam para ele com firmeza e clareza.
Dean deu um suspiro profundo de alvio.
- tive medo de ver que talvez tivesse perdido a viso de um olho, ou algum 
ferimento srio, e que por isso usava culos escuros.
- no houve nenhum dano permanente - disse ela com a voz rouca de emoo. - nem 
fiquei com cicatrizes visveis. Mas meus olhos continuam muito sensveis  luz 
forte.
Sem interromper o contato visual, dean chegou para a frente para alcanar o 
interruptor na parede, atrs de paris. Apertou para baixo e o quarto ficou 
escuro. Ele 
Continuou inclinado para frente, de modo que seus corpos se tocavam do peito at 
os joelhos, e, quando paris no se afastou, ele deslizou as mos pelo seu 
pescoo, 
Por dentro do cabelo. Virou a cabea dela para cima e abaixou a dele.
- dean, no.
Mas as palavras foram apenas um suspiro irregular contra os lbios dele, quando 
encostou nos dela. Abriram a boca ao mesmo tempo e, quando as lnguas se 
encontraram, 
O gemido de paris ecoou a sede de dean. Ele a fez encostar na parede, desejando 
senti-la, prov-la. Desejando.
Curvou o brao por trs da cintura de paris e puxou a parte de baixo do corpo 
dela mais para junto dele, aumentando a presso onde j era intensa. Ela 
interrompeu 
O beijo e gemeu o nome dele.
Dean passou os lbios nos olhos de paris, no rosto, sussurrando.
- ns esperamos muito por isso, paris. No esperamos? Ento ele beijou paris na 
boca com mais paixo do que antes.
Enfiou a mo entre os corpos dos dois e cobriu o seio dela. O mamilo estava 
ereto antes mesmo de encontr-lo com o polegar. Dean sentiu as mos de paris 
apertando 
Seus msculos das costas, sentiu o movimento para cima e para a frente dos 
quadris dela. Lembrou ter balbuciado algo ininteligvel, at para ele mesmo, 
quando abaixou 
A cabea, procurando cegamente o seio dela com a boca.
- srta. Gibson? Dr. Malloy?
Dean deu um pulo como se tivesse levado um tiro. Paris ficou paralisada, depois 
se esgueirou entre dean e a parede. Dean ficou possesso.
- aquele maldito novato. Vou mat-lo.
E naquele momento falava srio. Teria sido capaz de sair correndo pelo corredor 
e estrangular griggs com as prprias mos - era o que mais queria - se paris no 
Agarrasse seu brao e o segurasse. Ela deu a volta, ficou na frente dele, 
endireitou o cabelo e a roupa e foi andando pela casa, at a sala de estar.
Griggs estava parado na porta da frente.
- vocs deixaram a porta aberta - disse ele para dean, que estava a meio passo 
de paris. - est tudo em ordem?
- est tudo timo - disse paris para ele. - o dr. Malloy fez a gentileza de 
examinar a casa toda.
Griggs olhava para paris de um jeito estranho. Devia ter notado que havia mais 
cor no seu rosto, ou que os lbios estavam inchados, ou ento se surpreendeu 
porque 
Ela estava ofegante, ou ficou chocado de v-la sem os culos escuros, ou uma 
combinao de tudo isso.
Naquele momento, dean no tinha condio nenhuma de ser diplomtico e disse 
rispidamente:
- pode sair agora.
Dean jamais gostou de policiais que se impunham pela superioridade hierrquica, 
mas naquele momento ele fez exatamente isso e no se sentiu nada mal.
Paris foi mais educada.
- o dr. Malloy vai sair daqui a pouco. Ns dois agradecemos a sua eficincia.
- ha... Um cara... Stan? Deixou isso para a senhorita. - ele entregou diversas 
fitas cassete.
- ah, certo. Obrigada.
- deixe ali na mesa.
Griggs fez o que dean mandou. Deu mais uma olhada apreensiva na direo dele, 
depois saiu bem depressa, fechando a porta. Dean segurou paris de novo, mas ela 
evitou 
Encostar nele.
- aquilo no devia ter acontecido.
- a interrupo? Ou o beijo? Paris olhou zangada para ele.
- foi mais do que um simples beijo, dean.
- foi voc que disse, no eu. Ela cruzou os braos.
- no queira interpretar nada. No vai se repetir.
Dean ficou olhando para ela alguns segundos, observando a expresso tensa, a 
postura rgida, e disse baixinho:
- no faa isso, paris.
- o qu? Recuperar o juzo?
- no se distancie. No se feche. No me deixe de fora. No me castigue. No se 
castigue.
- voc precisa ir embora. Esto esperando voc sair.
- no dou a mnima. Eu esperei sete anos.
- esperou o qu? - perguntou ela zangada. - o que voc estava esperando, dean? O 
jack morrer?
As palavras doeram, e paris sabia que doeriam mesmo. Disse isso de propsito 
para feri-lo e provoc-lo, mas dean no lhe daria essa satisfao de jeito 
nenhum. Ele 
Abafou a raiva e manteve a calma.
- esperei por uma chance de ficar assim perto de voc disse dean.
- e depois, o que esperava que acontecesse? Esperava que eu casse nos seus 
braos? Esquecesse tudo que tinha acontecido e...
Ela parou de falar e dean ergueu as sobrancelhas, inquisitivo.
- e o que, paris? E me amasse? Era isso que voc ia dizer?  disso que voc tem 
tanto medo? Que podemos realmente ter nos amado e que ainda nos amamos?
Paris recusou-se a responder. Em vez disso, foi marchando e abriu a porta da 
frente.
Com os ces de guarda na calada, dean no teve escolha seno sair.
A essa altura, a gua do chuveiro j estava fria, mas seu corpo ainda febril com 
o desejo ardente de saber - se tivesse conseguido arrancar dela - qual seria a 
resposta 
Para essa pergunta.


Captulo dezesseis
Janey tinha abandonado seus planos de vingana e se concentrava unicamente em 
sobreviver.
As tentativas de fuga daquele quarto pareciam remotas como suas lembranas das 
festas de aniversrio da infncia. Tinha visto fotografias tiradas nessas 
festas, 
Mas no sentia ligao nenhuma com a menininha com a tiara de papel-alumnio, 
soprando velas num bolo de confeitaria. Da mesma forma, as lembranas das 
tentativas 
De fuga do seu captor, os planos de puni-lo por isso, pareciam reminiscncias 
vagas de outra pessoa. Tais estratgias corajosas eram inimaginveis para janey 
agora.
Estava to fraca que, mesmo se os braos e as pernas no estivessem amarrados, 
no conseguiria se mexer. Ele no tinha lhe dado comida nem gua nas ltimas 
duas 
Vezes que esteve l. Janey podia viver com a fome, mas a garganta j estava seca 
de sede. Tinha implorado com os olhos para ele, mas as splicas silenciosas no 
Foram atendidas.
Ele estava animado e falante, at meio blas. Inclinou a cabea para um lado e 
olhou para ela com interesse renovado.
- fico imaginando se esto sentindo a sua falta, janey. Voc tratou tanta gente 
mal, sabe? Especialmente os homens. O seu talento especial, certamente seu 
passatempo, 
Era fazer os homens sentirem desejo e depois humilh-los com uma rejeio em 
pblico.
"eu j observava voc fazia muito tempo antes daquela noite em que veio falar 
comigo. Voc no sabia? Mas  verdade. Eu descobri o seu nome de e-mail: gata de 
botas. 
Certo? Muito esperta. Principalmente porque voc gostava de usar botas de 
vaqueiro. As suas preferidas so as vermelhas, no so? At usouas uma noite. 
Ah! Espere 
Um pouco."
Ele vasculhou o quarto at achar o lbum de fotografias que queria.
- , aqui est voc com as suas botas. Na verdade, s as botas - acrescentou 
ele, com um sorriso malicioso.
Virou a foto para ela e janey virou o rosto e fechou os olhos. Ele ficou 
zangado.
- falando srio, voc pensa que algum est realmente triste com o seu 
desaparecimento?
E saiu logo depois. Janey ficou aliviada ao v-lo partir, mas apavorada, 
pensando que podia nunca mais voltar. Apesar da fita adesiva na boca, ela 
soluou ruidosamente. 
Ou talvez o choro s parecesse ruidoso para os seus ouvidos. Engasgou e entrou 
em pnico, imaginando se algum poderia se afogar com as prprias lgrimas.
Cai na real, janey!
Isso ela podia fazer. Podia sobreviver a ele. Podia se agentar at o socorro 
chegar, e chegaria logo. Os pais dela deviam estar virando austin de cabea para 
baixo 
 sua procura. Seu pai era rico. Contrataria investigadores particulares, traria 
o fbi, o exrcito, o que precisasse para encontr-la.
Odiava alguns policiais mais dures da fora policial de austin, aqueles que a 
acusavam de dirigir embriagada, de m conduta e de portar as substncias ilegais 
que 
Costumava carregar com ela. Se no fosse filha do juiz kemp, os tiras que 
seguiam as regras a teriam posto na priso mais vezes do que poderia contar.
S que tambm tinha trepado com a elite da polcia de austin, os mais jovens e 
mais bonitos, que tinham uma viso mais liberal do que os veteranos, como o 
investigador 
Da narcticos que trabalhava  paisana na escola dela. Tinha sido um desafio 
seduzi-lo, e quando ele finalmente se rendeu, uma decepo.
Mesmo assim, tinha alguns amigos no departamento de polcia. E eles iam procur-
la tambm.
E o seu carrasco tinha telefonado para paris gibson. Janey nem imaginava por 
qu, e no se importava. Era bvio que ele sentia muito orgulho de tudo aquilo, 
porque 
Tinha gravado a ligao s para ela poder ouvir. Ser que queria que janey 
soubesse que tratava uma personalidade do rdio pelo primeiro nome? O idiota 
egocntrico. 
Ser que no sabia que paris tratava qualquer pessoa que ligava para ela pelo 
primeiro nome?
No fazia diferena. O que realmente importava era que ele tinha envolvido 
paris. Ela mexeria os pauzinhos. Ningum ia ignorar paris gibson.
Mas a onda de otimismo de janey logo se evaporou. O tempo estava acabando. Seu 
captor tinha dito para paris que ia mat-la em setenta e duas horas. Mas quando 
 
Que tinha dado aquele telefonema? Quanto desse tempo j havia passado? Janey 
tinha perdido completamente a noo das horas, e raramente sabia quando era 
noite ou 
Dia. E se aquela fosse a septuagsima primeira hora das setenta e duas?
Mesmo que ele no a matasse, ela podia morrer abandonada ali. E se ele 
simplesmente nunca mais voltasse? Quanto tempo poderia sobreviver sem comida e 
sem gua? E 
Se... E esse era seu maior medo... E se ele tivesse razo e ningum desse a 
mnima para o seu desaparecimento?
O dr. Brad armstrong no tinha usufrudo do conforto da prpria cama aquela 
noite, mas estava muito animado quando chegou  clnica odontolgica meia hora 
antes 
Da primeira consulta marcada.
A noite tinha sido bem movimentada e ele no dormira mais de duas horas. Mas o 
sono no era a nica maneira de ficar acelerado. Uma menina com uma argola de 
prata 
No mamilo... Ora, isso recarregava mesmo as baterias de um homem.
Ria sozinho quando entrou no prdio e saudou a recepcionista.
- bom-dia, doutor. A sra. Armstrong deve ter encontrado o senhor na noite 
passada. Ela ficou muito decepcionada de no ter podido fazer seu programa 
surpresa.
- ns jantamos sossegados depois que as crianas foram para a cama, de modo que 
acabou dando certo. Algum recado para mim?
- um tal sr. Hathaway ligou duas vezes, mas no deixou recado. S pediu para o 
senhor ligar para ele. Quer que eu o ponha na linha?
O sr. Hathaway era o oficial da condicional. No seu melhor dia, o sr. Hathaway 
era um babaca sem senso de humor, que adorava espiar as pessoas por cima dos 
seus 
culos da vov. Era a idia que ele fazia de intimidao, brad imaginava.
- no, obrigado. Ligo para ele mais tarde. Nenhum outro recado?
- s esse.
Toni devia estar realmente aborrecida dessa vez. Normalmente j teria tentado 
falar com ele, mesmo que s para verificar se ele no tinha batido de frente com 
uma 
Jamanta, sofrido um ataque do corao ou sido assaltado e assassinado. Era 
sempre ela que dava o passo inicial para fazer as pazes. No era isso que uma 
esposa amorosa 
E dedicada devia fazer quando o marido saa furioso de casa depois de uma briga?
Ento ele no podia ser acusado de nada que tivesse feito a noite passada, no 
? Tinha quebrado seus votos, mas essa pulada de cerca era mais culpa de toni do 
que 
Dele. Ela nem tentou ter compaixo, ser compreensiva. Ao contrrio, s o 
repreendeu.
Brad tinha uma coleo de revistas e de fotos erticas. Grande coisa. Algumas 
pessoas podiam considerar aquele material pornogrfico, mas e da? E talvez a 
sua coleo 
Fosse maior do que a dos outros caras. Isso era motivo para fazer um escndalo 
federal?
Depois daquela noite, a prxima acusao de toni seria que ele tinha sido 
agressivo demais. J podia ouvir toni falando. De onde veio essa agressividade 
toda, brad? 
Eu no o conheo mais. Toni tinha muitas qualidades, mas no tinha esprito de 
aventura. Ela se assustava com qualquer novidade, ou qualquer experincia nova. 
Tinha 
Visto o medo em seus olhos na vspera.
Toni devia ter umas aulas com a menina que brad conhecera no lago. Melissa, era 
o nome dela. Pelo menos foi o que ela disse. Ele certamente no tinha dito o 
dele, 
Mas nem lembrava de melissa ter perguntado. Para uma menina aventureira como 
aquela, nomes no tinham importncia.
Brad tinha visto a menina muitas vezes, com muitos parceiros diferentes, por 
isso no se surpreendeu dela no ter ficado chocada com suas fotos to vividas. 
Na verdade, 
At manifestou gostar sinceramente delas. E realmente serviram para incendi-la. 
Ela se jogou em cima dele. Aquela menina era uma coisa, ela e sua argola no 
mamilo. 
Toni provavelmente o mandaria para um hospcio se sugerisse que ela fizesse um 
piercing. Mas, porra, era um teso.
Instalou-se  mesa e ligou o computador. As outras pessoas no consultrio 
ficaram curiosas para saber por que brad tinha
Posto o monitor de costas para a sala, e no para a parede, de modo que os fios 
no ficassem  mostra. Ele inventou uma explicao, mas o verdadeiro motivo era 
que 
O que aparecia no monitor no era da conta de ningum.
Visitou seus sites prediletos, mas ficou desapontado porque o material no tinha 
sido renovado desde a manh do dia anterior. Mesmo assim escaneou todos, 
procurando 
Especialmente mulheres com argolas nos mamilos. No encontrou nenhuma.
Faria alguma pesquisa mais tarde, ia surfar na internet at localizar alguns 
sites novos e exticos. Talvez um membro do clube do sexo tivesse descoberto 
alguns 
Novos interessantes que ele ainda no conhecia. Era bem da garotada estar na 
dianteira das descobertas.
Digitou sua senha e entrou no site. Foi direto para o quadro de avisos e j ia 
digitar uma pergunta quando algum bateu  porta da sala dele e imediatamente a 
abriu.
- dr. Armstrong?
- o que ? -- disse ele asperamente.
- desculpe - disse uma assistente. - no queria incomodlo, o seu primeiro 
paciente j est preparado.
Ele se esforou para sorrir.
- obrigado. Vou assim que terminar esse e-mail para a minha me.
Ela saiu da sala. Brad olhou para o relgio. Estava no consultrio havia mais de 
meia hora, mas parecia apenas cinco minutos.
- o tempo voa... - disse ele, e deu uma risadinha.
Alguns homens liam as cotaes do mercado de aes quando tomavam o caf da 
manh, outros o caderno de esportes. Ele tinha um interesse diferente. Isso era 
crime?
Voltou para sua home page e, s para se prevenir, acionou o servio que apagava 
o histrico das suas conexes na internet para ningum poder rastre-lo.
J tinha tratado trs pacientes antes de poder fazer um intervalo. Tinham 
deixado um jornal no bar do caf. Brad pegou o jornal, um sonho e um caf e foi 
para a 
Sala dele. Bebeu o caf, deu uma mordida no sonho, abriu a primeira pgina do 
jornal... E quase engasgou quando viu a foto.
Era um retrato srio, devia ser a foto do lbum do colgio do ano anterior. 
Irnico, engraado, ela parecia recatada. Parecia olhar direto para ele, de um 
jeito 
Que dava vontade de desviar o olhar. Mas no conseguia.
Junto com a foto havia a histria dela: filha do juiz municipal... Meu deus; 
terceiro ano do segundo grau; infraes anteriores; suspenso de trs dias no 
colgio 
No ltimo semestre; seu misterioso desaparecimento.
O reprter dava mais detalhes sobre a participao dela num clube na internet, 
cujo objetivo era buscar parceiros sexuais. Estava tudo l, preto no branco. O 
artigo 
Descrevia como funcionava, as salas de bate-papo, os recados explicitamente 
sexuais deixados no site, as reunies secretas... Que no eram segredo nenhum 
para os 
Membros... E os atos licenciosos que aconteciam nesses locais de reunio. 
Qualquer pessoa que tivesse entrado em contato com janey estava sendo procurada 
e interrogada 
Pela polcia. Havia uma referncia que sugeria uma possvel conexo com o 
programa de rdio de paris gibson.
Brad apoiou os cotovelos na mesa e segurou a cabea com as duas mos.
O sargento robert curtis, que organizou uma equipe de investigadores, no quis 
comentar a suposta conexo da srta. Kemp com o clube do sexo, mas o policial 
john 
Rondeau, da diviso de crimes no computador, disse que tal conexo ainda no 
tinha sido descartada.
"ainda estamos explorando isso", disse rondeau.
Os policiais se recusaram a comentar quando perguntados sobre a possibilidade de 
crime.
A reportagem tambm dizia que o pessoal da polcia de austin no quis comentar 
quando perguntaram por que um detetive da homicdios estava supervisionando um 
caso 
De pessoa desaparecida. Rondeau, mais loquaz, disse para o reprter: "at este 
momento no tivemos absolutamente nenhuma indicao de crime e estamos supondo 
que 
A srta. Kemp apenas tenha fugido de casa." boa resposta, mas no esclarecia o 
que tinham perguntado.
Havia mais uma citao, do juiz kemp: "como todos os adolescentes, janey no tem 
considerao e  irresponsvel quando se trata de avisar quais so seus planos. 
A sra. Kemp e eu estamos
Confiantes de que ela vai voltar logo.  cedo demais para qualquer especulao 
alarmante."
Brad pulou quando o telefone tocou. Com a mo trmula, ele apertou o boto do 
interfone.
-sim?
- a sra. Armstrong est na linha dois, dr. Armstrong. E seu prximo paciente j 
chegou.
- obrigado. D-me cinco minutos.
Brad secou o suor do bigode e respirou fundo algumas vezes antes de pegar o 
fone. Era hora de bancar o humilde.
- oi, querida. Olha, antes de dizer qualquer coisa, quero que saiba que sinto 
muito por ontem  noite. Eu te amo. E me odeio por dizer as coisas que eu disse. 
Aquele 
Saco de lixo com as fotos?  histria. Eu joguei fora. Tudo. E quanto a... 
Aquela outra coisa... No sei o que deu em mim. Eu...
- voc faltou ao seu compromisso.
- heim?
- seu encontro s dez horas com o sr. Hathaway. Ele ligou para c porque no 
conseguiu encontrar voc no consultrio.
- cristo. Eu esqueci completamente.
Era verdade. Tinha ido para a clnica, ficado meia hora na internet, atendido a 
trs pacientes e lido a histria da primeira pgina do jornal.
- como  que pde esquecer uma coisa to importante assim, brad?
- eu tive pacientes para atender - respondeu ele, irritado. E eles tambm so 
muito importantes. Lembra da nossa hipoteca? Do pagamento do carro? Das contas 
do supermercado? 
Eu preciso trabalhar.
- nada disso importa se voc for para a priso. Ele, olhou para a foto de janey 
kemp.
- eu no vou para a priso s por perder um compromisso com o oficial da 
condicional.
- ele est sendo leniente. Marcou uma nova reunio para esta tarde,  uma e 
meia.
Toni estava de novo no alto dos tamancos, falando com ele como se tivesse a 
idade do filho deles. Ele era adulto, caramba.
- parece que voc no est entendendo, toni. Eu tenho trabalho.
- e um vcio - ela retrucou.
Meu deus, ela no estava dando mole para ele.
- eu j disse que me livrei das revistas. Joguei tudo num depsito de lixo. Est 
bem? Est feliz agora?
Em vez de parecer feliz, a risada de toni soou terrivelmente triste.
- est bem, brad, deixa pra l. Mas voc no engana ningum. Nem hathaway, e 
certamente a mim tambm no. Se no for a esse encontro com ele, hathaway ter 
de dar 
Queixa e voc ter de enfrentar as conseqncias.
Toni desligou o telefone na cara dele.
- e esses tamancos que estava usando, querida? - berrou ele para o telefone 
quando bateu o fone no aparelho.
A cadeira saiu rodando para trs quando ele se levantou. Ps uma mo na cintura, 
esfregou a nuca com a outra e comeou a andar de um lado para outro.
Se o momento fosse qualquer outro, ficaria realmente irritado com toni por falar 
com aquele tom de superioridade com ele. E estava irritado. Na verdade, estava 
furioso. 
Mas toni ia ter de esperar. Agora ele precisava se concentrar num problema muito 
mais srio.
Quando postas uma ao lado da outra, as coisas no pareciam nada boas para ele. 
Era um delinqente sexual condenado. A acusao tinha sido totalmente falsa e o 
julgamento, 
Uma farsa. Mesmo assim, estava l, registrado na sua ficha pessoal.
Na noite anterior, tinha feito sexo com uma jovem. Ia se ferrar se ela tivesse 
menos de dezessete anos. No importava se era mais experiente do que uma puta de 
dez 
Dlares... Dez dlares porra nenhuma. Pela segunda rodada, ele deu uma 
"gratificao" de cinqenta dlares. Apesar da experincia toda, se fosse menor 
de idade, 
Ele teria cometido um crime. E a mulher dele, que era respeitada pelo terapeuta 
de grupo dele, e pelo oficial da condicional, j devia estar dedurando para eles 
Suas recentes tendncias violentas.
Mas o que preocupava realmente brad, o que provocava espasmos nas suas 
entranhas, era que no conseguia lembrar se j tinha visto melissa na companhia 
de janey kemp.


Captulo dezessete
O sargento curtis telefonou para paris quando ela passava manteiga de amendoim 
numa torrada.
- ontem  noite eu mencionei o departamento de casos no resolvidos?
- tem algum parecido?
- maddie robinson. O corpo foi descoberto trs semanas depois que a colega de 
quarto registrou seu desaparecimento. Um vaqueiro a encontrou numa cova rasa num 
dos 
Pastos dele. No meio de lugar nenhum. Causa da morte: estrangulamento com algum 
tipo de faixa. Em avanado estado de decomposio. Animais tinham danificado 
bastante 
O corpo.
Paris desistiu do caf da manh. Curtis continuou.
- mas o mdico-legista conseguiu determinar que o corpo tinha sido lavado com 
algum agente adstringente - ele fez uma pausa significativa antes de 
acrescentar: - 
Por fora e por dentro.
- ento mesmo que tivessem encontrado antes...
- o criminoso garantiu que qualquer prova de dna estaria to comprometida que 
seria praticamente ilegvel. Tambm no havia sinal de pegadas, nem marcas de 
pneus. 
Provavelmente destrudos pela eroso. Sem pistas nas roupas porque no havia 
roupa nenhuma.
Paris sentiu pena da vtima de morte to horrvel e ignominiosa. Perguntou o que 
curtis sabia sobre ela.
- tinha dezenove anos. Era atraente, mas no de uma beleza estonteante. Era 
estudante. A colega de quarto admitiu que no eram exatamente freiras. Saam 
muito. Quase 
Todas as noites. E  a que a coisa fica realmente interessante. Segundo essa 
colega, maddie estava saindo com algum a quem se referia como "especial".
- especial como?
- ela no sabia. Maddie era vaga quando tinha de explicar o que havia de 
diferente nesse cara. As meninas eram amigas desde o primrio. Em geral, 
contavam tudo 
Uma para a outra. Mas maddie no dizia nada sobre esse cara misterioso, a no 
ser que ele era legal, e maravilhoso, e especial.
- a colega o viu alguma vez?
- ele no ia ao apartamento delas. Maddie ia ao encontro dele. A colega no 
sabia onde se encontravam. Ele nem telefonava para o telefone fixo do 
apartamento das 
Duas, s para o celular de maddie. A teoria da colega de quarto era que o cara 
devia ser casado, por isso aquele mistrio todo. De todas as experincias que 
tinham, 
Maddie e ela traaram uma linha divisria quanto a ir para a cama com homens 
casados. No por motivos morais, mas porque no havia futuro nisso, ela disse.
"um dia maddie estava apaixonada, no dia seguinte anunciou que ia terminar o 
namoro. Disse para a amiga que ele estava ficando possessivo demais e que isso a 
irritava, 
Pois nunca tinham sado para fazer um programa de verdade. O nico lugar para 
onde iam era para o apartamento dele - que ela descreveu como um lugar horrvel 
- onde 
Faziam sexo. Ela deu a entender que a coisa comeou a ficar bizarra, at para 
ela, que gostava de novidade. A colega pediu detalhes, mas maddie se recusou a 
falar 
Sobre isso. Tudo que dizia era que o namoro tinha terminado.
"para anim-la, a colega receitou .ir para a cama com outro. Maddie seguiu seu 
conselho. Saram, beberam muito e maddie levou um cara para casa com ela. Mais 
tarde, 
Verificaram que ele no era suspeito.
"maddie robinson foi vista pela ltima vez s margens do lago travis, onde um 
grande grupo de jovens comemorava o incio das frias de vero. Ela e a amiga se 
separaram. 
A amiga foi para casa sozinha, imaginando que maddie tinha encontrado um 
parceiro para aquela noite. Aquilo era bem comum. Mas quando maddie no apareceu 
vinte e 
Quatro horas depois, ela avisou  polcia.
"o caso no ficou comigo, por isso no me lembrei dele logo. As pistas esfriaram 
para os detetives do bci que estavam investigando e o caso passou para outra 
unidade."
Terminando o resumo, curtis respirou fundo.
- ento isso aconteceu mais ou menos no fim do semestre da primavera?
- no fim de maio ltimo. O corpo foi encontrado no dia 20 de junho. Voc tem 
telefonemas gravados desde essa poca?
- nos meus arquivos. Quer que eu leve cpias?
- o mais depressa possvel. Por favor.
- stan?
Stan deu um pulo quando paris entrou na sala dela e o pegou sentado  sua mesa. 
Recobrou-se rapidamente e saudou-a de mau humor.
-ei.
Paris jogou a bolsa na pilha de material impresso sobre a mesa.
- voc est na minha cadeira.
Antes de ir para a sala, paris tinha passado pelo almoxarifado para pegar 
diversos cds contendo telefonemas gravados que havia transferido do vox pr. 
Deixou-os 
Com um engenheiro e pediu para ele duplicar o contedo em fitas cassete.
- cassete? Isso  retroceder no tempo, no ? - resmungou ele.
Sem querer explicar que o bci ainda trabalhava com fitas cassete, paris disse 
simplesmente "valeu", e saiu antes do engenheiro ter a oportunidade de recusar 
aquele 
Pedido estranho.
- o que voc est fazendo na minha sala? - perguntou para stan enquanto o 
substitua na cadeira.
Como havia feito na noite anterior, stan abriu espao num canto da mesa e 
encostou nela, sem ser convidado.
- como no tenho o direito de ter uma sala, achei que esse era o lugar mais 
discreto para esperar.
- esperar o qu?
- o meu tio wilkins. Ele est numa reunio com o gerente geral.
- a reunio  sobre o qu? -eu.
- por qu? O que foi que voc fez? Stan se ofendeu.
- por que todo mundo sempre supe automaticamente que eu fiz alguma merda?
- e voc fez? -no!
- ento por que o seu tio wilkins est tendo uma reunio com o gerente-geral 
sobre voc?
- por causa daquele maldito telefonema.
- a ligao do valentino?
- , revolveu umas coisas. Meu tio veio bem cedo para c no jatinho da firma, 
telefonou e me acordou, ordenou que eu viesse para c encontrar com ele, 
imediatamente. 
Por isso me desabafei feito louco para c, e ele j estava de portas fechadas. 
Nem o vi ainda.
- que coisas?
Em vez de responder  pergunta, stan fez outra:
- eu fao um bom trabalho por aqui, paris?
Ela balanou a cabea, achando graa e consternada ao mesmo tempo.
- stan, voc no faz nada por aqui.
- eu fico aqui toda noite at as duas da porra da madrugada.
- voc fica aqui fisicamente. Ocupa espao. Mas no faz trabalho nenhum.
- porque nada d errado com nenhuma mquina.
- e se desse, voc saberia consertar?
- talvez. Sou bom com aparelhos - disse ele com petulncia.
- "aparelhos" no  exatamente a palavra que eu usaria para descrever 
eletrnicos que valem milhes de dlares. Voc pelo menos entende de tecnologia 
de rdio, stan?
- e voc, entende?
- eu no possuo o ttulo de engenheira.
Ele era um chato mimado, dado a choramingar. Praticamente todas as noites paris 
tinha vontade de estrangul-lo por sua incompetncia e irresponsabilidade em 
relao 
Ao trabalho. Inpcia era perdovel, mas indiferena no. Pelo menos no no 
manual dela.
Toda vez que falava no seu microfone, paris tinha conscincia de que centenas de 
milhares de pessoas ouviam. Chegava at eles com sua voz, no rdio do carro e 
onde 
Essas pessoas moravam.
Era companheira do que quer que estivessem fazendo naquele momento.
Para paris, a audincia no era apenas um nmero de seis algarismos sobre o qual 
baseavam o preo dos anncios. Cada nmero representava um indivduo que 
dedicava 
Seu tempo a ela, e para quem ela devia a melhor programao que pudesse fazer.
Stan jamais considerava o fator humano da audincia da rdio. Se considerava, 
no traduzia isso em trabalho. Nunca demonstrava nenhuma iniciativa. Empenhava 
seu 
Tempo, contando os minutos at a hora de sair, depois corria para fazer o que 
costumava fazer, fosse l o que fosse.
Apesar de tudo isso, porm, paris no conseguia deixar de sentir pena dele. Ele 
no estava l porque queria. O futuro de stan tinha sido determinado no segundo 
em 
Que ele nasceu na famlia crenshaw. O tio dele era um solteiro sem filhos. Stan 
era filho nico. Quando o pai morreu, stan tornou-se o herdeiro direto do 
imprio 
Da mdia, querendo ou no.
Ningum da empresa parecia disposto a aceitar ou admitir que ele era 
desinteressado e incompetente para assumir o controle quando o tio wilkins se 
aposentasse, o 
Que provavelmente no aconteceria at ser declarado morto.
- estou aprendendo de baixo para cima - disse stan para paris, de mau humor. - 
preciso aprender um pouco de cada aspecto da emissora at estar preparado para 
quando 
Chegar a hora de assumir. Pelo menos  assim que o tio wilkins pensa.
- que coisas o telefonema de valentino revolveu?
A boca de stan se contorceu numa careta de desprezo.
- no  nada.
- mas suficiente para seu tio wilkins vir para c na mesma hora.
Stan deu um enorme suspiro.
- antes de eu ser mandado - leia-se "banido" - para essa maravilhosa estao de 
rdio, eu trabalhava na nossa emissora de televiso em jacksonville, na flrida. 
Comparado com esse lixo, l era um paraso. Eu tive um caso com uma das 
funcionrias.
- ento voc no  gay?
Stan reagiu como se tivesse levado uma punhalada na espinha com um atiador em 
brasa.
- gay? Quem disse que sou gay?
- algumas pessoas andaram especulando.
- gay? Meu deus! Eu odeio esses caipiras burros daqui. Se voc no tem uma 
picape com trao dupla, no bebe bud no gargalo e no se veste como sundance 
kid, voc 
 bicha.
- e o que aconteceu com a mulher na flrida?
Stan pegou um clipe de papel e comeou a entort-lo.
- ns exageramos no escritrio. E quando dei por mim, ela berrava assdio sexual 
aos quatro ventos.
- e no era verdade?
- , paris, no era verdade - disse ele, pronunciando lentamente cada slaba. - 
a acusao era to falsa quanto o suti tamanho quarenta e dois dela. No a 
forcei 
A fazer sexo comigo. Na verdade, ela ficou por cima.
- isso  mais informao do que eu precisava, stan.
- de qualquer modo, ela registrou queixa. Tio wilkins fez um acordo para no ir 
a julgamento, mas custou-lhe uma bolada. Ele ficou p da vida comigo, no com 
ela. 
D para acreditar? Ele disse, "que burrice a sua pr seu pau pra fora no 
trabalho." perguntei se ele nunca tinha ouvido falar de bill clinton. Ele no 
gostou dessa 
Observao, especialmente porque todos os nossos jornais tinham apoiado clinton 
para a presidncia.
"mas foi por isso que vim parar aqui, cumprindo a minha sentena."
Stan jogou o clipe todo torto no cesto de papel. Fez um rudo suave quando bateu 
no fundo de metal.
- foi por isso tambm que ele pulou no jatinho da empresa e veio para c esta 
manh.
Paris adivinhou o resto.
- depois que voc contou para ele que tinha sido interrogado pela polcia, 
wilkins achou que devia vir para austin, para garantir que esse episdio infeliz 
na flrida 
No mostrasse sua cara feia.
- ele chamou de controle de danos.
- falou como um verdadeiro chefo empresarial.
Paris agora entendia tudo. Stan tinha sido enxertado na 101.3 como castigo por 
ter misturado negcios com prazer. Tio wilkins tinha omitido aquele incidente 
com 
A funcionria da empresa para o gerente-geral, mas achava que devia explicar 
tudo agora,
Antes que a polcia de austin descobrisse e passasse a suspeitar do sobrinho.
- esse foi o nico incidente, stan?
Ele semicerrou os olhos para paris, olhando-a do alto.
- o que voc quer dizer?
- a pergunta  bem simples. Sim ou no? Ele perdeu a pose.
- aquela foi a nica vez e pode acreditar em mim, aprendi essa lio. Jamais 
encostei em outra funcionria.
- como proprietrio, isso pode torn-lo vulnervel a um processo judicial.
- gostaria que algum tivesse me avisado isso antes de eu ir para jacksonville.
Paris rejeitou essa idia dizendo que ele j devia saber. Que era uma poltica 
que stan devia ter adotado sem precisar de aviso nenhum. Ela tambm evitou 
cham-lo 
De imbecil por fazer aquilo em qualquer circunstncia.
Stan olhou de lado para ela com expresso magoada.
- todo mundo pensa que sou gay?
Era bem tpico de stan dar prioridade ao ponto menos importante.
- voc se veste bem demais.
O eletricista que tinha copiado as gravaes entrou na sala e disse a paris que 
as fitas cassete estavam prontas e que as tinha deixado na mesa da recepo.
- mais fitas? - perguntou stan.
- essa pode no ter sido a primeira vez que valentino anunciou um assassinato 
telefonando para mim.
- o que aconteceu na noite passada depois que malloy e voc saram correndo 
daqui? Estou vendo que no pegaram valentino.
- no, infelizmente. - paris contou a histria do telefone pblico da loja wal-
mart. - as viaturas chegaram l em poucos minutos, mas no havia ningum.
- eu soube da menina desaparecida pelo noticirio esta manh. E tambm apareceu 
na primeira pgina do jornal.
Paris fez que sim com a cabea, lembrando da citao do juiz kemp. Os pais de 
janey estavam se agarrando  crena de que a ausncia dela era voluntria, o 
que, para paris, era um erro monumental. Por outro lado, esperava que tivessem 
razo.
Paris levantou, pegou sua bolsa e se preparou para sair.
- vejo voc  noite, stan.
- quem  dean malloy?
A pergunta apareceu do nada e pegou paris desprevenida.
- eu j disse. Psiclogo da polcia de austin.
- que faz bico de guarda-costas? - stan olhou para paris com ar irnico. - 
quando deixei aquelas fitas cassete na sua casa ontem  noite, o policial me 
disse que 
Malloy estava com voc l dentro.
- no estou entendendo onde quer chegar.
- porque no quer, eu acho. Quem  malloy para voc, paris? Se no dissesse 
nada, stan poderia investigar por conta prpria e descobrir mais do que paris 
gostaria 
Que soubesse.
- ns nos conhecemos em houston anos atrs.
- h-h. Imagino que se conheceram muito bem.
- no muito bem, stan. Bem demais. Ele era o melhor amigo do jack.
Encerrando a conversa com isso, paris deu a volta em stan e foi para a porta. 
Mas, chegando na soleira, parou e virou para trs.
- o que voc sabe sobre o marvin?
- s que ele  esquisito.
- ele mexe com computador, com a internet? Stan fungou.
- e eu l sei? No troquei mais do que um ou dois grunhidos com ele. Por que 
esse interesse repentino?
Paris hesitou um pouco, sem saber se a aparente fuga de marvin era informao 
que curtis preferia no revelar.
- por nada. Vejo voc  noite.
Paris e o sargento curtis se esconderam numa pequena sala de interrogatrio e 
sentaram de frente um para o outro, a uma mesa cheia de marcas. Sobre ela 
estavam o 
Gravador porttil que o detetive havia usado na vspera e as fitas cassete que 
paris tinha levado da rdio.
Comearam a procurar os telefonemas de valentino, ouvindo as fitas gravadas at 
uma semana antes do desaparecimento de maddie robinson. No dia anterior, dean e 
ela 
Tinham concordado que valentino estava alterando a voz. O disfarce era marcante 
e ficava reconhecvel instantaneamente, portanto eles podiam acelerar as fitas 
com 
As vozes que obviamente no eram a dele.
Curtis saiu rapidamente da sala para pegar caf. Ao voltar, paris disse, 
animada:
- acho que encontrei. No temos a etiqueta com data e hora como teramos no vox 
pr, mas est numa fita com as gravaes feitas mais ou menos naquela poca. Ele 
Estava especialmente mal-humorado aquela noite, mas pus a ligao no ar, de 
qualquer maneira. As coisas que ele disse provocaram ligaes de outros ouvintes 
que 
Mantiveram minhas linhas ocupadas por horas.
Curtis sentou.
- voc o transformou numa celebridade aquela noite.
- sem querer, posso garantir. Est pronto? - paris ligou a fita.
As mulheres so falsas, paris. Por que ser? Voc  mulher. Quando voc tem um 
homem praticamente comendo na sua mo, por que h de querer outro? Qualidade no 
 
Melhor do que quantidade?
Sinto muito voc estar infeliz esta noite, valentino.
No estou infeliz. Estou zangado.
Nem toda mulher  infiel.
Essa tem sido a minha experincia.
Voc simplesmente no encontrou a mulher certa ainda. Gostaria de ouvir uma 
msica especial esta noite?
Qual?
Barbra streisand numa interpretao maravilhosa de "cry me a river".  clich, 
mas tudo que vai, volta.
Ponha a msica, paris. Mas, mesmo se ela for jogada fora como eu fui, no ser a 
retaliao que ela merece.
Paris parou a fita e olhou para curtis, que estava pensativo, rodando o anel no 
dedo de novo.
- penso que a retaliao que ele achava que ela merecia era ser estrangulada at 
morrer e enterrada na bosta do pasto das vacas. Desculpe o meu francs - disse 
ele.
Paris abaixou a cabea e massageou as tmporas.
- eu nunca teria imaginado, ouvindo o que ele disse, que planejava mat-la.
- ei, no se incrimine por isso. Voc no l pensamentos.
- eu no detectei uma ameaa concreta no que ele disse.
- e ningum poderia. Alis, ns ainda estamos adivinhando. Valentino pode no 
ter ligao nenhuma com maddie robinson.
Paris abaixou as mos e olhou para curtis.
- mas voc acha que h ligao, no acha?
Antes de curtis responder, john rondeau abriu a porta. E deu um enorme sorriso 
para paris.
- bom-dia.
- oi, john.
Pareceu satisfeito de paris lembrar seu nome.
- algum progresso?
- achamos que sim.
- eu tambm. - ele olhou para curtis. - podemos conversar l fora um instante?
Curtis levantou da cadeira.
- volto num segundo.
- vou ver se consigo encontrar outras ligaes de valentino. O detetive saiu com 
o jovem policial e ficou fora muito mais
Tempo do que um segundo. Quando retornou  sala, paris havia marcado mais um 
ponto.
- essa ligao est na mesma fita, o que significa que deve ter uma diferena de 
apenas alguns dias da outra.
" um valentino completamente diferente. Muito entusiasmado. Ele afirma que a 
amante infiel est 'fora da vida dele' e enfatiza as palavras 'para sempre'. 
Voc vai 
Ouvir na fita a diferena do humor dele."
Paris sentiu que curtis no prestava muita ateno e parecia distrado, ento 
perguntou:
- alguma coisa errada?
- pode ser. Odeio pensar que isso pode ser muito srio, mas...
- ele passou a mo na parte de trs do pescoo grosso como se comeasse a doer 
repentinamente. - imagino que saiba que malloy tem um filho.
- gavin.
- voc o conhece?
- conheci quando ele era pequeno. No o vejo desde quando tinha dez anos - a 
ansiedade de curtis era evidente. Paris sentiu uma pontada de medo por dean. - 
por qu, 
Sargento? O que houve com gavin? O que aconteceu?


Captulo dezoito
- gavin? -oi? Dean abriu a porta do quarto do filho e entrou.
- ligue o seu computador.
- hein?
- voc ouviu.
Gavin estava deitado na cama, assistindo  espn. Devia ter algo mais construtivo 
para fazer do que ficar assistindo ao replay de um jogo de futebol entre dois 
times
Europeus. Por que no estava de p e vestido, fazendo alguma coisa, em vez de 
deitado, sem fazer nada, na cama?
Porque eu no mandei, pensou dean.
Tinha um filho preguioso porque era um pai preguioso. Tentar fazer gavin 
levantar o rabo da cama no valia as discusses que invariavelmente resultavam 
disso.
Ultimamente, para evitar brigas, dean andava deixando muita coisa passar. E no 
devia. No estava querendo vencer uma disputa de popularidade com gavin. No era
Coleguinha dele, nem pastor, nem terapeuta. Era pai. J passava da hora de 
comear a exercer a autoridade paterna com mais rigidez.
Dean tirou o controle remoto da mo de gavin e desligou a televiso.
- ligue o seu computador - repetiu. Gavin sentou na cama.
- para qu?
- acho que voc sabe.
- no, eu no sei.
O tom desrespeitoso e a expresso insolente atiaram o gnio de dean. Sentiu que 
queimava, como uma brasa, dentro do peito. Mas no ia ceder. De jeito nenhum.
- podemos ir direto para a polcia - disse dean, muito tenso -, onde esto 
esperando para interrog-lo sobre o desaparecimento de janey kemp, ou ento voc 
pode
Ligar a merda do seu computador para eu pelo menos saber o que vamos ter de 
enfrentar quando lev-lo para l. De qualquer modo, os seus dias de enrolao 
comigo 
Acabaram.
Dean tinha ficado em casa aquela manh para organizar e digitar suas anotaes 
sobre um suspeito que havia entrevistado alguns dias antes. O detetive que 
cuidava 
Desse caso j estava impaciente com a demora.
Sabia que se fosse trabalhar na sua sala no teria condio de se concentrar em 
nada alm de paris e do caso no qual ela estava envolvida. No ia conseguir sair 
Do bci, onde sabia que paris e curtis estariam escutando as fitas.
Por isso, telefonou para a srta. Lester, disse que ia trabalhar em casa e 
esforou-se para fazer o relatrio atrasado. Mal terminara essa tarefa quando 
robert curtis 
Ligou e deu a notcia que podia modificar toda a sua vida.
- a polcia quer me interrogar? - perguntou gavin. - por qu? Dean estava se 
agarrando a um fiapo de esperana, de que
John rondeau tivesse cometido um erro grave, mas a expresso preocupada de gavin 
no deixava a menor dvida de que a informao estava correta.
- voc mentiu para mim, gavin. Voc  um membro ativo do clube do sexo. Voc 
trocou inmeros e-mails com janey kemp e, com base no que vocs dois escreveram 
um para 
O outro, voc a conhece muito melhor do que me fez acreditar. Vai negar isso?
Gavin agora estava sentado na beira da cama, e a cabea pendia entre os ombros 
curvados.
- no.
- quando foi a ltima vez que a viu?
- na noite em que ela desapareceu.
- que hora?
- cedo. Oito e pouco. Ainda estava claro.
- onde?
- no lago. Ela est sempre l.
- voc combinou de encontr-la l aquela noite?
- no. Ela estava me tratando como um leproso nas ltimas semanas.
- por qu?
- ela  assim. Faz voc gostar dela, e a, voc sabe, voc vira passado. Ouvi 
dizer que ela estava saindo com um outro cara.
- qual  o nome dele?
- no sei. Ningum sabe. Dizem que  mais velho.
- que idade?
- no sei - gemeu gavin, j impaciente com todas aquelas perguntas. - trinta e 
alguma coisa, talvez.
- e o que aconteceu naquela noite?
- eu me aproximei dela e comeamos a conversar.
- voc estava furioso com ela - gavin olhou para o pai, perguntando com o olhar 
como  que ele sabia. - no seu ltimo email, voc a chamou de vadia. E coisa 
pior.
Gavin engoliu em seco e abaixou a cabea de novo.
- no estava falando srio.
- bem, no  assim que a polcia vai encarar isso. Especialmente porque ela est 
desaparecida desde aquela noite.
- eu no sei o que aconteceu com ela. Juro por deus que no sei. Voc no 
acredita em mim?
Dean queria, desesperadamente, mas resistiu ao impulso de facilitar as coisas 
para gavin. No era hora de pegar leve. Gavin precisava de uma atitude firme do 
pai, 
No do cara bonzinho.
- vamos tratar do que eu acredito mais tarde. Ligue o seu computador. Preciso 
ver at onde vai a gravidade da coisa.
Gavin sentou  mesa do computador com relutncia. Dean observou que ele digitava 
o nome de usurio e uma senha junto para entrar, e no precisaria disso se no 
tivesse 
Nada para esconder.
A home page do clube do sexo tinha sido criada por amadores. Era a verso da era 
do ciberespao do grafite de banheiro. Dean afastou gavin, sentou na cadeira 
dele 
E ps a mo no mouse.
- pai - gemeu gavin.
Mas dean ignorou o apelo do filho e foi direto para o quadro de recados. Curtis 
tinha dado os nomes que gavin e janey usavam: lmina e gata de botas, 
respectivamente. 
Durante dez minutos ficou rolando as mensagens, parando para ler as escritas 
pelo filho e pela filha do juiz. Era uma leitura difcil.
198
A ltima mensagem que gavin mandou para ela era grossa, insultante, e, agora, 
incriminadora. Arrasado, dean fechou o site e desligou o computador. Ficou 
olhando 
Alguns segundos para a tela branca do monitor, procurando associar quem tinha 
escrito o que acabava de ler com o menininho a quem tinha ensinado a usar a luva 
de 
Beisebol, o garoto com o sorriso desdentado e sardas no nariz, o menino cujo 
maior problema costumava ser o chul.
Dean no podia desperdiar tempo nenhum curtindo seu desespero pessoal naquele 
momento. Devia deixar isso para depois. O que era urgente era livrar o filho de 
qualquer 
Suspeita.
- essa  a hora que  melhor voc jogar limpo comigo, gavin. Quero ajud-lo, e 
vou ajudar. Mas se mentir para mim, vai me incapacitar e no poderei mais ajudar 
em 
Nada. Por isso, por pior que seja, tem mais alguma coisa que eu deva saber?
- como o qu?
- qualquer coisa sobre janey e voc. Voc fez sexo com ela realmente? - ele 
indicou o computador com um movimento de cabea. - ou foi s conversa?
Gavin olhou para o outro lado.
- fizemos uma vez.
- quando?
- um ms, seis semanas atrs - disse ele, levantando os ombros. - pouco depois 
de conhec-la. Mas j tnhamos trocado e-mails. Eu era o garoto novo na cidade. 
Acho 
Que foi s por isso que ela se interessou por mim.
- onde foi que isso aconteceu?
- uma galera enorme se encontrou num parque. No me lembro do nome. Ela e eu nos 
afastamos do grupo, fomos para o meu carro. - ressentido, gavin acrescentou: - 
voc 
Alguma vez j fez no banco de trs do carro?
Ele estava querendo provocar uma briga. A transferncia de culpa era uma ttica 
clssica para distrair, que dean reconheceu e se recusou a aceitar.
- voc usou camisinha?
-  claro.
- tem certeza?
- tenho, caramba.
- e esteve com ela s essa vez?
Gavin mexeu os ombros, afastou uma mecha de cabelo da testa e olhou para todos 
os cantos, menos para dean.
- gavin?
Ele deu um suspiro teatral.
- est bem, teve mais uma vez. Ela me deu um boquete.
- as mesmas perguntas.
- onde aconteceu? Nos fundos de uma boate na rua seis.
- em pblico?
- , mais ou menos, eu acho. Quero dizer, estvamos na rua, mas no havia 
ningum por perto.
Dean viu uma imagem-relmpago dele mesmo telefonando para pat para dizer que o 
beb dela estava na cadeia por atentado ao pudor em pblico. Onde  que voc 
estava, 
Dean?, ela perguntava. Onde  que ele estava mesmo enquanto o filho compunha 
cartas pornogrficas e recebia boquetes em becos?
Essa auto-acusao tambm tinha de ficar para depois.
- essas duas vezes? S isso?
- , ela esfriou, me descartou.
- mas voc no estava preparado para ser descartado. Gavin olhou para dean como 
se o pai fosse louco.
- claro que no. Ela  quente.
- para dizer o mnimo - disse dean a meia-voz. - se h mais alguma coisa,  
melhor me contar. No quero mais nenhuma surpresa cabeluda, algo que a polcia 
descobriu 
E que voc no me disse.
Gavin ficou lutando contra a indeciso pelo menos meio minuto, e s respondeu 
depois:
- ela, ... - gavin abriu uma gaveta da mesa, tirou um exemplar do senhor dos 
anis e pegou uma fotografia que tinha escondido entre as pginas do livro. - 
ela me 
Deu isso naquela noite.
Dean pegou a fotografia. No sabia o que era mais espantoso, a pose obscena da 
menina ou o sorriso sem-vergonha. Guardou a foto no bolso da camisa.
- v tomar uma chuveirada e vista-se.
- pai...
- ande logo. Disseram para lev-lo para a polcia ao meiodia. Um advogado vai 
nos encontrar l.
Finalmente, a gravidade da situao parecia estar penetrando todas as camadas da 
insolncia adolescente.
- eu no preciso de advogado.
- infelizmente precisa sim, gavin.
- eu no fiz nada com a janey. No acredita em mim, pai? O mau humor havia 
desaparecido. Gavin parecia muito jovem
E assustado, e dean sentiu o mesmo aperto no corao que sentira na noite 
anterior, ao observ-lo dormindo.
Queria abra-lo e assegurar que tudo ia dar certo. Mas no podia prometer isso, 
porque no sabia se era verdade. Queria dizer que acreditava nele sem 
restries, 
Mas, infelizmente, no acreditava. Gavin tinha trado sua confiana muitas 
vezes.
Queria dizer que o amava, mas tambm no disse. Teve medo de que gavin o 
rejeitasse por ser to pouco, e to tarde.
Paris j estava andando de um lado para outro no corredor havia mais de uma 
hora, esperando. Mesmo assim, reagiu assustada quando dean emergiu pela porta 
dupla do 
Bci, onde ele, gavin e um advogado tinham se reunido com curtis e rondeau numa 
sala de interrogatrio.
Dean pareceu surpreso ao v-la.
- eu no sabia que voc estava aqui.
- no podia ir embora at saber que estava tudo bem com gavin.
- ento voc sabe?
- eu estava com curtis ouvindo as fitas quando... - ela parou sem saber o que 
dizer.
- quando meu filho virou suspeito?
- at onde ns sabemos, nenhum crime foi cometido, e janey deve estar com uma 
amiga.
- claro.  por isso que curtis est passando gavin no rolo compressor.
Paris empurrou dean at um banco e o fez sentar. Era um banco feio e deprimente, 
uma estrutura vagabunda de metal segurando uma almofada de vinil azul com o 
enchimento 
Saindo por inmeros rasges. Talvez tivesse sido rasgado pelas mos inquietas de 
testemunhas, suspeitos e vtimas que ocupavam aquele mesmo
Banco enquanto se desesperavam com seu destino ou com o de algum que amavam. 
No estariam naquele lugar se suas vidas no estivessem de cabea para baixo, 
talvez 
Permanentemente.
- como o gavin est reagindo? - perguntou paris, baixinho.
- ele est se controlando. Sem nenhuma atitude agressiva, graas a deus. Acho 
que finalmente entendeu que est numa grande merda.
- s porque trocou e-mails sexualmente explcitos com janey. Mas muitos outros 
tambm fizeram isso.
- , mas gavin demonstrou um talento realmente criativo disse dean, com uma 
risada amarga. - mostraram para voc alguma coisa que ele escreveu?
- no. Mas mesmo se eu tivesse lido, no teria modificado a opinio que tenho 
dele. Ele era um menino maravilhoso, e ser um jovem de bem.
- dois dias atrs, eu pensava que fugir do castigo era uma grande ofensa. 
Agora... Isso. Meu deus.
Dean deu um suspiro, apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as 
mos.
Paris ps a mo no ombro dele. Foi instintivo. Ele precisava ser tocado, e ela 
precisava tocar nele.
- voc falou com a pat?
- no. Para que incomod-la se no for nada alm de alguns e-mails 
pornogrficos?
- tenho certeza de que ser s isso mesmo.
- eu espero. Ele contou duas vezes o que fez aquela noite para ns. As histrias 
no mudaram.
- ento ele deve estar dizendo a verdade.
- ou a mentira foi muito bem ensaiada.
Olhando bem para a frente, para a escada do outro lado do corredor, dean 
encostou os dedos cruzados na boca.
- converso com mentirosos todos os dias, paris. A maioria das pessoas mente, 
umas mais, outras menos. Algumas nem percebem que esto mentindo. Elas dizem a 
mesma 
Coisa, ou acreditam em alguma coisa por tanto tempo que isso se transforma na 
verdade delas. O meu trabalho  filtrar tudo que no vale nada e chegar  
verdade dos 
Fatos.
Quando dean parou de falar, paris permaneceu em silncio, dando-lhe uma 
oportunidade para organizar seus pensamentos. O calor da pele dele se irradiava 
para o ombro, 
E para a palma da mo dela.
- gavin admite ter voltado para casa de carro sozinho, bbado - disse ele. - 
admite ter parado no caminho para vomitar no jardim de algum e ter me 
desobedecido 
Saindo de casa.
"reconhece que gosta de janey, ou pelo menos do que eles fizeram. Diz que 
conversou com ela aquela noite e tentou persuadi-la a ir para algum outro lugar 
com ele. 
Ela recusou na lata.
"ele se enfureceu, disse coisas, e algumas dessas coisas nem consigo acreditar 
que saram da boca do meu filho. Ele confessou ter ficado furioso quando a 
deixou, 
Mas insiste que se afastou dela. Disse que juntou-se a um grupo de rapazes e 
ficou com eles, bebendo tequila, at resolver voltar para casa. No viu mais a 
janey."
Dean virou a cabea e olhou bem nos olhos de paris.
- eu acredito nele, paris.
- timo.
- estou sendo ingnuo? Ser que estou vendo apenas o que desejo ver?
- no. Acho que acredita nele porque ele est dizendo a verdade. - paris apertou 
de leve o ombro de dean para tranqilizlo. - eu posso fazer alguma coisa?
- jante conosco hoje. Comigo e com gavin.
Sem esperar o convite, paris tirou rapidamente a mo do ombro dele e desviou o 
olhar.
- eu trabalho  noite, esqueceu?
- temos muito tempo para jantar antes de voc ir para a estao. Podemos ir 
cedo.
Ela balanou a cabea.
- tenho um compromisso esta tarde que no pode ser adiado. Alm do mais, no 
acho que seja uma boa idia.
- pelo que aconteceu ontem  noite? -no.
- sim.
Irritada com a sensibilidade dele, paris reconheceu:
- est bem,  sim.
- porque voc sabe que se estivermos juntos vai acontecer de novo.
- no vai no.
- vai sim, paris. Voc sabe que vai. Alm do mais, voc deseja isso tanto quanto 
eu.
- eu...
- dean?
Ao ouvir o nome dele, os dois se afastaram rapidamente. Uma mulher acabava de 
sair de um dos elevadores e ia na direo deles. Havia uma nica palavra para 
descrev-la: 
Estonteante.
O tailleur feito sob medida enfatizava suas curvas, em vez de suaviz-las. 
Pernas exuberantes ficavam  mostra com uma saia curta e saltos altos. Brilho 
labial e 
Rmel compunham a nica maquiagem que usava, e no precisava de mais nada. No 
usava jias tampouco, apenas brincos simples, uma corrente fina no pescoo e um 
relgio 
De pulso. O cabelo louro, at os ombros, estava repartido no meio, solto, 
clssico e sem complicaes. Uma californiana com roupa de executiva poderosa.
Dean ficou de p.
- liz.
Ela presenteou dean com um sorriso deslumbrante.
- correu tudo bem em chicago e fechei o negcio um dia mais cedo. Troquei as 
conexes de vo e pensei em surpreendlo chegando para almoar. A srta. Lester 
disse 
Que podia encontr-lo aqui, e tudo indica que consegui fazer uma surpresa e 
tanto.
Liz abraou dean, deu-lhe um beijo na boca, depois um sorriso simptico e aberto 
para paris. -ol. Dean apresentou as duas laconicamente:
- liz douglas, paris gibson.
Paris no se lembrava de ter se levantado, mas surpreendeu-se cara a cara com 
liz douglas, que tinha um aperto de mo firme, como uma mulher acostumada a 
fazer negcios, 
Principalmente com homens.
- como vai? - paris a cumprimentou, sem graa.
-  um prazer conhec-la. Voc  da polcia? Trabalha com dean?
Liz procurava ver atravs das lentes escuras dos culos de paris, e 
provavelmente concluiu que era da polcia secreta.
- no, eu trabalho numa rdio.
-  mesmo? Tem um programa?
- tarde da noite.
- desculpe, eu no...
- nem precisa se desculpar - disse paris. - o meu programa comea quando a 
maioria das pessoas j est dormindo.
Depois de um breve e constrangedor lapso na conversa, dean disse:
- paris e eu nos conhecemos em houston. Anos atrs.
- ah - disse liz douglas, como se essa explicao esclarecesse tudo.
- vocs tm de me dar licena. Estou atrasada para um compromisso. - paris virou 
para dean. - tudo vai acabar bem. Eu sei que vai. Por favor, diga oi para o 
gavin 
Por mim. Srta. Douglas, foi um prazer conhec-la.
Paris saiu apressada e foi para o elevador. Dean gritou o nome dela, mas paris 
fingiu no ouvir e continuou andando. Desapareceu de vista e ouviu liz douglas 
dizer:
- estou com a ntida impresso de que interrompi alguma coisa. Ela est com 
algum problema?
- na verdade, sou eu que estou - respondeu ele. - gavin e eu.
- meu deus, o que aconteceu?
Nesse momento, o elevador chegou. Paris entrou e deu graas de ser a nica 
passageira. Encostou na parede do fundo quando as portas se fecharam. No ouviu 
mais a 
Conversa de liz com dean. Mas nem precisava. A familiaridade com que se beijaram 
j dizia muito.
Ele no ia mais precisar da mo dela no ombro. Agora tinha liz para consol-lo.
Gavin sabia que mesmo que vivesse cem anos, aquele seria o pior dia da sua vida.
Para ir  polcia, tinha posto suas melhores roupas e no precisou sequer seu 
pai recomendar. Deviam estar perdidas agora,
Porque fazia uma hora que suava por todos os poros. O bodum nunca mais ia sair.
Na televiso e no cinema, os suspeitos interrogados pareciam culpados com sua 
linguagem corporal. Por isso, gavin procurou no ficar se mexendo na cadeira 
desconfortvel. 
Sentou com as costas bem retas. No deixou os olhos vagarem pela saleta, olhou 
diretamente para o sargento curtis. Quando o sargento fazia uma pergunta, no 
ficava 
Elaborando, dizia a verdade de forma concisa, apesar do assunto ser 
constrangedor.
Seguiu o conselho do pai, que agora no era mais hora de omitir informaes. No 
que estivesse tentando encobrir algo. Eles j sabiam dos e-mails, do clube do 
sexo, 
Tudo isso. Ele no sabia do paradeiro de janey kemp, nem o que tinha acontecido 
com ela. Como a polcia, no tinha pista nenhuma do destino dela.
Sim, tinha feito sexo com ela. Mas todos os caras que conheceu desde a chegada 
em austin tambm, exceto seu pai e os homens naquela sala.
Todos menos um. E, mais do que as insistentes perguntas de curtis, era 
exatamente aquele que fazia gavin transpirar. Tinha sido apresentado como john 
rondeau.
No minuto em que rondeau entrou na sala, gavin o reconheceu. Afinal, tinha visto 
o homem na vspera com duas gatas peitudas saindo do banco de trs de um carro. 
E com a mais absoluta certeza, no era um grupo de orao.
E sem dvida o jovem policial tambm o reconheceu. Ao ver gavin, os olhos dele 
se arregalaram um pouco, mas voltaram ao normal num milsimo de segundo. Depois 
ele 
Adotou um olhar fixo de alerta que fez os testculos de gavin encolherem, e 
emudecer qualquer comentrio que pudesse fazer sobre ter visto aquele cara 
antes.
Os outros, inclusive o pai dele, provavelmente acharam que o olhar de rondeau 
era uma reprovao sria dos e-mails que gavin tinha trocado com janey. Mas 
gavin sabia. 
Gavin sabia que rondeau o ameaava com conseqncias graves se trasse suas 
atividades extracurriculares para seus superiores.
Gavin ficou com mais medo ainda quando curtis pediu para o pai dele sair da 
sala. Recentemente, o pai estava sendo muito
Chato, reclamando de tudo. Tinha chegado a um ponto em que gavin no suportava 
nem v-lo, sabendo que j ia fazer um sermo sobre alguma coisa. Hoje, porm, 
estava 
Contente de ter o pai ao seu lado. E, por pior que a situao pudesse ficar, 
gavin sabia que o pai no ia abandon-lo.
Lembrou-se de uma vez que foram para a costa do golfo, passar um fim de semana 
prolongado. O pai tinha avisado para gavin no nadar muito para longe da praia.
- as ondas so mais fortes e maiores do que parecem da praia. H tambm uma 
forte correnteza. Tome cuidado.
Mas ele quis impressionar o pai mostrando que era bom nadador e que pegava onda 
muito bem. E de repente perdeu o p e as ondas no davam trgua. Entrou em 
pnico 
E afundou. As ondas quebravam em cima dele, e gavin sabia que estava condenado a 
morrer afogado.
Ento um brao forte o agarrou pelo peito e o puxou para a superfcie.
- tudo bem, filho, eu te peguei.
Gavin cuspia gua e se debatia, ainda tentando tomar p.
- relaxe e encoste em mim, gavin. No vou solt-lo. Prometo.
O pai rebocou-o at a praia. E no lhe deu nenhuma bronca quando chegaram l. 
Ele no disse: "garoto burro, eu no avisei? Quando  que vai aprender a ouvir o 
que 
Eu digo?"
S ficou muito preocupado enquanto batia nas costas dele, at gavin tossir e 
cuspir toda a gua do mar que tinha engolido. Depois enrolou-o numa toalha de 
praia 
E o abraou com fora, apertando-o de lado por bastante tempo. Sem dizer nada. 
S olhando fixo para o mar, segurando o filho.
Quando o fim de semana terminou e a me perguntou se tinha corrido tudo bem, o 
pai piscou para ele e disse que tinha sido tudo timo.
- ns nos divertimos muito.
Ele nunca disse para ela que gavin teria morrido se no o salvasse.
Gavin confiava que o pai tambm estaria l hoje para agarrlo se ele afundasse. 
O pai dele era assim. Uma boa pessoa para ter por perto numa crise.
Por isso, ficou estressado quando o detetive pediu para dean esperar l fora 
enquanto conversava com gavin sozinho.
- eu saio, mas s se o advogado ficar - estipulou o pai dele. Curtis concordou. 
Antes de sair, o pai olhou para ele e disse:
- estou aqui fora, filho.
E gavin teve certeza de que estaria mesmo.
Depois que dean saiu, curtis olhou para ele to srio que gavin comeou a se 
encolher, apesar de ter resolvido que no ia se mexer. J estava imaginando se o 
detetive 
Tinha ficado mudo quando ele disse:
- sei que  difcil falar sobre certas coisas na frente do seu pai. Garotas e 
sexo. Coisas assim.
- sim, senhor.
- agora que seu pai no est mais aqui, gostaria de fazer umas perguntas mais 
pessoais.
Mais pessoais do que as outras? Devem estar brincando comigo. Foi isso que gavin 
pensou, mas disse:
- est bem.
Porm, as perguntas foram basicamente as mesmas que o pai tinha feito antes de 
sair de casa. Gavin respondeu para curtis com a mesma naturalidade. Contou as 
vezes 
Que janey e ele fizeram sexo.
- voc no teve nenhuma atividade sexual com ela naquela ltima noite que a viu?
- no, senhor.
- voc a viu fazendo sexo com mais algum?
O qu? Eles achavam que ele ia ficar espiando? Ser que pensavam que ele era 
doente?
- eu no chegaria perto dela e comearia a conversar se ela estivesse com outro 
cara.
- voc encostou nela?
- no, senhor. Uma vez tentei segurar a mo dela, mas ela no deixou. Disse que 
eu era carente e que a minha carncia era uma chatice.
- foi a que a chamou de puta e o resto?
- sim, senhor.
- que roupa ela estava usando?
Roupa? Gavin no conseguia lembrar. Quando se lembrava da imagem dela, s via o 
rosto, os olhos ardentes, o sorriso que era sedutor e cruel ao mesmo tempo.
- no lembro.
Curtis olhou para rondeau.
- lembra-se de qualquer outra coisa?
- onde conseguiu a foto dela?
Gavin morria de medo de olhar diretamente para ele, mas olhou.
- foi ela que me deu.
- quando?
- naquela noite. Ela disse: "sai dessa, gavin." ento me deu a foto. Chamou de 
"suvenir". Disse que quando sentisse saudade dela, podia us-la, sabe como , 
para 
Me masturbar.
- ela disse quem tirou a foto?
- um cara com quem ela estava saindo.
- ela disse o nome dele?
- no.
- voc perguntou?
- no.
Curtis esperou para ver se rondeau ia perguntar mais alguma coisa, mas quando o 
policial recostou na cadeira, satisfeito, curtis se levantou.
- por enquanto  s, gavin. A no ser que voc se lembre de mais alguma coisa.
- no, senhor.
- se lembrar, avise-me ou conte ao seu pai imediatamente.
- pode deixar, senhor. Espero que a encontrem logo.
- ns tambm. Obrigado pela sua colaborao.
Como prometeu, seu pai o esperava fora do bci, mas gavin ficou surpreso ao ver 
que liz estava com ele. Ela correu imediatamente em sua direo. Perguntou se 
estava 
Bem e o sufocou com um abrao.
- eu preciso ir ao banheiro - murmurou gavin e se afastou antes que algum 
pudesse det-lo.
No havia ningum no mictrio. Gavin entrou num dos cubculos e verificou se 
havia ps nos outros. Certo de que estava sozinho, inclinou-se sobre a privada e 
vomitou. 
No tinha comido
Muito aquele dia, s tomado o caf da manh, por isso cuspiu mais bile e depois 
teve espasmos secos, at os vasos sanguneos no pescoo ficarem a ponto de 
explodir. 
Os espasmos de nusea foram to violentos que deixaram toda a parte de cima do 
corpo dolorida.
S vomitara de medo uma vez antes dessa. Quando tinha catorze anos, saiu 
escondido com o carro da me. Ela sara com o homem com quem acabou se casando. 
Como havia 
Abandonado o filho para jantar com um bundo, gavin achou que era bem feito para 
ela sair com seu carro, desobedecendo a lei.
S foi at o McDonalds mais prximo, onde devorou um big mac. Voltando para 
casa, quando faltava apenas um quarteiro, um filhote de golden retriever de um 
vizinho 
Apareceu bem na frente do carro. O cachorrinho era o assunto da vizinhana. Era 
bonitinho e carinhoso, e quando gavin foi conhec-lo alguns dias antes, o 
bichinho 
Lambeu animadssimo o seu rosto.
Gavin freou a tempo de evitar uma tragdia, mas quase matou o filhote, de modo 
que ao chegar em casa vomitou o lanche obtido ilegalmente. Sua me nunca soube 
que 
Ele pegou o carro, e o filhote cresceu e virou um cachorro que ainda se 
desenvolvia. Fora a conscincia culpada, gavin no teve de enfrentar nenhuma 
conseqncia.
Mas dessa vez no teve tanta sorte.
Apertou a descarga duas vezes antes de sair do cubculo. Foi at a pia, jogou 
gua no rosto com as duas mos em concha, lavou a boca diversas vezes, depois 
jogou 
Mais gua no rosto antes de fechar a torneira e endireitar o corpo.
Nem tinha registrado direito que rondeau estava l e o policial j punha uma das 
mos na sua nuca, segurava com fora seu pulso com a outra, e empurrava a mo de 
Gavin para cima, entre as omoplatas.


Captulo dezenove
Rondeau bateu o rosto de gavin no espelho. O impacto foi to grande que o garoto 
se surpreendeu do vidro no ter rachado. No tinha tanta certeza, no entanto, 
quanto 
 ma do seu rosto. A dor trouxe-lhe lgrimas pouco msculas aos olhos. Parecia 
que o brao estava sendo arrancado do ombro.
- me solta, babaca - disse gavin, ofegante. Rondeau sibilou diretamente na 
orelha dele:
- voc e eu temos um segredo, no temos?
- eu conheo o seu segredo, policial rondeau - os lbios de gavin estavam 
amassados contra o espelho, mas ele conseguia se fazer entender. - quando est 
de folga 
Da polcia, voc fode as garotinhas.
Rondeau empurrou a mo de gavin mais para cima ainda, e, apesar da determinao 
do rapaz de no demonstrar medo, ele gritou.
- agora eu vou dizer qual  o seu segredo, gavin - sussurrou rondeau.
- eu no tenho segredo nenhum.
- claro que tem. Voc se cansou dos jogos daquela putinha. Achou que j era hora 
de dar uma lio nela. Por isso marcou um encontro. Ela ficou violenta e voc 
perdeu 
A cabea.
- voc est maluco.
- estava com tanta raiva, to humilhado, que acabou surtando, gavin. Com a 
cabea daquele jeito, nem posso imaginar o que fez com ela.
- eu no fiz nada.
- claro que fez, gavin - disse rondeau com a voz suave. Voc tinha o motivo 
perfeito. Ela d o fora em voc, depois o transforma em motivo de chacota. 
Ridiculariza 
Voc no quadro de recados, para todo mundo ler. Um "imprestvel na cama".
No foi assim que ela se referiu a voc? Voc no podia aturar isso. Tinha de 
faz-la calar a boca. Para sempre.
A lbia de vendedor de rondeau fez aquele cenrio parecer plausvel. Gavin 
entrou em pnico s de pensar quantos outros policiais, inclusive o sargento 
curtis, rondeau 
Poderia convencer.
- tudo bem, ela debochou de mim e fiquei furioso com ela. Mas o resto  
besteira. Estava com amigos aquela noite. Eles podem confirmar isso.
- um bando de caipiras e garotos sarados, doides de tequila e fumo? - zombou 
rondeau. - pensa que o testemunho deles vai colar no tribunal?
- tribunal?
- espero que tenha um outro libi preparado, gavin. Algo mais forte do que o 
testemunho daqueles bundes com quem voc costuma sair.
- no preciso de libi nenhum porque no fiz nada com a janey, a no ser 
conversar com ela.
- voc no bateu na cabea dela com uma chave de pneu e rolou o corpo dela para 
o lago?
- meu deus! No!
- voc no est se cagando de medo s de pensar quando vo encontrar o corpo 
dela? Aposto que arrumo algum para testemunhar que viu voc e janey brigando.
- seria mentira. Eu no fiz nada.
Rondeau chegou mais perto ainda e amassou as coxas de gavin na pia.
- se voc fez ou no fez, eu no dou a mnima, gavin. Eles podem te soltar, ou 
podem mand-lo para a priso pelo resto da vida, para mim no faz diferena 
nenhuma. 
Mas se voc me dedurar, vou cuidar para que parea muito culpado. Vou fazer todo 
mundo acreditar que...
- que porra est acontecendo aqui?
Gavin sentiu o movimento do ar logo depois de ouvir a exclamao retumbante do 
pai na porta do banheiro. Dean arrancou rondeau de cima do filho e o imprensou 
contra 
A parede de azulejos, depois usou a mo como um grampo no pescoo do policial 
para imobiliz-lo.
- que porra voc pensa que est fazendo? - a voz de dean reverberou em cada 
superfcie concreta do banheiro. - gavin, voc est bem?
A ma do rosto latejava e o ombro doa  bea, mas gavin no ia se queixar na 
frente de rondeau.
- eu estou bem.
O pai o examinou bem, como se quisesse certificar-se de que o filho no estava 
gravemente ferido, depois virou para rondeau.
-  melhor explicar isso direitinho.
- sinto muito, dr. Malloy. Eu estava lendo aquelas coisas que seu filho 
escreveu. So simplesmente... Uma parte  nojenta. Eu tenho me, tenho uma irm. 
Ningum 
Devia falar das mulheres desse jeito. Quando entrei aqui para mijar, eu o vi, e 
acho que perdi a cabea.
Gavin no queria estar no lugar de rondeau. Seu pai estava praticamente soprando 
fogo na cara dele e no tinha relaxado a presso no pescoo. A cara de rondeau 
estava 
Ficando vermelha, mas ele permaneceu completamente imvel, como se tivesse medo 
de fazer qualquer movimento e deflagrar uma erupo de ira que no seria capaz 
de 
Combater.
Finalmente, dean abaixou a mo, mas seus olhos foram to eficientes quanto a 
pegada para manter rondeau grudado na parede. A voz de dean era baixa e 
controlada, 
Mas ameaadora:
- se encostar um dedo no meu filho de novo, eu toro a porra do seu pescoo. 
Est entendendo?
- senhor, eu...
- est entendendo?
Rondeau engoliu em seco, fez que sim com a cabea e depois disse:
- sim, senhor.
Apesar da docilidade de rondeau, dean ainda demorou alguns segundos para livr-
lo do seu olhar e chegar para trs. Estendeu o brao para gavin.
- vamos, filho.
Gavin olhou para rondeau quando passou por ele. O jovem policial podia ter 
convencido seu pai de que tinha sentido uma onda incontrolvel de indignao 
pela qual 
Estava sinceramente arrependido.
Mas gavin no era bobo. Em vez de criar mais problemas para ele mesmo, guardaria 
o segredinho sujo de rondeau. E da se o policial levava uma vida dupla que 
inclua 
Foder com menores de idade? As meninas pareciam no se importar.
Depois de sair do banheiro, gavin olhou de soslaio para o pai. Com os maxilares 
rgidos, ele parecia pronto para concretizar a ameaa de torcer o pescoo de 
rondeau. 
Ficou aliviado de no ser o alvo daquela fria fervente.
Descobriu que a ma do rosto logo ficaria roxa, e provavelmente j estava 
comeando a perder a cor, porque no instante em que liz viu os dois, ela soube 
que alguma 
Coisa tinha acontecido.
- o que houve?
- nada, liz - disse dean. - est tudo bem, mas no vou poder almoar. O sargento 
curtis est me procurando.
Parecia que enquanto estava no banheiro, vomitando as tripas, o pai havia 
contado para liz o que estava acontecendo.
- ele quer que eu fale com algum. Sinto muito por voc ter encurtado a sua 
viagem para voltar mais depressa para essa confuso toda.
- se a confuso  sua,  minha tambm - disse ela.
- obrigado. Eu ligo para falar com voc em casa,  noite.
- posso esperar at voc sair. Dean balanou a cabea.
- no tenho idia do tempo que vou levar. Isso pode demorar o resto da tarde.
- ah, entendo. Bem... - liz parecia to decepcionada que gavin sentiu pena dela. 
- voc  valioso demais por aqui e acaba sobrecarregado. Quer que eu d uma 
carona 
Para o gavin at em casa?
Gavin gemeu em pensamento: no, por favor. Liz era legal. Era certamente uma 
viso maravilhosa. Mas fazia fora demais para conquistar a simpatia dele. 
Muitas vezes 
Seus esforos eram to transparentes que chegavam a irritar. Ele no era uma 
criancinha que podia ser seduzida por uma conversa interessante e por algum que 
demonstrasse 
Interesse demais por ele.
- agradeo a oferta, liz, mas vou mandar gavin para casa
No meu carro.
Gavin virou de estalo para o pai, achando que no devia ter ouvido direito. Mas 
no, dean estava entregando as chaves do carro para ele. Dois dias antes, tinha 
feito 
Gavin entregar as chaves da sua lata velha. Agora confiava a ele seu carro 
importado e caro.
Essa demonstrao de confiana significava mais do que a ameaa de morte contra 
rondeau. Proteger o filho era o que todos faziam, mas confiar nele era uma 
opo, 
E seu pai tinha resolvido confiar, mesmo sem gavin ter dado nenhum motivo para 
isso. Na verdade, tinha dado todos os motivos para no confiar.
Era uma coisa que precisava pensar e analisar. Porm, mais tarde, quando 
estivesse sozinho.
- eu telefono quando for sair, gavin. Voc pode voltar para me pegar. Est bem 
assim para voc?
A garganta de gavin estava apertada demais, mas ele conseguiu guinchar.
- claro, pai. Vou esperar voc ligar.
Apesar da situao atual estar catica, paris no usou isso como mais uma 
desculpa para adiar a viagem necessria para meadowview.
E talvez depois de beijar dean na vspera, a sensao de culpa tambm a tivesse 
motivado a telefonar para o diretor da clnica e dizer que estaria l s trs 
horas.
Paris chegou pontualmente s trs, e o diretor j estava no trio da entrada 
para receb-la. Apertaram-se as mos, e ele, parecendo envergonhado, pediu 
desculpas 
Pelo tom agressivo da carta que paris tinha recebido no dia anterior.
- pensando melhor, eu queria que o meu palavreado no tivesse sido to...
- no precisa se desculpar - disse paris. - a sua carta me obrigou a fazer uma 
coisa que j devia ter feito h meses.
- espero que no pense que no tenho considerao pela sua dor - disse ele, 
conduzindo paris pelo corredor silencioso.
- de jeito nenhum.
Os pertences de jack tinham sido postos no almoxarifado. Depois de destrancar a 
porta, o diretor apontou para trs caixas
Seladas e empilhadas numa estante de metal. No eram grandes e no continham 
grande coisa. Paris poderia facilmente carregar tudo sozinha at o carro, mas 
ele insistiu 
Em ajudar.
- desculpe qualquer transtorno que o meu atraso possa ter causado para o senhor 
e a sua equipe - disse paris enquanto punha as caixas na mala do carro.
- eu compreendo que preferisse ficar longe daqui. O hospital no podia ter boas 
lembranas para a senhorita.
- no, mas eu nunca tive de me preocupar com o tratamento que jack recebeu aqui. 
Obrigada.
- a sua generosa doao j foi agradecimento suficiente. Depois de acertar as 
contas elevadas do tratamento mdico
De jack, paris doou o restante do patrimnio dele para a clnica, inclusive o 
seguro de vida que ele fez quando ficaram noivos. Ela era a beneficiria, mas 
jamais 
Poderia ficar com o dinheiro.
Paris e o diretor se despediram no estacionamento de meadowview sob um sol 
escaldante, sabendo que seria muito difcil voltarem a se encontrar.
Agora as trs caixas estavam na mesa da cozinha da casa de paris. Jamais 
chegaria a hora melhor para abri-las, e paris preferia acabar logo com aquilo do 
que continuar 
A fugir. Usou uma faca de trinchar e abriu a fita adesiva das trs caixas.
Na primeira havia pijamas. Quatro conjuntos, bem dobrados. Paris comprou aqueles 
pijamas para ele assim que foi para meadowview. Estavam bem macios depois de 
lavados 
Tantas vezes, mas continuavam saturados do cheiro anti-sptico que paris 
associava aos corredores do hospital. Fechou a caixa.
A segunda tinha quase s papis, aqueles documentos autenticados com trs cpias 
das companhias de seguro, dos tribunais municipais, hospitais, conselhos mdicos 
E de advogados que reduziam jack donner a um nmero do seguro social, a uma 
estatstica, um cliente, um valor para um contador tabular.
Como testamenteira dele, paris teve de lidar com todas as questes legais 
inerentes  morte de algum. Todos os "pelo qual" e "anexo" eram pretritos 
agora, os documentos 
Obsoletos. Paris no precisava, nem queria, l-los de novo.
S faltava a terceira caixa. Era a menor das trs. Mesmo antes de abrir, paris 
j sabia que o contedo seria o mais perturbador, porque o que havia dentro 
daquela caixa eram os objetos pessoais de jack. O relgio de pulso. A carteira. 
Alguns livros preferidos, que paris lia para ele 
Em voz alta nas visitas dirias a meadowview. Uma fotografia num porta-retratos 
dos pais dele, que j tinham morrido quando paris o conheceu. Achava que era uma 
Bno no terem vivido para ver o nico filho naquele estado.
Logo depois de lev-lo para meadowview, paris tinha desmontado a casa dele. Doou 
as roupas para caridade. Depois, enchendo-se de coragem, vendeu a moblia, o 
carro, 
Os esquis de neve, o barco para pesca de perca, as raquetes de tnis, o violo, 
e mais tarde a prpria casa, para pagar as despesas mdicas astronmicas que o 
seguro no cobria.
Ento aquilo era tudo que jack donner possua quando morreu. Ficou reduzido a 
nada, nem mesmo sua dignidade.
A carteira estava macia de tanto uso. Os cartes de crdito, h muito 
cancelados, continuavam no porta-cartes. Atrs de uma proteo de plstico, o 
rosto dela sorrindo. 
Paris notou que havia um pedao de papel atrs da foto e puxou. Era um artigo de 
jornal que jack tinha dobrado inmeras vezes, at caber atrs da foto dela.
Paris desdobrou e viu outra foto dela. S que essa no era um retrato lisonjeiro 
de estdio. Tinha sido tirada por um fotgrafo de jornal. Ele a capturou com ar 
De cansao, desarrumada e desiludida, olhando para longe, com o microfone 
esquecido na mo abaixada. O ttulo dizia "cobertura da carreira".
Com lgrimas queimando os olhos, paris esfregou as pontas do pedao de jornal 
com os dedos. Jack tinha ficado muito orgulhoso com o trabalho que paris tinha 
feito, 
To orgulhoso que resolveu guardar o artigo do jornal. Ser que em algum momento 
depois disso ele se deu conta da cruel ironia de sentir orgulho pelo trabalho 
dela, 
Especificamente naquela histria?
Era curioso que uma pessoa completamente desconhecida, algum que os dois nunca 
tinham visto, tivesse provocado um impacto to cataltico em suas vidas. O nome 
dele 
Era albert dorrie. Ele mudou o destino de jack e de paris naquele dia que 
resolveu tornar refm a prpria famlia.
A manh de tera-feira tinha sido tranqila at a histria estourar, logo antes 
do almoo. Quando o pessoal na sala de redao ouviu dizer que uma mulher e os 
trs 
Filhos estavam sob a mira de uma arma dentro da prpria casa, entrou logo em 
atividade. Designaram um cmera para ir ao local. Enquanto ele juntava apressado 
o seu 
Equipamento, o editor fazia um rpido inventrio dos reprteres disponveis.
- quem est livre? - rosnou ele.
- eu. - paris lembrava de ter levantado a mo como aluna de colgio que sabia a 
resposta certa.
- voc tem de gravar a voz em off para aquela histria da preveno do cncer de 
clon.
- j gravei e j est com o editor.
O jornalista veterano rolou o cigarro, que no acendia nunca dentro do prdio, 
de um lado para outro nos lbios manchados de nicotina, enquanto examinava paris 
com 
A testa franzida.
- tudo bem, gibson, voc vai. Vou mandar o marshall substituir voc quando ele 
terminar o trabalho no tribunal. Nesse meiotempo, tente no fazer muita merda. 
V!
Paris se aboletou na van da reportagem com o cmera. Estava excitada, ansiosa, 
animada para cobrir sua primeira histria atual. O fotgrafo navegava com 
facilidade 
Pelo trnsito das avenidas de houston e cantarolava springsteen.
- como pode estar to calmo?
-  que amanh haver outro maluco fazendo outra coisa igualmente psictica. As 
histrias so sempre as mesmas. S mudam os nomes.
Ele tinha razo, at certo ponto, mas paris concluiu que aquela calma toda devia 
muito ao baseado que ele estava fumando.
Tinham posto barricadas no fim de uma rua num bairro de classe mdia. Paris 
saltou da van e correu para perto dos outros reprteres que se acotovelavam em 
torno 
Do agente da swat que desempenhava o papel de porta-voz da polcia de houston.
- a idade das crianas vai de quatro a sete - paris ouviu o homem dizer enquanto 
se esgueirava pelo meio da massa de gente. - o sr. E a sra. Dorrie esto 
divorciados 
H alguns meses. Ela recentemente venceu uma disputa pela custdia dos filhos.  
tudo que sabemos at o momento.
- o sr. Dorrie se aborreceu com a deciso sobre a custdia?  berrou um 
reprter.
- pode ser, mas isso  apenas especulao.
- o senhor conversou com o sr. Dorrie?
- ele no respondeu quando tentamos falar com ele.
O cmera de paris conseguiu alcan-la. Estendeu o brao no meio da multido e 
entregou-lhe o microfone ligado na cmera dele.
- ento como sabe que ele est l dentro, mantendo a famlia sob a mira da arma? 
- perguntou outro reprter.
-a sra. Dorrie ligou para 911 e conseguiu explicar isso antes do telefone ser 
desligado, acredito que pelo sr. Dorrie.
- ela disse que tipo de arma ele tem?
- no.
- o senhor sabe o que o sr. Dorrie pretende ganhar com isso? - perguntou paris.
- neste momento - disse o oficial da swat -, a nica coisa que sei com certeza  
que temos uma situao muito grave nas mos. Obrigado.
Com isso, ele concluiu o informe. Paris virou para o cmera.
- voc pegou a minha pergunta na fita?
- peguei. E a resposta dele tambm.
- e que resposta.
- ligaram da redao. Eles vo pr voc ao vivo em trs minutos. Consegue 
inventar alguma coisa para dizer?
- voc focaliza a cmera que eu penso no que vou dizer. Paris arrumou um lugar 
privilegiado para fazer suas entradas
Ao vivo. A casa dos dorrie podia ser vista ao fundo, no fim de uma rua estreita, 
com rvores dos dois lados, que em qualquer outra tarde provavelmente seria 
tranqila.
Agora estava cheia de veculos de emergncia, unidades da polcia, vans de 
reportagem e pessoas que paravam para assistir. Paris perguntou para uma vizinha 
dos dorrie 
Se ela podia falar para a cmera sobre a famlia e a mulher aceitou alegremente.
- eu sempre achei que ele era um bom homem - disse a mulher. - nunca poderia 
imaginar que ia enlouquecer desse jeito. Mas a gente nunca sabe mesmo. A maioria 
das 
Pessoas  doida, eu acho.
Depois de uma hora de impasse, paris avistou dean malloy chegando num carro 
comum. Parecia no se importar com todas aquelas pessoas olhando, caminhou com 
determinao 
E muita segurana quando policiais uniformizados o escoltaram pela multido de 
reprteres at a van da swat, que estava estacionada no meio do caminho entre a 
barricada 
E a casa. Paris viu dean entrar na van, ligou para o seu editor de pauta e 
informou aquela novidade.
- vocs querem calar a boca! - ele gritou para as vozes ao fundo. - no consigo 
ouvir meus pensamentos. - e ento para paris: - quem  ele de novo?
Paris repetiu o nome de dean.
- ele  doutor em psicologia e criminologia, da equipe da polcia de houston.
- e voc o conhece?
- pessoalmente.  treinado para negociar com seqestradores com refns. No 
estaria aqui se no achassem que precisavam dele.
Paris foi ao ar ao vivo com esse furo, na frente de todas as outras emissoras.
Na terceira hora do impasse, todos estavam ficando meio entediados e 
perversamente desejando que alguma coisa acontecesse.
Paris teve sorte quando avistou uma mulher pequena parada  margem da multido 
de espectadores. Ela se apoiava num homem e chorava copiosamente, em silncio.
Paris deixou o microfone e o cmera para trs, aproximou-se do casal e se 
apresentou. A princpio, o homem foi hostil e, de um jeito rspido, disse para 
ela dar o 
Fora, mas a mulher finalmente se identificou como irm da sra. Dorrie. Relutou 
um pouco e no queria falar, mas paris acabou sabendo da tempestuosa histria do 
casamento 
Dos dorrie.
- essa informao pode ser muito til para a polcia - disse paris gentilmente 
para a mulher. - a senhora estaria disposta a contar isso para um dos policiais?
A mulher ficou desconfiada e amedrontada. O marido dela continuou agressivo.
- o indivduo que tenho em mente no  um policial comum
- disse paris para os dois. - ele no  da swat. O nico objetivo da presena 
dele aqui  cuidar para que sua irm e as crianas saiam ilesos dessa situao. 
Vocs 
Podem confiar nele. Dou a minha palavra.
Minutos depois, paris tentava convencer um policial de uniforme a levar um 
bilhete at a van da swat e entreg-lo pessoalmente a dean.
- ele me conhece. Somos amigos.
- eu no me importo se voc  irm dele. Malloy est ocupado e no vai querer 
falar com reprter nenhum.
Ela apontou para a cmera avanar.
- voc est gravando?
- agora estou - disse o cmera, pondo a cmera no ombro e espiando pelo visor.
- trate de pegar um close da cara desse policial. Paris pigarreou e comeou a 
falar ao microfone:
- hoje o policial antnio garza, do departamento de polcia de houston, obstruiu 
os esforos para salvar uma famlia mantida como refm por um atirador armado. O 
Policial garza recusou-se a entregar uma mensagem importante para...
- que porra a senhora est fazendo?
- estou pondo voc na televiso como o policial que atrapalhou o resgate de 
refns.
- d-me a porra do bilhete - disse ele, arrancando o papel da mo de paris.
Longos e agonizantes quinze minutos passaram at dean descer da van e caminhar 
na direo da barricada. Afastava com o brao os microfones enfiados na frente 
dele 
Enquanto examinava os rostos na multido. Quando viu paris acenando do lado de 
fora da van de reportagem, foi direto at ela.
- ol, dean.
- paris.
- eu jamais tiraria vantagem da nossa amizade. Espero que saiba disso.
- eu sei.
- no teria pedido para voc vir at aqui se no achasse que isso  realmente 
importante.
- foi o que disse no seu bilhete. O que voc tem?
- vamos entrar.
Os dois subiram na traseira da van, onde paris havia persuadido a irm da sra. 
Dorrie e o cunhado a ficar esperando. Apresentou dean aos dois. O espao era 
limitado, 
Apesar do cmera ter ficado do lado de fora. Paris no queria assust-los com a 
cmera e as luzes.
Dean ficou de ccoras na frente da mulher apavorada e falou com voz baixa e 
calma:
- antes de mais nada, quero que saiba que vou fazer tudo que estiver ao meu 
alcance para evitar que sua irm e a famlia dela se machuquem.
- foi isso que paris disse. Ela nos deu sua palavra de que podamos confiar no 
senhor.
Dean olhou rapidamente para paris.
- mas estou com medo da polcia querer invadir a casa - disse a mulher, com a 
voz entrecortada de emoo. - se fizerem isso, albert vai mat-la, e matar as 
crianas 
Tambm. Eu sei que vai.
- ele j ameaou a vida deles antes? - perguntou dean.
- muitas vezes. A minha irm sempre disse que ele ia acabar fazendo isso.
Dean ouviu pacientemente o que ela queria contar e s interrompia quando 
precisava esclarecer algum ponto, incentivando suavemente quando parava de 
falar. A van 
Ficou quente e fedia a maconha. Dean parecia no notar o ambiente 
desconfortvel, o suor que brotava na sua testa. Jamais desviava os olhos do 
rosto da mulher aos 
Prantos.
Fez as perguntas pertinentes e deve ter guardado as respostas na memria porque 
no escreveu nada. Depois que ela contou tudo que sabia que podia ser relevante, 
Ele agradeceu, procurou tranqiliz-la dizendo que ia tirar a irm dela e as 
crianas em segurana de l, e ento perguntou se ela podia ficar por perto, 
caso precisasse 
Falar com ela de novo. A mulher e o marido concordaram.
Quando saram da van abafada, paris deu para dean uma garrafa de gua. Ele 
bebeu, distrado, enquanto caminhavam at a barricada. Uma profunda ruga de 
preocupao 
Havia se formado entre as sobrancelhas dele.
Finalmente, paris resolveu perguntar se a entrevista tinha sido til.
- demais. Mas, antes de poder ser til, eu preciso fazer dorrie falar comigo.
- agora voc tem o nmero do celular dele.
- graas a voc.
- fico feliz de ter podido ajudar.
Garza e os outros policiais uniformizados contiveram a multido de reprteres 
que faziam perguntas para dean ao passar pela barricada. Ele foi se afastando, 
mas 
Parou, virou para trs e disse:
- fez um bom trabalho, paris.
- e voc tambm.
Paris continuou onde estava, vendo dean desaparecer na van da swat, depois 
telefonou para o editor de pauta e contou o que tinha acontecido.
- bom trabalho. Ajuda muito ter amigos em posies elevadas. Como voc tem 
intimidade com o chefe kahuna, fique a postos e cuide da reportagem at o fim.
- e o marshall?
- estou dando essa para voc, paris. No me decepcione. Uma hora depois, paris 
ficou sabendo, junto com todos os
Outros representantes da mdia, que malloy finalmente conseguira conversar com 
dorrie. Havia persuadido o homem a deix-lo falar com a sra. Dorrie que, aos 
prantos, 
Contou que ela e as crianas ainda estavam vivos, ilesos fisicamente, mas 
terrivelmente apavorados.
Paris entrou ao vivo com essa informao no noticirio das cinco horas. Repetiu 
a reportagem s seis porque nada de novo aconteceu e, no final do telejornal, 
fez 
Uma recapitulao de tudo que tinha acontecido naquele longo dia. Tambm 
respondeu a perguntas extemporneas dos ncoras do noticirio.
Jack chegou s sete horas com hambrgueres e fritas para ela e para o operador 
de cmera.
- quem andou puxando fumo aqui? - perguntou ele.
- ela - respondeu o cmera, jogando uma batata frita na boca. - no consigo 
faz-la parar.
Mas quando terminou de comer e saiu da van, ele hesitou.
- jack, sobre o... ...
Jack deu um sorriso franco.
- eu no sei do que voc est falando. O cmera ficou visivelmente aliviado.
- obrigado, cara.
Quando ficaram sozinhos, paris repreendeu jack com o olhar.
- voc vai ser um timo administrador.
- um bom administrador inspira lealdade. - o sorriso fcil de jack se 
transformou numa expresso de preocupao quando ele estendeu o brao e 
acariciou o rosto de 
Paris. - voc parece exausta.
- meu blush acabou horas atrs. - lembrando-se da despreocupao de dean com o 
conforto pessoal, ela acrescentou: a minha aparncia na frente da cmera no 
parece 
To importante diante do que estou informando.
- voc fez um trabalho fantstico.
- obrigada.
- estou falando srio. A emissora est no maior alvoroo.
Aquela manh, quando paris saiu na van da reportagem, estava tratando a histria 
como uma oportunidade de se mostrar, merecer mais ateno, criar o alvoroo que 
Jack havia mencionado.
No decorrer do dia, entretanto, aquilo mudou. O ponto da virada tinha sido a 
conversa de dean com a irm da sra. Dorrie. Teve, ento, conscincia da 
realidade triste 
Da histria, as pessoas envolvidas ganharam nomes, a tragdia passou a ser 
humana e no um veculo para impulsionar sua carreira. Parecia de mau gosto 
beneficiar-se 
Com o sofrimento alheio.
- voc viu o dean de novo? - perguntou jack, interrompendo os pensamentos dela.
- s uma vez. Ele saiu no meio da tarde para perguntar para a irm da sra. 
Dorrie o que as crianas mais gostavam de comer, quais eram seus brinquedos 
preferidos, 
Jogos, bichos de estimao. Ele queria tornar mais pessoal a conversa com o sr. 
Dorrie.
Jack franziu a testa, pensativo.
- ser bem pessoal para dean se isso der errado.
- tudo que ele pode fazer  o melhor que sabe fazer.
- eu sei disso. Voc sabe disso. Todo mundo sabe disso, exceto dean. Anote o que 
estou dizendo, paris. Se cinco pessoas no sarem andando daquela casa, ele vai 
Se culpar por isso.
Jack ficou por l mais meia hora, depois saiu com a promessa de paris de ligar 
para ele se a situao mudasse. No mudou. As horas passaram. Paris estava 
sentada 
No banco do carona da van, organizando suas anotaes e procurando um novo 
ngulo da histria, quando dean bateu no pra-brisa.
- alguma coisa aconteceu? - perguntou paris.
- no, nada. Desculpe se assustei voc - disse ele, parando ao lado da janela 
aberta. - eu s tinha de sair daquela van, respirar um pouco de ar puro, esticar 
as 
Pernas.
- jack pediu que eu lhe dissesse para agentar firme.
- ele esteve aqui?
- para trazer hambrgueres para ns. Voc comeu alguma coisa?
- um sanduche. Mas aceito um pouco de gua. Paris deu uma garrafa para ele.
- eu bebi dessa garrafa...
- como se eu me importasse com isso. - dean deu um longo gole, ps a tampa e 
devolveu a garrafa a paris. - quero pedir um favor. Voc pode ligar para o 
gavin? Sempre 
Que me envolvo numa coisa como essa, ele fica assustado. - dean deu um sorriso 
fugaz para ela. - muito filme policial na televiso. De qualquer modo, diga a 
ele 
Que falou comigo e que estou bem, para ele ficar tranqilo.
Lendo a pergunta nos olhos de paris, dean acrescentou.
- eu j falei com ele. E pat tambm. Mas voc sabe como so essas crianas. Elas 
acreditam mais quando ouvem de algum que no  pai, nem me.
- ser um prazer. Mais alguma coisa?
- s isso.
- muito fcil.
A gravata dele estava solta e as mangas da camisa, arregaadas. Dean apoiou os 
braos na janela aberta, mas virou a cabea na direo da casa. Ficou olhando 
para 
L por bastante tempo, e depois disse baixinho:
- ele pode mat-los, paris.
Ela no disse nada, sabendo que dean no esperava resposta. Ele estava 
confiando-lhe o seu maior medo, e paris ficou contente do amigo sentir-se 
suficientemente 
 vontade com ela para fazer aquilo. S gostaria de poder dizer algo para 
tranqiliz-lo que no soasse banal.
- eu no sei como um homem pode atirar nos prprios filhos, mas  isso que ele 
diz que vai fazer. - dean abaixou a cabea sobre as mos cruzadas e passou os 
polegares 
Na testa franzida. A ltima vez que falei com ele, ouvi uma das menininhas 
chorando ao fundo. "por favor, papai. Por favor, no atire em ns." se ele 
resolver apertar 
Aquele gatilho, no haver nada que eu possa dizer ou fazer para impedi-lo.
- se no fosse voc, ele provavelmente j teria apertado o gatilho. Voc est 
fazendo o melhor que pode.
Ento, sem pensar, paris alisou o cabelo dele.
Dean levantou a cabea imediatamente e olhou para ela, talvez imaginando como  
que paris sabia que ele estava fazendo o melhor possvel, ou precisando ouvir 
que 
Estava. Ou talvez apenas para verificar que paris tinha tocado nele.
- os comentrios acabam chegando at ns, voc sabe - disse ela, com a voz to 
baixa que era quase menos que um sussurro.
- dos outros policiais. Todos acham voc incrvel.
Com a voz igualmente baixa, dean perguntou:
- o que voc acha?
- eu tambm acho que voc  incrvel.
Ela teria sorrido, como faria uma amiga com um amigo, mas um sorriso parecia 
inadequado por milhares de motivos. Para comear, a situao. A tenso que 
apertava 
Seu peito, at praticamente no poder respirar, em segundo lugar. Mas 
especialmente por causa da intensidade da emoo que havia no olhar de dean.
Como na noite em que se conheceram, aquele olhar fixo ultrapassava uma simples 
troca entre amigos. S que dessa vez durou ainda mais e a fora gravitacional 
entre 
Os dois foi muito mais forte.
Paris devia ter abaixado a cabea, que continuava levantada, culpada e revelada, 
que agia por vontade prpria. Mas abaixar a cabea s teria tornado a 
transgresso 
Mais bvia e daria a ela o significado que paris no ousava reconhecer.
Mais tarde, ficou imaginando se teriam se beijado caso o bipe dele no tivesse 
tocado.
Mas tocou e quebrou o encanto. Dean leu a mensagem.
- dorrie quer falar comigo.
Ele no disse mais nada e saiu correndo para a van.
J era meia-noite quando finalmente conseguiu negociar a liberao das crianas. 
Dorrie tinha medo que a swat invadisse a casa. Dean garantiu que no ia permitir 
Que isso acontecesse se ele deixasse as crianas sarem. Dorrie concordou, com a 
condio de dean chegar at a varanda e lev-las para longe da casa 
pessoalmente. 
 claro que paris no conhecia os termos dessa negociao, e s ficou sabendo 
depois que a crise acabou.
Paris estava conversando com a irm da sra. Dorrie quando o operador de cmera 
se aproximou correndo e disse:
- ei, paris, malloy est indo para a casa.
Com o corao na boca, paris viu dean parado, com as mos levantadas, no incio 
da varanda. Ningum podia ouvir o que dorrie e ele diziam um para o outro pela 
porta 
Fechada, mas dean continuou naquela posio por um tempo que pareceu uma 
eternidade.
Finalmente, a porta foi aberta pelo lado de dentro e um menininho se esgueirou 
por ela, seguido por uma menina mais velha que carregava uma outra menor. Os 
trs 
Choravam e protegiam os olhos dos holofotes que iluminavam a casa.
Dean passou os braos pelas cinturas deles, carregou-os encostados ao corpo e 
entregou-os aos funcionrios do servio de proteo  criana, ali de prontido 
para 
Receb-los.
Paris ficou sabendo mais tarde que um dos pontos da barganha de dorrie era que 
as crianas no ficassem com a cunhada dele, que sempre o odiou e que tinha 
tentado 
Pr a mulher contra ele.
Quando paris fez a reportagem sobre a libertao das crianas, sua voz estava 
rouca de cansao e a aparncia pssima, mas um esprito otimista tinha 
rejuvenescido 
Todas as pessoas no local.
Paris concluiu a reportagem falando sobre essa mudana de nimo:
- durante horas, pareceu que esse impasse poderia ter um fim trgico. Mas a 
polcia agora est esperanosa de que a libertao das crianas ilesas possa 
significar 
Uma brecha.
A ltima palavra que paris disse foi pontuada por dois estampidos de tiros. O 
barulho calou paris e os outros reprteres que falavam diante de suas cmeras. 
Na 
Verdade, paris nunca tinha visto silncio to sbito e to profundo.
Que se despedaou com o terceiro e ltimo tiro.
Paris olhou para o artigo do jornal uma ltima vez, depois o dobrou exatamente 
como jack tinha feito e guardou-o de novo atrs da sua fotografia na carteira 
dele. 
Ps a carteira na caixa, nauseada por saber que se jack um dia houvesse feito a 
ligao da noite do impasse com o que transpirou depois, ele talvez no tivesse 
guardado 
O artigo, o teria rasgado em pedacinhos.


Captulo vinte
Era uma mulher pequena. As mos que torciam o leno de papel molhado podiam ser 
de uma criana. As pernas estavam cruzadas na altura dos tornozelos e dobradas 
para 
Baixo da cadeira. O nervosismo era enorme, como o de uma aluna de piano num 
recital esperando sua vez de tocar. Curtis apresentou os dois:
- sra. Toni armstrong, este  o dr. Dean malloy.
- como vai, sra. Armstrong?
Curtis estava sendo galante com ela, como tinha sido com paris.
- posso pedir alguma coisa para a senhora beber?
- no, obrigada. Quanto tempo o senhor acha que isso vai levar? Tenho de pegar 
meus filhos s quatro.
- vai poder sair daqui bem antes disso.
Antes daquela reunio, dean recebeu informaes em trinta segundos, o tempo que 
levou para ir at o cubculo de curtis depois de se despedir de gavin e de liz. 
No 
Tinha a menor idia de por que havia sido chamado para assistir quela 
entrevista. Ficou de p, apoiado na parede, por um tempo um observador 
silencioso.
A sra. Armstrong no era a florzinha tmida que a aparncia requintada indicava. 
Devia estar achando que estava sendo atacada por uma quadrilha, porque resolveu 
Acabar com as amabilidades e ir direto ao assunto:
- o sr. Hathaway disse que o senhor queria falar comigo, sargento curtis, por 
isso estou aqui. Mas ningum explicou por que o senhor queria conversar comigo. 
Devo 
Chamar o meu advogado? O meu marido se meteu em alguma encrenca que eu no sei?
- se ele se meteu em alguma encrenca, ns tambm no sabemos, sra. Armstrong - 
respondeu curtis suavemente. - mas ele violou os termos da sua condicional, no 
foi?
- certo.
- e hathaway diz que a senhora observou recentemente um comportamento estranho 
dele.
Toni abaixou a cabea.
  verdade.
Curtis meneou a cabea com simpatia.
- hathaway falou com um dos policiais da arcs, que ento chamou minha ateno 
para o seu marido.
Dean estava comeando a entender onde aquilo ia dar. A arcs - apreenso e 
registro de criminosos sexuais - ficava sob os auspcios do bci. Os detetives 
que se especializavam 
Em crimes sexuais deviam saber da investigao de curtis. Muitas vezes aqueles 
crimes e homicdios se sobrepunham.
- ser que voc pode, por favor, me pr a par da histria? Pediu dean.
- dezoito meses atrs, bradley armstrong foi condenado por molestar uma menor de 
idade e sentenciado a cinco anos em condicional, terapia de grupo obrigatria e 
Assim por diante. Ultimamente ele vem faltando s reunies.
"o oficial da condicional marcou duas consultas com ele hoje. Ele no apareceu. 
A sra. Armstrong notificou o advogado dele, que foi at o consultrio - ele  
dentista 
- para faz-lo comparecer, acertar as coisas. Ele tinha sado, apesar das 
consultas marcadas com pacientes para esta tarde. Ningum sabe onde ele est. 
No atende 
O celular."
- ainda bem que hathaway ligou para vocs - disse toni armstrong. - eu prefiro 
que brad seja preso por violar a condicional do que... Do que por outra coisa.
- como o qu? - perguntou dean.
- temo que ele esteja a ponto de cometer outro delito. Est fazendo tudo que no 
deve.
Curtis sentiu que a comunicao estava estabelecida e ofereceu para dean a sua 
cadeira. Dean sentou e disse:
- sei que  difcil falar sobre isso, sra. Armstrong. No estamos tentando 
dificultar ainda mais a situao para a senhora. Na verdade, ns gostaramos de 
ajudar.
Ela fungou e concordou com a cabea.
- brad est colecionando pornografia de novo. Eu encontrei no escritrio dele. 
No posso entrar no seu computador porque est sempre mudando a senha para eu 
no 
Poder ver, mas sei o que ia encontrar. Durante o julgamento, foi revelado que 
ele visitava dzias de sites assim. E no estou falando de erotismo artstico ou 
elegante. 
Brad gosta das coisas bem grosseiras, especialmente se as meninas so 
adolescentes.
"mas isso no  o pior. Eu ainda nem contei tudo para o oficial da condicional", 
ela sorriu tristemente para dean. "e no sei por que estou contando para o 
senhor. 
S que quero que segurem o brad antes dele se meter numa encrenca sria demais."
- por que no contou para o sr. Hathaway?
Aos trancos e barrancos, toni contou as freqentes ausncias do marido de casa e 
do consultrio, suas mentiras e as justificativas que dava para seus atos.
- tudo isso eu sei que so sinais de que ele est perdendo o controle sobre seus 
impulsos.
Dean concordou com ela. Aqueles eram sinais bsicos e ruins.
- ele ficou na defensiva quando a senhora tentou conversar sobre isso? Sensvel 
demais e furioso? Ele a acusa de ser desconfiada, de no confiar nele?
- ele afasta todos os argumentos dele e procura jogar a culpa em mim por no 
apoi-lo.
- ele j se tornou violento?
Toni contou o que tinha acontecido na cozinha deles na vspera.
Quando terminou, dean perguntou, baixinho:
- a senhora no o viu mais desde que saiu furioso de casa?
- no, mas nos falamos pelo telefone esta manh. Ele pediu desculpas, disse que 
no sabia o que tinha acontecido com ele.
- ele j tinha sido grosseiro com a senhora antes?
- nem de brincadeira. Nunca o vi daquele jeito antes. Outro mau sinal, pensou 
dean.
Toni armstrong deve ter percebido a preocupao na expresso de dean. Os olhos 
dela pulavam dele para curtis.
- ainda no me disseram por que estou aqui.
- sra. Armstrong - disse curtis -, o seu marido costuma ouvir o rdio tarde da 
noite?
- s vezes - respondeu ela, hesitando um pouco.
- ele j desapareceu antes?
- uma vez. Logo depois que os pais da paciente dele moveram o processo por 
molestar a filha deles. Ele sumiu trs dias, depois o encontraram e o prenderam.
- onde o encontraram?
- num motel. Num daqueles residenciais. Ele disse que se escondeu porque tinha 
medo de que ningum acreditasse no seu lado da histria.
- e a senhora? - perguntou dean.
- se acreditei nele? - toni balanou a cabea com tristeza. No foi a primeira 
vez que uma paciente ou colega de trabalho reclamou de comportamento inadequado 
ou 
De ter sido agarrada. Clnicas dentrias diferentes, at cidades diferentes. Mas 
a mesma queixa.
"o comportamento de brad antes daquele incidente era o mesmo que ele tem tido 
recentemente. S que dessa vez est mais pronunciado. Ele no est se esforando 
tanto 
Para esconder. Est mais desafiador, e  isso que o torna descuidado. Por isso 
foi to fcil segui-lo."
- a senhora o seguiu?
No mesmo instante em que dean fez essa pergunta, curtis perguntou quando aquilo 
tinha acontecido.
- foi numa noite na semana passada. - toni esfregou a testa como se estivesse 
envergonhada de admitir isso. - no consigo lembrar exatamente. Brad tinha 
ligado do 
Consultrio para dizer que ia chegar muito tarde. Ele inventou uma desculpa, mas 
eu no ca. Pedi para uma vizinha tomar conta dos nossos filhos.
"cheguei ao consultrio antes de ele sair, por isso pude seguilo de l. Ele foi 
at uma loja de livros e vdeos s para adultos e ficou l quase duas horas. 
Depois 
Foi at o lago travis."
- para onde, especificamente?
- eu no sei. Eu nunca teria encontrado o lugar se no estivesse seguindo o 
carro dele. No era uma rea construda. No havia casas nem prdios comerciais 
por perto. 
Por isso fiquei surpresa de ver tanta gente l. A maioria jovens. Adolescentes.
- o que ele fez l?
- ficou muito tempo sem fazer nada. Sentado no carro observando. As pessoas 
bebiam, ficavam apenas vagando por l, formando pares. Brad acabou saindo do 
carro e 
Foi falar com uma menina. - toni abaixou a cabea. - eles conversaram um pouco, 
depois ela entrou no carro com ele. Ento eu fui embora.
- a senhora no o confrontou?
- no - disse ela, sorrindo com tristeza. - eu me senti suja. S queria sair 
dali, ir para casa e tomar uma longa chuveirada. E foi isso que fiz.
Em considerao ao constrangimento dela, nem curtis nem dean disseram nada por 
algum tempo. Finalmente, curtis perguntou:
- a senhora poderia identificar a jovem que viu com seu marido?
Ela pensou um pouco e depois balanou a cabea.
- acho que no. A nica coisa que ficou registrada na minha memria foi que ela 
devia estar no segundo grau. Estava escuro, de modo que no consegui ver direito 
Suas feies.
- cabelo louro ou escuro? Alta, minhon?
- loura, eu acho. Mais alta do que eu, mas mais baixa do que brad. Ele tem um 
metro e setenta e cinco.
- essa poderia ser ela? - curtis pegou a fotografia de janey kemp que tinha 
aparecido no jornal e mostrou-a para toni.
Ela olhou para a foto, depois para curtis e para dean.
- agora sei por que queriam falar comigo - disse ela, e seus olhos se encheram 
de medo. - eu li sobre essa menina. Filha de juiz que est desaparecida.  isso, 
no 
?  por isso que estou aqui.
Em vez de responder, curtis disse:
- a senhora alguma vez contou para o seu marido o que tinha visto, que o tinha 
flagrado?
- no. Fingi estar dormindo quando ele voltou para casa aquela noite. Na manh 
seguinte, ele estava animado e afetuoso. Brincando com as crianas, fazendo 
planos 
Com elas para o fim de semana. Bancando o marido e o pai perfeitos.
Toni armstrong ficou pensativa. Dean sentiu que curtis j ia interromper os 
pensamentos dela com outra pergunta, mas fez um sinal sutil para ele esperar.
Depois de um tempo, toni armstrong levantou a cabea e disse diretamente para 
dean:
- s vezes penso que brad realmente acredita nas suas mentiras.  como se ele 
vivesse num mundo de fantasia, onde no existem conseqncias para seus atos. 
Ele pode 
Fazer o que quiser sem medo de ser pego ou de cumprir pena.
Essa foi a coisa mais perturbadora que toni disse para eles. Dean duvidava de 
que ela soubesse disso, mas curtis sabia. Quando dean olhou para ele, o detetive 
estava 
Pensativo, com a testa franzida.
Ele sabia, assim como dean sabia, que os perfis de assassinos em srie e 
predadores sexuais sempre incluam uma elaborada vida fantasiosa, to atraente e 
to real 
Para eles que passavam a agir de acordo com ela. Muitas vezes, acreditavam que 
estavam acima das leis de uma sociedade que os prejudicara enormemente, e s 
respondiam 
A um deus que compreendia, e at sancionava, suas perversidades.
Curtis pigarreou.
- agradeo seu tempo, sra. Armstrong. E como o assunto em questo  to 
constrangedor, agradeo especialmente a sua sinceridade.
Mas toni no seria descartada assim com tanta facilidade.
- contei para vocs algumas verdades horrveis sobre o meu marido, mas ele no 
poderia estar envolvido com o desaparecimento dessa jovem.
- no temos motivo para achar que est. Nenhum. Como j disse, estamos seguindo 
inmeras pistas. - curtis fez uma pausa e depois disse: - com a sua ajuda, 
poderamos 
Elimin-lo da lista de suspeitos.
- como posso ajudar?
- deixando os nossos peritos entrarem no computador dele. Entrar nos arquivos, 
ver o que podem encontrar. Essa menina jogava pesado num site em que circulavam 
mensagens 
Sexualmente explcitas. Ela fez muitos contatos dessa forma. Se ela e o seu 
marido jamais se corresponderam, ento so poucas as chances de t-la conhecido.
Toni pensou e disse:
- no vou concordar com isso antes de consultar o advogado de brad.
Curtis aceitou aquela condio, mas no ficou nada feliz.
A opinio de dean sobre a sra. Armstrong subiu mais um ponto. Ela no era 
nenhuma maria-vai-com-as-outras. Aquela firmeza provavelmente no fazia parte da 
sua natureza 
Antes das dificuldades provocadas pelo vcio do marido. Teve de adquirila para 
poder se agarrar  sanidade e sobreviver.
Curtis esperou toni levantar da cadeira e acompanhou-a para fora do cubculo.
- obrigado por atender ao nosso pedido, sra. Armstrong. Espero que o seu marido 
seja localizado logo e que procure a ajuda de que precisa.
- ele no pode ser o homem que vocs esto procurando.
- no deve ser. Alm disso, nem temos certeza se janey kemp foi vtima de algum 
crime. Mas, como a senhora certamente deve saber, todos os criminosos com 
antecedentes 
Ficam sob suspeita toda vez que h um pretenso crime sexual. O seu marido 
escolheu uma pssima hora para faltar a um compromisso com seu oficial de 
condicional, 
 s isso.
No era s isso e toni tinha inteligncia suficiente para saber. Mas tambm era 
educada demais para chamar curtis de mentiroso assim na lata. Em vez disso, ela 
se 
Despediu dos dois.
- senhora simptica - observou curtis quando ela se afastou.
- inteligente tambm. - curtis ficou olhando para dean, esperando que ele 
elaborasse aquela afirmao. - o marido est numa espiral descendente e ela sabe 
disso. 
Tambm reconheceu a sua enrolao. Apesar do que voc disse para ela, ficou 
bvio que acha que pode haver alguma ligao entre o desaparecimento de 
armstrong e o 
De janey.
- no posso excluir essa possibilidade. - curtis se ajeitou na cadeira e apontou 
uma outra para dean.
Ele tirou uma barra de chocolate de um pote de vidro e ofereceu outra para dean.
- no, obrigado.
Enquanto desembrulhava o chocolate, curtis disse:
- foi a prpria mulher do armstrong que viu quando ele props sexo para uma 
menor de idade. Ele foi para aquele lugar
Distante no lago com esse objetivo especfico. E como  que ele sabia que tinha 
de ir at l? S tinha um jeito.
- o clube do sexo - disse dean.
- exatamente. Ele provavelmente usa o quadro de mensagens como um cardpio. 
Atia seu apetite lendo os recados postos l, depois sai  procura da menina que 
escreveu. 
E a menina que toni armstrong viu com ele combina com a descrio geral de janey 
kemp.
- bem geral - disse dean. - ela descreveu a metade das meninas de segundo grau 
de austin e das redondezas.
- mesmo assim,  uma coincidncia muito grande. Voc concorda?
Dean inclinou a cadeira para trs.
- , , concordo.
Dean tinha simpatizado com toni armstrong. Ele se identificava com aquela 
esperana mstica de estar certo em acreditar na inocncia de um ente querido em 
quem voc 
Confiava muito pouco.
- se ela no liberar o computador dele logo, eu vou pedir uma ordem judicial - 
disse curtis. - rondeau talvez consiga rastrear armstrong na lista de e-mails de 
janey, 
Mas ser mais demorado. Nesse meio-tempo, pus todo mundo em alerta porque quero 
falar com o dr. Armstrong assim que ele aparecer. J dei um aviso geral para 
interceptarem 
O carro dele.
- por falar nisso, j recebeu do laboratrio algum resultado do carro de janey?
Curtis fez uma careta.
- excesso de provas. Eles coletaram vestgios de cada fibra, natural ou 
manufaturada, que o homem conhece. Tapete, roupas, papel. Absolutamente tudo. 
Vo levar semanas 
Para analisar tudo.
- impresses digitais diferentes das de janey?
- s algumas dzias. Esto procurando pares idnticos. Podemos ter sorte e uma 
delas ser de brad armstrong. Tambm recolheram vestgios de terra, comida, 
plantas 
E substncias controladas. Pode citar qualquer coisa que encontramos e 
conseguimos identificar imediatamente.
"a menina praticamente morava no carro. Segundo as amigas e at os pais dela, 
janey sempre recebia todo mundo no carro. Comia, bebia, dormia e trepava nele. A 
nica 
Coisa que temos
Certeza que identificamos foi um fio de cabelo humano, que  idntico a outro 
que pegamos na escova de cabelo dela, no banheiro de casa. Ah, e um gro seco de 
matria 
Fecal. Identificada como canina, o que faz sentido, porque tambm recolhemos 
diversos plos de cachorro que combinam com os do animal de estimao da 
famlia."
- no lembro de ter visto ou ouvido nenhum cachorro.
- ele fica preso na lavanderia. O juiz  alrgico.
Curtis acabou de comer a barra de chocolate, amassou o invlucro e jogou na lata 
de lixo.
-  isso at agora.
- no encontraram nada que indique o que aconteceu com ela - observou dean.
- nenhum sinal de luta, como roupas rasgadas ou marcas arranhadas nas 
superfcies dentro do carro. Apenas um fio de cabelo, e no um chumao que 
poderia ter sido 
Arrancado. Nenhuma unha quebrada que indicaria resistncia. Nada de sangue. O 
tanque estava pela metade, por isso ela no ficou sem gasolina. Nenhum enguio 
no motor. 
Ar suficiente em todos os pneus. Parece que ela saiu do carro porque quis e o 
deixou trancado.
- porque pretendia voltar - acrescentou dean, pensativo. E quanto a outras 
marcas de pneu no local?
- voc tem idia de quantas pessoas se registraram no site do clube do sexo 
desde o incio at agora? Algumas centenas. Acho que todas elas estiveram l 
aquela noite. 
Digamos que duas ou trs foram juntas em um carro, mesmo assim so cem veculos. 
Tiramos algumas amostras e estamos procurando identificar as marcas e os 
modelos, 
Mas vamos levar dias, talvez semanas, e no temos esse tempo todo.
"e testes de compatibilidade com amostras de DNA, mesmo depois de conseguir 
isol-las, levam tempo. Muito tempo. E certamente no ficaro prontos em... - 
ele consultou 
O relgio da parede - ... Menos de trinta e seis horas."
- e a fotografia que janey deu para gavin? Alguma pista a partir dela?
- foi tirada com uma cmera com filme, no digital. O filme no foi revelado na 
nossa loja de foto da esquina com revelao em uma hora.
- o nosso cara tem um quarto escuro?
- ou usa o de algum. Tenho algumas pessoas trabalhando nisso, tentando 
descobrir os fornecedores de papel fotogrfico e de produtos qumicos de 
fotografia, mas 
Isso tambm...
- leva tempo.
- certo. E o nosso fotgrafo amador talvez nem compre seu material nas lojas. 
Ele pode encomendar pelo correio ou comprar pela internet. - o cabelo ralo, com 
corte 
De militar, certamente no precisava ser ajeitado, mas ele passou a mo na 
cabea como se precisasse. - e tem mais uma coisa para jogar na gororoba. Lembra 
do marvin, 
Zelador?
- o que tem ele?
- tambm conhecido como morris green, marty benton e mark wright. Junto com 
marvin patterson, esses so os nomes falsos que ns conhecemos.
- qual  a histria dele?
- o verdadeiro nome dele  lancy ray fisher. Com vrios registros no juizado de 
menores por acusaes leves. Aos dezoito anos, cumpriu sentena em huntsville 
por 
Furto de automvel. Teve a sentena reduzida por delatar um companheiro de cela 
que se vangloriou de um assassinato para lancy ray. Mas assim que saiu da 
priso, 
Cometeu outros delitos diversos, pelos quais cumpriu sentenas mnimas, em geral 
fazendo acordo com o promotor e reconhecendo a culpa.  mais conhecido por 
passar 
Cheques sem fundo e por furto de carto de crdito.
- onde ele est?
- eu no sei. Ainda estamos procurando, e o oficial da condicional dele tambm. 
Ele desapareceu quando avisamos que amos procur-lo. Griggs e carson curtiram 
um 
Dobrado por causa disso. De qualquer modo, o fato de marvin estar nos evitando 
me leva a crer que a violao da condicional no  seu nico crime, e que limpar 
os 
Banheiros da estao de rdio no  sua nica fonte de renda.
- ou que ele tem coisa pior para esconder - disse dean.
- conseguimos um mandado e revistamos o apartamento dele. Nenhum computador.
- poderia ter levado com ele.
- poderia, mas deixou para trs outras coisas de valor.
- por exemplo?
Curtis examinou uma lista de equipamentos eletrnicos que seria difcil comprar 
com o salrio mdio de um zelador.
- a maior parte, equipamento de som. Coisa boa. Tambm retiramos caixas de 
coisas que ainda estamos examinando. Mas  a que a histria fica interessante. 
Sabe um 
Daqueles crimes que mencionei? Agresso sexual. O DNA dele consta dos registros 
da polcia.
- se voc pudesse identific-lo com vestgios encontrados no carro de janey...
- se eu tivesse tempo para fazer essa anlise, voc quer dizer. Dean sentiu a 
frustrao do detetive. Era um caso de cabea
Para baixo. Tinham boas pistas, mas nenhum crime e nenhuma vtima. Estavam 
procurando um seqestrador sem saber com certeza se janey kemp tinha sido 
seqestrada. 
Trabalhavam de acordo com a suposio de que ela estava sendo mantida em 
cativeiro contra a sua vontade, que sua vida estava em perigo, mas pelo que 
sabiam...
Dean teve uma idia original:
- e se...
Curtis olhou para ele, querendo que continuasse.
- pode dizer. Neste ponto, eu estou aberto para qualquer idia.
- ser possvel que a prpria janey esteja por trs disso?
- para chamar ateno?
- ou para se divertir. Ser que ela pediu para algum amigo ligar para paris s 
de brincadeira, para ver onde isso ia parar e o que aconteceria?
- no  uma idia to improvvel assim. Mas tambm no  original. Eu fui at o 
tribunal esta manh para conversar com o juiz e...
- ele continua trabalhando normalmente?
- de toga preta e tudo - disse curtis com antipatia. - ele insiste em achar que 
janey est fazendo isso para contrariar a ele e  mulher dele. Com a eleio em 
novembro, 
O juiz no vai querer nenhuma publicidade negativa. Imagem de famlia exemplar e 
tudo isso. Ele pensa que janey est querendo prejudicar suas chances de manter a 
Posio.
- merda.
- o qu?
- agora eu estou pensando como o juiz kemp? Curtis deu uma risadinha.
- e vocs dois podem estar certos.
Os dois ficaram meditando sobre aquilo alguns segundos.
- mas acho que no, curtis - disse dean. - valentino me convenceu. Ou o amigo 
annimo e brincalho de janey conhece bastante psicologia para se fazer passar 
pelo 
Psicopata de verdade ou ento  um.
- eu tenho de pensar que ele .
- janey foi ao encontro desse cara. Eles se encontraram num lugar determinado. 
Ela trancou o carro dela e saiu com ele no dele.
-  o que parece - disse curtis.
- e isso  coerente com a histria de gavin.
O detetive ficou olhando fixo e pensativo para a ponta da bota bem engraxada.
- gavin poderia t-la levado no carro dele para que tivessem privacidade para 
acertar as contas.
 e em vez disso gavin acertou janey?  isso que voc est pensando?
Curtis levantou a cabea e deu de ombros como se dissesse: talvez.
 depois de conversar rapidamente com janey, gavin foi para junto dos amigos. 
Ele lhe deu uma lista de nomes e nmeros de telefone. Voc verificou essa lista?
- estamos verificando.
A resposta sem compromisso do detetive irritou dean ainda mais:
- voc acha que ele poderia disfarar a voz a ponto de soar como a de valentino? 
Voc no acha que eu poderia identificar a voz do meu prprio filho?
- voc ia querer identific-la?
Dean suportava bem as crticas. s vezes sua anlise de um suspeito, de uma 
testemunha potencial ou de um policial com problemas no era bem recebida e ele 
no era 
Bem-visto pelos colegas. Eram ossos do ofcio que ele sabia aceitar.
Mas aquela era a primeira vez que a sua integridade era posta em dvida. Jamais 
tinha acontecido. E ficou furioso com isso.
- voc est me acusando de obstruo  justia? Voc pensa que estou omitindo 
provas? Voc quer uma mecha do cabelo do gavin?
- posso querer mais tarde.
- quando quiser.  s pedir.
- eu no pretendia ofender. O fato  que voc omite muita coisa, doutor.
- por exemplo?
- voc e paris gibson. Tem mais coisa a do que voc deu a entender.
- porque no  da sua conta.
- claro que , porra - disse curtis, to furioso quanto dean.
- essa coisa toda comeou com ela - ele inclinou o corpo para a frente e baixou 
a voz para que ningum, fora do cubculo, ouvisse.
- vocs dois formaram uma dupla dinmica numa situao de impasse l em houston. 
Apareceram em todos os jornais, nos noticirios da televiso.
- pessoas morreram.
- , eu soube. Voc ficou arrasado. Tirou um tempo para pr a cabea em ordem.
Dean soltou fumaa pelas ventas em silncio.
- pouco tempo depois, o noivo de paris, seu melhor amigo outra coisa que voc 
deixou de mencionar -, fica invlido. Ela sai do noticirio da tv e se dedica a 
cuidar 
Dele, e voc...
- eu conheo a histria. Onde conseguiu essa informao?
- tenho amigos na polcia de houston. Eu perguntei - respondeu ele, sem se 
desculpar.
- por qu?
- porque me ocorreu que talvez esse negcio de valentino tenha comeado l.
- mas no comeou.
- voc tem certeza? O problema de valentino parece ser com mulheres infiis. 
Voc acha que uma mulher atraente e vital como paris permaneceu fiel a jack 
donner os 
Sete anos inteiros que ficou cuidando dele?
- eu no sei. Perdi contato com ela e com jack depois que eles saram de 
houston.
- completamente?
- ela quis assim.
- eu no entendo. Voc ia ser padrinho no casamento deles.
- a sua fonte em houston foi muito diligente.
- ele no me disse nada que no tivesse sado nos jornais. Por que paris pediu 
para voc se afastar?
- ela no pediu, insistiu. Estava aderindo ao que achava que jack ia querer. Ns 
dois fomos atletas juntos na faculdade. Companheiros, e com todo aquele 
comportamento 
Valento da idade. Ele no ia querer que eu o visse to debilitado.
Curtis meneou a cabea como se aquela fosse uma resposta vlida, mas talvez no 
completa.
- e tem outra coisa que eu acho curioso - disse ele. - os culos escuros.
- os olhos dela so sensveis  luz.
- mas ela os usa no escuro tambm. Estava usando a noite passada, quando vocs 
chegaram  loja wal-mart. Era noite e no havia nem lua cheia. - curtis fixou um 
olhar 
Incisivo em dean. -  quase como se ela tivesse vergonha de alguma coisa, no ?


Captulo vinte e um
Stan preferia ter uma hora marcada com um proctologista do que com seu tio, 
wilkins. De qualquer maneira, ia levar no rabo, mas pelo menos o proctologista 
usaria 
Luvas e tentaria ser gentil.
O local da reunio, o bar do saguo do hotel driskill, era favorvel para stan. 
Como wilkins planejava voar de volta para atlanta aquela noite mesmo, no tinha 
reservado 
Uma sute. Graas a deus, pensou stan, entrando num dos prdios mais famosos da 
cidade. Era pouco provvel que o tio o esfolasse e fizesse picadinho dele em uma 
Arena pblica. Wilkins detestava cenas.
O saguo do hotel estava tranqilo como um harm na hora da sesta. O teto de 
vitrais proporcionava uma iluminao fraca. As pessoas caminhavam no piso de 
mosaico 
De mrmore fazendo o mnimo de rudo. E ningum queria perturbar as copas 
brilhantes quando passava pelos vasos de palmeiras. Os sofs e poltronas 
convidavam ao 
Descanso nas almofadas fofas, aproveitando o solo de flauta que saa dos alto-
falantes invisveis.
Mas no centro desse osis de serenidade e conforto havia
Um sapo venenoso.
Wilkins crenshaw tinha bem menos que um metro e oitenta de altura, e stan 
suspeitava de que ele usava saltos internos nos sapatos. O cabelo grisalho tinha 
um tom 
Amarelado e era to ralo que mal escondia as manchas senis no couro cabeludo 
brilhoso. O nariz era exageradamente largo e combinava com os lbios carnudos, o 
inferior 
Virado para baixo. Parecia um anfbio do tipo mais feio.
Stan concluiu que a aparncia do tio era o principal motivo de nunca ter se 
casado. A nica coisa atraente que wilkins poderia ter para o sexo oposto era 
seu dinheiro, 
O segundo motivo para ele continuar solteiro. Era to sovina que no pretendia 
dividir nem uma pequena parte da sua fortuna com uma esposa.
Stan tambm achava que o tio tinha sido um esquisito discriminado na academia 
militar para onde ele e o pai de stan tinham sido mandados pelo av. De l, os 
irmos 
No tiveram opo, seno ir para citadel. Depois da formatura, cada um serviu 
sua cota na fora area. Depois, de posse das devidas distines e tendo 
cumprido seu 
Dever patritico, puderam entrar para o negcio da famlia.
Em algum ponto nesses rituais de passagem para a idade adulta, o esquisito 
wilkins ficou mesquinho. Ele aprendeu a revidar, mas sua arma preferida era o 
poder da 
Mente, e no os msculos. No usava os punhos, mas tinha um admirvel talento 
para instilar medo. Ele lutava sujo e no mantinha prisioneiros.
Wilkins no se levantou quando stan se juntou a ele na pequena mesa redonda do 
bar. Nem o cumprimentou. Quando a garonete jovem e bonita se aproximou, ele 
disse:
- traga um club soda para ele.
Stan desprezava club soda, mas no modificou o pedido. Ia fazer de tudo para 
tornar aquele encontro o menos doloroso possvel. Sorriu com simpatia e iniciou 
a conversa 
Com lisonjas:
- voc est com uma aparncia boa, tio.
- isso  uma camisa de seda?
- ha... .
Era marca da famlia vestir-se bem. Como se quisesse compensar seus defeitos 
fsicos, wilkins estava sempre imaculadamente vestido e arrumado. As camisas e 
os ternos 
Eram feitos sob medida, implacavelmente engomados e passados. Um amassadinho ou 
um fio solto no tinha a menor chance.
- voc se esfora muito para se vestir como uma bicha? Ou apenas adota 
naturalmente esse ar de boiola?
Stan no disse nada, s agradeceu  garonete meneando a cabea quando ela levou 
o club soda.
- voc deve ter herdado esse estilo bombstico de vestir da sua me. Ela gostava 
de babados e coisas assim. Quanto mais, melhor.
Stan no retrucou, apesar da camisa dele no ser nada bombstica, nem no estilo 
nem na cor. E duvidava muito de que a me tivesse usado babados um dia na vida. 
Ela 
Sempre pareceu perfeitamente correta no vestir. Tinha um gosto excelente e, na 
opinio dele, continuava a ser a mulher mais linda que j tinha visto.
Mas discutir qualquer dessas coisas seria intil, por isso stan mudou de 
assunto:
- a sua reunio com o gerente-geral foi boa?
- o lugar continua dando dinheiro.
Ento por que, pensou stan, ele fazia careta?
- os ltimos ndices foram muito bons - observou ele. - alguns pontos acima do 
perodo anterior.
Stan tinha feito seu dever de casa para poder impressionar o tio com citaes. 
S esperava que wilkins no o interrogasse, pedindo as datas do ltimo perodo, 
ou 
Para explicar o que era um ponto.
O tio deu um grunhido inexpressivo.
-  por isso que esse negcio com paris gibson  to problemtico.
- sim, senhor.
- no podemos ter nossa estao de rdio envolvida nisso.
- ela no est exatamente envolvida, tio. S perifericamente.
- mesmo que s um pouco, no quero estar associado a algo to desagradvel como 
o desaparecimento de uma adolescente.
- claro que no, senhor.
- por isso vou arrancar a porra da sua cabea e mijar no buraco do seu pescoo 
se voc teve alguma coisa a ver com aqueles telefonemas.
Tio wilkins tinha aprendido outra coisa alm de mesquinharia nos seus dias de 
militar. Aprendeu a se expressar com uma linguagem que no podia ter duplo 
sentido. 
A rudeza da sua afirmao s era superada pela eficincia em cumprir o que 
dizia.
Stan se acovardou.
- por que passaria pela sua cabea que eu poderia ter...
- porque voc  um fodido. E tem sido desde que sua me expulsou voc da barriga 
dela. Desde o momento em que respirou pela primeira vez, ela soube que voc era 
Um merdinha choro. Acho que foi por isso que quando ela ficou doente 
simplesmente deitou e morreu.
- ela teve cncer no pncreas.
- que lhe deu uma boa desculpa para finalmente livrar-se de voc. O seu pai 
tambm sabia que voc no valia porra nenhuma. No queria voc de contrapeso na 
vida 
Dele. Por isso chupou
O cano da pistola dele com tanta fora que acabou explodindo a parte de trs da 
cabea.
A garganta de stan ficou bloqueada. Ele no conseguia falar.
Wilkins continuou, implacvel:
- o seu pai era fraco desde sempre, e sua me o fez mais fraco ainda. Ele achou 
que era dever dele continuar casado, mesmo que o principal objetivo dela fosse 
foder 
Com todos os homens que encontrava.
Crueldade era a seiva da vida do tio dele. Com a experincia de trinta e dois 
anos, stan imaginava que j devia ter se acostumado. Mas no tinha. Olhou 
furioso para 
Wilkins, com o mais absoluto dio.
- meu pai tambm tinha casos. Constantemente.
- mais do que qualquer um de ns sabe, tenho certeza. Ele trepava com todas as 
mulheres que podia para se convencer de que ainda podia fazer isso. A sua me 
no 
Permitia que ele deitasse na cama dela. Parecia que era o nico homem por quem 
tinha averso.
- alm de voc.
Wilkins fechou a mo com tanta fora no copo de usque que stan ficou imaginando 
por que o cristal no se quebrou. Tinha acertado um direto, e isso era gostoso. 
Sabia exatamente de onde partia aquele desdm que o tio sentia pela me dele. 
Inmeras vezes stan ouviu a me rir e dizer: "wilkins, voc  um sapo muito 
desagradvel."
Partindo da me dele, que adorava os homens, isso era uma desfeita colossal. 
Alm do mais, ela jamais demonstrou nenhum medo de wilkins, e isso podia ser o 
maior 
Insulto. Ele se alimentava do medo que incutia nas pessoas. Com ela, havia 
falhado completamente. Stan tinha um prazer enorme de faz-lo lembrar-se disso.
Um gole ruidoso de usque e o tio se recuperou.
- levando em considerao seus pais disfuncionais, no  de admirar que voc 
tenha problemas com sexo - disse wilkins.
- eu no tenho.
- todas as provas indicam o contrrio. O rosto de stan ficou quente.
- se est se referindo quela mulher na flrida...
- que voc tentou enrabar em cima da mquina de fax.
- essa  a verso dela - disse stan. - no foi nada disso. Ela se jogou para 
cima de mim e de repente ficou preocupada, com medo de que algum aparecesse.
- essa no foi a nica vez que tive de pagar sua fiana porque voc no 
conseguia ficar com o zper da cala fechado. Igualzinho ao seu pai. Se voc 
tivesse metade 
Da aptido para os negcios que tem para foder, haveria mais dinheiro em caixa 
para todos ns.
Stan suspeitava de que aquilo fosse o ponto central da animosidade do tio 
wilkins. Ele no podia encostar no patrimnio que os pais de stan haviam deixado 
para ele, 
Que inclua no s o que ele herdara com a morte dos dois, mas tambm uma 
polpuda parcela dos rendimentos do conglomerado ad infinitum. Os termos eram 
irrevogveis 
E irrefutveis. Nem mesmo wilkins, com todo o seu poder e influncia, podia 
invalidar seu fideicomisso e roubar sua fortuna.
- aquela vez na piscina do clube de campo, o que voc estava tentando provar 
quando se exps para aquelas meninas? Que podia ficar de pau duro?
- ns tnhamos onze anos. Elas estavam curiosas. Imploraram para ver.
- imagino que foi por isso que correram gritando para os pais delas. Eu tive de 
me desfazer de alguns milhares de dlares para abafar o incidente e para evitar 
que 
Voc fosse permanentemente expulso do clube. Voc foi expulso da escola por 
tocar punheta no chuveiro.
- todo mundo tocava punheta no chuveiro.
- mas s pegaram voc, o que indica ausncia de autocontrole.
- voc pretende listar todas as minhas indiscries da adolescncia para mim? 
Porque se  isso que vai fazer, vou pedir um drinque.
- ns no temos tempo para eu enumerar todas as suas indiscries. No nessa 
reunio - ele verificou o relgio. - vou embora logo. Disse para o piloto que 
queria 
Decolar s seis.
Tomara que o seu avio caia e pegue fogo, pensou stan.
- o que eu quero de voc - disse wilkins -  que negue que andou dando 
telefonemas obscenos para aquela dj.
- e por que eu faria isso?
- porque voc  um safado filho-da-me. Gastei uma fortuna para o seu analista 
contar o que eu j sabia. Os seus pais criaram uma merda - voc. E me deixaram 
com 
A incumbncia de limpar essa sujeirada. Ainda bem que... Pelo menos at agora... 
Todas as suas "indiscries" foram com mulheres.
- pare com isso - sibilou stan.
Ele desejou ter a coragem de pular por cima da mesa, agarrar o pescoo curto e 
gordo do tio e apertar at os olhos esbugalhados de sapo saltarem das rbitas e 
a 
Lngua ficar pendurada entre os lbios grossos. Adoraria v-lo morto. 
Grotescamente, dolorosa-
Mente morto.
- eu no dei aqueles telefonemas - disse ele. - como poderia? Eu estava no 
prdio com paris quando as ligaes foram feitas de telefones pblicos, a 
quilmetros 
De distncia da estao.
- eu verifiquei tudo.  possvel redirecionar ligaes, fazer parecer que elas 
vm de um telefone, quando na verdade so feitas de outro. Em geral um telefone 
celular 
Descartvel, talvez roubado. Que torna praticamente impossvel rastrear as 
ligaes.
Stan ficou estupefato.
- voc verificou como isso podia ser feito antes mesmo de perguntar se tinha 
sido eu?
- eu no cheguei onde estou sendo burro e descuidado como voc. No queria que 
uma das suas chamadas indiscries explodisse na minha cara. No quero ficar 
parecendo 
Um cretino por confiar que voc vai manter seu pau no lugar dele. Do jeito que 
as coisas esto, tenho de responder  diretoria por estar lhe pagando um 
salrio, 
Se trocar uma lmpada representa um desafio para voc.
Wilkins deu uma olhada firme para o sobrinho e no tirou os olhos dele at stan 
dizer alguma coisa.
- eu no armei nenhum telefonema.
- a nica coisa em que voc  bom  com essas maquininhas.
- eu no armei nenhum telefonema - repetiu stan. Wilkins olhou desconfiado e 
tomou mais um gole de usque.
- essa paris. Voc gosta dela?
Stan continuou com a expresso sria.
- gosto, ela  legal.
O olhar do tio ficou mais contundente, mais cruel, e, como sempre, stan acabou 
cedendo. Depois de um tempo, ele sempre cedia. E se odiava por isso. Era mesmo 
um 
Merdinha choro.
Stan mexeu no guardanapo encharcado embaixo do copo intocado de club soda.
- se est querendo saber se eu j tive fantasias sexuais com ela, a resposta  
sim. De vez em quando. Ela  atraente e tem aquela voz aveludada, e passamos 
horas 
Sozinhos todas as noites.
- voc j tentou com ela? Stan balanou a cabea.
- ela deixou bem claro que no est interessada.
- ento voc tentou e ela no quis.
- no, eu nunca tentei. Ela vive como uma freira.
- por qu?
- ela era noiva de um cara - disse stan, com um tom de voz que indicava 
exasperao com a inutilidade daquela conversa. Ele estava internado num 
hospital particular 
Perto de georgetown, ao norte daqui. Muito exclusivo. De qualquer modo, paris ia 
v-lo todos os dias. As pessoas da estao me disseram que ela fez isso durante 
Anos. Ele morreu h pouco tempo. Ela reagiu mal e ainda no superou. Alm do 
mais, paris no  do tipo que poderia ser... Voc sabe...
- no, eu no sei. No  do tipo que poderia ser o qu?
- que poderia ser seduzida.
Wilkins fitou stan um tempo interminvel, depois tirou cdulas suficientes do 
seu grampo de notas para pagar a conta deles. Ps o dinheiro embaixo do seu copo 
vazio 
E se levantou. Pegou a pasta e olhou para stan por cima do seu nariz largo e 
feio.
- seduzir  uma palavra que significa que voc tem de persuadir uma mulher a 
fazer sexo com voc. No inspira muita confiana, stanley.
Enquanto o tio se afastava, stan murmurou, baixinho:
- bem, pelo menos eu no sou to horroroso para ter de pagar por isso.
Stan aprendeu uma coisa com aquele encontro. No havia nada de errado com a 
audio do tio.
A casa mvel no era mais mvel. Na verdade, estava no mesmo lugar h tantos 
anos que um dos cantos j estava enterrado no cho. Na frente, uma cerca 
anticiclone 
Rodeava um pequeno quintal onde nada crescia, exceto capim e alguns tufos de 
ourios. A nica concesso ao paisagismo eram dois potes de barro rachados dos 
quais 
Despontavam cravos-de-defunto desbotados, de plstico.
Algum garoto da vizinhana tinha chutado uma bola por cima da cerca e nunca se 
incomodou em ir peg-la no quintal. Tinha esvaziado havia muito tempo. Tinham 
posto 
Uma churrasqueira com dois ps, que havia sido comprada numa liquidao de 
garagem anos antes, encostada na parede externa da casa. A base estava 
completamente enferrujada 
E destruda. A antena da televiso no telhado estava torta e formava um ngulo 
quase reto.
Era um lixo, mas um lar.
Lar de trs gatos geniosos e negligenciados que jamais seria invadido, e de uma 
mulher maltratada, viciada em caf e cigarros winston, que fumava continuamente 
apesar 
Do balo de oxignio com rodinhas, ligado a ela por uma cnula.
A mulher ofegava ruidosamente quando a porta da casa mvel se abriu, lanando um 
raio de sol sobre a imagem da tela da televiso.
- mama?
- feche a porra da porta. No consigo ver nada na televiso com essa luz em 
cima, e est passando a minha novela.
- voc e as suas novelas.
Lancy ray fisher, tambm conhecido como marvin patterson, entrou no trailer e 
fechou a porta. O interior ficou mergulhado numa escurido enfumaada. A imagem 
em 
Preto e branco da televiso ficou mais ntida, mas s um pouquinho.
Ele foi direto para a geladeira e espiou o que tinha dentro.
- no h nada aqui para comer.
- isso aqui no  a cafeteria do luby, e ningum te convidou. Ele vasculhou a 
geladeira e encontrou uma fatia de salsicho.
Em cima da geladeira, havia um po de forma. Lancy afastou
Um dos gatos para conseguir pegar o po e ps o salsicho numa fatia embolorada. 
Tinha de servir.
A me dele no disse mais nada at a novela ser interrompida pelos anncios.
- o que voc est tramando, lancy?
- por que acha que estou tramando alguma coisa? Ela bufou com desprezo e acendeu 
um cigarro.
- voc vai explodir um dia, fumando perto desse balo de oxignio. S espero no 
estar por perto quando isso acontecer.
- faa um sanduche para mim.
Ele fez o sanduche, deu para ela, e ela disse:
- voc s aparece por aqui quando est metido em encrenca. O que voc fez dessa 
vez?
- nada. O proprietrio est pintando o meu apartamento. Preciso de um lugar para 
ficar alguns dias.
- pensei que voc estivesse firme com alguma nova namorada. Por que no foi para 
a casa dela?
- ns terminamos.
- faz sentido. Ela descobriu que voc  um bandido?
- eu no sou mais bandido. Sou um cidado honesto.
- e eu sou a rainha de sab - disse ela, respirando com dificuldade.
- eu me recuperei, me. No d para ver?
Ele abriu os braos. Ela examinou o filho de alto a baixo.
- o que eu vejo so roupas novas, mas o homem embaixo delas no mudou nada.
- mudei sim.
- voc ainda est fazendo aqueles filmes sujos?
- vdeos, me. Dois. E isso foi anos atrs, e s fiz como um favor para um 
amigo.
Um amigo que pagou com cocana. Tudo que ele pudesse cheirar, e a nica coisa 
que tinha de fazer em troca era ficar pelado e foder. Mas ento lancy comeou a 
trepar 
Com uma das "atrizes" fora de cena tambm, e o diretor ciumento comeou a 
reclamar do tamanho dos "documentos" dele. Num ambiente onde o tamanho contava 
muito, lancy 
Simplesmente no marcava pontos.
- no  nada pessoal, voc entende.
Mas  claro que lancy tinha levado para o lado pessoal. Eles acabaram se 
desentendendo, no sem antes lancy fazer o diretor sangrar e implorar para os 
documentos 
Dele ficarem intactos.
Isso tinha acontecido havia muito tempo. Ele no usava mais drogas pesadas. No 
participava de vdeos pornogrficos. Tinha aprimorado tudo nele.
Mas parecia que a me no pensava assim.
- voc  igualzinho ao seu pai - disse ela enquanto mastigava ruidosamente o 
sanduche. - ele era um sonso filho-da-me, e voc tem o mesmo ar dissimulado. 
Voc 
Nem fala naturalmente. Onde aprendeu a falar com tanta frescura assim de 
repente?
- estou trabalhando na estao de rdio. Ouo as pessoas falando no rdio. 
Peguei o modo de falar deles. Andei praticando.
- modo de falar porra nenhuma. Eu no confiaria em nada que vem de voc.
Ela voltou a assistir  novela. Lancy foi andando pelo corredor estreito, 
desviando de montes de bosta de gato, e se esgueirou no cubculo minsculo onde 
dormia 
Quando estava nos intervalos de prises ou empregos, ou em momentos como aquele 
em que precisava desaparecer por alguns dias. Aquele era seu ltimo recurso.
Sabia que a me vasculhava seu quarto toda vez que partia, por isso, quando 
abriu a placa solta de vinil do cho embaixo da cama-beliche, fez isso com medo 
do que 
Ia encontrar. Alis, do que no ia encontrar.
Mas o dinheiro, a maior parte notas de cem, estava l na pequena caixa de metal 
onde ele tinha guardado. Metade pertencia por direito a um antigo scio, que 
havia 
Sido condenado por outro crime e servia sua sentena na priso. Quando sasse, 
ia procurar marty benton e a sua parte da pilhagem. Mas lancy ia se preocupar 
com 
Isso quando e se o momento chegasse.
A quantia tinha encolhido consideravelmente do que era originalmente. Lancy 
tinha usado uma poro razovel do dinheiro para comprar o carro e roupas novas. 
Havia 
Alugado um apartamento... Bem, na verdade, dois. Investiu no computador que 
agora estava dentro da mala do carro.
A me ia repreend-lo por jogar fora tanto dinheiro numa inveno idiota como um 
computador, enquanto ela ainda assistia
A suas novelas numa televiso preto-e-branca. Ela no entendia que para ter 
sucesso em qualquer empreitada, legal ou no, a pessoa tinha de saber mexer no 
computador. 
Lancy tinha aprendido sozinho. Para evitar as reclamaes da velha chata, 
levaria o laptop para seu quarto e s acessaria a internet pelo seu celular 
quando ela 
Estivesse dormindo.
Lancy contou o dinheiro, enfiou algumas notas no bolso e devolveu o resto para o 
esconderijo sob o piso. Aquele era seu fundo de emergncia, e odiava ter de 
dilapid-lo 
Agora. Apesar da situao atual poder ser definitivamente rotulada de 
emergncia.
Logo depois de ser solto na ltima vez que foi para a priso, lancy conseguiu um 
bom emprego, mas foi burro demais para dar valor a ele. Uma das coisas mais 
estpidas 
Que fez na vida foi roubar da empresa. No que tivesse considerado aquilo um 
furto, mas seu patro certamente pensou que fosse.
Se tivesse pedido para comprar o equipamento aposentado por um valor nominal, o 
patro provavelmente lhe teria dito para levar o que quisesse, que ia at lhe 
fazer 
Um favor. Mas lancy no pediu. Retomou seu comportamento antigo. Passar a mo em 
tudo que puder. Apossar-se das coisas enquanto ainda tinham valor. Uma noite, 
antes 
De ir para casa, ele pegou o equipamento obsoleto, achando que ningum sentiria 
falta.
Mas algum sentiu. E, como ele era o nico ex-condenado na folha de pagamento, 
foi o primeiro suspeito do patro. Quando o acusaram, ele confessou e pediu uma 
segunda 
Chance. Que nada. Foi mandado embora e escapou de um processo s porque devolveu 
tudo que tinha roubado.
A experincia ensinou muita coisa para lancy, principalmente a nunca dizer a 
verdade numa ficha de inscrio para emprego. Por isso, quando marvin patterson 
se candidatou 
Ao emprego na estao de rdio, marcou com um x os retngulos que diziam no 
para as perguntas sobre prises e condenaes.
Apesar de ser pssimo limpar a sujeira dos outros, aquele emprego foi uma 
bno. Quando o conseguiu, achou que o destino, ou sua fada madrinha, ou algum 
poder maior 
O tinha levado a furtar aquelas coisas. Se no tivesse sido demitido do primeiro 
emprego, no teria se candidatado a trabalhar na 101.3.
Alm do trabalho de zelador ser um emprego proveitoso, que mantinha seu oficial 
de condicional satisfeito, servia para lancy no ter de usar suas economias. E o 
Que era mais importante, permitia que ficasse perto de paris gibson todas as 
noites.
Infelizmente, no podia mais voltar para l. E tambm no podia voltar para o 
seu apartamento, nem passar um cheque da conta de marvin patterson no banco, nem 
sacar 
Num caixa eletrnico, pois todas essas coisas eram modos seguros de ser 
encontrado quando no queramos ser encontrados.
No minuto em que aqueles policiais telefonaram, dizendo para ele esperar, que 
estavam a caminho para conversar com ele sobre o telefonema obsceno para paris 
gibson, 
Ele soube que sua batata estava assando. E na mesma hora voltou a ser um 
excondenado, e agiu de acordo. Pegou seu celular, o computador, algumas roupas e 
fugiu.
A primeira parada foi na sua segunda residncia, um pardieiro que alugava com 
nome falso. O que talvez parecesse um luxo desnecessrio provou ser bem til.
Mas quando se aproximou do estacionamento, avistou um carro da polcia do outro 
lado da rua. Passou direto, sem parar. Imaginou que devia ser apenas 
coincidncia, 
Que se a polcia estivesse  espera dele ali, no usaria um carro oficial. Mas 
no ia correr risco nenhum.
Tinha destrudo as identidades falsas de marvin patterson. Ol, frank shaw.
Tambm trocou as placas do carro por outras que havia roubado meses antes.
Por mais que todos alardeassem recuperao e reabilitao, nenhum policial, 
nenhum juiz, nenhum cidado decente, que cumpria as leis, ia conceder a um ex-
condenado 
O benefcio da dvida. Voc podia jurar sobre o livro santo que era outro homem. 
Podia implorar uma oportunidade de provar que tinha mudado. Podia jurar tornar-
se 
Um membro produtivo da comunidade. Nada disso importava. Ningum lhe dava uma 
segunda chance. Nem a lei, nem a sociedade, nem as mulheres.
Especialmente as mulheres. Faziam tudo em matria de sexo com voc, mas ficavam 
cheias de frescuras quando se tratava de
Uma ficha criminal. A criavam caso. A estabeleciam o limite. Isso fazia 
sentido?
Para lancy, no. Mas, razovel ou no, a regra era essa. Como ele no se inseria 
na regra, tinha tentado se transformar num homem que se inserisse. Passou a se 
vestir 
Melhor, a falar melhor, a tratar as mulheres como um cavalheiro.
At aquele ponto, a transformao no tinha sido nenhum sucesso surpreendente. 
Conseguira algumas perspectivas promissoras, mas depois de um tempo acabavam do 
mesmo 
Modo que seus outros relacionamentos. Era como se houvesse uma mancha nele que 
s podia ser vista pelas mulheres.
Simplesmente no conseguia fazer com que gostassem dele, que o respeitassem. A 
comear pela prpria me.


Captulo vinte e dois
- ns sabemos que o convite  de ltima hora, mas queremos que venha jantar 
conosco.
Paris olhou para dean e depois para gavin. Em sete anos, o menino tinha 
crescido, emagrecido e ficado bonito. O cabelo estava um pouco mais escuro e os 
ossos da 
Face mais definidos, mas paris o reconheceria de qualquer maneira.
- isso  clich - disse ela - e voc vai me odiar por dizer isso, mas no 
acredito que tenha crescido tanto assim. - paris segurou a mo de gavin entre as 
dela. 
-  muito bom v-lo de novo, gavin.
Com um misto de constrangimento e timidez, gavin disse:
-  bom ver voc tambm, srta. Gibson.
- quando voc tinha nove anos, era correto me chamar de srta. Gibson. Mas agora 
isso faz com que eu parea velhssima. A partir de agora sou paris para voc, 
est 
Bem?
- est bem.
- e o jantar? - perguntou dean.
- eu j tenho alguma coisa preparada.
Dean levantou as sobrancelhas na expectativa, sem dar opo para paris a no ser 
convid-los.
- tem bastante, se voc e gavin no se importam de comer
Em casa.
- ser uma mudana bem-vinda. - dean cutucou gavin para ele entrar na casa dela. 
- qual  o jantar?
- voc arrancou o convite de mim e agora resolveu ficar exigente?
- qualquer coisa, menos fgado ou nabo-da-sucia.
- cabelinho-de-anjo com pernil de porco e legumes. Nada de nabo-da-sucia.
- j estou com gua na boca. Quer ajuda?
- h...
Paris ficou meio perdida. Fazia tanto tempo que no recebia ningum que tinha 
esquecido como era.
- ns podamos beber alguma coisa.
- boa idia.
- eu tenho uma garrafa de vinho... - ela apontou para os fundos da casa.
- mostre o caminho  disse dean.
Na cozinha, paris incumbiu dean de abrir o chardonnay, enquanto ela derramava 
uma coca sobre pedras de gelo para gavin. Dean ficou logo  vontade. Paris e 
gavin, 
Meio sem jeito com a situao.
- tem um cd player na sala de estar - disse paris para o menino. - mas no sei 
se tenho alguma msica de que voc gosta.
- vou gostar sim. s vezes ouo o seu programa. Satisfeita com isso, paris 
explicou onde ficava o cd player.
Gavin saiu da cozinha e foi para a sala. Assim que ele ficou fora do alcance da 
conversa deles, paris virou para dean.
- devo falar do machucado no rosto dele ou no?
- no.
Era impossvel no notar a mancha roxa e o leve inchao embaixo do olho direito 
de gavin. Naturalmente, paris estava imaginando como o menino havia conseguido 
aquele 
Ferimento com aparncia to dolorosa. Mas a reao de dean foi de zanga e 
irritao com aquilo, por isso ela mudou de assunto e perguntou como tinha sido 
o encontro 
De gavin com curtis.
- curtis disse que gavin contou a mesma histria, e no disse nada que no j 
tivesse dito para mim. Janey e ele discutiram, depois ele se juntou a um grupo 
de amigos. 
E nunca mais a viu.
- curtis acredita nele?
- no se comprometeu. No deteve gavin, o que considero um sinal positivo. Alm 
disso, valentino tem voz de homem mais velho. Acho que gavin no ia conseguir 
imitar 
Aquela voz, nem se tentasse. E onde ia esconder a menina refm? Ele no tem 
acesso a lugar nenhum. Teria de mat-la aquela noite mesmo e... Meu deus, olha 
s o que 
Estou dizendo.
Dean apoiou as mos na beira da bancada da cozinha e ficou com o olhar parado na 
garrafa de vinho.
- gavin no teve nada a ver com o desaparecimento de janey. Eu sei que no teve, 
dean.
- eu tambm acho. Mas eu nunca teria adivinhado tampouco que ele estava fazendo 
aquilo.  desconcertante, para dizer o mnimo, descobrir que meu filho andava 
levando 
Uma vida secreta.
- at certo ponto, voc no acha que todos os adolescentes fazem isso?
- , acho que sim, mas eu facilitei as coisas para ele. Queria que ele gostasse 
de morar comigo, por isso fui mais suave na disciplina. No parecia que eu 
estava 
Sendo leniente com ele, mas creio que no fui to diligente, nem consistente, 
como devia ter sido. E gavin se aproveitou disso.
Dean virou de frente para paris.
- com tudo que estudei de psicologia, eu no devia ter percebido que estava 
sendo enganado?
Gavin gritou l da sala:
- rod stewart serve?
- timo - respondeu paris, e depois disse para dean: - no seja to duro com 
voc mesmo. O dever do filho  tentar iludir os pais. Quanto  disciplina, as 
tcnicas 
Do manual nem sempre podem ser traduzidas para a vida real.
- mas como pode ser to difcil acertar? Ela riu baixinho.
- se fosse fcil, se houvesse um sistema que funcionasse para todas as crianas, 
um monte de supostos especialistas perderia o emprego. O que iam discutir nos 
programas 
Vespertinos de entrevistas? Pense s no caos, sem falar da crise econmica, que 
filhos bem-comportados e obedientes iam criar.
Depois de conseguir fazer dean sorrir, paris parou de brincar.
- no estou fazendo pouco da sua preocupao, dean. Na verdade,  admirvel. 
Gavin pode ter sado dos trilhos, mas ele vai ficar bem.
Dean serviu vinho nas duas taas que paris tinha tirado do armrio e deu uma 
para ela.
- temos de ter esperana - ele bateu a taa na dela.
Paris olhou para ele por cima da borda da taa de vinho enquanto tomava um gole.
-  natural nele, voc sabe.
- o qu?
- gavin no  o nico mestre em manipulao da famlia malloy.
-ah, ?
- muito engenhoso voc aparecer aqui com ele a reboque depois de eu j ter 
recusado um convite para jantar.
- funcionou, no funcionou?
- como psiclogo, como classificaria um homem que usa o filho para arrancar de 
uma mulher um convite para jantar?
- pattico.
- e quanto  traio?
O sorriso de dean se desfez.
- voc est se referindo  liz.
- voc contou para ela quais eram seus planos para o jantar hoje?
- eu disse que precisava ficar um tempo com gavin.
- mas no falou de mim.
- no.
- ela pareceu ter direito de participar das suas noitadas.
- ela teve mesmo.
- direito exclusivo? -.
- quanto tempo?
- uns dois anos.
Um choque desagradvel para paris.
- uau! Quando o conheci em houston, seus namoros duravam no mximo umas duas 
semanas.
- porque a mulher que eu queria estava comprometida.
- ns no estamos falando disso, dean.
- mas  claro que estamos.
- estamos falando de voc e de liz. Um relacionamento de dois anos implica...
- nada do que voc est pensando.
- e o que a liz est pensando?
- pai? - da porta aberta, gavin interrompeu os dois, meio sem graa, e deu um 
celular para dean. - est tocando.
- obrigado.
Dean pegou o celular e leu no visor o nmero de quem estava ligando.
- gavin, d uma mo para paris.
Saiu da cozinha antes de atender, e fez paris ficar imaginando se quem estava 
ligando era liz.
- o que quer que eu faa? - ofereceu gavin.
- quer pr a mesa?
- claro, tudo bem. Minha me pedia para eu fazer isso o tempo todo.
Paris sorriu para ele.
- eu lembro que sempre que jack e eu amos jantar na casa do seu pai e voc 
estava l essa tarefa era sua.
- por falar nisso, eu, ... No tive chance de dizer isso para voc. Sinto muito 
por ele, voc sabe, ter morrido.
- obrigada, gavin.
- eu gostava dele. Ele era legal.
- era sim. E agora - disse ela rapidamente - voc acha que devamos jantar na 
sala de jantar ou aqui na cozinha mesmo?
- para mim, na cozinha est timo.
- que bom.
Paris mostrou para gavin onde ficavam os guardanapos, pratos e talheres, e ele 
comeou a arrumar a mesa enquanto paris refogava os legumes e lascas de pernil.
- est animado para o comeo das aulas este ano?
- estou. Quero dizer, acho que estou. Vai ser difcil sem conhecer ningum.
- sei bem o que  isso. Meu pai era do exrcito. - paris encheu uma panela de 
gua para cozinhar o macarro. - ns moramos em todos os lugares do mapa. Cursei 
trs 
Escolas no jardim e duas no primeiro grau. Felizmente ele se aposentou, por isso 
pude fazer o segundo grau numa escola s. Mas lembro que era muito difcil ser a 
Menina nova.
-  um nojo.
- voc vai se ajustar bem depressa. Lembro-me de quando voc teve de trocar de 
time dente-de-leite de beisebol no meio da temporada. Voc deixou de ser dos 
piratas 
E passou a ser dos...
- pumas. Voc se lembra disso?
- muito bem. O seu tcnico teve de ir embora.
- a empresa em que ele trabalhava o transferiu para ohio ou algum lugar assim.
- e todos os meninos do time dele foram distribudos pelos outros times. Voc 
no ficou nada contente com isso, mas acabou sendo a melhor coisa que podia ter 
acontecido. 
Os pumas precisavam de um bom shortstop, e voc ficou com a posio. E o time 
foi campeo municipal.
- s da cidade - disse ele modestamente.
- bom, quando se ouve seu pai falar, d para pensar que foi o campeonato 
mundial. Jack e eu passamos semanas ouvindo seu pai falar o tempo todo que 
"gavin fez isso, 
Gavin fez aquilo. Vocs deviam ter visto gavin ontem no jogo". J estvamos 
enlouquecendo. Ele sentia tanto orgulho de voc.
- eu cometi um erro numa jogada. O outro time fez um home run por causa disso.
- eu estava assistindo.
- por isso foi to horrvel. Papai tinha convidado vocs todos para ir me ver 
jogar. Tenho certeza de que ele teve vontade de me matar, e depois morrer de 
vergonha.
Paris desviou os olhos do fogo e virou para gavin.
- dean teve mais orgulho ainda de voc naquele jogo, gavin.
- ele teve orgulho de mim por estragar tudo?
- humm. Na jogada seguinte, voc fez uma rebatida dupla e, com isso, um jogador 
pde correr para a base e marcar um ponto.
- acho que isso compensou.
- bem, compensou sim, para os fs e para os seus companheiros de equipe. Mas 
quando jack deu um tapa nas costas do seu pai e disse que voc tinha se 
redimido, dean 
Disse que voc tinha se redimido por ter voltado imediatamente para o jogo. Ele 
ficou mais orgulhoso do modo que voc encarou o erro do que com o fato de ter 
rebatido 
Bem.
Paris virou para o fogo de novo e ps o cabelinho-de-anjo na gua fervente. 
Quando virou de novo para ele, gavin ainda franzia a testa, incrdulo. Paris 
meneou 
A cabea.
-  verdade.
Ao dizer isso, ela teve um momento de descoberta. Oua bem o que est dizendo, 
paris pensou. Depois de cometer um erro,
Gavin entrou imediatamente no jogo. No afundou no banco e passou o resto das 
jogadas sentado, arrastando as chuteiras na terra e se recriminando pelo erro.
Na noite anterior, dean tinha dito que no deixou a culpa e o arrependimento 
com-lo vivo. Disse que tinha deixado isso para trs. Talvez houvesse uma lio 
a ser 
Aprendida com aqueles homens malloy.
Dean voltou para a cozinha e interrompeu os pensamentos perturbadores de paris.
- era o curtis.
Ele olhou para gavin como se relutasse em comentar o caso na frente do filho, 
mas continuou a falar sem pedir para gavin sair:
- o caso est ficando complicado para ele.
- o que houve?
- a polcia especial est tentando prender lancy fisher.
- quem?
- voc o conhece como marvin patterson. - dean fez um breve resumo da 
diversificada carreira criminosa de marvin: ele est sendo procurado para 
interrogatrio. E 
Bradley armstrong tambm, um criminoso sexual condenado que violou a condicional 
e desapareceu. Os homens de curtis esto verificando o problema do telefone para 
Ver se descobrem como valentino desvia as ligaes para outros aparelhos. E 
rondeau...
Dean parou para olhar para gavin, que abaixou a cabea.
- ele ainda est trabalhando no que h no computador sobre essa histria. No 
encontraram um computador na casa do marvin, mas acharam disquetes e cds, e  
muito 
Provvel que tenha levado o computador com ele. Tudo isso para dizer que curtis 
est em ponto morto. Como nada de novo apareceu, sugeri que talvez pudssemos 
provocar 
Valentino.
- a fazer o qu?
- a pr a cabea de fora.
- como?
- por seu intermdio.
- eu? No ar?
- a idia  essa. Se voc elogiar janey, transform-la em vtima, talvez ele 
ligue para se justificar. Ele pode ficar falando mais tempo e no perceber que 
est nos dando uma pista de onde est ou de qual  sua identidade.
"o objetivo  manter a nfase na janey continuou dean. "personaliz-la. Repetir 
freqentemente o noine dela. Fazer com que ele pense nela como indivduo, no 
apenas como sua prisioneira."
Paris parecia duvidar daquilo.
- voc acha que essa ttica vai funcionar com valentino?
- inteiramente, no. Mas pode ofender o ego dele, se voc ficar falando dela o 
tempo todo, e no dele. Ele quer ser o astro, sobre quem todo mundo comenta. 
Assim, se o foco for ela, talvez ele no resista e aparea para dizer: "ei, 
olhem para nim."
Paris olhou para o relgio.
Dean disse em voz alta o que ela estava pensando.
- certo. Temos pouco mais de vinte e quatro horas para impedir que ele faa o 
que ameaou fazer. Esta noite pode ser a nossa ltima chance de faz-lo mudar de 
idia.
Ele no deve ser provocado a fazer algo radical, que poderia ter conseqncias 
srias. Mas voc poderia convenc-lo a solt-la.
- essa no  uma tarefa fcil, dean. Existe uma linha tnue entre provocar e 
persuadir.
Dean meneou a cabea, preocupado.
- eu quase me arrependo de ter inventado essa idia por causa disso.
- o que curtis acha?
- ele achou a idia tima. Aceitou na mesma hora. Mas eu contive o nimo dele, 
disse que isso no ia acontecer se voc no estivesse cem por cento  vontade.
Dean chegou mais perto de paris.
- antes de voc tomar essa deciso tem de pensar em mais uma coisa, e no  
pouco sria. Na verdade  muito sria. Valentino comeou tudo furioso com voc. 
Ele est fazendo isso para punir a mulher que o traiu e voc tambm. Se comear 
a pression-lo, de qualquer forma e com qualquer intensidade, ele deve ficar 
mais furioso ainda, e a voc ser o alvo dele. Ele j fez uma ameaa velada.
- voc est tentando me convencer a no fazer isso?
  o que parece, no ? - disse ele com um sorriso triste. Nem se preocupe em 
deixar curtis ou eu desapontado. Assumir riscos faz parte do nosso trabalho, mas 
Voc no se props a isso. A deciso tem de ser sua, paris. Se voc no quiser, 
no vai acontecer. Pense nisso. Pode me dar a resposta depois do jantar.
- eu no preciso pensar. Vou fazer ou dizer o que for necessrio para trazer 
aquela menina a salvo para casa. Mas voc ter de me orientar.
Dean segurou a mo dela e apertou com firmeza.
- ficarei ao seu lado, sugerindo o que deve dizer. Vou ficar com voc de 
qualquer maneira.
Notando que gavin observava os dois com interesse, paris se afastou de dean e 
disse:
- o macarro est pronto.
- al? Brad,  voc? Se , por favor, fale comigo.
No tinha planejado o que ia dizer se atendessem o telefone na casa dele, mas 
obedecia ao impulso de telefonar, mesmo que s para certificar-se de que sua 
famlia 
Continuava l. Assim que ouvisse uma daquelas vozes doces, achava que pensaria 
em algo apropriado.
Mas, ao ouvir o tremor na splica da mulher, brad armstrong no conseguiu dizer 
nada. O evidente desespero de toni foi desconcertante. A garganta ficou 
apertada, 
E ele no conseguia falar. Apertou o fone com a mo suada e pensou em desligar.
- brad, diga alguma coisa. Por favor. Eu sei que  voc. Brad soltou o ar num 
quase soluo, quase suspiro.
- toni.
- onde voc est?
Onde ele estava? No inferno. Aquele quarto miservel no tinha nada do conforto 
do lar adorvel que toni tinha arrumado para ele e para as crianas. Naquele 
quarto 
No havia luz do sol, nenhum cheiro bom. As janelas estavam bem fechadas, 
bloqueando toda a luz, exceto a da lmpada fraca do abajur. O quarto fedia, 
principalmente 
Ao desespero dele.
O ambiente, contudo, no era o pior. O verdadeiro infern< era a cabea dele.
- voc precisa voltar para casa, brad. A polcia est atrs de voc.
- meu deus.
J temia isso, mas o medo concretizado fazia seu estmago dar cambalhotas.
- fui  polcia esta tarde.
- voc fez o qu? - perguntou ele, com a voz entrecortada
- toni, por que fez isso?
- o sr. Hathaway teve de dar queixa de voc.
Toni explicou como tinha ido parar na sala de um detetive mas brad estava to 
perturbado que s ouviu uma parte do que ela disse.
- voc entregou seu prprio marido para a polcia?
- para tentar ajud-lo.
- ajudar? Me mandando para a priso?  isso que quer para mim e para os nossos 
filhos?
-  isso que voc quer para eles?  voc que est destruindo a nossa famlia, 
brad, no eu.
- voc est se vingando de mim por ontem  noite, no est? Ento  isso. Voc 
ainda est com raiva.
- eu no estava com raiva.
- ento que nome d a isso?
- medo.
- medo? - zombou ele. - porque eu queria fazer amor a partir de agora, ser que 
devo avis-la com antecedncia que quero fazer sexo?
- a questo no era sexo, e certamente no era fazer amor brad. Aquilo era 
agresso.
Brad esfregou a testa e os dedos ficaram molhados de suor.
- voc nem tenta me compreender, toni. Nunca tentou.
- no estamos falando de mim e das minhas limitaes como esposa e ser humano. 
Estamos falando de voc e do seu vcio.
- est bem, est bem, j entendi. Vou voltar a fazer terapia de grupo. Certo? 
Ligue para a polcia e diga que se enganou. Que ns brigamos e que voc queria 
se vingar de mim. Eu converso com hathaway. Se eu for bem humilde, ele ser 
leniente comigo. 
-  tarde demais para pedir desculpas e fazer promessas, brad. A determinao e 
a convico com que toni disse aquilo assustaram brad ainda mais.
- voc j teve mais oportunidades do que merece - continuou toni. - alm disso, 
no est mais nas minhas mos, nem nas mos do sr. Hathaway. Agora  um caso 
para 
A polcia e no tenho mais opo seno cooperar com eles.
- fazendo o qu?
- dando-lhes acesso ao seu computador.
- oh, meu deus. Cristo. Voc tem opo sim, toni. No est vendo que isso vai 
acabar comigo? Por favor, querida, por favor, no faa isso.
- se eu no der permisso para entrarem no seu computador, eles conseguiro uma 
ordem judicial, ou um mandado de busca, o que for necessrio. Realmente no cabe 
A mim.
- voc poderia... Oua, eu posso ensinar a voc como format-lo, para que eles 
no encontrem nada. Por favor. Toni? No  difcil. Bastam alguns cliques no 
mouse. 
Eu no estou pedindo para voc assaltar um banco, nem nada parecido. Voc faz 
isso por mim, querida? Por favor. Eu estou implorando.
Toni no disse nada e brad prendeu a respirao, esperanoso. Mas aquela noite a 
mulher lhe tinha preparado sucessivas surpresas horrveis, uma atrs da outra.
- uma noite, na semana passada, eu o segui at o lago travis, brad.
O sangue subiu  cabea dele e o esprito de penitncia se transformou em ira.
- voc estava me espionando. Eu sabia. Est admitindo isso.
- eu o vi com uma menina. Voc e ela entraram no seu carro. S posso deduzir que 
voc transou com ela.
- e tem razo, porra! Transei mesmo! - berrou ele. - porque a minha mulher se 
encolhe toda vez que encosto nela. Quem poderia me condenar por transar onde e 
quando 
Posso?
- voc alguma vez esteve com essa menina desaparecida? A filha do juiz, janey 
kemp?
Achou que sua respirao parecia extraordinariamente acelerada, e ficou 
imaginando se toni tambm percebia isso... Ou qualquer outra pessoa que pudesse 
estar escutando. 
Essa possibilidade deixou brad apavorado. Por que ela estava perguntando sobre 
janey kemp?
- a polcia grampeou o telefone a de casa?
- o qu? No.  claro que no.
- enquanto voc estava fazendo amizade com a polcia, vocs armaram para me 
pegar? Eles esto escutando essa conversa? Essa ligao est sendo rastreada?
- brad, voc est dizendo besteira.
- errado. No estou dizendo nada.
Brad desligou e deixou o celular cair como se tivesse mordido sua mo. Comeou a 
andar de um lado para outro no quarto abafado e claustrofbico. Eles sabiam dele 
Com janey. Tinham descoberto, como ele temia.
Aquele... Aquele curtis. Sargento curtis. Foi com ele que toni disse que 
conversou  tarde? Ele no estava encarregado de investigar o desaparecimento de 
janey?
Era disso que brad tinha medo. Assim que viu a foto dela na primeira pgina do 
jornal matutino, soube que era apenas uma questo de tempo para a polcia 
comear 
A procur-lo. Algum devia t-lo visto com janey e dado a informao.
Agora teria de ter muito cuidado ao andar por a. Se o vissem, podia ser preso. 
E isso no podia acontecer. Isso no podia acontecer. Na priso, os outros 
presos 
Faziam coisas terrveis com homens como ele. Tinha ouvido histrias. Seu prprio 
advogado tinha contado os horrores que aguardavam um pervertido sexual na 
priso.
Deus, ele estava ferrado. E tinha de agradecer a janey kemp por isso, a putinha 
provocante. Estavam todos contra ele. Janey. A mulher dele, a megera furiosa. 
Hathaway 
Tambm, que no saberia o que fazer com um pau duro se tivesse um, o que era 
pouco provvel. O oficial da condicional tinha cime do sucesso de brad com as 
mulheres. 
Por despeito, ficaria feliz de entreg-lo algemado para ser levado direto para a 
priso.
Porm, a fria de brad no durou muito. O medo retornou e o dominou. Suando 
profusamente, mordendo a bochecha, ele andava de um lado para outro no quarto, 
completamente 
Perdido. Aquele negcio com a janey podia significar uma encrenca sria para 
ele.
Devia ter ficado longe dela. Agora via isso claramente. J conhecia sua 
reputao antes mesmo da menina abord-lo pela primeira vez. Tinha lido as 
mensagens sobre 
Ela no site do clube do sexo, sabia que era uma aventureira do sexo, como ele. 
Tambm sabia que era uma pentelha mimada e rica, que tratava os ex-amantes como 
lixo 
E debochava deles no quadro de avisos da internet.
Mas tinha ficado cheio de si quando uma das meninas mais desejadas do clube do 
sexo deu em cima dele. O que devia fazer, recusar? Que homem poderia recus-la? 
Mesmo 
Sabendo que talvez representasse a prpria condenao, no pde resistir ao 
charme dela. Valia correr o risco para ficar com ela.
Satisfazer suas fantasias significava aceitar o perigo. Brad sabia que estava 
flertando com o desastre toda vez que paquerava uma menina menor de idade, ou 
acariciava 
Uma paciente, ou gozava numa loja de vdeo, mas o risco de ser apanhado s fazia 
aumentar o teso.
Sempre impunha desafios para si mesmo, para ver at que ponto podia sair impune. 
Paradoxalmente, seu desejo se alimentava da gratificao. Quanto mais longe suas 
Escapadas o levavam, mais fundo ele queria explorar. Novidades eram passageiras. 
Havia sempre uma outra fronteira para atravessar, mais um passo a dar.
Mas enquanto agonizava no seu inferno particular, descobriu que talvez tivesse 
levado aquela fantasia longe demais.


Captulo vinte e trs

-bu!
A reao de paris, que acabava de sair do refeitrio e caminhava pelo corredor 
escuro, foi derramar ch quente na mo.
- droga, stan! Isso no tem graa.
- desculpe. Caramba. Eu no queria assustar voc assim ele correu para a cozinha 
minscula e rasgou vrios pedaos de papel-toalha. - precisa de manteiga? 
Unguento? 
Quer ir para a enfermaria?
Paris secou o ch com a mo.
- no, obrigada.
- no consigo ver seus olhos, mas tenho a impresso de que esto soltando 
fascas.
- isso foi uma estupidez.
- por que voc est to nervosa?
- por que voc  to infantil?
- eu j pedi desculpa. S estou me sentindo timo hoje.
- o que houve?
- tio wilkins est voando de volta para atlanta. Daqui a pouco haver alguns 
estados entre ns, e isso  motivo para comemorao.
- parabns. Mas, s para constar, eu no gosto de levar susto. Nunca achei graa 
nenhuma nisso.
Stan foi atrs dela, voltando para o estdio. Quando entraram na sala iluminada, 
paris viu a mancha roxa.
- ai, stan, o que aconteceu com o seu rosto?
Stan encostou o dedo de leve no ponto ao lado da boca.
- titio me deu um tapa.
- voc est brincando, no est?
- no.
- ele bateu em voc? - exclamou paris, e ouviu espantada o relato do encontro 
dos dois no saguo do driskill.
Stan terminou de contar a histria e deu de ombros com indiferena.
- ele ficou furioso com o que eu falei. No foi a primeira vez. No  nada de 
mais.
Paris discordou, mas o relacionamento de stan com o tio no era da sua conta.
- todos os homens que eu encontro esto levando porrada hoje - resmungou ela, 
pensando no inexplicado hematoma de gavin.
Paris sentou no seu banco, olhou para o monitor e viu que ainda tinha cinco 
minutos de msica na programao. Sem ser convidado, stan sentou no outro banco.
- voc est assustada com esse negcio do valentino?
- voc no estaria?
- tio wilkins perguntou se eu era o cara misterioso dos telefonemas.
Paris olhou de lado para ele enquanto mexia o contedo de um envelope de 
adoante no ch.
- no  voc, ?
- como se pudesse ser... - respondeu ele. - apesar de ser sexualmente 
incompetente. Pelo menos de acordo com o tio wilkins.
- por que ele pensa assim?
- genes ruins. Minha me era uma puta. Meu pai, um tarado. Titio paga as putas e 
pensa que ningum sabe. Imagino que ele deve achar que esse fruto aqui no caiu 
Muito longe da rvore. Mas fora um transviado sexual, ele me considera um fodido 
com "f" maisculo.
- ele disse isso para voc?
- com todas as letras.
- voc j  um adulto. Por que aceita isso dele? Certamente no tem de aturar 
que bata em voc.
Stan olhou para paris como se ela fosse louca.
- o que sugere que eu faa para impedi-lo?
Stan tinha o dom de fazer paris querer estrangul-lo e, no minuto seguinte, 
passar a mo na cabea dele, consolando-o. Muitas fofocas picantes tinham 
circulado quando 
O pai de stan cometeu suicdio. No entanto, se havia alguma base de verdade, a 
famlia crenshaw era de fato disfuncional em muitos aspectos.
No era de admirar que stan tivesse problemas psicolgicos para resolver.
Quando a ltima msica terminou, paris fez sinal para ele ficar quieto e ligou o 
microfone.
- esse foi neil diamond. Antes dele, juice newton cantou "the sweetest thing". 
Espero que voc tenha ouvido, troy. Essa msica foi um pedido de cindy para 
voc. 
Vou atender a outros pedidos at as duas horas. Ou ento podem ligar e 
compartilhar suas idias comigo e com os ouvintes. Telefonem, por favor.
Em seguida, ela foi direto para dois minutos de anncios.
- voc acha que ele vai ligar hoje? - perguntou stan depois que paris desligou o 
microfone.
- suponho que esteja se referindo a valentino. Eu no sei. No me surpreenderia.
- no h nenhuma pista de quem ele pode ser?
- a polcia est investigando diversas possibilidades, mas no tem muita coisa 
ainda. O sargento curtis torce para ele ligar esta noite, talvez dizer alguma 
coisa 
Que sirva de pista nova para eles.
- paris olhou para as luzes das linhas telefnicas piscando na mesa de controle. 
- eu sei que outra ligao dele seria valiosa, mas fico arrepiada de pensar em 
falar 
Com ele.
- agora estou me sentindo realmente mal de ter assustado voc. Estava s 
brincando.
- vou sobreviver.
- grite se precisar de mim. - stan foi indo para a porta.
- ah, stan, o dr. Malloy deve chegar daqui a pouco. Quer fazer o favor de ficar 
de olho na porta e abri-la para ele?
Stan fez um muxoxo e voltou para o banco.
- o que h entre voc e o analista garanho?
Paris fez sinal para ele calar a boca e atendeu uma das ligaes.
- aqui  paris.
O homem ao telefone pediu uma msica de garth brooks, da trilha sonora do filme 
hope floats.
- parece que jeannie  uma menina de sorte.
-  por sua causa que estamos juntos. -eu?
- jeannie recebeu uma proposta de trabalho em odessa. Nenhum de ns tinha dito 
para o outro o que sentia. Voc aconselhou
Jeannie a no viajar antes de revelar seus sentimentos. Ela fez isso, e eu disse 
que sentia a mesma coisa, por isso ela continuou no emprego daqui e vamos nos 
casar 
No ano que vem.
- fico feliz que tenha dado tudo certo.
- , eu tambm. Valeu, paris.
Paris incluiu "to make you feel my love" na programao e atendeu outra ligao. 
O ouvinte pediu para ela desejar feliz aniversrio para alma.
- noventa anos? Meu deus! E ela tem uma msica predileta? Era uma cano de cole 
porter. Em poucos segundos, paris
Localizou na discoteca computadorizada e programou para tocar logo depois da 
balada de brooks.
Depois de cuidar disso, paris olhou para stan.
- voc ainda est aqui?
- estou, e mantenho a pergunta. E no me diga que voc e malloy so velhos 
amigos de houston.
-  exatamente isso que somos.
- como se conheceram?
- por intermdio do jack. A amizade deles durou mais que a faculdade.
- mas no durou mais que voc. - paris virou a cabea rapidamente para ele. - 
ah, estou s imaginando, mas percebo que acertei.
- d o fora, stan.
- suponho que esse assunto  delicado.
Exasperada, sabendo que stan ia insistir at conseguir alguma explicao, paris 
perguntou:
- o que voc quer saber?
- se malloy era to amigo, seu e do jack, quero saber por que nunca ouvi falar 
dele at a noite passada.
- ns nos afastamos quando eu trouxe o jack para c.
- por que trouxe o jack para c?
- porque meadowview era o hospital que melhor atenderia s necessidades dele. 
Jack no foi capaz de manter a amizade. Eu estava ocupada providenciando o 
tratamento 
Dele e me estabelecendo neste emprego. Dean tinha a vida dele em houston, 
inclusive um filho pequeno. Acontece, stan. As circunstncias afetam as 
amizades. Voc 
No perdeu contato com seus amigos de atlanta?
Stan no mudou de assunto.
- jack foi o motivo de voc desistir da sua carreira na televiso e vir 
trabalhar nesse lixo?
- quando ele sofreu o acidente, eu mudei minha carreira. Est bem? Est 
satisfeito? E essa  toda a histria.
- eu acho que no  - continuou stan, semicerrando os olhos.
- parece lgico, at plausvel, mas  conveniente demais. Acho que voc no 
incluiu os sombreados.
- sombreados?
- as nuances que fazem uma boa histria.
- estou ocupada, stan.
- alm disso, nada que voc contou explica a eletricidade que passou entre voc 
e malloy ontem  noite. Quase queimou minhas sobrancelhas. Vamos l, paris, 
desembuche 
- ele tentou convenc-la. - no vou ficar chocado. Voc j viu a barriga feia da 
minha famlia e nada poderia ser mais escandaloso. O que aconteceu com vocs 
trs?
- eu j lhe contei. Se no acredita em mim, o problema  seu. Se quer 
sombreados, trate de invent-los. Eu realmente no me importo, desde que o 
mantenha ocupado. 
E, nesse meio-tempo, ser que no pode inventar alguma coisa produtiva para 
fazer?
Paris voltou a prestar ateno na mesa de controle, nas linhas telefnicas, no 
monitor com a programao e no monitor de informao do estdio, onde um novo 
boletim 
Meteorolgico tinha sido apresentado por um meteorologista local.
Stan deu um suspiro resignado e foi de novo para a porta.
- no toque em nada quebrvel - disse paris para ele, sem se virar.
Mas a animao dela se desfez assim que stan saiu do estdio. Jogou seu ch, que 
j estava morno e amargo, na lata de lixo. Queria esganar stan por ressuscitar 
aquelas 
Lembranas perturbadoras.
Mas no podia ficar pensando nelas. Tinha de fazer seu trabalho. Pegou o 
microfone e disse:
- mais uma vez, feliz aniversrio para alma. O pedido dela nos fez retroceder 
algumas geraes, mas toda cano de amor  um clssico aqui na fm 101.3. Sou 
paris 
Gibson e vou entret-los at as duas da madrugada. Espero que fiquem comigo. 
Gosto
Da companhia de vocs. E tambm gosto de tocar as msicas que vocs pedem. 
Telefonem para mim.
Dean e ela tinham concordado que no diria nada para valentino, nem mencionaria 
janey, at ele chegar. Tinham sado da casa dela ao mesmo tempo, mas dean teve 
de 
Levar gavin em casa antes de ir para a estao.
O jantar tinha sido bom. Por um acordo tcito, no falaram sobre o caso em que 
todos estavam envolvidos. Em vez disso, a conversa foi sobre filmes, msica e 
esportes. 
E deram boas risadas com as lembranas que trocaram.
Quando estavam saindo, gavin agradeceu a paris, educadamente, o jantar.
- papai  um pssimo cozinheiro.
- eu tambm no sou nenhuma mestre-cuca.
- voc chega mais perto do que ele.
Paris percebeu que dean estava satisfeito de gavin e ela terem se entendido to 
bem e do jantar ter sido to tranqilo. Tinha at ficado meio alegrinha e bebera 
Apenas meia taa de chardonnay, o seu limite numa noite de trabalho. A nica 
coisa que comprometeu um pouco sua alegria foi o fato de saber que estava 
mantendo os 
Dois afastados de liz douglas aquela noite.
Na srie seguinte de comerciais, paris atendeu a todos os telefonemas. Cada vez 
que apertava um boto que piscava, sentia medo e, por isso, raiva de valentino. 
Ele 
A fez ter medo do trabalho que era sua salvao. Aquele emprego tinha sido seu 
cho nos sete anos em que ficou cuidando da sade de jack. S foi capaz de 
suportar 
Aqueles dias interminveis no hospital porque sabia que podia fugir para a 
estao de rdio  noite.
Recebeu uma ligao de uma jovem chamada joan, cuja personalidade era to 
efusiva que paris resolveu p-la no ar.
- voc disse que  f do seal.
- eu o vi uma vez, num restaurante em los angeles. Ele parecia superlegal. Voc 
pode tocar "kiss from a rose"?
Com movimentos automticos, paris ps a msica pedida atrs das trs outras que 
j estavam na programao.
Por que dean estava demorando tanto? Ela pensou. Ele mantinha a pose, mas paris 
sabia que estava profundamente preocupado com a ligao de gavin com janey kemp. 
Qualquer pai que amasse o filho ficaria preocupado, mas dean se culpava pelo mau 
comportamento de gavin e considerava falha dele.
Assim como havia assumido a culpa quando o impasse de albert dorrie com a 
polcia de houston resultou em tragdia.
Aquilo de novo. Uma outra lembrana. Por mais que se esforasse para evitar, sua 
mente sempre voltava para l. Para aquela noite.
Dean apareceu no apartamento dela dezoito horas depois do sr. Dorrie tornar 
rfos seus trs filhos, matando primeiro a ex-mulher e depois se suicidando.
Chegou sem avisar e pediu desculpas:
- sinto muito, paris. Eu no devia vir sem avisar primeiro disse ele assim que 
paris abriu a porta.
Parecia que no tinha sentado nas ltimas dezoito horas, dormido, nem pensado. O 
queixo estava escuro com a barba por fazer.
E paris tambm tinha descansado muito pouco. Passara a maior parte do dia na 
sala do noticirio da televiso, onde editou uma perspectiva geral do incidente 
para 
Os jornais noturnos.
Tragicamente, a histria no era to incomum. Incidentes parecidos aconteciam 
sempre em outras cidades. Tinha at acontecido em houston antes. Mas nunca com 
ela. 
Paris nunca tinha testemunhado uma coisa como aquela de to perto e com tanto 
envolvimento pessoal. Estar na cena e conviver com ela era muito diferente de 
ler sobre 
O caso no jornal ou escutar, sem prestar muita ateno, o noticirio da 
televiso, fazendo alguma coisa ou preocupada com outra. At seu cmera estafado 
foi afetado. 
A atitude brincalhona foi substituda pela depresso quando a van da reportagem 
seguiu a ambulncia com os dois corpos at o necrotrio.
Mas ningum que tinha passado por aquilo sentiu tanto a calamidade como dean. O 
desespero estava marcado profundamente no seu rosto. Paris fez sinal para ele 
entrar.
- quer alguma coisa? Um drinque?
- obrigado.
Dean sentou pesadamente na beira do sof e paris serviu uma dose de usque para 
cada um. Deu o copo alto para ele e sentou ao seu lado.
- estou atrapalhando voc? - ele perguntou, desanimado.
- no.
Paris apontou para seu roupo atoalhado branco. O rosto estava lavado. Tinha 
deixado o cabelo secar naturalmente depois de um longo banho de imerso. Dean 
normalmente 
No via paris assim, mas ela no estava preocupada com sua aparncia. As coisas 
que pareciam importantes vinte e quatro horas antes agora eram insignificantes.
- eu no sei por que vim para c - disse ele. - eu no queria ficar na rua, 
estar com as pessoas, mas tambm no queria ficar sozinho.
- eu sinto a mesma coisa.
Paris no tinha querido passar a noite com jack. Ele estava desesperado para 
anim-la e ajud-la a tirar da cabea o que tinha vivenciado. Mas paris ainda 
no estava 
Pronta para se alegrar. Queria algum tempo para refletir. Alm do mais, estava 
exausta. Ir ao cinema, ou at jantar fora, parecia to remoto como voar at a 
lua. 
At mesmo conversar com jack teria exigido uma energia que paris no tinha.
O objetivo da visita de dean no parecia ser conversar. Depois daquelas 
primeiras e poucas frases, ele ficou parado, com o olhar vazio, tomando uns 
goles de usque 
De vez em quando. No preencheu o silncio com conversa intil. Ambos sabiam que 
o outro estava pssimo com o final do impasse. Paris achava que dean tambm se 
consolava 
Apenas estando perto de algum com quem tinha compartilhado aquela tragdia.
Dean levou meia hora para terminar de beber o usque. Deixou o copo vazio na 
mesa de centro, ficou olhando para ele alguns segundos e depois disse:
- eu tenho de ir.
Mas paris no podia deixar dean ir embora sem oferecer algum consolo.
- voc fez tudo que pde, dean.
- isso  o que todo mundo diz.
- porque  verdade. Voc fez o melhor possvel.
- mas no adiantou grande coisa, no ? Duas pessoas morreram.
- mas trs continuam vivas. Se no fosse voc, talvez ele tivesse matado os 
filhos tambm.
Dean meneou a cabea sem muita convico. Paris ficou de p quando dean se 
levantou e seguiu-o at a porta. Ele virou de frente para ela.
- obrigado pelo drinque.
- de nada.
Alguns segundos passaram e s depois dean disse:
- peguei sua histria no noticirio das seis.
- pegou?
- estava boa.
- corriqueira.
- no, foi boa mesmo.
- obrigada.
- de nada.
Dean prendeu paris com o olhar fixo, e os olhos dele pareciam implorar, uma 
splica que paris sabia que os dela deviam estar espelhando. Emoes que no 
podia negar, 
Mas que abafava havia meses, explodiram dentro dela. Quando dean a segurou, 
paris j entreabria os lbios para receber o beijo dele.
Mais tarde, relembrando, quando pde ser brutalmente sincera com ela mesma, 
paris descobriu que quis que ele a beijasse, e que se ele no tivesse tomado a 
iniciativa, 
Ela tomaria.
Tinha de toc-lo, seno morreria. O desejo que sentia por ele era essencial.
Dean deve ter sentido a mesma coisa. Sua boca uniu-se  dela com sede e 
possessividade. O fingimento e a educao se desmancharam. Os grilhes da 
conscincia se 
Romperam. A tenso que se acumulava havia meses foi liberada.
Paris enfiou os dedos no cabelo de dean. Ele desfez o n da faixa do roupo dela 
e, quando enfiou a mo por dentro, paris no protestou, ficou na ponta dos ps 
para 
Unir mais ainda os corpos dos dois. Eles se encaixavam. E a perfeio disso 
interrompeu o beijo por um tempo. Eles s se abraaram, com fora.
A cabea de paris rodopiou com a sobrecarga de sensualidade. O metal frio da 
fivela do cinto de dean encostado na barriga
Dela. A textura da cala dele contra suas coxas nuas. O algodo fino da camisa 
nos seus seios. O calor do corpo dele passando para a pele dela.
Ento os lbios de dean procuraram os dela mais uma vez. Eles se beijaram e dean 
ps a mo no seio dela. Acariciou com o polegar o mamilo ereto, depois abaixou a 
Cabea e o chupou com sofreguido. Balbuciando o nome dele, paris apertou a 
cabea de dean contra o peito.
Dean fez paris deitar no cho, ela desabotoou a camisa dele e desnudou seus 
ombros, mas logo ele a beijava novamente. Entre as coxas, paris sentiu dean 
desafivelando 
O cinto e abrindo o zper da cala. A cabea do pnis roou seus plos pbicos, 
explorou-a e a penetrou.
A ereo de dean distendeu e preencheu paris. Ele ps todo o seu peso nela, e 
paris o absorveu, feliz, apertando os quadris dele entre as coxas. A presso era 
incrivelmente 
Doce. Os sons que subiam do peito dela eram uma jubilosa mistura de riso e 
choro.
Dean beijou as lgrimas que escorriam dos cantos dos olhos de paris, ento 
segurou-lhe a cabea com as mos fortes e encostou a testa na dela, rolando 
suavemente 
Para um lado e para outro, na troca do ar que respiravam e da intimidade 
completa.
- deus me ajude, paris - disse ele com a voz rascante. - eu precisava estar 
dentro de voc.
Paris deslizou as mos por dentro da roupa e apertou as ndegas de dean, 
forando-o mais para dentro dela ainda. Dean aspirou rapidamente, sibilando, e 
comeou a 
Se mexer. Com cada investida insinuante, a intensidade do prazer aumentava. E 
tambm o significado. Dean segurou o queixo de paris e levantou sua cabea para 
beij-la.
Dean ainda a beijava quando paris gozou, de modo que seus gemidos suaves soaram 
na boca de dean. Segundos depois, ele gozou tambm. E continuaram agarrados um 
ao 
Outro.
A separao foi gradual e relutante. Quando o xtase fsico comeou a diminuir, 
o significado moral do que tinham feito se avolumou. Paris tentou ignorar. Quis 
rebelar-se 
Contra a injustia da situao. Mas era inexorvel.
- meu deus - gemeu ela, virou de lado e ficou de costas para ele.
- eu sei.
Dean ps o brao na cintura de paris e puxou-a contra o peito. Beijou-lhe o 
pescoo de leve e afastou mechas de cabelo do rosto molhado.
Mas a mo dele ficou paralisada quando o telefone tocou.
Mais cedo, paris tinha ligado a secretria eletrnica para poder monitorar as 
ligaes. Agora a voz de jack soava no alto-falante, transformando-o numa 
terceira 
Presena na casa.
- oi, querida. S liguei para saber de voc, para ver como est. Se estiver 
dormindo, nem se preocupe em ligar de volta. Mas se estiver acordada e quiser 
conversar, 
Sabe que estou pronto para ouvir. Estou preocupado com voc. Com o dean tambm. 
Estou ligando para ele a noite toda, mas ele no est atendendo nenhum telefone. 
Voc sabe como ele . Deve estar pensando que foi culpa dele o impasse ter dado 
no que deu. Tenho certeza de que ele est precisando de um amigo esta noite, por 
Isso vou continuar tentando falar com ele. De qualquer modo, te amo. Bom 
descanso. Tchau.
Nenhum dos dois se mexeu por muito tempo. Ento paris se desvencilhou de dean e 
se arrastou at a mesa de centro, encostou a cabea na madeira com tanta fora 
que 
Chegou a doer.
- paris...
- v embora, dean.
- estou me sentindo to mal quanto voc.
Paris olhou para ele por cima do ombro nu, pois arrastava o roupo corno cauda 
de vestido de noiva. Puxou a manga, aflita para cobrir a parte do seio que 
estava 
Descoberta.
- voc no pode estar se sentindo to mal quanto eu. Por favor, v embora.
- eu me sinto mal pelo jack, sim. Mas no me arrependo, de jeito nenhum, de ter 
feito amor com voc. Tinha de acontecer, paris. Eu soube disso no primeiro 
minuto 
Que a vi, e voc tambm.
- no, eu no sabia.
- voc est mentindo - disse ele, baixinho. Paris abafou o riso.
- uma ofensa pequena comparada com trepar com o padrinho do meu noivo.
- voc sabe muito bem que no foi nada disso. Podia ser muito mais fcil para 
ns se fosse apenas isso.
Era verdade. Por trs da vergonha, o corao de paris se despedaava ante o 
desespero de saber que nunca mais aquilo ia acontecer. Talvez pudesse se perdoar 
por 
Um simples tropeo, uma descarga hormonal, uma falta de sensatez temporria. Mas 
tinha sido significativo demais para poder ser descartado e perdoado.
- v embora, dean - soluou paris. - por favor. V embora.
Ela apoiou a cabea na mesa outra vez e fechou os olhos. Lgrimas ardentes 
rolaram pelo rosto enquanto ouvia o farfalhar da roupa dele, o tilintar da 
fivela do cinto, 
O zper se fechando e os passos abafados no tapete quando foi para a porta. 
Suportou um silncio penoso at ouvir a porta abrir se e depois fechar devagar.
- paris?
Ela levou um susto e olhou para trs, para a porta do estdio. Dean estava l, 
parado, como se tivesse se materializado da sua lembrana.
Estava to perdida em seus pensamentos que levou alguns segundos para entender 
que aquilo era o aqui e agora, no uma extenso do seu devaneio. Engoliu em seco 
e 
Fez sinal para ele entrar.
- tudo bem. Meu microfone est desligado.
- crenshaw disse que eu podia entrar se no fizesse barulho. Dean sentou no 
banco ao lado do dela e, por um momento
De loucura, paris teve vontade de se jogar nos braos dele, recomear de onde 
tinham parado na sua memria. A barba por fazer tinha deixado a pele dela 
vermelha 
Aquela noite. Em poucos dias voltou ao normal. Mas as marcas sensuais em sua 
mente jamais desapareceram. O beijo da vspera tinha revelado que essas marcas 
eram 
Muito vivas e precisas.
- nada ainda do valentino?
Paris balanou a cabea para responder, mas tambm para livrar-se dos 
persistentes puxes sexuais.
- voc deixou gavin em casa sem problemas?
- com ordens para no sair, e acho que esta noite ele no vai me desobedecer. 
Ele ficou abalado de ser interrogado na delegacia. E certamente se comportou 
muito 
Bem no jantar.  claro que estava tentando impressionar voc.
- bem, e conseguiu, porque eu fiquei impressionada mesmo. Ele  maravilhoso, 
dean.
Dean meneou a cabea, pensativo. -.
Paris ficou observando dean um pouco e notou a ruga de preocupao que se 
formara entre as sobrancelhas dele. -mas? Dean focalizou o olhar nela.
- mas ele est mentindo para mim.


Captulo vinte e quatro
O sargento robert curtis trabalhava horas extras. Estava escondido no seu 
cubculo dentro do bci, onde apenas mais um detetive dava planto, com um caso 
de assalto.
O rdio na mesa de curtis estava sintonizado na 101.3. Ele ouvia a voz de paris 
gibson enquanto lia a informao que conseguira sobre a carreira dela, 
interrompida 
Na televiso, e a partida para houston. Os amigos dele na polcia de houston 
tinham sido muito eficientes e mandaram por fax tudo que j tinha sido publicado 
sobre 
Paris, jack donner e dean malloy. Era matria interessante.
A busca no apartamento de lancy ray fisher, tambm conhecido como marvin 
patterson, produziu algumas surpresas tambm, especificamente uma caixa de fitas 
cassete, 
Todas dos programas de rdio de paris gibson.
Ora, por que, imaginou o detetive, um ex-condenado, que se fazia passar por 
zelador, se interessaria tanto por paris, a ponto de colecionar gravaes de 
programas 
Antigos, se podia ouvi-la ao vivo todas as noites?
A me de lancy no ajudou muito.
Um detetive especial, depois de vasculhar milhas de papelada e resmas de 
registros, localizou a mulher. Atualmente morava num camping de trailers em san 
marcos, 
Uma cidade ao sul de austin.
Curtis tinha feito a viagem de trinta minutos de carro at l pessoalmente. 
Poderia ter despachado outro detetive para fazer a entrevista, mas queria ouvir 
em primeira 
Mo por que o filho da sra. Fisher, lancy, que vivia sob o codinome de marvin 
patterson, parecia to obcecado por paris gibson.
O interior do domiclio da sra. Fisher era ainda pior do que o lado de fora, e 
ela era to desleixada e pouco hospitaleira quanto seu lar. Quando curtis lhe 
mostrou 
O distintivo, a mulher primeiro ficou desconfiada, depois beligerante e 
finalmente agressiva:
- por que voc no se manda? Eu no tenho nada para dizer para nenhum maldito 
tira.
- lancy veio visit-la recentemente?
- no.
Curtis sabia que ela estava mentindo, mas teve a impresso de que no existia 
amor entre me e filho, e que ela gostaria de ter uma chance de desabafar as 
reclamaes 
Que tinha dele. Em vez de desafiar a veracidade da resposta da mulher, curtis 
permaneceu em silncio e ficou tirando os plos de gato da cala enquanto 
esperava 
A sra. Fisher dar uma tragada no cigarro e resolver se abrir.
- lancy tem sido um espinho na minha vida desde que nasceu - ela comeou. - 
quanto menos ele aparecer por aqui, melhor para mim. Ele vive a vida dele e eu 
vivo a 
Minha. Alm do mais, ele agora anda muito arrogante.
- arrogante?
- as roupas dele, coisas assim. Est de carro novo. Pensa que  melhor do que 
eu.
O que no seria grande coisa, pensou curtis.
- qual a marca e o modelo do carro dele? Ela bufou com desprezo.
- eu no sei distinguir um carro japons do outro.
- a senhora sabia que ele estava trabalhando numa estao de rdio?
- varrendo, foi o que ele me disse. Ele teve de aceitar esse emprego depois de 
ser demitido do outro por furto. Aquele era um bom emprego e ele estragou tudo. 
Ele 
 burro, alm de irresponsvel.
- a senhora sabia que ele usava um nome falso?
- no me surpreenderia com nada que aquele menino fizesse. No depois de se 
viciar em cocana e tudo. - a mulher chegou para a frente e disse, sem ar e com 
a voz 
Baixa: - sabe, foi por isso que ele fez aqueles filmes porns. Para conseguir a 
droga.
- filmes porns?
- sabe a minha vizinha? Que mora na segunda fileira? Ela chegou aqui correndo 
uma noite, no faz muito tempo, e disse que tinha visto o meu menino, lancy, 
balanando 
O troo dele num filme sujo que ela havia alugado na videolocadora. Eu disse
Que ela era uma porra de uma mentirosa, mas ela disse: ento venha ver.
A sra. Fisher se endireitou na poltrona e assumiu a pose indignada de uma recm-
convertida que s sente desprezo pelos no-penitentes.
- e,  claro, l estava ele, nuzinho em plo, fazendo coisas que eu nunca tinha 
visto na vida. Fiquei morrendo de vergonha.
Curtis fingiu simpatia por uma me cujo filho sara da linha.
- ele ainda trabalha na, ha... Indstria cinematogrfica?
- no. E tambm no usa mais drogas. Pelo menos ele diz que no. Foi h muito 
tempo. Ele era apenas um garoto. Mas mesmo assim...
A sra. Fisher acendeu outro cigarro. Curtis ia sair de l com a sensao de ter 
fumado trs maos, e com o fedor condizente tambm.
- que nome ele usava quando fez os filmes?
- no lembro.
- quais eram os nomes dos filmes em que ele participou?
- no lembro, nem quero saber. Voc pode perguntar para a minha vizinha. Como  
que pode uma senhora da idade dela assistindo a esse lixo? Ela devia se 
envergonhar 
Disso.
- lancy tem muitas namoradas?
- voc no ouve bem, no ? Ele no me conta nada. Como  que vou saber alguma 
coisa das namoradas dele?
- ele alguma vez mencionou paris gibson?
- quem? Isso  menino ou menina?
A reao confusa da mulher foi autntica demais para ser fingimento.
- no importa. - curtis se levantou. - sabe, sra. Fisher, acobertar e favorecer 
 crime.
- eu no acobertei nem favoreci ningum. Eu j disse que lancy no esteve aqui.
- ento no se incomoda se eu der uma espiada.
- voc tem um mandado?
- no.
Ela soprou uma nuvem de fumaa na cara de curtis.
- ah, que diabos. Pode olhar.
No era um lugar grande, por isso, fora o fato de ter de se esquivar de gatos 
sibilantes e da merda deles, a espiada no demorou muito. E tambm no levou 
muito 
Tempo para determinar que algum tinha dormido no segundo quarto. A cama 
estreita estava desarrumada e havia um par de meias no cho ao lado. Quando se 
abaixou para 
Pegar uma das meias, notou a lajota solta embaixo da cama. Ela se desprendeu 
toda com uma cutucada do seu canivete.
Curtis guardou de novo o que encontrou exatamente como estava e foi procurar a 
sra. Fisher no que supostamente era a sala de estar. Perguntou de quem eram as 
meias.
- lancy deve ter deixado a da ltima vez que esteve aqui. H muito tempo. Ele 
nunca foi organizado com as coisas dele.
Outra mentira, mas curtis perderia seu tempo contestando. Ela ia continuar 
mentindo.
- a senhora sabe se lancy tem um computador?
- ele pensa que eu no sei, mas eu sei.
- e um gravador?
- disso eu no sei, mas todos esses aparelhos modernos so dinheiro jogado fora, 
se quer a minha opinio.
- vou deixar o meu carto, sra. Fisher. Se lancy aparecer por aqui, faz o favor 
de me telefonar?
- o que ele fez?
 fugiu de um interrogatrio.
- sobre o qu? No deve ser boa coisa.
- eu s queria conversar com ele. Se souber dele, estar fazendo um favor para 
ele mesmo se me avisar.
Ela pegou o carto de visita e ps na bandeja cheia de coisas ao lado da 
poltrona reclinvel. Curtis no ouviu direito o que a mulher resmungou com o 
cigarro pendurado 
Nos lbios, mas no pareceu uma promessa de fazer o que ele tinha pedido.
Curtis estava ansioso para sair para o ar livre, longe da ameaa de explodir em 
pedacinhos junto com o balo de oxignio da sra. Fisher, mas parou quando estava 
Na porta e fez mais uma pergunta:
- a senhora disse que lancy foi mandado embora de um bom emprego por furto.
- foi isso que eu disse.
- onde ele estava trabalhando?
 na companhia telefnica.
Assim que entrou no carro, curtis fez contato com a polcia de san marcos, 
explicou a situao e pediu para vigiarem o trailer da sra. Fisher. Depois, 
pediu para 
Outro detetive da sua unidade tirar a ficha de emprego de lancy fisher na 
companhia telefnica.
O trfego na interestadual 35 na direo norte estava se arrastando devido a 
obras na estrada, por isso, quando o sargento curtis chegou ao quartel-general, 
a informao 
De que precisava j estava disponvel. O registro do emprego de fisher na 
southwestern bell estava no nome verdadeiro dele. Tinha sido um funcionrio 
exemplar at 
Ser pego furtando equipamento.
- alta tecnologia na poca - informou o detetive. - mais ou menos obsoleto 
agora, porque a tecnologia se modifica muito depressa.
- mas ainda  utilizvel?
- segundo o especialista, sim.
Armado com essa informao, curtis ps lancy ray fisher na lista dos suspeitos e 
concentrou sua ateno no material que tinham enviado de houston por fax.
Havia cpias de artigos de jornal, transcries de cobertura na televiso e 
material impresso tirado da internet. Contavam uma trgica histria e preenchiam 
algumas 
Lacunas que malloy no tinha querido explicar.
Por exemplo, curtis agora compreendia por que paris gibson usava culos escuros. 
Tinha sido ferida nos olhos no mesmo acidente de carro que vitimou jack donner, 
Deixando-o apenas com o corao batendo e funes cerebrais mnimas.
Paris viajava no banco do carona, com cinto de segurana. Quando o carro bateu 
no pontilho da ponte em alta velocidade, os air bags explodiram. Porm, no 
serviram 
Para proteg-la do vidro estilhaado do pra-brisa, que devia ser  prova de 
estilhaos, mas no era, especialmente quando o motorista, de noventa quilos, 
foi catapultado 
Atravs dele.
Jack donner no usava seu cinto de segurana. O air bag retardou sua ejeo do 
carro, mas no impediu que acontecesse. Ele sofreu traumatismo craniano muito 
grave. 
Os danos foram irreparveis e extensos. Ficou fisicamente debilitado pelo resto 
da vida.
Sua capacidade mental ficou reduzida a reaes a estmulos visuais, tteis e 
auditivos. As reaes eram fracas, equiparveis a
De um recm-nascido, mas suficientes para evitar a classificao como morte 
cerebral. Ningum podia desligar a mquina.
De acordo com o relatrio, o dr. Dean malloy, da polcia de houston, foi o 
primeiro a chegar  cena do acidente. Ele estava seguindo o sr. Donner em seu 
prprio 
Carro, testemunhou o acidente e fez a chamada para o 911 do seu celular. Tudo 
indica que agiu como amigo carinhoso e dedicado, que ficou de viglia vrios 
dias depois 
Do acidente no quarto do hospital da srta. Gibson e do cti onde estava o sr. 
Donner.
A ltima histria sobre o trgico destino do sr. Donner dizia que paris gibson 
tinha se recuperado dos ferimentos menores e que, depois de pedir demisso do 
seu 
Cargo na emissora de televiso, levou donner para uma clnica particular.
Citaram paris agradecendo aos amigos, colegas de trabalho e fs que enviaram 
flores e cartes desejando melhoras para ela e para o noivo. Ia sentir saudade 
do trabalho 
Na tv e de todas as pessoas maravilhosas de houston, mas sua vida tinha sofrido 
uma reviravolta inesperada e agora precisava seguir um novo caminho.
Na ltima histria, no havia meno a dean malloy, uma omisso que praticamente 
saltava aos olhos de curtis. Quando algum desaparece do radar de uma amizade 
forte 
E duradoura, tem de haver um bom motivo.
Aquilo no era nenhum mistrio sombrio, nem profundo. Curtis tinha visto como 
malloy olhava para paris e vice-versa. Com teso desenfreado. Mas o cuidado que 
os 
Dois tomavam para no olhar um para o outro tambm denunciava o desejo que ia 
alm do fsico. Era o fato de estarem sempre evitando um ao outro que os 
incriminava. 
Se aquilo era to visvel para ele, que os conhecia havia apenas dois dias, 
devia ter sido perfeitamente bvio para jack donner.
Concluso: num caso de amor, trs era demais.
Quando ouviu o programa de paris, sua raiva aumentou.
Ela no falava dele, de valentino.
Mas falava sem parar de janey kemp. No cansava de repetir que os pais dela 
queriam muito que ela voltasse a salvo. Falava
Dos amigos dela, preocupados com sua segurana. Exaltava suas qualidades.
Que farsa! Janey tinha dito o quanto desprezava os pais e que esse sentimento 
era mtuo. Amigos? Janey tinha conquistas, no amigos. Quanto a virtudes, no 
possua 
Nenhuma.
Mas ouvindo paris falar, parecia que janey era uma santa. O ideal americano de 
bondade, amizade, charme e beleza.
- se pudesse v-la agora, paris - disse ele, rindo baixinho.
Agora sentia tanta averso a janey que tinha ficado bem pouco tempo com ela 
aquele dia. No era mais linda e atraente. O cabelo, um dia cheio e sedoso, 
parecia corda 
Velha enrolada na cabea. A pele tinha perdido o vio. Os olhos que podiam ser 
sedutores ou zombeteiros quando ela queria agora estavam opacos e sem vida. 
Janey 
Mal tomou conhecimento de sua presena no quarto, olhava o vazio, sem ver nem 
piscar, nem quando ele estalou os dedos a um centmetro do nariz dela.
Parecia meio morta, e a aparncia era ainda pior. Um banho melhoraria as coisas, 
mas no ia se dar ao trabalho de carreg-la at o banheiro para lav-la.
Ele no se preocupava com praticamente nada, a no ser cuidar daquela encrenca 
em que tinha se metido. O tempo para chegar a uma soluo vivel j estava se 
esgotando. 
Dera a paris um prazo de setenta e duas horas e, se tivesse um mnimo de 
carter, algum orgulho, realmente deveria cumprir aquele prazo.
Janey se tornara um compromisso maior do que ele havia previsto. E tambm havia 
a questo do que fazer com paris.
Ele realmente no tinha planejado mais do que levar janey para l e us-la como 
a menina costumava implorar para ser usada. Ela era uma puta que alardeava estar 
Disposta a experimentar qualquer coisa. Ele pagou para ver, foi s isso. E suas 
bazfias tambm no eram sem fundamento. Ela provou ser uma verdadeira 
degustadora 
De baixarias e sacanagens.
No tinha planejado a srio que aquilo terminasse com a morte dela, assim como 
no planejara matar maddie robinson. Seu relacionamento com maddie tinha 
simplesmente 
Chegado quele resultado. Ela disse "no quero v-lo nunca mais", e ele tratou 
de providenciar para que no visse mesmo. Nunca mais. Por esse ngulo, a menina 
havia 
Decidido o prprio destino, no ele.
E quanto a paris, no tinha planejado grande coisa alm daquele primeiro 
telefonema, para dizer que tinha tomado uma atitude contra a mulher que o 
trara. Quis assust-la, 
Deix-la abalada, e torcia para ela perceber sua bestice insuportvel. Quem ela 
pensava que era para dar conselhos sobre amor, sobre a vida e sobre sexo e 
relacionamentos?
O que no tinha previsto era que o seu telefonema pudesse deflagrar uma 
investigao policial e virar o acontecimento que tinha virado na mdia. Quem 
podia imaginar 
Que todo mundo ia se preocupar tanto com janey se ela estava recebendo 
exatamente o que tinha pedido?
No, aquilo tinha crescido e se transformado em algo muito maior do que 
pretendia. Sentia que estava perdendo o controle da situao. Para sobreviver, 
ele precisava 
Recuperar esse controle. Mas por onde comear?
Uma maneira seria soltar janey.
, podia fazer isso. Podia larg-la perto da casa dos pais. Janey no sabia o 
nome dele. Podia tirar tudo do quarto e sumir para que no o encontrassem, caso 
janey 
Algum dia levasse a polcia at a "cena do crime". Teria de parar de ir aos 
locais dos encontros do clube do sexo ou arriscar-se a ser visto por ela, mas 
encontrar 
O que fazer nunca seria um problema. O clube do sexo era apenas um dos recursos.
No era um plano perfeito, mas provavelmente o melhor curso de ao que lhe 
restava. Telefonaria para paris aquela noite, na hora marcada, e diria que sua 
inteno 
Fora apenas brincar com ela, para que ela entendesse que no devia brincar com 
as emoes das pessoas, distribuindo conselhos piegas. Nunca imaginei que voc 
me 
Levaria a srio, paris. No pode aceitar uma brincadeira? Sem ressentimentos, 
falou?
Sim, esse era definitivamente um plano vivel.
- ... Aqui na fm 101.3 - ele ouviu paris dizer, interrompendo seus pensamentos. 
- fiquem comigo at as duas da madrugada. Acabei de receber uma ligao da 
melhor 
Amiga de janey, melissa.
Melissa.
- melissa, voc gostaria de dizer alguma coisa para os nossos ouvintes? - 
perguntou paris.
- gostaria, eu s... Voc sabe... Eu quero que janey volte para casa s e salva. 
Janey, se voc estiver ouvindo isso, e estiver bem, volte para casa. Ningum vai 
Brigar com voc. E se h algum a prendendo janey contra a vontade dela, devo 
dizer que isso no est com nada. Solte-a. Por favor. Ns s queremos janey de 
volta. 
Ento... Acho que  isso.
- obrigada, melissa.
Espere a, ento era ele o vilo da histria? No tinha feito nada com janey 
kemp que ela no quisesse. E paris tambm no era a princesinha que queria que 
todos 
Acreditassem que era. No era melhor do que ningum.
Discou o nmero que j sabia de cor, sabendo que no seria rastreado at o seu 
celular. Tinha providenciado isso.
- aqui  paris.
- o assunto desta noite  dean malloy.
- valentino? Deixe-me falar com janey.
- janey no est a fim de conversar - disse ele -, nem eu.
- os pais de janey querem que eu pea para voc...
- cale a boca e oua. Se voc e o seu namorado no fizerem alguma coisa bem 
depressa, tero duas mortes na conscincia. A de janey. E a de jack donner.
- eu me sentiria melhor se voc ficasse na minha casa at isso terminar. Tenho 
um quarto extra. Nada de mais, mas  confortvel. E seguro.
Dean tinha insistido em acompanh-la at em casa e esperar que ela entrasse. 
Como das outras vezes, a ligao de valentino tinha sido rastreada at um 
telefone pblico 
Sem ningum por perto, sem pista nenhuma. A polcia estava agora convencida de 
que ele jamais chegou perto daqueles telefones.
A ligao foi a mais desconcertante de todas, porque ele parecia ainda mais 
furioso e irritado do que antes. Aludiu mais uma vez  morte de janey. E  claro 
que 
A referncia que fez a dean e a jack foi um novo elemento alarmante. Ou 
valentino era um excelente adivinho ou sabia com certeza que a morte de jack 
implicava paris 
E dean at certo ponto.
- obrigada pela oferta, mas estarei segura aqui.
Paris entrou em casa na frente de dean. Ele acendeu um abajur de mesa. Paris o 
apagou imediatamente.
- estou me sentindo como um peixinho dourado com as luzes acesas. Eles podem ver 
tudo aqui dentro.
Dean olhou para o carro de polcia estacionado na frente da casa.
- estou vendo que substituram griggs.
-  a noite de folga dele. Curtis me disse que o pessoal seria diferente, mas 
que a equipe era toda muito atenta. Quando dean fechou a porta, ela perguntou: - 
e 
O gavin?
Valentino tinha falado de dean com tanto desprezo que estavam preocupados no s 
com a segurana do prprio dean e de paris, mas com a segurana de gavin tambm.
- j cuidamos dele. Curtis despachou um carro da polcia para a minha casa. 
Telefonei para gavin e avisei a ele.
- e liz?
- achei que no precisava da polcia por perto, mas falei com ela e disse para 
ficar atenta. Para certificar-se de ligar o alarme e de telefonar para mim se 
acontecer 
Qualquer coisa fora do comum.
- ela  que talvez devesse ficar no seu quarto vago. Em vez de pegar a luva e 
aceitar o duelo, dean disse:
- isso  outra conversa, paris.
Paris deu meia-volta e foi para a cozinha. Dean foi atrs. Eram duas e meia da 
madrugada, mas os dois estavam perturbados demais para dormir.
- vou fazer um chocolate quente - disse ela. - quer um pouco?
- est fazendo vinte e sete graus l fora.
Paris olhou para ele com uma cara de pegar ou largar.
- tem suco? - perguntou dean.
Enquanto esquentava a gua no microondas, paris serviu um copo de suco de 
laranja para dean e pegou um pacote de biscoitos na despensa.
- sobre o que voc acha que ele est mentindo?
- valentino?
- gavin. Hoje mais cedo, voc disse que achava que ele estava mentindo para 
voc. Ficamos ocupados com todas as ligaes e no terminamos aquela conversa.
Dean ficou um tempo olhando para o copo de suco.
- a merda  essa - disse ele. - eu no sei sobre o que ele est mentindo, s sei 
que est.
Paris misturou um envelope de chocolate em p na gua quente da caneca, apontou 
para dean pegar o biscoito e ir com ela para a sala de estar. Ela sentou numa 
ponta 
Do sof, ele na outra. O pacote de biscoitos ficou na almofada entre os dois. O 
abajur continuou apagado, mas o brilho das luzes da varanda entrava pelas 
janelas 
E dava para enxergar bem. Paris tirou os culos escuros.
- voc acha que ele est mentindo sobre o que fez aquela noite? - perguntou 
paris.
- por omisso, talvez. O meu medo  que tenha acontecido mais coisas no encontro 
com janey do que ele quer admitir.
- acha que eles fizeram sexo?
- possivelmente, e ele no quer que ningum saiba.
- porque isso tornaria a histria de t-la deixado para se juntar aos amigos 
menos verossmil.
- certo. - dean mordeu um biscoito. - mas, falando srio, como gavin poderia ser 
valentino? A voz no soa como a dele. Ele no sabe de ns dois. - dean olhou bem 
Para paris. - aquela parte, de qualquer modo. Ele no tem habilidade tcnica 
para transferir chamadas telefnicas.
- perguntei ao stan como funciona essa tecnologia.
- por que ele saberia?
- ele gosta de aparelhos de todo tipo, brinquedos caros. No olhe para mim desse 
jeito - disse paris quando a sobrancelha de dean formou um arco suspeito. - ele 
No  valentino. No tem culho para isso.
- o que sabe sobre os culhes dele?
- ah, por favor - gemeu ela. - voc quer ouvir isso ou no? Dean pigarreou sem 
responder e pegou outro biscoito. Paris continuou:
- stan disse que no seria difcil. Qualquer um que tivesse acesso a um certo 
equipamento devia poder aprender como fazer isso pela internet.
- e algum que tivesse trabalhado para a companhia telefnica?
- talvez no tivesse dificuldade nenhuma. Por qu?
- antes de ser zelador, marvin patterson era tcnico da southwestern bell.
Dean tinha seguido paris at a casa dela desde a estao de rdio no prprio 
carro. No caminho, teve uma longa conversa com curtis pelo celular. E contou 
para ela 
Tudo que o detetive havia descoberto sobre lancy fisher.
- ele tinha uma coleo de fitas cassete? Do meu programa? O que isso pode 
significar?
- no sabemos - respondeu dean. - por isso curtis mandou os caras da 
inteligncia para a rua, consultar todos os informantes deles, para descobrir o 
tmido sr. Fisher. 
Temos muitas perguntas para ele, e a nmero um  por que essa preocupao toda 
com voc.
- que  uma coisa espantosa. Ele nunca demonstrou o menor interesse por mim. 
Ficava sempre de cabea baixa e falava raramente.
- comportamento estranho para um ex-ator.
- ator? O marvin?
- ele apareceu... Inteirinho... Em uns dois filmes porn.
- o qu?! - exclamou paris. - tem certeza de que estamos falando do mesmo homem?
Dean contou o que curtis tinha descoberto com a me de lancy fisher.
- nada disso explica por que ele gravava seu programa todas as noites. Pelo 
menos  o que parece. Ele tinha noventa e duas fitas cassete ao todo. Curtis 
disse que 
No eram muito boas. Provavelmente gravadas diretamente do rdio. Horas de 
canes de amor e da voz sexy de paris gibson. Podia ser que marvin simplesmente 
se masturbasse 
Ouvindo voc falar. Mas isso seria uma quantidade enorme de masturbaes.
- poupe-me dessa imagem, por favor.
- ele alguma vez...
- nada, dean. Ele nunca balbuciou mais do que duas ou trs palavras para mim. E 
no me lembro de ter alguma vez olhado nos meus olhos.
- ento, no que diz respeito a esse caso, ele pode ser perfeitamente inocente. 
Talvez s tenha desaparecido porque  um ex-condenado e, como tal, tem uma 
averso natural aos interrogatrios da polcia, mesmo no tendo nada a esconder.
Dean parou de falar e ficou observando paris atentamente, tempo suficiente para 
ela perguntar:
- o que foi?
- curtis virou o prprio sherlock holmes do nosso passado. Paris assoprou o 
chocolate quente, mas subitamente perdeu
A vontade de tom-lo.
- qual  a boa notcia?
- no h nenhuma. Ele disse com todas as letras que conhecia os fatos por trs 
da sua sada de houston. O acidente. O trauma que jack sofreu. A sua demisso da 
televiso 
E assim por diante.
- s isso?
- bem, ele parou por a, mas o silncio depois transbordava de curiosidade e 
insinuaes.
- deixe que ele insinue o que quiser.
- foi o que eu fiz.
Paris deixou a caneca na mesa de centro, deu um profundo suspiro e encostou a 
cabea na almofada do sof.
- no estou surpresa com a curiosidade dele. Afinal de contas,  um detetive. E 
nem teve de ir muito fundo. Era s arranhar a superfcie e exibir toda a minha 
vida 
Para quem quisesse ver.
- sinto muito.
Paris deu um sorriso triste.
- no tem importncia. Outros aspectos de tudo isso so mais importantes. Gavin, 
por exemplo - com a cabea ainda encostada na almofada, ela virou e olhou para 
dean. 
- o que aconteceu com o rosto dele hoje?
- eu no bati nele, se  o que est pensando.
Ofendida com o tom e com a prpria afirmao, paris endireitou o corpo de 
estalo.
- no era nada disso que eu estava pensando.
Paris pegou a caneca de chocolate e saiu zangada da sala.
- tranque a porta quando sair - disse ela.


Captulo vinte e cinco

Com movimentos rspidos, furiosos, paris lavou a caneca de chocolate, depois 
apagou a luz sobre a pia da cozinha. Quando virou para trs, dean estava parado 
na porta 
Aberta, uma silhueta contra a luz fraca que vinha da sala de estar.
- desculpe ter sido rude com voc.
- no foi isso que me irritou. Foi o fato de voc pensar que eu podia imaginar 
que voc tinha batido no gavin.
- mas eu bati, paris.
A admisso calou paris.
- hoje no - continuou dean. - alguns dias atrs. Ele me provocou, eu perdi a 
pacincia e dei um tapa na boca dele, com as costas da mo.
A raiva de paris evaporou com a mesma rapidez que havia se formado.
- ah. Ento eu atingi um nervo exposto, no foi? - depois de um segundo, ela 
acrescentou suavemente: - eu sei o que aconteceu naquela poca, na tech.
Dean olhou para ela espantado.
- jack te contou?
- ele contou o suficiente. Mas s depois que comentei o seu rgido autocontrole.
Dean encostou no batente da porta e fechou os olhos.
- bem, o meu autocontrole falhou na outra noite com gavin, e hoje de novo, com 
rondeau.
- rondeau?
Dean contou a cena que interrompeu quando entrou no banheiro masculino.
- ele segurava o rosto de gavin contra o espelho. Foi isso que o machucou. Eu 
queria matar o cara.
- eu tambm ia querer. Por que ele fez tal coisa?
- ele disse que tinha me e uma irm, e que ficou to ofendido com as mensagens 
obscenas que gavin deixou no site que, quando o viu, perdeu a cabea. Uma 
desculpa 
Idiota que fedeu a mentira.
- curtis sabe disso?
- no contei a ele, e no imagino rondeau confessando.
- voc vai deixar esse assunto morrer?
- no. Claro que no. Mas vou cuidar do rondeau do meu modo, e sem nenhuma 
interferncia de curtis. - dean deu uma risada mal-humorada. - voltando para o 
nosso amigo 
Detetive, ele  um cabea-dura. No vai desistir at saber tudo sobre o nosso 
"trio ntimo", como ele mesmo disse.
- querendo se referir a voc, jack e eu.
- ele no  burro, paris. Sabe que essa histria no  s o que apareceu na 
mdia, e que tem muito, muito mais, que no contamos para ele.
- no  da conta dele.
- ele acha que . Pensa que o valentino pode voltar a esse assunto.
Paris quis se afastar, mas dean a segurou e a fez virar de novo para ele.
- precisamos conversar sobre isso, paris. No falamos quando devamos ter 
falado, sete anos atrs. Se tivssemos encarado isso, talvez jack no tivesse 
tomado um 
Porre aquela noite. Devamos t-lo procurado e dito...
- que o tramos.
- que estvamos apaixonados, que nenhum dos dois tinha planejado nada, mas que 
aconteceu, e que as coisas eram assim mesmo.
- sinto muito, jack. Que azar. Ns nos vemos por a.
- no teria sido assim, paris.
- no, teria sido pior.
- pior do que o que, pelo amor de deus? Pior do que o modo que tudo terminou?
Dean respirou fundo e continuou a falar num tom de voz mais calmo, mais 
moderado:
- jack era mais esperto do que voc pensava. E muito mais sensvel tambm. Ele 
percebeu que estvamos evitando nos
Encontrar. Voc no sabia que ele devia querer descobrir a causa disso?
Claro que dean tinha razo. Paris tinha subestimado jack, achando que se 
fingisse que nada havia mudado, ele jamais saberia que tudo tinha mudado. A 
noiva e o melhor 
Amigo dele tinham feito amor. O relacionamento deles, dela com jack, dele com 
dean, dela com dean, tinha sido irremediavelmente alterado. No podiam reverter 
ao 
Que eram antes. Tinha sido ingnua de pensar que podiam.
- eu pensei... Eu pensei... - paris abaixou a cabea e massageou as tmporas. - 
nem lembro o que pensei, dean. Simplesmente no podia dizer para ele: "lembra 
daquela 
Noite depois do impasse, quando disse que queria ficar sozinha? Bem, o dean foi 
at a minha casa e ns transamos no tapete da sala."
Em vez disso, paris tinha tomado uma atitude mais sutil, recusando toda vez que 
jack tentava reunir os dois. Suas desculpas foram ficando cada vez mais 
esfarrapadas.
- depois de um tempo, jack quis saber por que eu no gostava mais de voc.
- eu tive uma conversa parecida com ele - disse dean. - ele perguntou se voc e 
eu tnhamos brigado durante o seqestro. Se a crise tinha despertado o policial 
em 
Mim e a reprter em voc, os dois profissionais que nunca se entendem. Eu disse 
que ele estava completamente enganado, que gostvamos muito um do outro e que 
nos 
Respeitvamos. Ento ele resolveu pr isso  prova com aquele jantar surpresa.
E, aquele jantar fatdico, pensou paris. Jack tinha combinado o encontro em um 
dos seus restaurantes favoritos. Dean e ela chegaram sozinhos e no esperavam 
ver 
O outro l.
Ficar cara a cara pela primeira vez desde aquela noite foi constrangedor, como 
paris temia que fosse. Fazer contato visual era difcil, mas ela no conseguia 
evitar 
Olhar para ele, e toda vez que fazia isso, pegava dean olhando para ela. E a 
conversa foi artificial e formal.
- aquele jantar foi uma prova de resistncia para mim disse dean. - voc tinha 
recusado todas as minhas tentativas de conversar.
- tinha de ser aquela ruptura completa, dean. No confiava em mim mesma, nem 
para falar com voc pelo telefone.
- meu deus, paris, eu estava morrendo por dentro. Precisava saber o que voc 
estava pensando. Se estava bem. Se estava grvida.
- grvida?
- ns no usamos nada.
- eu estava tomando plula.
- s que eu no sabia. - dean sorriu com tristeza. - por egosmo, esperava que 
voc tivesse engravidado.
Nem agora paris podia admitir para dean que tinha se agarrado  mesma esperana 
v, e que ficara desapontada quando a menstruao seguinte chegou. Um beb 
foraria 
Paris a contar a verdade para jack. Teria sido a justificativa dos dois para ter 
de mago-lo. S que no aconteceu.
- foi um inferno para mim a aflio de no saber como voc estava depois que a 
deixei aquela noite - dean estava dizendo. E de repente l estava voc, sentada 
a 
Um metro de mim, do outro lado da mesa, e eu no podia perguntar nem dizer o que 
queria.
"e no era s isso. A traio com jack estava me matando", continuou dean. "toda 
vez que ele contava uma piada, ou punha o brao no meu ombro e me chamava de 
amigo, 
Eu me sentia como judas."
- ele se esforou para tornar a noite divertida. Sempre foi o animador da festa.
Jack parecia determinado a ignorar o constrangimento deles. Bebeu demais, falou 
alto demais, riu demais. Porm, quando comiam a sobremesa, desistiu finalmente e 
Quis saber o que estava acontecendo.
- olha, eu no agento mais vocs dois - disse jack. - quero saber o que est 
havendo, e quero saber agora. O que aconteceu para vocs ficarem to 
constrangidos 
Na presena um do outro? Estou achando que tiveram uma briga naquele seqestro, 
ou andam se encontrando pelas minhas costas. Ento contem como foi a briga, ou 
confessem.
Achando que tinha dito algo muito engraado, jack cruzou os braos sobre a mesa 
e deu um largo sorriso para os dois.
Mas dean no retribuiu o sorriso de jack, e paris sentiu que seu rosto ia rachar 
se tentasse sorrir. O silncio dos dois foi tremendamente eloqente. Mesmo 
assim, jack levou alguns segundos para perceber, e, quando descobriu, foi uma 
cena horrvel de ver. O sorriso desmoronou. Primeiro olhou 
Para ela, como se no estivesse entendendo nada. Depois olhou para dean, como se 
quisesse for-lo a dar uma risada e dizer: "no seja ridculo." e quando nenhum 
Dos dois disse nada, jack entendeu que de sua brincadeira tinha despontado a 
verdade.
- filho-da-puta - disse ele.
Jack levantou da mesa e deu um sorriso de desprezo para dean.
- o jantar  por sua conta, amigo.
Dean devia estar seguindo a mesma linha de pensamento de paris, porque ele 
disse:
- nunca vou esquecer a cara que ele fez quando finalmente compreendeu.
- nem eu.
- na pressa de ir atrs dele para impedir que dirigisse naquele estado, derrubei 
a minha cadeira. Quando acabei de arrum-la, vocs dois j tinham desaparecido.
- no me lembro de ter corrido pelo restaurante atrs dele
- disse paris. - mas me lembro claramente de alcan-lo no estacionamento. Ele 
gritou comigo, disse para deix-lo em paz.
- mas voc no deixou.
- no, implorei para ele me deixar explicar. Ele s olhou furioso para mim e 
disse: "voc trepou com ele?"
Dean passou a mo no rosto, mas o gesto no adiantou muito para tirar o remorso 
da sua expresso.
- ouvi jack dizer isso do outro lado do estacionamento. Ouvi voc dizer que ele 
no devia dirigir, que estava muito bbado e muito furioso para isso.
Sem dar ouvidos  splica de paris, jack entrou no carro. Paris correu para a 
outra porta e por sorte estava destrancada.
- eu entrei no carro com ele. Jack ordenou que eu sasse. Mas me recusei e 
prendi o cinto de segurana. Ele ligou o motor e pisou no acelerador.
Ficaram em silncio um tempo, perdidos nas lembranas daquela noite horrvel. 
Dean foi o primeiro a falar:
- jack tinha todo o direito de estar furioso conosco por termos transado. Se 
estivesse no lugar dele, eu... Meu deus, eu nem
Sei o que teria feito. Acho que ia quebr-lo em pedacinhos. Ele estava ferido e 
furioso, e se quisesse se matar por isso, ns no poderamos fazer nada aquela 
noite, 
Nem em qualquer outra noite. Ns o tramos, paris. Temos de viver com isso pelo 
resto da vida. Mas ele traiu voc quando partiu no carro daquele jeito. Dean ps 
As mos no pescoo dela e acariciou-a com as pontas dos dedos.
-  por isso que eu o culpo. Ele podia ter te matado.
- acho que ele no tinha inteno de matar ningum.
- tem certeza? - perguntou dean gentilmente. - o que vocs conversaram naqueles 
dois minutos entre o estacionamento do restaurante e aquela ponte na estrada?
- eu disse que me arrependia de t-lo magoado. Disse que ns dois o amvamos, 
que tinha sido um incidente isolado, um desabafo fsico depois de uma 
experincia traumtica, 
Que se ele pudesse nos perdoar, aquilo jamais aconteceria de novo.
- ele acreditou em voc?
Uma lgrima escorreu pelo rosto dela e paris disse, com a voz embargada:
- no.
- e voc acreditou no que disse?
Paris fechou os olhos e liberou mais lgrimas. Moveu a cabea lentamente de um 
lado para outro.
Dean respirou fundo, puxou paris de encontro ao peito e alisou o cabelo dela.
- talvez devssemos ter dito mais - continuou ela.
- mentido para ele?
- podamos salv-lo. Ele estava enfurecido. Enlouquecido. Tentei convenc-lo a 
parar o carro e deixar eu dirigir, mas, em vez disso, ele acelerou mais ainda. 
Perdeu 
O controle do carro. Ele no bateu naquela mureta de propsito.
- bateu sim, paris.
- no - disse ela, desesperada, sem querer acreditar.
- quando o motorista perde o controle, ele instintivamente pisa no freio. Eu 
estava logo atrs de vocs. As luzes de freio dele nunca acenderam. - dean 
inclinou 
A cabea de paris para trs, para for-la, a olhar para ele. - jack amava voc, 
no duvido disso. Amava tanto que queria casar com voc. Amava tanto que teve 
uma crise de cime quando descobriu que voc tinha estado comigo.
"mas", enfatizou dean, "se amasse voc como devia, sem possessividade e 
incondicionalmente, jamais teria pensado em levar voc com ele. Por piores que 
tenham sido 
Os ltimos anos dele, jamais o perdoei por tentar mat-la."
Quando dean disse isso, paris o amou ainda mais. E ela o amava mesmo. Desde o 
momento em que se conheceram, paris descobriu que amar dean malloy era 
inevitvel. 
Mas se deixar levar pela paixo era impossvel naquele momento, e tambm agora. 
Sempre houve outras pessoas entre os dois. Jack, com certeza. E agora liz.
Paris se desvencilhou do abrao dele e disse:
- agora voc precisa ir.
- vou passar a noite aqui.
- dean...
- eu durmo no sof da sala - ele levantou as mos num gesto de rendio. - se 
no acredita que no vou encostar as mos em voc, pode trancar a porta do seu 
quarto. 
Mas no vou deix-la sozinha enquanto houver um luntico por a  solta, 
querendo se vingar de voc.
- nem imagino como ele sabia que a morte de jack  um peso na minha conscincia.
- e na minha.
- o que aconteceu conosco certamente no  de conhecimento pblico, e eu nunca 
comentei com ningum.
- ele deve ter pesquisado a sua vida e concludo o motivo do acidente de jack, 
como curtis fez.
- o acidente de jack podia ter sido provocado por muitas coisas - argumentou 
paris.
- mas s uma poderia acabar com a nossa amizade. No  to difcil de adivinhar 
assim, paris. Valentino tem um problema pessoal com mulheres infiis. Se ele 
concluiu 
Que voc traiu jack comigo, ento voc est personificando a nmesis dele. E, 
mesmo se fosse uma suposio equivocada, valentino j transformou-a na realidade 
dele, 
E  com essa convico que ele vai agir
- dean balanou a cabea obstinadamente. - eu fico.
Cochilou no sof at o dia amanhecer, e ento saiu sem fazer barulho. Acenou 
para os dois policiais sentados na viatura policial que continuava estacionada 
na frente 
Da casa, para garantir que vissem que ele estava indo embora.
Quase no tinha dormido. Estava com a aparncia de quem tinha passado a noite em 
claro. E era assim que se sentia tambm. Mas o que tinha de fazer no podia 
esperar. 
No queria adiar nem pelo tempo que levaria para ir at em casa, tomar uma 
chuveirada e fazer a barba.
Tocou duas vezes a campainha, e s ento ouviu a tranca se abrindo do outro lado 
da porta. Liz espiou sonolenta pela fresta estreita da porta presa na corrente e 
Ento fechou-a s um pouco para tir-la.
-  imperdovel aparecer aqui a essa hora - disse dean assim que entrou.
- eu o perdoo. - liz o segurou pela cintura e grudou seu corpo no dele. - na 
verdade, essa  uma surpresa deliciosa.
Ele a abraou. Por baixo do robe de seda, que era a nica pea de roupa, o corpo 
dela era quente, macio e muito feminino. Mas dean no ficou nem um pouco 
excitado.
Liz chegou para trs para poder ver o rosto dele e manteve a parte de baixo do 
corpo colada nele.
- voc est abatido. Trabalhou at tarde?
- pode-se dizer que sim.
- alguma novidade com o gavin? - perguntou ela, preocupada.
- no. Ele ainda no est completamente liberado e vou ficar apreensivo at isso 
acontecer. Mas no  por causa dele que estou aqui.
A capacidade de sentir o que as pessoas esto pensando ou sentindo tinha sido um 
impulso na carreira de liz, e no falhou naquele momento. Depois de estud-lo 
mais 
Um pouco, ela disse:
- eu ia oferecer um pouco de amor e carinho na cama. Mas acho que  melhor 
oferecer caf.
- no precisa. No posso demorar.
Como se quisesse defender o orgulho, liz deixou os braos cados ao lado do 
corpo, endireitou as costas e jogou para trs o cabelo despenteado.
- tempo suficiente para pelo menos sentar?
- claro.
Liz levou dean at o sof da sala de estar e ocupou uma ponta, sentada sobre os 
ps. Dean sentou na beirada da almofada e apoiou os cotovelos nos joelhos. A 
caminho 
Da casa dela, havia ensaiado diversas maneiras de abordar o assunto, mas acabou 
resolvendo que nenhuma delas seria gentil. Respeitava liz demais para mentir 
para 
Ela. Decidiu ser direto.
- j faz algum tempo... Meses... Que estou deixando voc acreditar que amos 
acabar casando. No vai acontecer, liz. Sinto muito.
- entendo - ela respirou bem fundo e deixou o ar sair devagar. - eu pelo menos 
posso saber por qu?
- primeiro pensei que era o medo clssico de tomar essa deciso. Depois de 
quinze anos solteiro, achei que a idia de casar outra vez me deixava em pnico. 
Por isso 
No disse nada, torcia para o medo acabar. No quis discutir, nem aborrec-la 
com isso.
- bem, eu aprecio a sua considerao com os meus sentimentos.
- ser que h algum sarcasmo nisso?
- definitivamente.
- acho que eu mereo - disse dean. - acabei de romper o que tinha virado um 
compromisso. Voc no precisa ser gentil.
- ainda bem que voc acha isso, porque estou quase tendo um ataque de raiva.
- voc tem esse direito.
Liz olhou para dean furiosa, mas ento a classe retornou.
- pensando melhor, eu no vou brigar com voc. Se eu fizesse um drama, ficaria 
mais fcil para voc sair zangado daqui e nunca mais olhar para trs. Em vez 
disso, 
Vou torn-lo o centro das atenes. Porque acho que mereo uma explicao 
completa.
Na verdade, dean esperava mesmo uma briga, na qual poderiam trocar denncias e 
destruir qualquer afeto que pudessem sentir um pelo outro. Uma discusso sria 
seria 
Mais rpida, limpa e menos dolorosa para ela, e mais fcil para ele. Mas liz 
fechou aquela abertura para uma escapada covarde.
- no sei bem se posso explicar - dean abriu as mos, indicando que era intil 
tentar. - no  voc. Voc continua inteligente, linda e atraente como no dia em 
que 
A conheci. Mais ainda.
- por favor, poupe-me do discurso eu-no-mereo-voc.
- no  nada disso - disse ele, irritado. - estou sendo sincero. O problema no 
 voc.  ns dois.  que eu no estou vivendo isso, liz.
- nem precisava dizer isso. Ultimamente voc no tem estado presente toda vez 
que fazemos amor.
- engraado, voc nunca reclamou disso.
- voc est tentando comear uma briga de novo - disse ela, inflexvel. - no 
faa isso. E no se irrite com as crticas. A questo no  o seu desempenho.  
o seu 
Distanciamento emocional.
- que eu reconheo.
- ser por causa do gavin, do fato de ele ter vindo morar com voc? Uma 
exigncia maior do seu tempo?
- gavin foi uma boa desculpa para eu me ausentar - admitiu ele. - no me orgulho 
de t-lo usado.
- e no deve mesmo. Mas no tem nada a ver com ele tambm, no ?
-.
- ento  outra pessoa?
Ele virou e olhou diretamente para ela. -.
- voc est saindo com algum?
- no. No  isso.
- ento o que , dean? O que est havendo?
- eu amo outra mulher. .
Liz silenciou com a simplicidade daquela afirmao. Ficou olhando para ele 
alguns segundos, assimilando o que dean tinha dito.
- ah, voc ama outra. Voc me amou algum dia?
- amei. E ainda amo de diversas maneiras. Voc foi uma parte importante e 
crucial da minha vida.
- s no fui a sua grande paixo.
- quando comeamos a namorar, pensei, sinceramente... Eu esperava que... Eu 
tentei...
- voc tentou - disse liz, dando uma risada amarga. -  exatamente o que toda 
mulher deseja ouvir.
O sarcasmo estava de volta, mas era forado. Liz segurava uma almofada contra o 
peito, algo em que se agarrar, literal e
Figurativamente. Dean achou que devia ir embora antes que sua brutal sinceridade 
ferisse mais ainda o orgulho de liz.
Mas quando ele levantou e se preparava para sair, ela disse baixinho:
- a mulher de culos escuros. Aquela com quem voc estava conversando na 
delegacia. Paris? - liz levantou a cabea e olhou para dean. - ora, dean, no 
faa essa 
Cara de espanto. Mesmo se eu fosse cega teria percebido que vocs j foram 
amantes.
- anos atrs. S uma vez, mas...
- mas voc nunca se recuperou.
Dean deu um sorriso triste, como o de liz.
- no. Eu nunca me recuperei.
 s por curiosidade, quando comeou a v-la de novo?
- anteontem.
Liz ficou boquiaberta, surpresa.
-  isso mesmo. Essa alienao de sentimentos, na falta de um termo melhor, 
comeou muito antes de paris entrar na histria. V-la s confirmou o que eu j 
sabia.
- que no ia se casar comigo. Dean concordou com a cabea.
- bem, graas a deus voc no fez isso. - liz jogou a almofada para o lado e 
ficou de p. - eu no quero ser a segunda opo de ningum.
- e no deve ser mesmo - dean segurou e apertou a mo dela. - perdoe-me por ter 
ocupado dois anos do seu relgio biolgico.
- ah, mas acho que foi melhor assim - disse liz, petulante.
- o que eu ia fazer com um beb quando tivesse de viajar a trabalho? Lev-lo 
comigo, na minha pasta?
Liz estava tentando levar na esportiva, mas dean sabia que ela estava 
profundamente decepcionada. Talvez at de corao partido. Era orgulhosa demais 
para chorar 
Na frente dele. E talvez, apenas talvez, gostasse demais dele para lan-lo numa 
tortura de sentimento de culpa.
- voc  muito fina, tem muita classe e estilo, liz.
- ah, . Bela merda.
- o que vai fazer?
- hoje? Acho que uma massagem.
Dean sorriu.
- e amanh?
- quando mudei para c, eu no vendi a minha casa em houston.
-no?
- voc imaginou que eu tinha vendido, e nunca corrigi essa idia. Talvez eu 
intusse que ia precisar de uma rede de segurana. De qualquer modo, assim que 
puder 
Tratar disso, volto para l.
- voc  especial, liz.
- voc tambm - respondeu ela rispidamente.
Dean chegou para a frente, beijou liz no rosto e foi para a porta. Parou, virou 
para ela e disse:
- cuide-se.
E foi embora.


Captulo vinte e seis

-al?
-  o gavin?
- sou eu.
- aqui  o sargento curtis. Acordei voc?
- mais ou menos.
- desculpe incomod-lo. No consegui falar com seu pai pelo celular dele. Por 
isso estou ligando para a sua casa. Posso falar com ele?
- ele no est. Passou a noite na casa de paris.
Gavin se arrependeu do que disse na hora em que pronunciou as palavras. 
Desconfiado como era, curtis ia tirar concluses precipitadas.
- ns jantamos na casa dela - explicou gavin. - depois do programa dela, sabe, 
por causa da ltima ligao do valentino, papai achou que ela no devia ficar 
sozinha.
- h policiais de guarda na casa dela.
- meu pai deve ter achado que no bastava.
-  bvio.
Gavin resolveu parar enquanto estava na dianteira, com medo de falar demais. De 
qualquer modo, no era da conta de curtis onde o pai tinha passado a noite.
- est bem, ento vou tentar ligar para l - disse o detetive.
- eu tenho o nmero dela que no consta da lista.
- posso dar o recado para ele - ofereceu gavin.
- obrigado, mas preciso falar com ele pessoalmente. Gavin no gostou. Ser que 
curtis tinha de conversar pessoalmente com o pai dele sobre ele?
- alguma notcia de janey?
- infelizmente no. Falo com voc mais tarde, gavin.
O detetive desligou antes de gavin poder se despedir. Ele levantou, foi ao 
banheiro, depois espiou pela janela da frente da casa e viu que o carro da 
polcia ainda 
Estava l parado.
Ser que ele era a nica pessoa que compreendia a ironia de estar sendo 
protegido do valentino e ao mesmo tempo suspeitarem que valentino era ele?
Era cedo demais para sair da cama, por isso deitou de novo, mas descobriu que 
no conseguia dormir. At encontrarem janey, teria de ficar preso em casa. Podia 
resignar-se 
Com isso. Mas podia ser pior. Se no fosse o pai dele, talvez estivesse na 
cadeia.
Levando em conta que o pai o tinha pego em diversas mentiras e descoberto que 
era scio do clube do sexo, at que no estava sofrendo muito. A noite passada, 
com 
Seu pai e paris, no tinha sido nada m.
Quase teve medo de encontr-la depois de tantos anos. E se tivesse mudado e 
agisse como uma pessoa mais velha? Gavin teve medo de que paris usasse um 
penteado alto 
E cheio de laqu, jias demais, fosse efusiva e piegas, que no parasse mais de 
dizer que ele tinha crescido muito, que fizesse uma festa com ele como os 
parentes 
Da me sempre faziam nas reunies da famlia.
Mas paris foi legal, exatamente como a lembrana que tinha dela. Foi simptica, 
mas no exagerou como liz fazia. E tambm no agiu com superioridade. Mesmo 
antes 
Ela j o tratava de igual para igual, no como criana.
Jack sempre chamava gavin de comandante, ou patrulheiro, ou parceiro, algum nome 
bonitinho, e falava impetuosamente, como se ele fosse um beb que precisasse de 
Ateno. Jack era legal, mas, dos dois, gavin sempre preferiu paris.
Gostava mais de paris do que das namoradas do pai na poca. Lembrou que pensava 
que se jack no existisse, seria muito maneiro se o pai namorasse paris.
A me dele achava que isso acontecia.
 claro que nunca conversou com ele sobre isso, mas gavin ouviu quando ela uma 
vez disse para uma amiga que achava que dean tinha uma "queda" por paris gibson, 
e 
Que s namorava outras mulheres porque ela era namorada de jack donner.
Naquela poca, gavin era pequeno demais para entender tudo aquilo. No que se 
interessasse muito pelos relacionamentos dos
Adultos. Mas depois de ver como o pai estava ansioso para chegar  casa dela na 
vspera, como tinha se olhado no espelho retrovisor antes de descer do carro, 
achou 
Que talvez a me tivesse razo. Nunca tinha visto o pai olhando no espelho antes 
de conhecer liz.
At onde sua memria alcanava, os pais eram divorciados. Quando pequeno, ele 
foi compreendendo aos poucos que sua famlia no era como as outras nos 
comerciais 
Da televiso, em que papai e mame tomavam caf da manh juntos, passeavam na 
praia de mos dadas, viajavam no mesmo carro e at dormiam na mesma cama. Ele 
notou 
Que nas outras casas do quarteiro o papai estava presente o tempo todo.
Fez perguntas  me e ao pai, e depois que eles explicaram o significado do 
divrcio, gavin torceu ardentemente para os pais ficarem juntos de novo e morar 
na mesma 
Casa. Mas,  medida que ia ficando mais velho, passou a compreender e a aceitar 
que a reconciliao era uma possibilidade muito remota. Mas como era um garoto 
burro, 
Continuou a ter esperana.
Seu pai saa com muitas mulheres. Gavin esqueceu o nome de quase todas porque 
nenhuma durava muito tempo. Ouvia a me falando com a av sobre o "sabor do 
ms", e 
Sabia que ela se referia s namoradas do pai.
A me no saa tanto, por isso foi uma surpresa seu segundo casamento. Esse 
casamento destruiu toda a esperana que gavin tinha dos pais viverem juntos de 
novo, 
Por algum milagre. Foi ento que realmente se enfureceu e resolveu transformar a 
vida dela com o novo marido num inferno.
Relembrando, aquele tinha sido um comportamento idiota e infantil. Ele foi um 
completo babaca. Sua me devia amar o cara, seno no teria se casado com ele. 
Ela 
No amava mais seu pai. E gavin tinha ouvido a me dizer isso tambm para a av.
- sempre vou amar dean por ter me dado gavin - dizia ela -, mas tomamos a 
deciso certa de nos separar logo no incio.
Gavin compreendeu que o pai tambm no amava a me e que talvez nunca tivesse 
amado. Procurou imaginar os pais como um casal, e constatou que simplesmente no 
combinavam. 
Como duas peas de quebra-cabeas diferentes, eles no se encaixavam. No tinha 
funcionado antes e nunca funcionaria.
Aprenda a viver com isso, gavin, ele pensou.
A me agora estava feliz com o segundo casamento. Seu pai merecia ser feliz 
tambm. Mas gavin achava que liz no era a mulher que ia fazer seu pai feliz.
Ficou sonolento, divagando, mas, antes de adormecer completamente, ouviu a 
campainha da porta.
Meu deus! Por que todo mundo tinha inventado de acordar to cedo aquela manh?
Foi at l e destrancou a porta. Arrependeu-se de no ter espiado para ver quem 
tinha tocado. John rondeau estava parado na varanda.
Os olhos de gavin voaram para o carro de polcia parado na frente da casa. Foi 
um consolo ver que ainda estava l. Os policiais dentro do carro comiam sonhos. 
Sem 
Dvida, presente de rondeau.
- no se preocupe, gavin, seus protetores esto a postos. O agradvel tom de voz 
de rondeau no enganou gavin.
Nem um segundo. Seu rosto tinha parado de latejar, mas ainda doa e permaneceria 
roxo por alguns dias. Rondeau tinha pelo menos quinze quilos a mais que ele. J 
Sabia de antemo que o filho-da-puta era violento. Mas no ia se acovardar de 
jeito nenhum.
- no estou preocupado com nada - retrucou gavin. - muito menos com voc. O que 
quer?
- eu queria acrescentar uma coisinha ao que eu disse ontem.
- se meu pai descobrir que voc veio aqui, ele vai te arrebentar.
- por isso essa  uma boa hora, porque eu sei que ele no est em casa. - 
rondeau estava sorrindo, por isso, para qualquer pessoa que os visse, inclusive 
os policiais 
Lambendo o acar dos dedos, aquilo ia parecer um bate-papo de amigos. - se voc 
resolver contar para qualquer pessoa os meus...
- crimes.
O sorriso de rondeau s aumentou.
- eu ia dizer atos extracurriculares. Se algum ficar sabendo disso por voc, 
no virei atrs de voc.
- eu no tenho medo de voc. Rondeau ignorou gavin e continuou:
- esqueo voc e pego o seu velho.
- isso  uma piada? Porque  engraado pra caramba - gavin bufou com desprezo. - 
voc  um nerd de computador.
- estou tratando de sair daquela unidade e entrar no bci.
- no dou a mnima se promoverem voc a chefe de polcia, voc no tem culho 
pra enfrentar meu pai.
- eu no estava falando de atac-lo pessoalmente. Isso seria uma burrice porque 
ele estaria de sobreaviso. Mas que tal algum preso psictico que ele tivesse de 
entrevistar?
"malloy entra nas celas o tempo todo, voc sabe", ele continuou falando macio. 
"conversa com viciados, estupradores e manacos homicidas, tentando arrancar 
informaes 
Deles, manipulando os caras para obter confisses. E se um deles ficasse sabendo 
que o dr. Malloy estava dando em cima da mulher dele, bolinando ela enquanto o 
cara 
Est na priso?"
- isso est ficando mais engraado ainda.
- do mesmo jeito que ele enganou o amigo jack donner com paris gibson.
A prxima resposta desaforada de gavin morreu em seus lbios.
- quem disse?
- curtis foi um. E qualquer pessoa com um pouco de bom senso que saiba somar 
dois mais dois. O seu pai trepou com a noiva do melhor amigo dele, e por isso 
jack donner 
Tentou cometer suicdio.
- voc est inventando isso.
- se no acredita em mim, pergunta pra ele. - rondeau estalou a lngua no cu da 
boca. -  uma histria feia, no ? Mas alimenta qualquer boato que eu lance no 
Meio da populao carcerria, que o dr. Malloy, apesar de todas as suas tticas 
de amizade com os presos, no merece confiana, especialmente com mulheres 
solitrias 
E suscetveis.
"est entendendo a jogada, gavin? Policiais armam a morte de outros policiais o 
tempo todo. Ns somos humanos, voc sabe. Criamos inimigos no nosso meio. 
Acontece" 
Disse ele, dando de ombros. "ele no ia poder prever, mas morreria do mesmo 
jeito, e voc ficaria rfo do mesmo jeito.
O corao de gavin ficou apertado de medo.
- d o fora daqui - disse ele, abalado.
Sem demonstrar nenhuma pressa, rondeau se afastou da
Porta.
- tudo bem, vou embora agora. Mas recomendo seriamente que pense no que eu 
disse. Voc no  nada.  coc de cachorro no meu sapato, no vale o meu tempo, 
nem a 
Minha energia. Mas se voc me dedurar - disse ele, cutucando com fora o peito 
nu de gavin com o dedo indicador dobrado -, o malloy se ferra.
Paris abriu os olhos devagar, mas ao ver dean sentado na beira da cama, ergueu-
se de um pulo.
- o que aconteceu?
- nada de novo. Eu no queria assustar voc.
Paris ficou aliviada de saber que no havia nenhuma m notcia, mas seu corao 
continuava aos pulos com o susto que tinha levado e com o fato de dean estar 
sentado 
Na sua cama.
- que tal o sof? - perguntou ela, ainda sem ar.
- estreito.
- voc dormiu?
- um pouco. No muito. Trabalhei a maior parte do tempo, fiz algumas anotaes 
sobre o perfil de valentino.
Apesar de muito cansada, paris tinha demorado bastante para adormecer por saber 
que dean estava na sala ao lado. Aquilo ficou pairando no seu subconsciente e 
impediu 
Que tivesse um sono reparador.
- eu quero um caf.
Dean meneou a cabea, mas no se moveu, nem ela. O silncio foi se prolongando 
enquanto eles se olhavam, com uma estreita faixa de cama entre os dois.
- afinal, eu devia ter trancado a porta do meu quarto? Perguntou paris bem 
baixinho, quase sussurrando.
- definitivamente. Porque acontece que eu no consigo ficar sem tocar em voc.
Ele se debruou e paris chegou mais perto, mas logo antes do beijo, ela disse:
- liz...
- no  um fator.
- mas...
- confie em mim, paris.
Ela confiou e se entregou ao beijo, o beijo sfrego, possessivo e delicioso de 
dean. Paris ps as mos no rosto spero pela barba por fazer, inclinou a cabea 
para 
Modificar o ngulo dos lbios e facilitou uma intimidade maior. Dean empurrou o 
cobertor e o lenol que a cobriam, empurrou paris contra os travesseiros e 
deitou 
Ao lado dela.
Chegou para trs para v-la melhor, e examinou a camiseta e o short nada 
insinuantes que ela usava.
- pijaminha interessante.
- criado para incendiar.
- est funcionando - rosnou ele.
Paris explorou o rosto dele com as pontas dos dedos, alisou as sobrancelhas, a 
linha reta do nariz, depois seguiu a linha dos lbios e tocou na suave depresso 
na 
Ponta do queixo.
- o seu cabelo est mais grisalho - observou ela.
- o seu est mais curto.
- acho que ns dois mudamos.
- algumas coisas mudaram - ele olhou para os seios de paris e, quando os 
acariciou por cima da camiseta, os mamilos ficaram eretos. - isso no. Disso eu 
lembro.
Dean beijou paris novamente, s que com mais sofreguido do que antes. Espalmou 
a mo no traseiro dela e a ps sobre o pnis ereto que esticava a cala dele.
Uma corredeira de calor fluido se espalhou pela parte de baixo do corpo dela e 
chegou s coxas. Fazia anos desde que sentira aquele desejo imenso de ter um 
homem 
Dentro dela. Suspirou de alegria com essa sensao renovada, e gemeu de vontade 
de satisfazer esse desejo.
- ns esperamos muito - disse ele, e chegou s um pouco para trs para abrir o 
zper da cala. - demais.
Mas iam esperar ainda mais. O telefone tocou.
Ambos ficaram imveis. Eles se entreolharam e sabiam, sem ter de dizer nada um 
para o outro, que paris tinha de atender o telefone. Havia muita coisa em jogo. 
Dean 
Rolou de costas e xingou a tinta do teto.
Paris afastou o cabelo embaraado dos olhos e pegou o telefone sem fio na mesa-
de-cabeceira.
- al? - ela formou o nome de curtis com os lbios. - no... No, eu j estava 
acordada. Alguma novidade?
- de certa forma - disse o detetive bruscamente. - nada sobre valentino ou janey 
diretamente. Brad armstrong e marvin parterson ainda esto foragidos. Mas na 
verdade 
Estou ligando para falar com malloy. Soube que ele est a.
Paris respondeu com mais tranqilidade do que sentia:
- um momento. Vou cham-lo.
Ela cobriu o bocal e apontou o fone para dean. Ele olhou para ela com expresso 
de interrogao, mas paris ergueu os ombros.
- ele no disse.
Dean pegou o fone e deu um bom dia rspido para o detetive. Paris se levantou, 
foi para o banheiro e fechou a porta. Tomou uma chuveirada rpida e vestiu um 
roupo 
Antes de voltar para o quarto. Dean no estava mais l e o fone estava no 
aparelho.
Paris seguiu o barulho que vinha da cozinha. Dean estava pondo p de caf no 
filtro de papel. Ouviu paris chegar e olhou para trs.
- voc est cheirosa.
- o que o sargento curtis queria?
- o caf estar pronto daqui a um minuto.
- dean?
- gavin disse para ele que eu estava aqui. Ele ligou para a minha casa porque 
no conseguia falar comigo pelo celular. Quando fui ver a liz esta manh...
- voc foi ver a liz hoje de manh?
- quando amanheceu. Desliguei o celular e esqueci de ligar de novo. Por 
considerao a ela, no quis que uma ligao interrompesse o que eu tinha a 
dizer.
Paris no disse nada, mas sentiu a presso de uma dzia de perguntas que queria 
fazer. Dean tirou calmamente duas canecas do armrio e depois virou de frente 
para 
Ela.
- que era que no vou voltar a v-la. Paris engoliu em seco.
- ela ficou irritada?
- um pouco. Mas no surpresa. J estava sentindo.
-ah.
Dean deve ter lido a mente de paris, porque ele disse em voz baixa:
- no se culpe pelo rompimento, paris. Teria acontecido de qualquer jeito.
- e voc... Est bem?
- aliviado. Foi injusto com ela deixar isso durar tanto tempo.
A cafeteira gargarejou, avisando que o caf estava quase pronto e propondo um 
modo sutil de mudar de assunto. Paris foi at a geladeira e pegou uma caixa de 
leite 
Com creme.
- o que curtis queria?
- apenas informar a situao atual.
- do caso?
- no, do meu emprego na polcia de austin. Fui suspenso indefinidamente.


Captulo vinte e sete

- oi, me,  o lancy.
- meu deus, que horas so?
- quase nove.
- o que voc quer?
Na vspera, lancy tinha voltado para o estacionamento de trailers por um porto 
nos fundos e deixou o carro duas filas distante da passagem onde ficava o 
trailer da me. Arriscou-se a enfrentar ces latindo e vizinhos nervosos que 
adorariam uma chance de atirar primeiro e fazer perguntas depois, e se esgueirou 
pelas ruelas estreitas.
Aquele reconhecimento do terreno parecia um tanto melodramtico, mas acabou 
sendo uma precauo justa. Avistou o carro  paisana da polcia imediatamente. 
Estava 
Estacionado a uns trinta metros do love da me dele. Qualquer um dentro do sedan 
discreto teria uma viso indevassvel da porta da frente do trailer. Ainda bem 
que 
Tinha ido at l antes, para pegar suas economias.
Lancy havia ido sorrateiramente at o carro e voltado para austin porque no 
sabia mais aonde ir. Procurou um vizinho, que era to confivel como qualquer um 
dos 
Poucos conhecidos que tinha. Ele confirmou o que lancy j suspeitava. A polcia 
havia feito uma busca nas coisas dele.
- eu os vi saindo com caixas cheias de coisas - disse o vizinho. As fitas com os 
programas de paris gibson estavam naquelas
Caixas. Merda!
Lancy ignorou a pergunta que a me tinha feito.
- a polcia apareceu por aqui? - quis ele saber.
- um cara chamado curtis. De austin.
- o que voc disse para ele?
- nada - resmungou ela. - porque no sei de nada.
- ele vasculhou o trailer?
- mexeu nas coisas. Encontrou suas meias.
- ele levou as meias?
- para que ele ia querer suas meias sujas?
- v at a janela e olhe para o lado sul da rua.
- eu estou na cama - gemeu ela.
- por favor, me. Faa esse favor pra mim. Veja se tem um carro escuro 
estacionado no fim da rua.
Ela resmungou e xingou, mas o telefone fez barulho quando foi obviamente largado 
em cima da mesa-de-cabeceira. Lancy ficou esperando um tempo enorme. Ao voltar, 
Ela estava ofegante como uma gaita de foles.
- est l.
- obrigado, me. Falo com voc depois.
- no quero que nenhuma encrenca sua respingue em mim, lancy ray. Voc est me 
ouvindo, menino?
Lancy ps o gorduroso telefone pblico no gancho. Enfiou as mos nos bolsos, 
curvou os ombros e foi andando pela varanda do motel residencial. Sob a aba do 
bon 
De beisebol, seus olhos espreitavam furtivamente carros da polcia que esperava 
que aparecessem a qualquer momento, com o guincho de freadas e ordens para ele 
parar.
Depois que soube que no podia se esconder na casa da me, lancy voltou para o 
seu apartamento secreto para passar a noite l. Passou de carro pela frente uma 
vez. 
No havia nenhum carro da polcia do outro lado da rua, nem em qualquer outro 
lugar  vista.
Lancy entrou sem ser visto, mas aquele no era um refgio confortvel. Fedia. 
Era sujo. Fazia com que se sentisse sujo tambm.
Ficou acordado a noite toda, e foi uma noite bem longa.
- dessa vez voc est ferrado, fodido e mal-pago, lancy ray
- resmungou com seus botes quando destrancou a porta e mais uma vez entrou no 
covil mido e escuro de um homem procurado.
As brilhantes botas de vaqueiro de curtis estavam apoiadas na mesa, cruzadas nos 
tornozelos. Ele se concentrava no bico pontudo de uma delas quando um bloco de 
papel 
Aterrissou na mesa, a um centmetro do p dele. Virou-se e viu paris gibson. 
Apesar de usar seus culos escuros, curtis percebeu, pela linguagem corporal, 
que ela estava de pssimo humor.
- bom-dia - disse curtis.
- voc vai se submeter quele cretino egomanaco? Curtis tirou os ps da mesa e 
apontou-lhe uma cadeira. Paris
Recusou a oferta e continuou de p.
- aquele cretino  um poderoso juiz municipal.
- que tem a polcia toda no bolso.
- no fui eu que decidi suspender malloy. Nem poderia, se quisesse. Ele est 
acima de mim. Eu fui apenas o mensageiro.
- ento deixe-me refazer a frase - disse paris. - o juiz kemp tem toda a polcia 
covarde no bolso.
Resistindo ao insulto, curtis explicou o problema:
- o juiz foi direto ao topo com a reclamao dele. Depois que ele e a sra. Kemp 
ouviram voc falar sobre a filha deles no rdio a noite passada, ele explodiu. 
Foi 
O que me disseram. Telefonou para a casa do chefe, tirou-o da cama, exigiu que 
malloy fosse demitido por difamar a sua filha publicamente, arrastando o nome da 
famlia 
Na lama, e trocando os ps pelas mos numa situao familiar delicada, que devia 
ser tratada confidencialmente. Tambm citou conflito de interesses, j que gavin 
Malloy tinha sido trazido para c para ser interrogado.
- como ficou sabendo disso?
- ele tem informantes dentro do departamento. De qualquer forma, ameaou 
processar tudo e todo mundo se malloy no fosse afastado, no s do caso, mas da 
polcia 
De austin. O chefe no chegaria a esse ponto, mas concordou que a situao 
merecia uma suspenso temporria. S at a poeira baixar.
- s para agradar ao juiz.
Curtis concordou dando de ombros.
- recebi a ordem do chefe antes do sol nascer. Ele pediu - isto , ordenou - que 
eu notificasse malloy, j que tinha sido eu que o chamara para trabalhar no 
caso. 
Acho que esse foi o meu castigo.
- eu no falei nada, s elogiei janey a noite passada - argumentou paris. - na 
verdade, at fiz questo de nem mencionar sua m reputao, o clube na internet, 
nada 
Disso. Estvamos tentando humanizar janey para valentino, retrat-la como uma 
vtima indefesa que tem amigos e famlia que se importam com ela.
- mas os kemp queriam evitar qualquer publicidade, lembra? At a meno ao 
desaparecimento de janey. Por isso, quando voc divulgou no rdio, sob 
orientao do psiclogo 
Do departamento de polcia, e falou sobre ela, aquilo lhes pareceu uma afronta.
- dean me disse que voc achou a idia muito boa.
- eu admiti isso para o chefe.
- ento por que o juiz no exigiu que demitissem voc tambm?
- porque ele no quer brigar com o departamento inteiro. Ele sabe que tenho 
muitos amigos na polcia. Malloy no ficou tempo suficiente aqui para cultivar 
esse tipo 
De lealdade.
"alm do mais, o juiz queria se vingar de voc tambm. Voc e malloy foram at a 
casa dele mais ou menos como um time. Ele simplesmente no teve coragem de 
critic-la 
Publicamente, graas  sua popularidade. Pode significar pssimas relaes 
pblicas com os eleitores dizer qualquer coisa contra paris gibson."
- e dean sobrou como bode expiatrio - concluiu paris. A mdia j soube da 
suspenso dele?
- no tenho idia. Se isso se tornar pblico, pode apostar que kemp vai 
explorar.
Paris sentou, mas no porque estivesse satisfeita. Curtis sabia, pela sua 
expresso resoluta quando se inclinou para a frente e falou, olhando bem para 
ele:
- fale com o seu chefe e diga que eu insisto que ele revogue a suspenso de 
dean. Imediatamente. E tem mais, se essa histria sair no noticirio de hoje, 
estarei 
No rdio  noite falando sobre a mquina poltica que conduz essa polcia daqui.
"vou falar para o pblico sobre o suborno, os policiais que recebem propina em 
troca de no prender quem deve ser preso e sobre o descarado favoritismo da 
polcia 
Com os ricos e poderosos.
"em quatro horas, eu poderia fazer um estrago enorme, mais at do que o juiz 
kemp seria capaz. Apesar de toda aquela pose, duvido que alguns milhares de 
pessoas 
Tenham ouvido falar dele. Mas eu tenho essa quantidade de ouvintes fiis todas 
as noites. E agora, quem voc pensa que exerce mais influncia, sargento 
curtis?"
 o seu programa no  poltico. Voc nunca o usou como plataforma.
- mas hoje  noite eu vou fazer isso.
- e amanh wilkins crenshaw manda voc embora.
 o que me daria mais apoio e simpatia do pblico. Seria um incndio na mdia 
que eu alimentaria por semanas a fio. A polcia de austin teria muita 
dificuldade para 
Recuperar a confiana do pblico.
Curtis no podia enxergar direito os olhos dela atrs das lentes escuras, mas 
via o suficiente. Nem piscavam. Paris falava srio.
- se coubesse a mim decidir... - ele ergueu as mos, indefeso
- ... Mas o chefe pode no ceder.
- se ele se recusar, eu convoco uma coletiva de imprensa. E estarei na televiso 
ao meio-dia. "paris gibson faz declaraes em pblico." "vista na televiso pela 
Primeira vez em anos." "revelado o rosto por trs da voz." j posso at ouvir as 
chamadas agora.
Curtis tambm ouviu.
- a histria sobre malloy j pode ter vazado.
- ento o seu chefe vai divulgar para a imprensa que foi um enorme mal-
entendido, informao prestada precipitadamente por algum equivocado, et 
cetera.
- malloy mandou voc aqui para defender a causa dele? Paris nem se dignou a 
responder, e curtis no a recriminou
Por isso. Malloy nunca faria isso. Curtis s tinha dado aquele golpe baixo 
porque no tinha realmente nenhuma munio contra os argumentos dela.
- est bem, vou ver o que posso fazer.
- leve isso com voc - disse paris, empurrando o bloco de papel na direo dele.
- o que  isso?
- o trabalho que dean estava fazendo ontem  noite. Ficou acordado quase a noite 
inteira formando o perfil do seqestrador e estuprador de janey, enquanto o juiz 
Tramava desacreditlo e demiti-lo.
"deve ser uma leitura interessante. O seu chefe vai descobrir que o dr. Malloy 
faz um trabalho insubstituvel e que seria um erro notrio tir-lo desse caso.  
claro 
Que dean pode dizer para
Vocs todos irem  merda, e eu no o condenaria por isso. Mas vocs podem tentar 
convenc-lo a voltar."
- voc est muito segura da nossa aceitao.
- s estou segura de que as pessoas em geral ficam muito sbias quando se trata 
de salvar o prprio rabo.
- vou pensar nisso e depois falo com voc. - dean apertou o boto do celular e 
encerrou a ligao. - enquanto isso - disse ele, cerrando os dentes -, v se 
foder.
Dean notou a reao espantada de gavin com aquela linguagem e deu uma risadinha.
- a sua gerao no inventou essa frase, sabia? Estavam tomando um desjejum 
tardio numa lanchonete
Quando o chefe de polcia telefonou pessoalmente para anular a suspenso.
- hoje bem cedo ele estava pronto para me demitir - dean contou a gavin enquanto 
comia seu omelete. - agora sou uma pea valiosa para o departamento. Um 
excelente 
Psiclogo, alm de oficial da lei altamente treinado. Um cruzamento de sigmund 
freud com dick tracy.
- ele disse isso?
- foi quase to ridculo.
- se voc est voltando para o caso, o pai de janey no vai ficar puto?
- eu no sei como a polcia vai lidar com o juiz, e no dou a mnima.
- voc quer continuar trabalhando l?
- voc quer que eu continue? -eu?
- voc gosta daqui, gavin?
- e isso tem importncia?
- tem.
Gavin mexeu distrado seu copo de leite com um canudo de plstico.
- acho que gosto. Isto , no tem sido muito ruim morar aqui. Dean sabia que 
aquilo era o mais prximo de um voto positivo que ia receber.
- eu detestaria largar esse emprego antes de dar uma chance justa - admitiu 
dean. - acho que posso fazer muita coisa boa por aqui. Austin  um lugar 
movimentado. 
Gosto da cidade, da energia daqui. A msica  maravilhosa. A comida  boa. O 
clima  bom. Mas tambm gosto de ter voc morando comigo. Quero que voc 
continue aqui. 
Ento ser que podemos fazer um trato?
Gavin olhou para o pai com ar desconfiado.
- que tipo de trato?
- se eu der uma chance para esse emprego, voc d uma chance para o colgio? No 
quero dizer apenas assistir s aulas, gavin. Estou falando de realmente se 
aplicar, 
Fazer amigos, participar das atividades da escola. Voc ter de se esforar 
tanto nos estudos como eu vou me esforar no trabalho. Combinado?
- posso ter meu computador de volta?
- desde que eu tenha acesso a ele quando eu quiser. A partir de agora, vou 
monitorar o tempo que voc passa no computador e como usa. Esse ponto  
irredutvel. Outra 
Condio  que voc deve participar de alguma atividade ou esporte na escola. 
No me importo se jogar croqu, desde que no passe todo o tempo livre trancado 
no 
Seu quarto, ou apenas saindo com os amigos.
Gavin olhou de lado para dean e de volta para o prato.
- estava pensando em talvez jogar basquete.
Dean ficou satisfeito de ouvir aquilo, mas no quis ter uma reao exagerada e 
estragar tudo.
- temos um espao perfeito nos fundos da casa para pr uma cesta de basquete. 
Quer montar uma l para poder praticar?
 claro. Seria bom.
- ento est bem. Estamos nos entendendo. E quero que saiba que terminei com a 
liz.
Gavin levantou a cabea.
- terminou?
- hoje de manh cedo.
- isso foi meio de repente, no foi?
- na verdade andava pensando nisso j fazia algum tempo. Gavin comeou a brincar 
com o canudo de novo.
- no estava dando certo por minha causa? Porque agora moro com voc?
- foi porque eu no a amava tanto quanto devia.
- voc no queria cometer o mesmo erro duas vezes. Dean sofria com o fato do 
filho considerar um erro seu casamento com pat, embora estivesse certo.
- acho que pode ser isso sim. Gavin ficou pensativo por um tempo.
- paris teve alguma coisa a ver com isso?
- muita coisa.
- , foi o que pensei.
- tudo bem para voc?
- claro, ela  maneira. - gavin tirou o canudo do copo e comeou a dobr-lo e 
torc-lo. - voc dormiu com ela quando ela era noiva do jack?
- o qu?
- quer que eu' repita?
- essa  uma pergunta muito pessoal.
- quer dizer que dormiu.
- quero dizer que no vou discutir isso com voc.
Gavin se endireitou na cadeira e olhou para dean, ressentido.
- mas no tem problema voc se intrometer na minha vida sexual. Eu sou obrigado 
a contar o que eu fiz, e com quem eu fiz.
- eu sou seu pai e voc  menor de idade.
- mesmo assim, no  justo.
- justo ou no, voc... Merda! - disse dean quando seu celular tocou de novo.
Verificou quem era, viu o nmero de curtis e pensou em no atender. Mas gavin 
tinha se encolhido no canto do cubculo e espiava pela janela, de mau humor. De 
qualquer 
Maneira, a conversa seria um monlogo dali por diante.
Dean atendeu no quarto toque.
- malloy.
- voc falou com o chefe? - perguntou curtis.
- falei.
- vai continuar?
Apesar de j ter tomado a deciso, dean no via motivo nenhum para dar pulos por 
isso.
- estou pensando.
- quer fique ou no, preciso que venha at aqui.
- estou tomando caf da manh com o gavin.
- traga-o com voc.
O corao de dean saltou no peito.
- para qu? O que aconteceu?
- quanto mais cedo vocs vierem para c, melhor. Acabei de receber uma m 
notcia.
Curtis foi direto ao assunto:
- o seu amigo valentino atacou antes do prazo. O corpo de janey kemp foi 
encontrado meia hora atrs, no lago travis.
Ato reflexo, dean segurou a mo de paris e a apertou com fora. Tinha ficado 
surpreso ao v-la esperando no cubculo de curtis quando gavin e ele chegaram. 
Disse 
Que tinha sido chamada, como ele, sem explicao tambm.
Curtis apareceu alguns minutos depois. Pediu para gavin esperar um pouco numa 
das salas de interrogatrio, com outro detetive. Quando levavam seu filho 
embora, dean 
Teve um mau pressentimento. E, afinal, tinha razo.
- dois pescadores encontraram o corpo nu, parcialmente submerso sob as razes de 
um cipreste. Fui chamado imediatamente e corri para l. Apesar de no ter sido 
oficialmente 
Identificada,  ela.
"a unidade da cena do crime est vasculhando a rea. O mdico-legista est 
examinando o corpo, antes mesmo de removlo. Espera encontrar alguma coisa. Ela 
est muito 
Mal", disse ele com um suspiro profundo. "marcas no rosto, no pescoo, no torso 
e nas extremidades. Parecem marcas de mordidas..." ele olhou para paris. "em 
vrios 
Lugares."
- como foi que ela morreu? - perguntou dean.
- s vamos saber depois da autpsia. Mas o mdico-legista estimou que ela no 
ficou dentro d'gua mais do que seis ou sete horas. Deve ter sido posta l ontem 
 noite.
- se tivesse de dar um palpite...
- eu acho que seria estrangulamento, como a maddie robinson. As marcas no 
pescoo de janey combinam com as dela. Por outro lado, os dois casos podem no 
ter ligao.
- alguma violncia sexual?
- o mdico-legista tambm vai determinar isso. E mais uma vez, se eu tivesse de 
dar um palpite, eu diria que  muito provvel.
Ficaram em silncio por algum tempo, ento paris perguntou em voz baixa:
- os kemp foram avisados?
- foi por isso que cheguei mais tarde. Parei na casa deles. O juiz ainda estava 
furibundo com o fato do chefe ter voltado atrs, e pensou que eu tinha ido l 
para me desculpar. Quando contei para eles que tinham achado o corpo, a sra. 
Kemp ficou arrasada, mas no permitiu que o marido a consolasse.
"um ficou culpando o outro. Trocaram acusaes. Foi uma cena horrvel. Quando 
sa de l, eles ainda estavam aos berros. Vou encontr-los no necrotrio daqui a 
uma 
Hora para obter a identificao, e no estou achando isso nada bom."
Ele ficou com o olhar vidrado e depois disse:
- por mim, eles no venceriam um concurso de popularidade, mas tenho de admitir 
que senti pena. A nica filha, brutalizada e assassinada. Deus sabe o que ela 
passou antes de morrer. No pude deixar de pensar na minha filha, como me 
sentiria se algum fizesse isso com ela e depois a jogasse no lago para servir 
de comida para os peixes.
Dean viu com o canto do olho que paris apertava os dedos nos lbios como se 
quisesse conter a emoo  fora.
- por que voc queria ver o gavin? - perguntou ele.
- ele aceita passar por um detector de mentiras?
- hora errada para fazer piada, sargento.
- no estou brincando. No estamos mais atirando no escuro. Tenho uma menina 
morta. Preciso apertar os parafusos.
- no meu filho?
- ele foi uma das ltimas pessoas a v-la viva.
- fora a pessoa que a seqestrou e matou. Voc j verificou o libi de gavin?
- os amigos dele, voc quer dizer? J, falamos com alguns deles.
- e da?
- foram unnimes em confirmar que gavin estava com eles. Mas estavam bbados e 
drogados, por isso a memria ficou meio
Embaada. Nenhum conseguiu dizer com certeza a que horas ele chegou e a que 
horas foi embora.
- vocs s esto sujeitando gavin a isso porque ele  o nico suspeito 
disponvel - disse dean, zangado.
- infelizmente, voc tem razo - admitiu o detetive, com tristeza. - at agora 
no h sinal de lancy ray fisher, apesar de estarmos de olho no apartamento dele 
e 
Na casa da me. Mas surgiu uma coisa interessante na conta dele no banco. Alguns 
cheques sustados feitos para uma doreen gilliam, que  professora de teatro e 
oratria 
Do ensino mdio.
Curtis deu um olhar significativo para os dois.
- a srta. Gilliam - acrescentou ele - faz bico dando aulas particulares na casa 
dela. Lancy, tambm conhecido como marvin, andou tendo aulas de oratria e 
dico.
- aulas de oratria? - exclamou paris. - ele quase no falava. Curtis deu de 
ombros.
- para ajudar a disfarar a voz, quem sabe? - perguntou dean.
- foi isso que pensei - disse curtis.
- ele trabalhou para a companhia telefnica e devia ter o know-how para 
redirecionar as ligaes - raciocinou dean em voz alta. - e tem uma fixao em 
paris, seno 
Por que teria aquelas fitas?
-  uma das primeiras coisas que vou perguntar a ele quando for encontrado - 
disse curtis. - achar esse corpo torna tudo muito mais srio, por isso no 
usaremos 
Mais luvas de pelica. Com ningum. Eu no tive notcia de toni armstrong, por 
isso consegui um mandado de busca para a casa dela. E incumbi rondeau 
pessoalmente 
De entrar no computador de brad armstrong. Pelo que sei, ele pode muito bem ser 
o nosso homem. A mulher dele testemunhou que o viu dando em cima de uma 
adolescente.
"pedi ajuda ao xerife, aos texas rangers e  patrulha rodoviria do texas. Todo 
policial da cidade e da periferia est de olho em armstrong e em lancy ray 
fisher. 
De qualquer modo, no vamos apertar s o gavin."
- isso  para eu me sentir melhor? - perguntou dean. Meu filho sendo posto ao 
lado de um criminoso sexual e de um astro de filmes porn? E como no consegue 
encontr-los, 
Est exigindo que gavin passe pelo detector de mentiras?
- no estou exigindo, s pedindo. Paris ps a mo no brao de dean.
- talvez voc deva concordar com isso, dean. Isso vai livrlo da suspeita.
Dean queria acreditar que o resultado seria esse. Mas gavin estava escondendo 
alguma coisa. Era apenas uma intuio, mas suficientemente forte para deix-lo 
com 
Medo do segredo que o filho guardava.
Curtis franziu a testa olhando para a pasta sobre a mesa, que dean achava que 
continha fotos da cena do crime, do corpo de janey kemp.
- a prova que temos do gavin  circunstancial. Nada de concreto. Voc tem o 
direito de recusar o teste.
Curtis olhou para dean, e dean reconheceu o desafio que o detetive apresentava.
- ah, foda-se. Gavin vai fazer o teste.


Captulo vinte e oito
- paris,  o stan.
- stan?
- voc parece surpresa. Voc me deu o nmero do seu celular meses atrs, lembra?
- mas voc nunca ligou.
- voc disse que era para um caso de emergncia. Eu acabei de saber da janey 
kemp no noticirio. Liguei para saber se voc est bem.
- nem d para explicar. Estou pssima.
- onde voc est?
- na delegacia, no centro.
- aposto que isso a est a maior confuso. O corpo tinha alguma pista de quem 
fez isso?
- odeio decepcion-lo, stan, mas o nico detalhe srdido que sei  que ela est 
morta.
- voc pretende fazer seu programa hoje  noite?
- e por que no faria?
- o gerente-geral contou para o tio wilkins que encontraram o corpo. Eles 
conversaram e acharam que, depois de tudo que aconteceu, talvez fosse melhor 
voc tirar 
Essa noite de folga e rodar uma gravao de um programa antigo.
- eu ligo para o gerente mais tarde e falo com ele. Mas, se algum perguntar, 
diga que farei o programa ao vivo como sempre. Valentino no vai me assustar.
- ele fez o que disse que ia fazer, paris. Voc acha que ele vai ligar de novo?
- espero que sim. Quanto mais ele falar comigo, mais chance ns teremos de 
identific-lo.
- pena que no o pegaram antes dele matar a menina. - depois de uma pausa, ele 
continuou: - acho que no devia ter lembrado
Disso, no ? Tenho certeza de que voc j est se sentindo bem mal por ter sido 
o gatilho inicial dele.
- eu tenho de desligar, stan.
- voc est zangada? Parece zangada.
- eu s no quero mais falar disso agora, est bem? Vejo voc  noite.
Paris desligou o celular. Stan queria que ela falasse mais porque assim ocupava 
o telefone dele mais tempo. Se o tio continuasse ouvindo o sinal de ocupado, 
talvez 
Cansasse e desistisse de ligar para ele.
Desde que ficara sabendo que tinham encontrado o corpo de janey kemp, o tio 
wilkins telefonava periodicamente. Fingia estar preocupado com o envolvimento da 
estao, 
Mas stan sabia o motivo das ligaes freqentes. Tio wilkins queria controlar o 
sobrinho.
Jamais devia ter admitido que sentia atrao por paris. Era como se o tio s 
tivesse ouvido aquilo na reunio deles. Referia-se a isso desde aquele dia.
Na ltima conversa que tiveram ao telefone, wilkins tinha dito, com voz quase 
ameaadora:
- se voc fez qualquer coisa perversa, ou que no devia...
- eu tenho sido um coroinha quando estou perto dela. Juro por deus.
Como poderia se comportar de outra maneira com paris? Ela no era grossa, mas 
jamais parecia especialmente feliz quando o via. s vezes, mesmo quando 
conversava 
Com ele, parecia preocupada, como se pensasse em algo mais importante, ou mais 
interessante do que ele.
Stan tinha certeza de que se desse em cima dela paris o cortaria sumariamente. 
Ela jamais deu chance, nem do menor flerte. Na verdade, ela muitas vezes via 
atravs 
Dele, como se stan no estivesse l. Igual aos pais dele, paris o tratava com 
uma desateno casual que doa como uma rejeio direta. Ele era sempre uma 
lembrana 
Tardia.
Sua chance de ter um romance com paris sempre foi remota. Mas ficou 
completamente pulverizada quando dean malloy entrou na histria. Malloy era um 
filho-da-puta 
Arrogante, todo seguro de si e do charme com o sexo oposto. Ele jamais teria de 
obrigar uma secretria a levantar a saia, ou elogiar uma mulher para lev-la 
para a cama.
Era um fato na vida, que as coisas eram mais fceis para homens como malloy.
Outro fato da vida era que mulheres como paris sentiam atrao por homens assim.
Pessoas como paris e malloy no tinham idia do que era ser rejeitado. Jamais 
passaria pela cabea deles que amor e afeto no aconteciam com facilidade para 
os outros 
Como ocorria com eles. Brilhavam como pequenos planetas iluminados, sem a menor 
noo do que era ser algum que s podia girar em volta deles. No tinham idia 
de 
At que ponto algum podia chegar para conseguir a adorao que para eles era 
normal.
No tinham idia.
A cabea de gavin estava to baixa que o queixo quase encostava no peito.
- no lago?
- o corpo dela est sendo transportado para o necrotrio, onde ser autopsiado 
para determinar a causa da morte.
Gavin levantou a cabea. A notcia da morte de janey fez o menino empalidecer. 
Ele engolia com dificuldade.
- pai, eu... Voc tem de acreditar em mim. Eu no fiz isso.
- eu acredito. Mas tambm acredito com a mesma convico que voc est 
escondendo alguma coisa de mim.
Gavin balanou a cabea.
- seja o que for, no acha melhor me contar, em vez de vir  tona durante o 
teste com o detector de mentiras? O que voc no quer que eu saiba?
- nada.
- voc est mentindo, gavin. Eu sei que est.
O menino se levantou, com os punhos cerrados.
- voc no tem o direito de acusar algum de estar mentindo. Voc  o maior 
mentiroso que conheo.
- do que voc est falando? Quando foi que eu menti para voc?
- a minha vida toda!
Desanimado, dean reparou nas lgrimas aflorando nos olhos do filho. Furioso, 
gavin secou-as com as mos fechadas.
- voc. A mame. Sempre dizendo que me amavam. Mas eu  que sei.
- por que est dizendo isso, gavin? Por que pensa que ns no amamos voc?
- vocs no me queriam - gritou ele. - voc a engravidou acidentalmente, no 
foi? E foi por isso que vocs se casaram. Por que no se livraram logo de mim e 
evitaram 
Esse problema todo?
Dean e pat nunca discutiram especificamente quanto contariam para gavin, se ele 
um dia fizesse essa pergunta. Talvez devessem ter conversado sobre isso. Ela no 
Estava l para dean poder consult-la, por isso tinha de responder sozinho s 
perguntas sofridas do filho. Apesar do constrangimento que poderia ser para pat, 
e 
Para ele tambm, dean resolveu que gavin merecia saber toda a verdade.
- vou contar tudo que voc quiser saber, mas s quando voc sentar e parar de 
olhar para mim como se quisesse me estrangular.
Gavin enfrentou a indeciso alguns segundos, depois caiu sentado na cadeira. 
Continuou com a expresso beligerante.
- voc tem razo. Sua me estava grvida quando nos casamos. Voc foi concebido 
numa festa da fraternidade, num fim de semana, em nova orleans.
Gavin deu uma risada amarga.
- caramba.  pior ainda do que pensei. Vocs pelo menos eram namorados?
- ns tnhamos sado algumas vezes.
- mas ela no era algum que voc... Algum especial.
- no - admitiu dean em voz baixa.
- ento eu fui um erro.
- gavin...
- por que vocs no usaram alguma coisa? Estavam bbados ou foi s burrice?
- um pouco dos dois, eu acho. A sua me no tomava plula. Eu devia ter sido 
mais responsvel.
- aposto que se cagou de medo quando ela contou.
- admito que foi um choque. Para a sua me e para mim tambm. Ela ia se formar e 
iniciar a carreira dela. Eu estava comeando na faculdade. A gravidez foi uma 
complicao 
Com a qual no contvamos naquele momento das nossas vidas. Mas... E quero que 
acredite nisso, gavin... Ningum pensou em aborto.
Dean percebeu, pela expresso do filho, que ele queria desesperadamente 
acreditar nisso, mas ainda tinha dificuldade de aceitar. Dean no podia culp-
lo. Talvez 
Pat e ele tivessem errado no conversando sobre isso com gavin quando j tinha 
idade suficiente para entender como as mulheres ficam grvidas. Se tivessem 
explicado 
Para ele, no teria aquela insegurana toda quanto ao prprio valor e no 
guardaria tanto ressentimento contra eles.
- e adoo tambm no foi cogitada. Desde o incio, pat planejava ter voc e 
ficar com voc. Graas a deus, ela me fez o favor de dizer que eu era o pai. E 
quando 
Ela disse, fiz questo de que voc tivesse o meu nome. Eu queria participar da 
sua vida. Nenhum de ns queria casar com o outro, mas eu queria que voc fosse 
legalmente 
Meu. Ela finalmente concordou em ir adiante com a cerimnia.
"ns no nos amvamos, gavin. Gostaria de poder lhe dizer o contrrio, mas no 
seria verdade, e voc pediu a verdade, e acho que merece ouvir. Ns gostvamos 
um 
Do outro. ramos bons amigos e nos respeitvamos. Mas no nos amvamos.
"s que ns amamos voc. Quando segurei voc pela primeira vez, fiquei 
completamente deslumbrado e eufrico. Sua me tambm. Ns moramos juntos at 
voc nascer.
"durante esse perodo, procuramos nos convencer de que o amor acabaria 
desabrochando e que amos descobrir que queramos ficar juntos o resto da vida. 
Mas isso no 
Ia acontecer, e ns dois sabamos.
"choramos no dia em que finalmente concordamos que ficar juntos s ia trazer 
infelicidade para trs pessoas e adiar o inevitvel. Era melhor nos separarmos 
logo, 
Antes de voc guardar qualquer lembrana e no deixar para mais tarde. Por isso, 
quando voc tinha trs meses, ela pediu o divrcio."
Dean abriu as mos.
-  isso, gavin. Acho que seria bom voc conversar com sua me tambm.  
compreensvel ela no querer que voc soubesse,
Porque no queria que voc a condenasse. E eu tambm no quero isso. Ela no era 
uma garota de programa que ia para a cama com todos os caras na faculdade. 
Aquele 
Fim de semana foi a ltima festa da fraternidade para ns, porque amos nos 
formar logo. Ficamos embalados e loucos, e... Aconteceu.
"sua me sacrificou muita coisa para criar voc sozinha. Eu sei que voc est 
aborrecido com ela por ter se casado de novo agora, mas isso  muito ruim. Pat 
no 
 apenas sua me, ela  uma mulher. E se voc anda alimentando algum medo 
infantil, de que o marido dela vai substituir voc na vida dela, est muito 
enganado. Pode 
Acreditar em mim, ele no poderia. Ningum poderia."
- eu no penso isso - disse ele, falando com a cabea baixa.
- no sou idiota. Eu sei que ela precisa de amor e tudo isso.
- ento talvez deva parar com esse mau humor e dizer para ela que voc 
compreende.
Gavin sacudiu os ombros, sem se comprometer.
- eu s queria que vocs me contassem, voc sabe, antes. Eu j sabia de qualquer 
maneira.
- bem, se voc j sabia mesmo, e no fez nenhuma diferena significativa na sua 
vida, ento por que est usando como desculpa agora?
Gavin levantou a cabea de estalo.
- desculpa?
- casamentos duradouros nem sempre resultam em lares felizes, gavin. Muitas 
crianas que moram com pai e me tm uma infncia bem pior que a sua, e pode 
acreditar, 
Isso eu sei.
"voc est usando a sua concepo acidental como desculpa para se comportar como 
um idiota. Isso  uma fuga covarde. Sua me e eu somos seres humanos. ramos 
jovens 
E descuidados, e cometemos um erro. Mas j no  hora de voc parar de se 
aborrecer com o nosso erro e comear a aceitar a responsabilidade pelos seus 
erros?"
O rosto de gavin ficou vermelho de raiva. Ele respirava ruidosamente pelo nariz. 
Mas as lgrimas afloraram de novo nos olhos dele.
- eu te amo, gavin. De todo corao. Sou muito grato ao erro que sua me e eu 
cometemos aquela noite. Eu morreria por voc. Mas me recuso a deixar que voc 
use as circunstncias que cercaram seu nascimento para me distrair do que  mais 
imperativo e, neste momento, consideravelmente mais crtico.
Dean chegou a cadeira mais perto da cadeira de gavin e ps a mo com firmeza no 
ombro dele.
- eu conversei francamente com voc, de homem para homem. Agora quero que voc 
tenha uma atitude de homem e conte o que anda escondendo.
- no  nada.
- besteira. Tem alguma coisa que voc no quer me dizer.
- no tem no.
- voc est mentindo.
- larga do meu p, pai!
- s quando voc me contar.
As feies de gavin refletiam o turbilho que havia dentro dele, a luta contra o 
medo e possivelmente sua conscincia. Finalmente, ele deixou escapar:
- tudo bem, voc quer saber? Eu estive no carro da janey com ela aquela noite.
Paris olhou para o seu relgio. Estava esperando do lado de fora do bci h mais 
de uma hora. O advogado de dean, que reconheceu por ter visto no dia anterior, 
tinha 
Chegado. Ele desapareceu pela porta e entrou na delegacia. Fora isso, paris no 
sabia o que estava acontecendo. No sabia se tinham comeado o teste de gavin no 
Detector de mentiras ou no.
A falta de sono comeava a pesar. Paris encostou a cabea na parede atrs do 
banco e fechou os olhos, mas mesmo assim no deu para descansar. Sua cabea 
estava cheia 
De pensamentos sombrios. Janey kemp estava morta. Um indivduo doente e 
pervertido a tinha matado, mas paris sentia que em parte era responsvel.
E stan tinha lembrado, completamente sem tato, que a motivao de valentino 
tinha sido o conselho que ela dera para janey. Se no tivesse posto no ar a 
ligao de 
Janey aquela noite, valentino no teria ouvido.
Mas, tragicamente, a ligao foi ao ar. Depois que ele anunciou a ameaa de 
matar janey, o que ela, paris, podia fazer de
Diferente? O que podia ter dito para impedir que ele desse aquele ltimo passo e 
matasse a menina?
- srta. Gibson?
Paris abriu os olhos. E viu na sua frente uma mulher minhon, obviamente aflita. 
O rosto dela, apesar de bonito, estava retesado. Segurava a bolsa com uma fora 
enorme. 
A pele estava to esticada nas articulaes dos dedos que pareciam ossos 
expostos. A angstia a reduzira de refinada a frgil. Mantinha um ar de bravura, 
mas parecia 
Forte e firme como uma pluma.
Paris procurou imediatamente abrandar a apreenso dela com um sorriso.
- sim, sou paris.
- achei que devia ser. Posso sentar com voc?
- claro que sim. - paris fez lugar para ela no banco, e a mulher sentou. - 
desculpe, mas... Ns j nos conhecemos?
- o meu nome  toni armstrong. Sra. Bradley armstrong. Paris reconheceu o nome, 
 claro, e entendeu na mesma hora
Por que a mulher estava perturbada.
- ento sei por que est aqui, sra. Armstrong. Isso deve ser difcil demais para 
voc. Gostaria que nos conhecssemos em circunstncias mais agradveis.
- obrigada.
Ela se agarrava por um fio  serenidade, mas mantinha a pose, e isso mereceu o 
respeito de paris.
- quando a polcia deu busca na nossa casa, eles no viram isso. - toni tirou um 
cd da bolsa. - j que confiscaram o computador de brad, achei melhor entregar 
isso 
Tambm. Pode ter alguma coisa importante.
Paris ficou meio confusa e franziu a testa.
- sra. Armstrong, como foi que me reconheceu?
Mesmo com toda a cobertura que a histria do desaparecimento de janey havia 
provocado no noticirio, a imagem de paris tinha ficado de fora. Wilkins 
crenshaw tinha 
Pessoalmente intervindo e pressionado a mdia local para no utilizar a 
fotografia dela. Paris no alimentava iluses. Ele no se preocupava com ela. 
Queria proteger 
A reputao da estao de rdio. Em todo caso, a mdia local concordou em fazer 
essa cortesia profissional. Mas paris no sabia quanto tempo aquela generosidade 
ia durar.
Toni armstrong umedeceu os lbios, nervosa, e abaixou a cabea.
- esse cd do computador de brad foi apenas uma desculpa para procurar o sargento 
curtis. O verdadeiro motivo  que no contei tudo para ele ontem.
Paris no disse nada e o silncio dela incentivou toni armstrong a continuar:
- o sargento curtis perguntou para mim se brad ouvia rdio de madrugada. Eu 
disse que sim, s vezes. Ele perguntou outra coisa e no voltou mais a esse 
assunto. 
O seu nome no foi mencionado, por isso eu no informei que ns... Brad e eu... 
Conhecamos voc de houston.
Os olhos dela imploravam, como se quisessem que paris lembrasse e ela no 
tivesse de contar a situao na qual as duas se conheceram.
- desculpe, sra. Armstrong, mas no me lembro de t-la visto antes.
- na verdade, voc e eu nunca nos vimos. Voc era paciente do dr. Louis baker.
Subitamente, a memria de paris foi ativada. Como poderia no se lembrar do nome 
dele?  claro que armstrong era um nome comum. E nem curtis, nem dean, tinham 
mencionado 
Que o suspeito brad armstrong era dentista.
- o seu marido  dentista? Aquele dentista? Toni armstrong fez que sim com a 
cabea. Paris inalou rapidamente entre os dentes.
- eu sinto muito.
- voc no me deve desculpas. O que aconteceu no foi culpa sua. Eu no a culpo 
de nada. Voc fez o que tinha de fazer. Mas brad no pensava assim,  claro. Ele 
disse que voc... Que voc havia flertado com ele, dado em cima dele - ela 
sorriu com tristeza. - ele sempre diz isso. Mas eu nunca pensei, nem por um 
momento, que 
Voc o tivesse encorajado a fazer o que fez.
Paris tinha ido consultar o dr. Louis baker para fazer um tratamento dentrio, 
mas quando chegou na clnica, informaram que o dentista tinha sido chamado para 
atender uma emergncia na famlia. A opo que paris tinha era marcar a consulta 
para outro dia ou deixar que um dos scios dele a tratasse. A consulta j tinha 
sido adiada duas vezes, ela j estava l, por isso resolveu ver o outro 
dentista.
Lembrava que brad armstrong era um homem bonito e bem cativante. Como paris ia 
tratar de mais de um problema, e alguns podiam doer, ele sugeriu usar xido 
nitroso 
Para ajudar a relaxar.
Paris concordou, pois sabia que o "gs hilariante" no tinha efeito duradouro 
quando a pessoa parava de respir-lo, e que era seguro quando administrado num 
ambiente 
Hospitalar. Alm do mais, se precisasse de uma injeo de anestsico, preferia 
no saber quando viria.
E logo se sentiu completamente relaxada e despreocupada, como se flutuasse no 
ar. No incio, pensou que havia apenas imaginado que algum tocava nos seus 
seios. 
As carcias eram levssimas. Certamente devia ser apenas uma sensao fsica 
falsa, provocada pelo estado de euforia.
Mas quando aconteceu uma segunda vez, a presso foi claramente mais forte e 
aplicada diretamente ao mamilo. No havia engano nenhum. Paris abriu os olhos, 
sacudiu 
A cabea para afastar a letargia e tirou a pequena mscara que cobria seu nariz. 
Brad armstrong sorriu para ela e o ar malicioso daquele sorriso convenceu paris 
De que no tinha imaginado nada.
- o que voc pensa que est fazendo?
- no finja que no gostou - sussurrou ele. - seu mamilo ainda est duro.
Mesmo reclinada na cadeira do jeito que estava, paris levantou de um pulo e 
derrubou com estardalhao uma bandeja de metal com instrumentos no cho. Uma 
assistente 
Que o dentista tinha afastado, com o pretexto de fazer algum favor para ele, 
voltou correndo para a sala de consulta.
- srta. Gibson, o que houve?
- pea para o dr. Baker telefonar para mim quando puder disse paris para ela e 
saiu furiosa.
O dentista telefonou para ela no fim daquele dia, preocupado. Paris contou o que 
tinha acontecido. Quando terminou de contar sua histria, ele disse, 
constrangido:
- tenho vergonha de dizer que pensei que a outra mulher estava mentindo.
- ele j fez isso antes?
- posso garantir, srta. Gibson, que essa ser a ltima vez. Por , aceite o meu 
sincero pedido de desculpa. Cuidarei disso
Imediatamente.
O dr. Armstrong foi mandado embora. Dias depois, paris ainda estremecia de nojo 
toda vez que lembrava do incidente, mas acabou esquecendo. E no tinha mais 
pensado 
Naquilo at aquele momento.
- seu marido deve ter me culpado por ter sido demitido.
- sim. Apesar de ter sido mandado embora de outras clnicas devido a incidentes 
semelhantes, ele sempre teve uma antipatia por voc. Enquanto ainda estava em 
houston, 
Ele desligava a televiso toda vez que voc aparecia. Chamava voc de nomes 
horrveis. E quando seu noivo se acidentou, ele disse que voc merecia.
- ele soube do jack, do acidente?
- e do dr. Malloy. Ele achava que era um tringulo amoroso.
- oh - exclamou paris em voz baixa.
- quando nos mudamos para c e brad descobriu que voc tinha aquele programa no 
rdio, o ressentimento dele se inflamou de novo - a sra. Armstrong abaixou a 
cabea 
E torceu as alas da bolsa. - eu devia ter contado isso ontem para o sargento 
curtis, mas fiquei com muito medo da polcia achar que brad estava envolvido 
nesse 
Caso da menina desaparecida.
- ela no est mais desaparecida.
Paris contou que tinham encontrado o corpo de janey kemp, e toni armstrong 
finalmente perdeu sua corajosa batalha contra as lgrimas.


Captulo vinte e nove

Toda vez que john rondeau cruzava o caminho de dean malloy, fazia de tudo para 
ser simptico. Malloy, entretanto, o tratava com evidente animosidade. Curtis 
havia 
Notado. Rondeau tinha ouvido o sargento perguntar para malloy qual era o 
problema. Malloy tinha respondido com um "nada" mal-humorado e curtis no 
insistiu mais.
No que dizia respeito a rondeau, malloy podia fazer cara feia para ele at no 
poder mais. Era curtis que queria vaselinar, no malloy. O psiclogo tinha a 
patente 
Mais alta, mas era curtis que ia indic-lo para o bureau central de 
investigaes.
E quanto ao garoto do malloy, estava bem do jeito que ele queria, se borrando de 
medo. O resultado do detector de mentira tinha sido a favor dele, e basicamente 
O tinha livrado das suspeitas. Ento, as pessoas podiam pensar, por que ele 
andava to nervoso?
Gavin estava sentado numa cadeira perto da mesa de curtis, com os ombros 
curvados, numa pose de autodefesa. Muito nervoso, no conseguia ficar quieto. 
Seus olhos 
Dardejavam para todos os lados, aflitos. Parecia que ia se desintegrar se algum 
gritasse "bu!".
S rondeau sabia por que o menino ainda parecia to assustado, e no ia contar 
para ningum. Nem o gavin. Rondeau tinha certeza de que o garoto ficaria de bico 
fechado. 
Estava suficientemente apavorado para no dedur-lo. Tinha sido brilhante 
ameaar o pai e no ele. Funcionou muito bem.
O cubculo de curtis estava congestionado, pois tinham se reunido ali para 
discutir o caso. Curtis estava l,  claro. Malloy. Gavin. E paris gibson.
Rondeau aproveitava qualquer oportunidade que tinha para ficar perto dela, 
apesar de ser difcil paris not-lo, com malloy
Batendo o p e repetindo ad nauseam que temia que ela fosse a prxima na lista 
de afazeres de valentino.
Rondeau tinha se deparado por acaso com aquela reunio quando entrou para 
informar curtis do que havia encontrado no cd que a sra. Armstrong tinha 
entregue a paris. 
No era nada sensacional, mas rondeau aproveitava ao mximo qualquer 
oportunidade de impressionar curtis e aumentar suas chances de entrar para o 
bci.
Paris - inocentemente,  claro - roubou o show antes de rondeau chegar. O que 
toni armstrong no tinha contado para ele enquanto dava busca na casa ela 
revelou para 
Paris - que o marido dela era o dentista que tinha passado a mo em paris numa 
consulta.
Se a sra. Armstrong tivesse contado isso para ele, e ele contasse para curtis, 
teria marcado um ponto e tanto. S que no foi assim e ia ter de marcar aquele 
ponto 
De outra maneira.
- tenho um pressentimento ruim com esse cara - disse o sargento curtis a 
respeito do dentista. - ele j entrou em contato com a mulher dele hoje? - 
perguntou para 
Paris.
- ela disse que no. E que todas as tentativas para encontrlo foram inteis.
- se ele telefonasse para ela do celular dele, poderamos localiz-lo via 
satlite - observou malloy.
- tenho certeza de que foi por isso que ele no telefonou disse rondeau, 
querendo fazer malloy parecer bobo.
Seu pescoo ainda doa por causa do aperto que malloy tinha dado no dia 
anterior. Malloy e ele jamais seriam amigos, mas rondeau no considerava isso 
uma grande 
Perda.
- voc verificou os registros das ligaes telefnicas dele? Perguntou malloy.
- estamos trabalhando nisso - respondeu curtis. - vai ficar muito ruim para ele 
se fez muitas ligaes para a estao de rdio. - curtis virou para paris. - a 
sra. 
Armstrong no reconheceu a voz dele nas fitas?
- ela est escutando as fitas de novo, mas no sei se a informao que ela pode 
dar ser muito confivel. Ela est muito abalada. Quando contei sobre a janey, 
ela 
Teve uma crise emocional que acho que j cozinhava em banho-maria havia dias.
- voc reconheceria brad armstrong se o visse? Paris franziu a testa.
- acho que no. O incidente foi h muito tempo. Eu o vi apenas aquela vez e 
estava chapada de xido nitroso.
- ser que uma fotografia ajudaria? - perguntou rondeau, cutucando malloy para 
um lado e se enfiando no meio do cubculo.
- talvez - disse paris.
Rondeau apresentou o cd que toni armstrong tinha levado da casa dela e dado para 
paris.
- aparentemente brad armstrong escaneava fotos e gravava em cds. Os que 
encontramos durante a busca tinham fotos pornogrficas tiradas de revistas.
"mas esse ltimo tem fotos da famlia. Eu trouxe de volta para devolver para a 
sra. Armstrong, mas agora pode ser til. Talvez desperte a sua memria, paris."
- no far mal dar uma olhada - disse curtis.
Ele ligou o computador na mesa dele e se afastou para rondeau poder sentar. O 
policial percebeu que paris se aproximou por trs para ver melhor a tela do 
monitor. 
Sentiu uma lufada de um cheiro de limpeza, como o de xampu.
Rondeau digitou algumas teclas e em poucos segundos uma fotografia preencheu a 
tela. A famlia de cinco pessoas posava diante de uma atrao num parque 
temtico. 
Pais e filhos usavam roupas americanas, davam sorrisos americanos, viviam o 
sonho americano.
Rondeau virou para paris.
- parece familiar?
Paris estudou o homem da fotografia algum tempo.
- sinceramente, no. Se o visse no meio de uma multido, no o reconheceria 
imediatamente como o homem que passou a mo em mim. Foi h muito tempo.
- tem certeza de que no o viu recentemente? - perguntou malloy. - se ele tinha 
tanta raiva de voc como a sra. Armstrong contou, podia estar seguindo voc.
- se o vi, no me dei conta.
Curtis, que continuava a examinar a fotografia da famlia armstrong, disse:
Gostaria de saber quem tirou a foto.
- deve ter sido ele - disse rondeau. - um cara que tem um scanner e faz um lbum 
de fotos num cd...
- estaria familiarizado com cmeras. - curtis terminou a frase para ele e virou 
para gavin. - janey disse que o novo namorado tinha tirado aquela foto dela, 
correto?
O garoto se encolheu com a ateno de todos voltada para ele. Seu joelho 
esquerdo executava uma imitao de britadeira.
- sim, senhor. Quando ela me deu a foto, disse que ele tinha tirado aquela e um 
monte de outras. Disse que ele gostava de tirar fotos quase tanto quanto de 
fazer 
Sexo.
- no me lembro de terem encontrado nenhum equipamento fotogrfico quando deram 
busca na casa deles - disse rondeau.
- mas ele deve ter a aparelhagem, seno no teria essas fotos da famlia. 
Algumas foram tiradas com lentes grandes angulares ou teleobjetivas.
- o laboratrio j descobriu alguma coisa naquela foto que janey deu para o 
gavin? - perguntou malloy.
Aborrecido, curtis balanou a cabea.
- as nicas impresses nela eram de gavin e de janey.
- sargento curtis? - griggs enfiou a cabea na abertura da porta e interrompeu a 
conversa.
- um minuto - disse o detetive.
- e os fornecedores locais de material fotogrfico? - perguntou malloy.
- ainda esto investigando - disse curtis. - verificar todos os clientes  um 
processo muito demorado.
- no d para imaginar que tanta gente assim tenha um quarto escuro em casa - 
disse malloy.
- clientes de encomenda postal. Pedidos por fax. Pessoas que compram pela 
internet.  um trabalho.
Griggs interrompeu outra vez:
- sargento curtis, isso  importante.
Mas a cabea de curtis se movia numa nica direo. Dirigiu-se aos detetives que 
se amontoavam do lado de fora de seu cubculo. Alguns no trabalhavam com casos 
De homicdio, mas curtis tinha pedido para todos os membros da unidade colaborar 
e dedicar seu tempo a isso se pudessem.
- algum verifique se h um quarto escuro na casa de brad armstrong. Garagem, 
sto, quartinho de ferramentas, banheiro extra. No me importo se for 
rudimentar.
Um dos detetives se afastou do grupo s pressas.
- precisamos dos registros das ligaes telefnicas de brad armstrong o mais 
rpido possvel. Descubram por que est demorando tanto.
Outro detetive saiu correndo para cumprir essa tarefa.
- imprimam o retrato dele - sem os membros da famlia, s ele. Mandem para todas 
as emissoras de televiso a tempo para entrar no primeiro noticirio da noite. 
Ele 
 procurado para interrogatrio, entenderam? Para ser interrogado - ele 
enfatizou para o detetive que pegou o cd que rondeau, muito solcito, tirou do 
computador 
De curtis.
"distribuam tambm para os investigadores que esto verificando aqueles 
fornecedores de material fotogrfico", gritou curtis para alm dos cubculos. 
"mandem por 
Fax para todas as outras agncias que esto nos ajudando na busca."
Providenciado isso, rondeau disse:
- senhor, peo perdo por no ter ligado uma coisa  outra mais cedo.
- tudo bem - disse curtis, e mandou rondeau embora de um jeito que doeu.
- a mulher dele - disse curtis para paris - ser nossa melhor fonte de 
informao. Tem certeza de que ela vai cooperar?
- absoluta. Sendo ou no valentino, ela quer que ele seja encontrado e prometeu 
colaborar de todas as maneiras possveis.
Curtis balanou a cabea para uma policial feminina  paisana.
- pergunte para a sra. Armstrong quem tira as fotos da famlia. Faa como se 
estivesse conversando com ela.
Quando todos estavam distrados, rondeau olhou para gavin malloy e piscou um 
olho. O menino fez com a boca, v se foder. Rondeau sorriu.
- sargento? - griggs continuava incomodando. - com licena? Finalmente, curtis 
virou para ele e rugiu:
- o que , porra?
- t... Tem algum procurando o senhor - gaguejou ele. - e... E a srta. Gibson.
- algum? Quem?
Griggs apontou por cima das divisrias dos cubculos. Curtis e paris seguiram o 
policial pelo labirinto de salinhas minsculas at a porta dupla da entrada, 
onde 
Dois patrulheiros uniformizados seguravam um homem algemado entre eles.
- marvin! - exclamou paris.
Lancy fisher estava sentado diante da mesa de uma das salas de interrogatrio. 
Paris sentou na frente dele, curtis ficou de p num canto e dean no outro. 
Apesar 
De terem se concentrado no dr. Brad armstrong, o homem que ela conhecia como 
marvin patterson ainda era um possvel suspeito.
Ele havia entrado no quartel-general da polcia e se apresentado para os 
policiais na recepo. Reconheceram-no imediatamente e o algemaram para subir de 
elevador 
At o terceiro andar. Lancy no resistiu. Cada vez que paris o olhava nos olhos, 
ele desviava rapidamente, dando a impresso de ser culpado de alguma coisa.
Paris ficou surpresa de ver como marvin era bonito sem o macaco largo e o bon 
de beisebol que usava para trabalhar. Jamais tinha visto o seu rosto bem 
iluminado. 
E ele tambm no tinha visto o dela, lembrou paris. Talvez por isso aqueles 
olhares, que no eram s de culpa, mas tambm de curiosidade.
- devo arranjar um advogado? - lancy perguntou para curtis.
- eu no sei, voc acha que deve? - respondeu o detetive com calma.  foi voc 
que convocou essa reunio e insistiu para paris estar presente.  voc que vai 
me 
Dizer se precisa de um advogado.
- no preciso. Porque posso dizer logo de cara e  a verdade, em nome de deus, 
que no tive nada a ver com o seqestro e o assassinato daquela menina.
- ns no o acusamos de nenhum envolvimento nisso.
- ento por que aqueles caras l embaixo pularam em cima de mim e me prenderam 
desse jeito? - ele apontou os pulsos algemados para curtis.
Sem se perturbar, curtis respondeu:
- imaginei que devia estar habituado com elas, lancy. Voc j teve de us-las 
muitas vezes.
O rapaz recostou curvado na cadeira, reconhecendo a veracidade da declarao.
- marvin - disse paris, chamando a ateno dele -, encontraram fitas dos meus 
programas, uma enorme quantidade delas no seu apartamento. Gostaria de saber por 
que 
Guardava essas fitas.
- o meu nome verdadeiro  lancy.
- desculpe. Lancy. Por que colecionava todas aquelas fitas?
- para ns - disse dean -, parece que voc tem um interesse obsessivo por paris.
- eu juro que no  o que vocs esto pensando.
- o que eu estou pensando? - perguntou dean.
- que  alguma espcie de tara. No . Eu... Eu andei estudando paris gibson - 
ele olhou para as caras de espanto dos trs. Eu, ... Eu quero ser igual a ela. 
Fazer 
O que ela faz, quero dizer. Quero trabalhar no rdio.
Se lancy dissesse que queria pilotar um submarino nuclear atravs da rotunda do 
capitlio, eles no ficariam mais atnitos. Paris foi a primeira a se recuperar.
- voc quer fazer carreira de locuo de rdio?
- acho que vocs devem estar achando isso uma loucura, levando em conta minha 
ficha na polcia e tudo o mais.
- eu no acho que  loucura. S estou surpresa. Quando voc resolveu seguir essa 
carreira?
- uns dois anos atrs. Quando sa de huntsville e comecei a ouvir seu programa 
todas as noites.
- e por que paris, especificamente? Por que no outro dj?
- porque eu gostava do jeito que ela conversava com as pessoas - disse lancy 
para dean e virou de novo para paris. - parecia que voc realmente se importava 
com 
As pessoas que telefonavam, como se levasse a srio os problemas delas. - com 
jeito de envergonhado, ele acrescentou: - por algum tempo, as coisas foram muito 
difceis 
Para mim. A volta para a vida aqui fora. Voc foi como uma velha amiga.
Curtis parecia ctico. Dean tambm franzia a testa. Mas paris deu um sorriso 
para lancy que serviu de incentivo para ele continuar:
- uma noite ligou um cara que contou que tinha sido demitido e que no conseguia 
arrumar outro emprego. Voc disse que parecia que ele tinha ficado inseguro, e 
Que era exatamente nessa hora que devia sonhar mais alto, ir mais longe.
"eu segui o conselho que voc deu a ele. Parei de tentar conseguir empregos que 
pagavam uma ninharia e me candidatei na companhia telefnica. Eles me 
contrataram. 
Eu estava ganhando bem, o suficiente para pagar as aulas de impostao de voz. 
Roupas melhores. Um bom carro. Mas fiquei ganancioso, furtei equipamento de l 
que sabia que poderia vender rpido. Eles no me processaram, mas me mandaram 
embora."
Lancy parou de falar como se estivesse se punindo por uma deciso to 
equivocada. Paris olhou para dean. Ele ergueu os ombros como se dissesse que 
lancy tanto podia 
Estar dizendo a verdade como contando uma grande mentira.
- depois de algumas semanas desempregado - continuou lancy -, eu nem acreditei 
naquela sorte toda quando vi o anncio no jornal, de um emprego na estao de 
rdio. 
No me importaria se tivesse de limpar as latrinas... Ha... Os banheiros. Eu 
queria estar naquele lugar de qualquer maneira. Para poder observar voc. Ver 
como voc 
Trabalha. Talvez at aprender um pouco da tecnologia.
"liguei um gravador no meu rdio em casa e pus o timer para gravar todos os 
programas. Durante o dia eu ouvia as fitas e tentava imitar seu jeito de falar. 
Eu ficava 
Treinando, procurando pegar a sua dico e o ritmo da sua fala. E tive mais 
aulas para perder o sotaque."
Lancy deu um sorriso largo.
- e vocs j devem ter percebido que vou precisar trabalhar muito mais nisso. E 
 claro que eu tambm sei que nunca serei to bom como voc, por mais que eu me 
esforce. 
Mas estou determinado a investir o melhor de mim. Eu queria... Eu tinha de... 
Como  mesmo que eles chamam?
- reinventar voc? - paris adivinhou. Os olhos de lancy se iluminaram.
- ,  isso a. Por isso eu usei outro nome. Meu nome verdadeiro parece demais 
com o lugar de onde eu vim.
Curtis jogou uma pasta em cima da mesa e, quando lancy viu que era sua ficha 
criminal, fez uma careta.
- eu sei que depe contra, mas juro por deus que larguei essa vida.
-  uma longa lista de crimes, lancy. Voc encontrou jesus em huntsville ou o 
qu?
- no, senhor. Eu s no queria ser um lixo o resto da vida. Curtis pigarreou, 
sem se convencer.
Lancy olhou em volta e deve ter percebido que os trs continuavam cticos. Ele 
umedeceu os lbios e disse, num tom meio desesperado:
- eu no faria nada para machucar a paris. Ela  meu dolo. No dei nenhum 
telefonema ameaador. Quanto  menina que apareceu morta, eu no sei de nada.
Curtis encostou o quadril num canto da mesa e dirigiu-se ao rapaz com falsa 
simpatia:
- voc gosta de meninas do ensino mdio, lancy ray?
- senhor?
- voc largou a escola aos dezesseis anos.
- fiz o supletivo quando estava na priso.
- mas perdeu toda a diverso do ensino mdio. Talvez esteja compensando o que 
no teve.
- o senhor quer dizer as meninas?
- ,  isso que eu quero dizer.
Lancy balanou a cabea enfaticamente.
- no paquero menores nem fao sexo com elas. No sou perfeito, mas essa no  a 
minha praia.
- voc gosta de mulheres?
- quer dizer, em vez de homens? Porra,  claro.
- voc tem uma cara bonita. Corpo bom. Na priso, a solido pode ser muito 
grande.
Lancy olhou para paris sem graa e depois abaixou a cabea e resmungou:
- eles me deixavam em paz. Espetei um deles nos... Nos testculos com um garfo. 
Tive de cumprir um ano a mais da minha sentena por causa disso, mas depois eles 
No me incomodaram mais.
Paris ficou constrangida por ele. Torcia para curtis aliviar, mas temia que, se 
interferisse, ele pediria para ela sair e queria ouvir aquilo.
- conheci sua me ontem - disse curtis.
Lancy levantou a cabea e olhou diretamente para o detetive.
- ela  uma vaca.
- espere a! Ouviu isso, dr. Malloy? Isso no parece hostilidade latente contra 
uma mulher? Um ressentimento...
- eu no gosto da minha me - disse lancy, irritado -, mas isso no reflete na 
minha vida sexual. Se ela fosse sua me, voc gostaria?
Curtis insistiu:
- voc tem namorada?
- no.
- queria ter uma?
- s vezes?
- s vezes - repetiu curtis. - quando voc deseja uma namorada, o que voc faz?
- o que o senhor quer dizer?
- ora, vamos, lancy ray. - curtis bateu na pasta com o dedo indicador. - voc 
foi preso por crime sexual.
- isso foi uma armao.
-  o que todos os estupradores dizem.
- esse cara, o produtor de cinema...
- de filmes pornogrficos.
- certo. Estvamos fazendo um filme de sacanagem na garagem dele. Ele se irritou 
quando a namorada comeou a dar em cima de mim. No fazia mal fazer... Vocs 
sabem, quando a cmera estava filmando. Mas no fora de cena. Por isso ele e eu 
brigamos e...
- e voc o cortou todo.
- foi legtima defesa.
- o jri no se convenceu disso, nem eu - disse curtis. Quando voc acabou o 
servio nele, comeou na garota.
- no senhor!
Lancy negou com tanta convico e indignao que paris teve de acreditar que ele 
estava dizendo a verdade.
- foi ele. Ele fez um estrago nela - lancy apontou para a pasta. - todas as 
coisas que foram feitas nela, foi ele que fez.
- eles pegaram o seu DNA.
- porque estive com ela mais cedo aquele dia. Ele nos pegou juntos. Foi por isso 
que comeamos a brigar.
- o testemunho dele foi corroborado sob juramento por duas pessoas da equipe de 
produo e pela prpria garota.
- todos eram viciados. Ele lhes deu a droga. Eu no tinha nada para oferecer em 
troca da verdade.
- por que acha que devemos acreditar na sua verso, lancy?
- perguntou dean.
- porque eu reconheo todos os meus outros crimes. Fiz coisas terrveis, mas 
nunca bati numa mulher.
Paris inclinou o corpo sobre a mesa e ficou mais perto dele.
- por que voc fugiu quando a polcia telefonou para dizer que queriam 
interrog-lo? Por que no contou a eles o que est nos contando agora?
Ele suspirou profundamente e levantou as mos algemadas para esfregar a testa.
- eu entrei em pnico. Sou um ex-condenado. Isso me torna automaticamente 
suspeito. Alm disso, eu sabia que se descobrissem que andei gravando seus 
programas, na 
Certa me levariam preso.
- por que deixou as fitas? Ele deu um sorriso tmido.
- porque sou burro. Entrei em pnico e fugi ventando, de l. Esqueci as fitas. 
Talvez tenha perdido meu instinto criminoso. Espero que sim.
Lancy tinha um jeito modesto e paris gostava disso. Mas parecia que curtis no.
- se voc tivesse admitido isso anteontem, talvez tivssemos acreditado em voc.
Lancy olhou para paris e disse, ansioso:
- estou dizendo a verdade. No sei de nada sobre esse valentino, nem sobre os 
telefonemas. No sei de nada sobre janey kemp, s o que ouvi no noticirio. A 
nica 
Coisa da qual podem me acusar  de querer aprender a fazer o que voc faz.
- voc ficou trabalhando meses na rdio - disse ela suavemente -, mas nunca 
conversou comigo. Porque no me contou da sua ambio? Por que no pediu 
conselhos? 
Orientao?
- voc est brincando? - exclamou ele. - voc  uma estrela. Eu sou o cara que 
faz a faxina. Eu nunca tive coragem de falar com voc. E se tivesse, voc ia rir 
de 
Mim.
- eu nunca faria isso.
Lancy examinou os olhos de paris por trs dos culos escuros.
- e, talvez no fizesse mesmo. Agora eu sei.
- onde voc esteve esse tempo todo? - perguntou curtis. Voc no voltou para a 
casa da sua me, nem para o seu apartamento.
- eu tenho um... Acho que vocs chamam de...
- esconderijo? - disse curtis. Lancy ficou embaraado.
- sim, senhor. Vou dar o endereo. Podem fazer uma busca por l.
- pode apostar que vamos - disse curtis, pondo a mo embaixo do brao de lancy e 
fazendo com que ele se levantasse da cadeira. - e enquanto isso, voc fica 
morando 
Aqui conosco.


Captulo trinta

Era um timo bar para ficar de bobeira.
 beira do lago, feito de ripas de cedro, lugar bastante conhecido do pessoal da 
regio. Pescadores podiam aparecer por ali, mas no era um bar que atrasse 
turistas 
Ou os jogadores de golfe dos clubes de campo. A clientela consistia basicamente 
de operrios de construo, vaqueiros e ciclistas. Um profissional de colarinho 
branco 
Se sentiria fora do seu elemento, por isso era pouco provvel que algum 
conhecido descobrisse brad armstrong ali.
Esmagou alguns amendoins quando atravessou o salo mal iluminado do bar. A nica 
fonte de luz eram placas de non, quase todas com a bandeira do texas, a estrela 
Solitria, e uma marca de cerveja. As luminrias penduradas sobre as mesas de 
sinuca estavam acesas, mas obliteradas pela fumaa de cigarro.
A jukebox wurlitzer borbulhante num canto emitia um arco-ris rodopiante de 
cores pastel, mas no havia nada de sutil na msica que dali soava altssimo. 
Eram msicas 
Country antigas, do tipo anasalado, plangente, desolado, anteriores a garth, a 
mcgraw e similares.
Os fregueses bebiam cerveja no gargalo da garrafa, jack daniel's ou jos cuervo 
puro. Que era o que a menina bebia quando brad aproximou-se dela no bar. Ele a 
reconheceu 
Imediatamente. O fato de estar ali naquele dia, naquele momento, era um sinal 
csmico de que ele no fazia nada de errado.
Brad viu os dois copos vazios na frente dela e sinalizou para o atendente do bar 
servir mais dois.
- um para mim e um para a senhora com a argola no mamilo. Ela virou para ele.
- como voc... Ah, oi. Duas noites atrs, certo? Ele deu um sorriso largo.
- ainda bem que voc lembrou.
- voc  o cara que tinha um monte de pornografia.
Ele fez cara de decepcionado.
- esperava que voc lembrasse da minha... Outra qualidade memorvel.
Ela lambeu o lbio superior e sorriu.
- disso tambm.
- no esperava encontrar voc num lugar como esse - disse ele.  voc tem classe 
demais para isso.
- venho aqui s vezes.
Ela mordeu um amendoim e comeu delicadamente.
- antes de o clube do sexo comear a se reunir - ela deixou cair um amedoim no 
cho e esfregou as mos. - voc tambm no combina muito.
- acho que o nosso destino era esse encontro aqui.
- legal - disse ela.
A maquiagem havia sido usada regiamente para parecer que tinha idade para beber. 
O barman caiu ou, o que era mais provvel, nem se importava com o fato de ela 
no 
Ter idade. Ele serviu as doses de tequila que brad havia pedido.
- vamos brindar o qu?
Ela rolou seus grandes olhos escuros para o teto como se a resposta talvez 
estivesse escrita na camada de fumaa com poluentes qumicos que pairava l em 
cima.
- que tal ao body piercing?
Brad chegou para frente e sussurrou:
- fico de pau duro s de pensar nisso.
Ele bateu o copo no dela e os dois beberam de uma s vez e simultaneamente a 
bebida ardente.
Aquilo era to fcil, pensou ele. As mes no recomendavam mais para as filhas 
no falar com estranhos? No diziam para elas nunca, jamais, irem com um homem 
que 
No conheciam? Aonde aquele mundo ia parar? Brad temeu pelas prprias filhas.
Pensar na famlia, porm, estragava a atmosfera, de modo que guardou aqueles 
pensamentos num lugar seguro e pediu mais uma rodada de tequila.
Depois dessa segunda dose, eles resolveram sair. Brad sorriu com arrogncia 
quando passaram pelas mesas de sinuca. Era motivo de inveja para os caras 
dures, com 
Tatuagens nos braos e facas presas aos seus largos cintos de couro. Ele obteve 
sucesso
Onde eles aparentemente tinham fracassado. Talvez porque seu cabelo fosse limpo.
-  melissa, certo? - perguntou ele enquanto segurava a porta do carro aberta 
para ela.
Os lbios vermelhos e brilhantes sorriram com o fato de brad lembrar-se do seu 
nome.
- para onde ns vamos?
- eu tenho um quarto.
- maravilha. Ridiculamente fcil.
Sair aquela noite no era muito aconselhvel, mas enlouqueceria se ficasse mais 
um minuto trancado. No podia voltar para casa. Toni tinha ligado o dia inteiro 
para 
O seu telefone celular, a cada cinco minutos, implorando para ele voltar. A 
polcia s queria conversar com ele, disse ela. Certo, ele pensou. Querem 
conversar comigo 
Atrs de barras de ferro.
No tinha atendido o telefone e no tinha ligado para ela, pois sabia que a 
polcia j devia ter instalado um sistema para rastrear o celular dele via 
satlite. 
A descoberta do corpo de janey no tinha sido nada bom para ele. Os noticirios 
diziam que estavam fazendo uma autpsia. Quando ouviu isso, ele quase entrou em 
pnico.
Ficou nervoso, furioso, andou de um lado para outro, condenou a mulher por no 
compreend-lo e janey por ser uma safada irresistvel para ele, e at a me 
dele, 
Que o castigava severamente por se masturbar quando era pequeno.
Por mais que pensasse, no se lembrava daquele tempo, mas os psiclogos 
perguntavam nas sesses de terapia se tinha sido punido por isso, e ele 
respondia que sim, 
Pois aquela parecia a explicao esperada e aceita para a sua preocupao 
sexual.
Quando as notcias foram de ms para piores, at incluindo o nome dele, a 
angstia aumentou. Procurou se distrair dando uma espiada nas revistas 
pornogrficas, lendo 
As cartas e as experincias "reais" enviadas pelos assinantes. Mas logo a 
familiaridade se tornava entediante. Alm do mais, o desejo que sentia no ia 
ser aplacado 
De outra forma.
Estava com teso e precisava extravasar. E quem podia conden-lo com toda a 
presso que sofria recentemente? Decidiu
Que o alvio no ia procur-lo, por isso teria de sair e ir atrs dele.
E agora tinha acabado de encontrar esse alvio.
- esse no  o carro que voc tinha naquela outra noite  observou melissa 
enquanto apertava os botes do rdio at encontrar uma estao onde tocavam um 
rap montono.
A polcia podia ver o carro dele, por isso telefonou e pediu um carro alugado de 
um local que entregava em casa. Nada de cadeia de lojas que exigiam todo tipo de 
Documentos, mas um lugar que, de acordo com o anncio nas pginas amarelas, 
aceitava pagamento em dinheiro vivo. Isso indicou para brad um estabelecimento 
que no 
Se importava muito com leis e regulamentos. A nica amenidade prometida era um 
condicionador de ar funcionando em todos os carros deles.
Enquanto esperava o carro chegar, brad tomou uma ducha, vestiu-se, perfumou-se 
com aramis e ps algumas camisinhas no bolso.
Conforme o previsto, parecia que a prxima parada do homem que levou o carro 
para ele seria numa loja 7-eleven que pudesse assaltar. Brad mostrou a carteira 
de motorista 
Rapidamente e preencheu um formulrio com informaes falsas. Pagou o depsito 
exigido e acrescentou dez dlares como gorjeta. O homem no falava ingls 
direito 
E parecia no se importar com o dia que brad prometeu devolver o carro, que j 
tinha dez anos de uso.
- ns j nos conhecamos antes? - perguntou melissa. Antes da outra noite, quero 
dizer. Voc parece familiar.
- sou um famoso astro de cinema.
- deve ser isso - disse ela, dando uma risadinha. Para distra-la dessa 
associao de idias, ele disse:
- voc  sempre assim, sensacional?
- voc acha?
Na verdade, ela parecia uma puta. O cabelo tingido estava mais espetado e mais 
alto do que na outra noite. Fora da escurido do bar, a maquiagem parecia ainda 
mais 
Vulgar. O top que ela usava era feito de um tecido muito fino e dava para ver a 
argola de prata pendurada no mamilo. A maioria dos guardanapos era maior do que 
a saia dela.
Resumindo, ela estava pedindo. Ia agradecer a ele por ter evitado que fosse 
currada por todos os caipiras daquele bar. Ele olhou para o prprio colo.
- olha s o que voc est fazendo comigo. Melissa avaliou a distenso na cala 
dele e disse:
- isso  o melhor que voc pode fazer?
Ela encostou na porta do carro e passou lentamente as pontas dos dedos no mamilo 
com o piercing de argola.
A menina conhecia o mtier. A ereo dele aumentou.
- no posso olhar para voc e dirigir ao mesmo tempo. Melissa deu uma puxada 
provocante na argola do mamilo. Ele gemeu.
- sabia que voc est me matando?
- mas voc vai morrer feliz.
Brad esticou o brao por cima do console e enfiou a mo por baixo da saia dela, 
sentiu a renda nas pontas dos dedos e foi alm.
- humm.  bem a. - melissa fechou os olhos. - no deixe a polcia parar voc 
por excesso de velocidade. Pelo menos at eu gozar.
Gavin estava esperando na frente do bci quando dean, paris e o sargento curtis 
apareceram. Depositava muita esperana em lancy ray fisher. Ficou de p e 
perguntou:
- era ele o cara?
- ainda no sabemos - respondeu-lhe o pai. - o sargento curtis vai segur-lo l 
e fazer mais algumas perguntas.
Paris olhou para o relgio.
- se no se importam, gostaria de passar em casa antes de ir para a estao. Sa 
apressada hoje de manh.
 eu levo voc e deixo o gavin em casa no caminho - disse dean. - vamos ficar 
com os celulares ligados, curtis. Se qualquer coisa acontecer...
- eu ligo na mesma hora - disse curtis para tranqiliz-los.
- vou pressionar lancy ray.
- com todo respeito, no acredito que ele seja o valentino disse paris.
O detetive meneou a cabea. Gavin achou que ele parecia muito cansado. Uma 
sombra loura da barba por fazer comeava a despontar no rosto rosado do 
sargento.
- eu ainda aposto no dr. Brad armstrong - disse curtis -, mas no posso desistir 
do lancy fisher. Eu me comunico com vocs.
J estavam indo para os elevadores quando curtis chamou gavin. A primeira coisa 
que o menino pensou foi: o que ser agora?
- senhor? - respondeu gavin.
- sinto ter feito voc passar por isso hoje. Eu sei que no foi nada divertido.
- tudo bem - disse gavin, apenas por educao.
No estava tudo bem. Odiava sentir-se culpado quando no era.
- espero que descubram quem fez aquilo com a janey. Eu devia ter contado desde o 
incio que estive com ela no carro. Mas tive medo de que o senhor pensasse, bem,
O que o senhor pensou. Acho que ela encontrou quem a matou depois que se livrou 
de mim.
- parece que sim. Voc tem certeza absoluta de que ela nunca mencionou com quem 
ia se encontrar depois? Um nome? Profisso?
- tenho certeza.
- bem, obrigado - disse curtis. - agradeo a sua colaborao.
Dean conduziu gavin para os elevadores e foram embora. Gavin sentou no banco de 
trs do carro a caminho de casa. Ningum falou muito, os trs pareciam perdidos 
nos
Prprios pensamentos. Quando chegaram, uma viatura policial com dois policiais 
j estava parada na frente da casa de dean. Gavin gemeu mentalmente. Tinha 
atingido
Sua cota de policiais aquele dia. Se nunca mais visse um - fora o pai dele -, 
seria bom demais.
- eu no preciso de bab, pai. Ou ainda estou de castigo?
- voc no est de castigo, mas a polcia est aqui para proteg-lo. Eles 
ficaro at pegarem o valentino.
- ele no vai...
- eu no vou me arriscar, gavin. Alm do mais, os guardas tm ordem de curtis, 
no minha.
- voc poderia dispens-los se quisesse.
- mas no quero. Est bem?
Quando o pai fazia aquela cara, era fim de papo. Gavin meneou a cabea a 
contragosto. Ento seu pai estendeu o brao por cima do banco e ps a mo no 
ombro dele.
- fiquei muito orgulhoso com o seu comportamento hoje.
- correndo o risco de parecer condescendente, eu tambm fiquei, gavin - disse 
paris.
- obrigado.
- ligue para o meu celular imediatamente se alguma coisa acontecer. Prometa que 
vai fazer isso.
- eu prometo, pai. - gavin desceu do carro. - tchau, paris.
- tchau. Ns nos veremos logo, est bem?
- t. Seria legal.
Gavin foi andando para casa, arrastando os ps. Dean no saiu com o carro at o 
menino entrar em casa. Diferentemente da me e do pai dele, os dois pareciam 
combinar 
Muito bem. Gavin torcia para tudo dar certo com eles.
Acenou da porta da frente antes de fech-la e tranc-la, tornando-se 
eficientemente seu prprio carcereiro.
- um tosto pelos seus pensamentos. Paris olhou para dean.
- meus pensamentos? Estava pensando em toni armstrong. Eu sinto por ela. Gostei 
dela.
- eu tambm. Uma senhora corajosa.
- acho que ela ama o marido. Profundamente. E, nas atuais circunstncias, isso 
deve gerar um conflito muito grande. - curiosa, paris perguntou: - do ponto de 
vista 
Clnico, quando  que uma pessoa  considerada viciada em sexo?
- pergunta difcil.
- tenho certeza de que pode responder, dr. Malloy.
- est certo. Se um cara fica de pau duro doze vezes por dia, eu dou os parabns 
para ele, e talvez at diga para ele tentar a dcima terceira. Mas se ele 
procura 
O ato para satisfazer essas doze erees por dia, eu diria que  um excesso, e 
que podemos ter um problema.
- voc est brincando.
- um pouco, mas h uma base de verdade - o sorriso se desfez e dean ficou srio. 
- o sexo pode virar um vcio como qualquer coisa. Quando a compulso pesa mais 
que 
O bom senso e a cautela. Quando a atividade comea a ter um efeito negativo no 
trabalho, na vida em famlia, nos relacionamentos. Quando se transforma na fora 
dominante 
E no meio exclusivo de gratificao pessoal.
Dean olhou para paris e com um movimento de cabea ela pediu para ele continuar.
-  o mesmo ponto em que algum que bebe socialmente se transforma em 
alcolatra. O indivduo perde o controle sobre a obsesso. Ou seja, a obsesso  
que passa a controlar o indivduo.
- como torn-lo disposto a sacrificar a mulher e a famlia para obter prazer.
- mas no significa que brad armstrong no ame a mulher dele - disse dean. - 
deve amar.
Paris ficou olhando para a frente, pensando naquilo. Mesmo com os culos 
escuros, tinha de apertar os olhos diante do sol poente, que dava um espetculo 
descendo 
No horizonte. Imaginou o que o juiz e marian kemp estavam fazendo naquele 
momento. Nem iam notar aquele pr-do-sol sensacional.
- eles tm de providenciar o enterro.
- o que disse? - perguntou dean.
- estava pensando em voz alta. Sobre os kemp neste momento.
-  - ele disse, suspirando. - nem imagino a devastao que seria perder um 
filho. Aconselhei policiais que perderam, mas tudo que eu disse soava para mim 
mesmo 
Como um monte de baboseiras. Se alguma coisa acontecesse com o gavin... - dean 
parou de falar como se no pudesse articular aquela idia apavorante.
- quero ser um bom pai para ele, paris - disse ele, baixinho.
- eu sei.
- por causa do meu pai.
- tambm sei disso.
- quanto o jack contou para voc?
- o bastante.
Jack contara que o relacionamento de dean com o pai fora explosivo. O sr. Malloy 
tinha um gnio agressivo, e dean costumava levar a pior. s vezes, os ataques do 
pai tornavam-se violentos.
- o seu pai batia em voc, dean? - perguntou paris.
- ele era muito duro comigo sim.
- voc no est atenuando demais as coisas?
Dean deu de ombros com ar de indiferena, e paris sabia que era fingimento.
- eu podia suportar os maus-tratos dele - disse ele. - quando ele ia para cima 
da minha me  que eu no agentava.
De acordo com jack, o incidente crucial tinha acontecido quando os pais de dean 
foram visit-lo no fim de semana da volta ao lar no primeiro ano da texas tech. 
Numa 
Festa da fraternidade, o pai de dean comeou uma briga com ele. Dean procurou 
ignorar, mas o pai foi ficando cada vez mais grosseiro e no queria desistir.
A me dele, constrangida pelo filho, tentou intervir. Foi quando o pai de dean 
comeou a desrespeit-la. O que ele dizia era humilhante e cruel. Sem se 
importar 
Com os amigos e os outros pais que assistiam a tudo, dean partiu em defesa da 
me. O pai deu um soco nele. Antes de tudo terminar, dean estava montado no 
peito do 
Sr. Malloy e, segundo jack, "socando o velho at no poder mais".
Depois daquela noite, o relacionamento dos dois ficou ainda mais antagnico e 
assim permaneceu at o pai de dean morrer.
- fiquei meio louco aquela noite na tech - disse dean para paris. - nunca tinha 
agido daquela maneira antes e nunca mais perdi a cabea daquele jeito. Se jack e 
Os outros caras no tivessem me tirado de cima dele, poderia t-lo matado. Eu 
queria mat-lo.
"odiei demais o que aconteceu, pelo constrangimento que foi para a minha me. 
Mas pelo menos isso fez com que o velho pensasse duas vezes antes de atac-la de 
novo, 
Especialmente quando eu estava por perto." dean olhou para paris; paris nunca 
viu dean to vulnervel. "mas fiquei apavorado, paris. Nem sei descrever. Uma 
fria 
Assassina? Ela me consumiu e bloqueou todo o resto.
"meu pai tinha crises como aquela o tempo todo. Aquela noite, aprendi que o que 
existia nele para ser do jeito que era, tambm existe dentro de mim. E apareceu 
Aquela nica vez. Vivo com medo de que acontea de novo."
Paris ps a mo no brao dele.
- ele o provocou de um jeito muito cruel. Voc reagiu. Mas no quer dizer que 
voc tenha essa fria latente, capaz de explodir num instante. Voc no  como 
ele, 
Dean - disse paris. - nunca foi e nunca poderia ser.
"quanto ao gavin, voc pode ficar zangado com ele. Os filhos do raiva, 
decepcionam e enlouquecem os pais.  isso que eles fazem.  inerente aos filhos. 
E voc tem 
O direito de sentir raiva dele quando faz isso.
"na verdade, gavin poderia duvidar que voc o ama se no ficasse com raiva dele. 
Ele precisa saber que voc se importa com ele a ponto de ficar zangado. Ele vai 
Test-lo muitas vezes, s para ter certeza de que voc ainda se importa", ento 
paris riu. "olha s como eu falo. Voc  o psiclogo e o pai. Eu no sou nada 
disso."
- mas tudo que voc est dizendo  correto e eu preciso ouvir. Paris sorriu 
carinhosamente para ele.
- desde que voc o elogie tanto, ou at mais, do que o castiga, tudo dar certo.
Dean ficou meditando sobre aquilo e depois piscou para paris.
- inteligente, alm de linda. Voc  uma mulher perigosa, paris.
- ah , essa sou eu. A bsica mulher fatal.
- talvez isso tenha atrado lancy ray fisher. O seu elemento de mistrio atraiu 
o instinto criminoso dele.
Paris rolou os olhos nas rbitas.
- ele quer o meu emprego.
-  o que ele diz.
- voc acha que ele est mentindo?
- se est,  muito convincente. Ou est sendo sincero ou  um artista perfeito.
- essa tambm  a impresso que eu tenho.
- como  ser dolo de algum? Paris deu um sorriso triste.
- no recomendo para ningum moldar a vida na minha. Ento o celular de dean 
tocou. Ele atendeu.
- malloy... E por falar no diabo. No, paris e eu estvamos falando dele.
Dean formou curtis com os lbios, e paris fez que sim com a cabea.
- e a outra casa de lancy? - dean ficou ouvindo um pouco, depois disse: - 
provavelmente no  uma m idia. - curtis falou mais, e ento dean se despediu, 
dizendo: 
- tudo bem, fique em contato conosco.
Depois de desligar o celular, dean contou as novidades para paris:
- ele espremeu lancy ray at o fim, foi o que curtis disse. Mas lancy continuou 
contando a mesma histria.
Policiais que foram ao apartamento onde lancy se escondia informaram que lancy 
tinha estado l, mas parecia que ningum mais.
- nenhum sinal de janey ter ficado presa l? - perguntou paris.
- nada. Nenhum laboratrio de fotgrafo amador. Nada mais pervertido do que um 
nmero da playboy. Por isso curtis est mais aflito ainda para pegar o dentista. 
Resolveu 
Ter uma conversa com toni armstrong.
- humm. Que dilema para ela. Por um lado, ela quer que peguem o marido para ele 
poder se tratar, mas, por outro, isso vai incrimin-lo.
- ele se incriminou sozinho.
- eu sei disso. Estou pensando como toni deve estar pensando. Ela o ama e quer 
que ele se cure, mas se no tiver mais cura, quanto tempo ela vai agentar ficar 
do 
Lado do marido?
- boa pergunta, paris.
Tarde demais ela percebeu que o que tinha dito sobre toni armstrong podia se 
aplicar a ela mesma.
Dean estacionou o carro na frente da casa dela. Desligou o motor, virou de 
frente para ela, pronto para dizer alguma coisa, mas paris cortou antes que ele 
pudesse 
Comear:
- jack precisava de mim.
- eu preciso de voc.
- no do mesmo jeito.
- isso mesmo. Voc ficou com ele por obrigao. Eu quero que queira ficar 
comigo.
Dean olhou nos olhos dela por alguns segundos, depois abriu a porta do carro e 
saltou.
No caminho, paris parou para pegar a correspondncia, negligenciada aqueles 
ltimos dois dias. J dentro de casa, jogou tudo na mesa da entrada.
- deus sabe quando terei tempo para dar uma espiada nisso. Minha mesa no 
trabalho est mais...
Foi tudo que teve tempo de dizer, antes de dean pux-la e beij-la. Ele tirou os 
culos escuros de paris e deixou cair na mesa. Ento abraou-a com fora, 
puxando-a 
Para ele. Reagindo imediatamente, paris tambm abraou dean, apertando os dedos 
nos msculos das costas dele.
Enquanto fundia a boca com a dela, dean puxou a saia de paris at poder 
acariciar a coxa nua. Paris derreteu por dentro, mas se libertou do beijo e 
disse, ofegante:
- dean, eu s tenho uma hora.
- ento esse ser um recorde para ns. At agora nossos encontros sexuais no 
duraram mais de trs minutos - ele enfiou o rosto no cabelo dela. - dessa vez 
quero 
V-la nua.
Com um riso rouco e profundo, paris encostou a cabea na testa dele.
- e se no gostar do que vai ver?
- no existe essa possibilidade.
Dean enfiou as mos na calcinha de paris e apertou as ndegas dela. Paris emitiu 
um som de prazer, mas a voz da razo falou mais alto:
- e se o curtis ligar?
- eu j aprendi a viver com as decepes. Mas  mais um motivo para nos 
apressarmos.
Dean segurou a mo de paris e foi andando resoluto para o quarto, arrastando-a 
com ele. Um riso jovial borbulhou no peito de paris. O corao ficou acelerado. 
Sentia-se 
Terrivelmente depravada e maravilhosa, gloriosamente viva.
Dean tambm ria, atrapalhado com os obstinados botes cobertos de tecido do top 
de paris.
- essas coisas malditas.
Paris foi mais habilidosa. Logo a camisa dele estava aberta e ela deu um beijo 
na pele quente logo abaixo do mamilo esquerdo, e sentiu o corao dele pulsando 
contra 
Seus lbios.
Dean finalmente conseguiu desabotoar os botes, tirou a blusa e soltou a 
presilha frontal do suti. Ento comeou a acarici-la, massageando os seios com 
dedos fortes.
Paris observava a expresso dele, olhando para o corpo dela. Dean parecia tomado 
de paixo e ternura ao mesmo tempo, enquanto via os mamilos dela reagindo aos 
toques 
Das pontas dos dedos dele. Os olhos dos dois se encontraram apenas por um 
segundo, dean abaixou a cabea e abocanhou um mamilo.
Paris soltou o cinto e abriu o zper da cala de dean, enfiou a mo no cs da 
cueca. Ele era macio como veludo, rijo e pulsante, cheio de vida. Paris passou o 
polegar 
Na glande e dean estremeceu.
- paris, pare - disse ele, e se afastou. - se voc... No pode fazer isso. Assim 
eu vou gozar. E quero que isso dure.
Paris tirou o suti, abriu o fecho da saia nas costas, empurrou-a para baixo e 
tirou-a pelas pernas. Febris, os olhos de dean examinaram tudo. Com um movimento 
rpido, 
Ele tirou a cala e a cueca. Paris olhou para ele e gostou do que viu, mas 
quando estendeu a mo para toc-lo de novo, ele a impediu.
Ento dean caiu de joelhos e beijou paris atravs da calcinha de seda. Apertou 
as mos espalmadas nas ndegas dela, puxando seu corpo de encontro ao rosto. O 
calor 
E a umidade da respirao dele passavam pelo tecido e deixava paris trmula. Ele 
a beijou novamente. E outra vez. Ela fechou os olhos e usou os ombros dele para 
Se apoiar.
Ento a seda pareceu se dissolver, porque aquela barreira no estava mais l. Os 
lbios dele eram quentes e geis, e logo paris sentiu a lngua de dean, 
separando, 
E procurando, e lambendo. Ela se entregou ao prazer, imenso.
Mas guardava controle suficiente para implorar para dean parar quando a situao 
ficasse crtica. Ele se levantou e a abraou. Ficaram agarrados um ao outro, os 
Seios dela apertados contra o peito dele, o pnis de dean sulcando profundamente 
a maciez do ventre dela.
Finalmente eles deitaram e ficaram cara a cara na cama de paris, virgem at 
aquele momento. Ela passou a mo no torso dele, desceu at o umbigo e chegou aos 
plos 
Que cercavam o sexo. Passou o dedo no pnis de dean. Ele cobriu sua mo com a 
dele e a fez subir e descer.
- meu deus - ele gemeu.
- nem acredito que isso est acontecendo.
- nem eu. - dean beijou um mamilo, acariciou-o com a lngua. - fico s 
imaginando que vou acordar.
- se voc acordar, por favor, me deixa aqui nesse sonho. Dean afastou as pernas 
de paris e se posicionou no meio,
Ento foi penetrando aos poucos, dando tempo para ela envolvlo, parando para 
provar cada sensao nova antes de penetrar mais fundo, at entrar todo.
Banhados em prazer, evitaram qualquer movimento o tempo que agentaram, mas 
quando dean recuou e bombeou novamente, foi melhor ainda.



Captulo trinta e um
Dean sacudiu a gua do ouvido antes de atender o celular.
- malloy.
- curtis.
- o que houve?
- que barulho  esse?
-  o chuveiro - respondeu dean, e piscou para paris, que tirava o xampu do 
cabelo, com a cabea para trs, a gua cheia de espuma escorrendo pelos seios e 
afunilando 
Entre as pernas.
Meu deus, ela era sensacional.
- voc est tomando banho?
- para parecer fresco como voc. O que houve?  repetiu ele.
- um dos outros detetives esteve conversando com lancy ray. Lembra quando paris 
perguntou para ele para que todo aquele disfarce, por que no tinha ido 
simplesmente 
Falar com ela?
- ele tinha vergonha.
- isso... E no queria invadir o territrio de outro cara.
- que cara?
Paris olhou para dean franzindo a testa quando saiu do chuveiro. Ele deu a 
toalha para ela.
- stan crenshaw - disse curtis.
Essa talvez fosse a nica informao que poderia desviar a ateno de dean do 
corpo nu de paris.
- perdo?
- isso mesmo. Lancy ray agia de acordo com a idia equivocada que stan e paris 
eram amantes.
- de onde ele tirou isso?
- de crenshaw.
Dean cobriu com a mo o bocal do celular e disse para paris se apressar e vestir 
logo a roupa. A urgncia passou para ela e paris correu para o quarto.
- pode falar - disse dean para curtis.
Crenshaw avisou para o zelador no incomod-la. Inventou alguma besteira, disse 
que s ele podia ter acesso a ela, que era poltica da empresa, que ela no 
gostava 
De que as pessoas ficassem olhando por causa dos culos escuros, que gostava do 
escuro por motivos que no eram da conta de ningum.
"lancy ray queria continuar no emprego, por isso obedeceu, manteve distncia e 
raramente falava com paris, com medo de que crenshaw ficasse com cime e o 
demitisse. 
Disse que o cara tinha cime de qualquer um que chegasse perto dela."
- por que lancy no nos contou isso na primeira vez que conversamos com ele? - 
perguntou dean, tentando se vestir com uma nica mo.
- ele supunha que todos soubessem que os dois estavam juntos.
- uma ova. Tem alguma coisa no crenshaw que no bate. Percebi isso na noite que 
o conheci. Ele tambm assumiu essa atitude de proprietrio comigo, mas achei que 
Era apenas um idiota.
- pode ser que ele seja apenas um idiota.
- e pode ser que no. Quero que o virem do avesso, curtis. Quero saber 
absolutamente tudo sobre ele, e no me importa quem  o tio dele, nem quanto 
dinheiro ele 
Tem.
- entendi. Dessa vez vou ignorar o tio wilkins. Vamos direto  polcia de 
atlanta, ao promotor pblico, ao maldito governador da gergia se for 
necessrio. Uma coisa 
Boa  que ele continua trabalhando como sempre. Est na estao de rdio. Griggs 
e carson esto l e acabaram de ligar.
 ns j estamos a caminho. Diga para aqueles policiais segurarem o cara l se 
ele tentar sair. Voc j verificou os registros das ligaes dele?
- estamos verificando.
- quem est investigando a vida dele?
- rondeau se ofereceu.
- rondeau.
Dean fez um esforo para no demonstrar seu desprazer.
- ele vai fazer uma investigao minuciosa no computador.
- ele j devia ter feito isso.
- dessa vez eu disse para ele ir mais fundo.
- seria bom se ele tivesse ido mais fundo na primeira vez.
- o que h entre voc e ele? Sinto uma certa tenso.
- ele  presunoso.
-  isso? Voc no gosta da personalidade dele?
- mais ou menos. Olha, ns temos de correr.
- talvez seja melhor paris no fazer o programa esta noite. Para nos dar uma 
chance de investigar crenshaw.
- diga isso para ela. Ela resolveu que vai fazer. Alm do mais, no vou 
desgrudar dela. At mais tarde.
Antes do detetive poder dizer qualquer coisa, dean desligou e saiu apressado com 
paris. No carro, ela pediu detalhes da conversa.
- pelo que pude ouvir, a ligao foi sobre o stan.
Dean explicou o que lancy ray fisher tinha dito. Paris deu uma risada, 
incrdula.
- no acredito nisso.
- no  engraado.
- no,  histrico.
- eu no acho.
- dean - disse ela, sorrindo com simpatia para ele -, diante dos, acontecimentos 
recentes, at entendo sua atitude machista. E fico lisonjeada. Gostaria que 
Existisse um drago para voc matar por mim. Mas no desperdice o seu machismo 
com o stan, pelo amor de deus. Ele no  o valentino.
- no podemos afirmar isso.
- eu sei. Ele  um idiota, como voc disse. E me aborrece pensar que enganou 
marvin... Lancy. E s deus sabe quem mais. Mas ele no tem o crebro nem a 
coragem do 
Valentino.
- saberemos logo - disse dean, entrando com o carro no estacionamento.
Griggs e carson acenaram do banco da frente do carro da polcia quando paris 
destrancou a porta. Como sempre, o prdio estava s escuras e as salas, vazias. 
Harry, 
O dj da noite, levantou o polegar pela janela do estdio quando os dois 
passaram. Dean j conhecia a planta do prdio e seguiu na frente pelos 
corredores mal iluminados.
Chegaram  sala dela e encontraram stan sentado, com os ps em cima da mesa, 
mexendo na correspondncia de paris sem o menor constrangimento.
- stan crenshaw, exatamente quem eu queria ver - disse dean entrando na sala com 
passos largos.
Stan tirou os ps da mesa, mas mal tinham tocado no cho e dean j o segurava 
pela frente da camisa, arrancando-o da cadeira.
- ei! - protestou stan. - que porra  essa?
- precisamos ter uma conversinha, stan.
- dean.
Paris ps a mo no brao de dean, para cont-lo. Ele largou a camisa de stan.
- voc andou contando mentiras sobre paris. Ofendido, stan se endireitou e 
passou a mo pela camisa
Amassada. Mas seria a mesma coisa que querer enfrentar uma rvore enorme e ele 
percebeu isso. Ento olhou para paris.
- do que  que o seu namorado est falando?
- lancy disse que voc disse para ele que...
- quem  esse lancy?
- marvin patterson.
- o nome dele  lancy?
- voc disse para ele que voc e paris tinham um caso. Stan virou a cabea para 
dean.
- no disse nada.
- voc no insinuou que voc e ela eram mais que colegas de trabalho? No avisou 
para ele se afastar, deix-la em paz, nem falar com ela?
- porque eu sei como paris  - declarou stan. -ah, ?
- ah, . Eu sei que ela  uma pessoa que gosta de privacidade. No gosta de ser 
incomodada por ningum, especialmente quando est concentrada no trabalho.
- ento voc disse para ele ficar longe para proteger a privacidade dela?
- pode-se dizer que sim.
- eu no preciso de voc para filtrar as pessoas com quem me dou, stan - disse 
paris. - no pedi para voc fazer isso e no gostei de voc ter feito.
- caramba, desculpe. Eu estava tentando ser seu amigo.
- s amigo? Eu acho que no - disse dean. - eu acho que voc andou fantasiando 
seu relacionamento com paris. Voc se iludiu, acreditando que haveria um romance 
entre 
Vocs em algum ponto do futuro. Voc tem cime de qualquer outro homem que 
manifeste algum interesse por ela, at platnico.
- como voc sabe que o interesse do marvin  platnico?
- ele disse que era.
- ah, e vocs vo acreditar nele e no em mim? Num faxineiro que usa um nome 
falso? - stan bufou com desprezo.  voc que est se iludindo, doutor.
Stan foi indo para a porta, mas as palavras de dean o fizeram parar:
- essa possessividade pode ser uma motivao muito forte. Stan deu meia-volta 
rapidamente.
- para qu?
 vejamos, criar uma situao ruim, pela qual paris seria parcialmente 
responsabilizada. Pr em risco o emprego dela. Ameaar a vida dela. Devo 
continuar?
- voc est falando daquela histria do valentino? - perguntou stan, zangado. - 
paris pediu para isso acontecer.
- entendo.  culpa de paris o fato de valentino ter seqestrado e assassinado 
uma menina de dezessete anos.
- uma menina que procurava encrenca.
Com calma aparente, dean sentou no canto da mesa.
- ento voc acha que em geral as mulheres no prestam?
- eu no disse isso.
- no, voc no disse exatamente isso, mas sinto que h uma enorme hostilidade 
contra o sexo frgil alojada bem no fundo da sua psique, stan. Como uma semente 
presa 
Entre dois molares. Incomoda  bea, mas no consegue se livrar dela.
- uuuuu. - stan apontou o dedo a dois centmetros do rosto de dean. - no venha 
com esse vodu psicolgico fajuto para cima de mim. No h nada de errado comigo.
Dean apertou o maxilar com raiva, mas sua voz continuou calma:
- ento devo acreditar que tudo que voc tem com as mulheres  perfeitamente 
normal e sem problemas?
Ser que os relacionamentos de algum homem com as mulheres so perfeitamente 
normais e sem problemas? Os seus foram, malloy? - ele olhou para paris. - acho 
que 
No.
- voc no  o dean - disse paris tranqilamente. - ele no tem a sua histria.
A presuno e o ar de deboche desapareceram. No mesmo instante, stan passou a 
soltar fumaa pelas ventas.
- voc contou para ele sobre a acusao de assdio? Dean virou para paris.
- o qu?
- no emprego anterior dele, uma funcionria acusou stan de assdio sexual.
O olhar de dean dizia que ele no estava acreditando que paris no tinha dado 
essa informao para ele antes. E paris entendeu que tinha agido mal em omitir-
lhe. 
Talvez devesse tambm ter contado sobre os pais promscuos de stan e sobre a 
crueldade do tio dominador.
Dean dirigiu-se a stan:
-  bvio que voc tem problemas com mulheres, stan.
- ela era a puta da firma! - exclamou ele. - tinha ido para a cama com todos os 
caras que trabalhavam l. Fez boquete no ncora embaixo da mesa, durante a 
apresentao 
Do jornal. Ela ficava dando em cima de mim, e quando eu cedi, virou uma virgem 
vestal.
- por qu?
- porque tinha mais ambio do que teso. Ela viu uma maneira de pr as mos no 
dinheiro da minha famlia. Ela botou a boca no mundo e meu tio pagou para ela 
ficar 
Calada e ir embora.
Dean assimilou tudo que ele disse.
- vamos voltar para o momento em que voc "cedeu" aos avanos dela - disse dean.
- espere a. Por que tenho de responder s suas perguntas?
- porque sou da polcia.
- ou porque voc andou transando com a paris? Dean semicerrou os olhos 
perigosamente.
- porque se no responder s minhas perguntas, vou lev-lo para a delegacia e 
prend-lo at voc resolver desembuchar. Essa  a minha resposta oficial, 
profissional. 
Mas c entre ns, a minha
Resposta pessoal  que se voc disser mais uma vez qualquer coisa parecida com 
isso sobre paris, levo voc l para fora e arrasto seu rostinho bonito no 
estacionamento.
- voc est me ameaando?
- pode apostar seu rabo magricela que estou. Agora pare de bancar o valente e 
fale logo o que eu quero saber.
Apesar do que tinha dito, dean no estava ali cem por cento oficialmente. No 
estava interrogando stan do jeito calmo, que conquista a confiana, que 
normalmente 
Usava com os suspeitos. Mas stan provavelmente no ia corresponder  abordagem 
habitual. A linha mais pesada parecia que funcionava melhor.
Stan olhou furioso para dean, lanou olhares quero-quevoc-morra para paris, mas 
cruzou os braos sobre o peito como se quisesse se proteger.
- vou process-lo por brutalidade policial. Meu tio vai...
- o seu tio ter muito mais com que se preocupar se voc for o valentino.
- eu no sou! Est ouvindo?
- quando aquela mulher disse no para voc, voc foi em frente e completou o 
ato?
Stan olhou aflito de um para outro.
- no. Quero dizer, sim. Mais ou menos.
- e ento, o que vai ser? Sim, no ou mais ou menos?
- eu no a forcei a nada, se  onde voc quer chegar.
- mas voc completou o ato?
- eu j disse que ela era a...
- puta da firma. Por isso ela estava pedindo.
- certo.
- para voc estupr-la.
- voc vive pondo palavras na minha boca! - gritou stan.
- e voc vai para a delegacia comigo. Agora mesmo. Stan se afastou de dean.
- voc no pode... - ele comeou a falar, e olhou frentico para paris. - faa 
alguma coisa. Se voc deixar isso acontecer, meu tio vai demiti-la.
Paris nem pensou em questionar dean. Para dizer a verdade, agora ela estava com 
medo de stan. Talvez tivesse julgado mal o rapaz. Sempre pensou que ele era um 
imprestvel, 
Desajustado e
Ferrado, mas basicamente inofensivo. Talvez ele fosse mesmo capaz de cometer os 
crimes contra janey kemp.
Se ficasse provado que stan no era valentino, ela teria de enfrentar a ira de 
wilkins crenshaw. E sem dvida lhe custaria o emprego. Mas paris preferia perder 
o 
Emprego do que a vida.
Dean segurou stan pelo brao e o fez virar para a porta. Stan comeou a reagir e 
dean teve muito trabalho para cont-lo sem recorrer s algemas. Quando seu 
celular 
Tocou, jogou-o para paris atender.
-al?
- paris?
Ela mal conseguia ouvir com a gritaria de stan.
- gavin?
- preciso falar com meu pai, paris.  uma emergncia.
Gavin estava assistindo  televiso para passar o tempo, o nico privilgio que 
o pai no tinha revogado. Tinha posto seu filme preferido no vdeo, mas os 
desafios 
Que mel gibson enfrentava pareciam brincadeira comparados com o que acontecia na 
vida dele.
Estava preocupado com o pai e com paris.
No se sentia nada tranqilo como tinha dado a entender quando o pai disse que 
valentino podia ir atrs deles. Esse cara realmente pretendia prejudic-los e 
parecia 
No ter medo de tentar. Ele no devia ser subestimado. Quem ia pensar que 
mataria janey?
Quando o telefone tocou, gavin gostou da distrao. Correu para atender e o fez 
sem nem mesmo verificar o identificador de chamadas.
-al?
- por que voc no est atendendo o seu celular?
- quem est falando?
- melissa.
Melissa hatcher? Ah, que timo.
- meu celular est desligado. Est tudo meio catico...
- gavin, voc precisa me ajudar.
Ela estava chorando?
- o que houve?
- preciso falar com voc, mas tem um carro da polcia estacionado na frente da 
sua casa, por isso passei direto. Voc tem de vir me encontrar.
- eu no posso sair.
- gavin, isso no  brincadeira - melissa praticamente gritou, histrica.
- venha at aqui.
- com a polcia a? De jeito nenhum.
- por que no? Voc est chapada?
Ela choramingou e fungou, depois disse:
- posso entrar pelos fundos sem ser vista?
Gavin no queria se envolver com ela, fosse qual fosse o problema. Fazer o teste 
com o detector de mentiras clareava o raciocnio e fazia a pessoa reorganizar 
suas 
Prioridades, e rapidamente. Gavin tinha jurado para ele mesmo que se sasse 
daquela confuso razoavelmente inclume, passaria a cultivar um novo crculo de 
amizades.
Mais uma infrao importante e acabaria tendo de voltar para houston. Ele no 
queria voltar para a casa da me. Agora que tinha acertado as coisas com o pai, 
queria 
Ficar com ele, talvez at terminar o ensino mdio.
Era definitivamente melhor para ele dizer para melissa que estava ocupado e 
desligar o telefone. Mas ela parecia realmente desesperada.
- est bem - disse gavin, ainda relutante. - estacione na rua atrs da minha 
casa e venha pelo caminho entre as casas. No tem cerca. Deixo voc entrar pela 
porta 
Do ptio. Em quanto tempo voc pode estar aqui?
- dois minutos.
Gavin tratou de se certificar de que os dois policiais estavam no carro na 
frente da casa, de que um deles no tinha sado para dar a volta na casa como 
faziam de 
Hora em hora, depois foi at a cozinha e ficou esperando melissa. Ela apareceu 
pela sebe de espirradeira que dividia as duas propriedades e parecia fantasiada 
para 
O dia das bruxas.
Lgrimas tinham desenhado riscos pretos de maquiagem no rosto dela. A roupa 
parecia mais uma fantasia do que qualquer coisa que uma pessoa normal usaria. 
Era um 
Mistrio para gavin como algum podia correr com aquelas sandlias plataforma, 
mas melissa conseguia. Ela deu a volta na piscina e trotou nas lajotas de 
calcrio 
Do ptio. Gavin abriu a porta de correr de vidro e a menina se jogou em cima 
dele.
Gavin puxou-a para dentro e fechou a porta. Segurou-a de lado e praticamente a 
carregou at a sala de estar, onde a fez sentar numa poltrona. Ela balbuciava, 
incoerente, 
E continuou agarrada nele.
- melissa, acalme-se. No estou entendendo nada que voc est dizendo. Conte o 
que aconteceu.
Ela apontou para o bar do outro lado da sala.
- preciso beber alguma coisa primeiro.
Ela tentou levantar, mas gavin no deixou.
- esquea. Pode beber gua.
Gavin pegou uma garrafa do frigobar e, enquanto ela bebia, observou.
- voc parece o circo dos horrores. O que aconteceu?
- eu estava... Eu estava com ele.
- quem?
- o cara... O... O dentista. Aquele armstrong. Gavin sentiu o maxilar cair.
- o qu? Onde?
- onde? ...
Melissa olhou em volta como se brad armstrong pudesse estar parado num canto. 
Gavin queria dar um tapa nela. Como  que algum podia ser to burro?
- onde, melissa?
- no grite comigo. - melissa esfregou a testa como se quisesse extrair a 
resposta com uma massagem. - um motel. Acho que a placa do lado de fora tinha um 
vaqueiro, 
Ou uma sela, alguma coisa assim.
Um motel em austin com tema do velho oeste. Isso limitava a busca a vrias 
centenas, gavin pensou com ironia custica.
- se voc foi encontr-lo l...
- no fui. Ele me encontrou num bar no lago e fomos no carro dele para l. Eu 
estava de porre. Estava afogando as mgoas, voc sabe, por causa da janey, com 
doses 
De tequila. Ele apareceu, pagou outra para mim.
- e voc foi para um motel com ele?
- eu j o conhecia. Estive com ele alguns dias atrs e transamos.
- onde foi isso?
- naquele, ... Ah, voc conhece o lugar. Onde ns todos vamos s vezes.
Gavin, aflito, fez sinal para ela continuar.
- fizemos no carro dele.
- que tipo de carro?
- o de hoje ou o daquele dia? Eram diferentes.
- hoje.
- vermelho, eu acho. Talvez azul. No prestei muita ateno nenhuma das vezes. 
Ele foi legal comigo. Ficou doido com o meu piercing no mamilo.  novo.
Melissa deu um enorme sorriso para gavin e levantou o top toda orgulhosa.
- legal.
Na verdade, ele achava melissa grotesca. Jamais gostou muito dela, nunca sentiu 
atrao por ela, mas naquele momento sentia nojo. Tambm comeou a questionar se 
Ela estava realmente histrica, ou se tudo aquilo era uma encenao, um 
artifcio para entrar na casa dele, ou algo mais. Melissa tinha inveja de janey 
e podia estar 
Querendo um pouco da ateno que a amiga assassinada estava recebendo.
Gavin puxou o top de volta para o lugar.
- voc tem certeza de que o cara com quem voc estava era brad armstrong, 
melissa?
- no acredita em mim? Eu ia andar por a desse jeito de propsito?
Era verdade.
- quando foi que voc ficou sabendo que esse era o cara que a polcia estava 
procurando?
- ns fomos para esse motel. Fomos para a cama. Ele estava trepando comigo 
quando dei uma olhada para a televiso do outro
Lado do quarto. Estava ligada, mas sem som. E com a foto dele na tela. Enorme, 
como dalas. Toda a galera est  procura dele e ele est transando comigo.
- o que voc fez?
- o que voc acha? Tirei o cara de cima de mim. Disse que tinha que ir embora, 
que tinha lembrado de um compromisso. Ele comeou a discutir. Tentou me 
convencer 
A ficar. Quanto mais ele falava, mais maluco ficava. Primeiro me chamou de 
teso, depois disse que eu era uma putinha cruel, depois endoidou de vez. Ele me 
agarrou, 
Me sacudiu e disse que eu s ia embora depois que ele fizesse tudo que queria 
comigo.
Melissa estendeu os braos para mostrar a gavin as marcas roxas que comeavam a 
aparecer.
- eu estou dizendo, gavin, ele ficou completamente louco. Ele me bateu, me 
chamou de vagabunda safada e disse que eu era uma vagabunda safada como a janey 
kemp. 
Essa foi a gota d'gua pra mim. Comecei a berrar e ele me soltou. Peguei minhas 
roupas e vazei.
- h quanto tempo foi isso?
- desde quando eu sa correndo? Talvez uma hora. Pedi carona para um cara numa 
picape e vim at onde estava o meu carro, depois vim direto para c e vi o carro 
da 
Polcia. E estou tentando esse tempo todo falar com voc pelo celular. 
Finalmente, lembrei do seu telefone fixo. E voc j sabe o resto. - melissa 
olhou para gavin 
Com expresso de splica. - eu estou muito mal, gavin. S uma dose de qualquer 
coisa, por favor?
- j disse que no - ele se abaixou na frente dela. - voc conversou com ele 
sobre a janey?
- voc acha que sou burra? Eu no queria acabar como a janey.
- viu alguma foto dela por l?
- ele tinha os jornais.
- alguma fotografia?
- no. Mas assim que cheguei l, no estava procurando nada e depois eu s 
pensava em escapar.
- voc disse que quando esteve com ele no incio da semana ele parecia familiar. 
J o tinha visto com a janey?
- no tenho certeza. Posso ter visto o cara s se esgueirando no meio da galera. 
Ele visita  site do clube do sexo e...
- ele disse isso?
- disse. E na outra noite ele tinha uma pilha imensa de revistas pornogrficas. 
Ele gosta de farra.
Gavin pegou o telefone sem fio e comeou a apertar os nmeros. Melissa pulou da 
poltrona.
- para quem voc est ligando?
- meu pai.
Ela arrancou o telefone da mo dele.
- ele  da polcia. No quero me envolver com a polcia. Nada disso.
- ento por que veio me procurar?
- eu precisava de um amigo. Precisava de ajuda. Achei que voc poderia me 
ajudar. Claro que eu no sabia que voc tinha ficado careta desde a ltima vez 
que te vi. 
Nada de bebida, nada de...
- esto caando esse homem. - gavin pegou o telefone de volta, irritado. - se 
foi ele que matou a janey, tem de ser preso.
As feies de melissa desmoronaram e ela comeou a gemer e a esfregar as mos.
- no fique bravo comigo, gavin. Eu sei que eles tm de pegar esse cara, mas, 
caramba...
Gavin ficou com pena dela.
- melissa, voc veio me procurar, de todos os seus amigos, porque sabia que eu 
ia falar com o meu pai. L no fundo, voc queria fazer o que  certo.
Melissa mordeu o lbio.
- tudo bem. Pode ser. Mas me d um tempo para eu jogar uns bagulhos na privada. 
Porque, alm de tudo isso, eu no vou ser presa por porte de drogas. Onde  o 
banheiro?
Gavin apontou para o banheiro no corredor enquanto ligava para o celular do pai. 
Tocou quatro vezes.
Ele mal ouviu o al com a gritaria e o que parecia uma briga ao fundo.
- paris?
- gavin?
- preciso falar com meu pai, paris.  uma emergncia.


Captulo trinta e dois

- sou paris gibson. Espero que vocs passem as prximas quatro horas comigo aqui 
na 101.3. Vou tocar para vocs msicas clssicas de amor e atender seus pedidos. 
As linhas telefnicas esto abertas. Telefonem para mim.
"vamos comear esta noite com um sucesso dos stylistics.  assim que o amor 
devia ser, 'you make me feel br and new'."
Paris desligou o microfone. As linhas telefnicas j comearam a acender. A 
primeira ouvinte pediu "hooked on a feeling", de b. J. Thomas, j que o tema de 
hoje 
 "como nos sentimos quando nos apaixonamos".
- obrigada por ligar, angie. Sua msica entra no ar logo em seguida.
- tchau, paris.
Paris seguia sua rotina normal, apesar desta noite no ser nada normal, nem 
rotineira. J fazia quase uma hora que dean tinha sado correndo para encontrar 
gavin 
E melissa hatcher na delegacia do centro.
Logo depois de falar com gavin, dean havia ligado para curtis e resumido a 
histria de melissa. Curtis pediu todas as informaes e agiu imediatamente.
- vamos captur-lo logo - disse dean para paris quando concluiu a conversa com 
curtis. - podemos comear no bar onde ele pegou melissa. Ela tem uma idia 
aproximada 
Do tempo que armstrong levou de carro at o motel, de modo que isso nos d um 
raio de busca.  uma rea bem grande, mas no to extensa como era antes.
Paris perguntou se algum tinha contado para toni armstrong esses novos 
acontecimentos.
Dean indicou que sim balanando a cabea.
- curtis estava com ela quando recebeu a minha ligao. O advogado deles tambm 
- ento ele abraou paris com fora.
- ele ser preso logo, e voc estar segura. Esse caso vai terminar.
- exceto pela lembrana do que ele fez com a janey.
-  - suspirou dean com tristeza, mas a cabea j estava a mil, ligada na 
modalidade policial. - curtis disse que o carro da polcia continua a na frente 
at encontrar 
Armstrong. Alm disso, griggs praticamente se considera seu guarda-costas 
particular ele olhou para stan, esquecido por um momento. - eu acho que isso 
inocenta voc, 
Crenshaw.
- voc vai se arrepender do jeito que me tratou.
- j me arrependo. Gostaria de ter chutado o seu traseiro enquanto ainda tinha 
uma boa desculpa. - ele beijou paris na boca rapidamente e saiu correndo.
Stan seguiu dean para fora da sala, ofendido. Paris deixou-o ir, sem dizer nada. 
Ia ficar emburrado, mas sobreviveria, e enquanto isso ela precisava se preparar 
Para o programa. Podia esperar at ter mais tempo para acertar as contas com 
stan, quando o humor dele estivesse melhor.
Eram dez e meia e paris ligou o microfone.
- estarei de volta depois do intervalo com mais msicas. Se voc quiser pedir 
uma msica, ou apenas conversar, telefone para mim.
Paris cortou o microfone, sentiu que havia algum no estdio, rodou no banco 
giratrio. Stan estava parado logo atrs dela.
- no ouvi voc entrar.
- eu entrei sorrateiramente.
- por qu?
- achei que j que voc e o seu namorado me consideram desagradvel, devia me 
comportar de acordo.
Era uma coisa bem tpica do stan dizer aquilo, bem infantil, impertinente.
- sinto muito por voc ter ficado magoado com as alegaes de dean, stan. Mas 
admita. Por um momento voc parecia mesmo um suspeito.
- de estupro e assassinato?
- eu j disse que sinto muito.
- achei que me conhecia melhor.
- eu tambm pensei que o conhecia melhor - exclamou paris, perdendo a pacincia 
com ele. - se o seu comportamento fosse acima de qualquer suspeita, ningum 
teria 
Pensado nada disso de voc. Mas fora a acusao de assdio sexual na flrida, 
voc andou mentindo a meu respeito, dizendo para as pessoas que ramos 
namorados.
- s para o marvin, ou sei l qual  o nome dele. E no com tantas palavras.
- no importa o que disse, voc mandou o seu recado. Por que queria que algum 
acreditasse nisso?
- por que voc acha?
A voz dele falhou e subitamente pareceu que ia chorar. A exibio emocional 
deixou paris constrangida por ele.
- eu no tinha idia de que voc sentia isso por mim, stan.
- bem, mas devia, no acha?
- nunca olhei para voc como... Num contexto romntico.
- esses malditos culos escuros devem ter impedido que voc visse o bvio.
- stan...
- voc s me via como um bode expiatrio incompetente para o meu tio, e um 
fresco.
Era uma verdade desagradvel que paris no podia negar, mas ela pediu desculpa.
- desculpe-me.
- pelo amor de deus, essa foi a terceira vez que voc pediu desculpa. Mas no 
est sendo sincera. Se quisesse mudar o que sente por mim, mudaria. Mas voc no 
quer. 
Especialmente agora que tem o seu namorado de volta. Ele baba por voc, no ? E 
voc... Que sempre manteve essa poltica de no-me-toques... De repente est no 
Cio.
"acho que saiu direto da cama para c, no foi? Quando  que voc vem para o 
trabalho de cabelo molhado? Andou se divertindo, paris? No  legal no ter 
nenhum noivo 
Inconveniente para eliminar dessa vez?"
- o que voc est dizendo  nojento e extremamente cruel. Ele chegou mais perto 
e deu um sorriso maldoso.
- eu feri sua conscincia?
Paris teve de encolher os dedos para evitar dar um tapa nele.
- voc no sabe nada sobre isso, nem sobre mim. Essa conversa acabou, stan.
Ela virou de frente para a mesa de controle, verificou o cronmetro, olhou para 
as luzes piscando nas linhas telefnicas. AperTou uma.
- aqui  paris.
- oi, paris. Meu nome  gergia.
- ol, gergia.
Paris respirou lenta e silenciosamente pela boca para aplacar a raiva e poder se 
concentrar no trabalho.
- andei tendo algumas dvidas sobre o meu namorado disse a ouvinte.
Paris ficou escutando a jovem reclamar do medo que o namorado tinha de assumir 
um compromisso. Durante aquele monlogo, paris olhou para trs. No havia mais 
ningum 
No estdio. Stan tinha sado sorrateiramente, do mesmo jeito que entrou.
- ns o pegamos! - gritou curtis do seu cubculo no bci. - vo traz-lo para c 
em dez minutos.
Dean encontrou o detetive na passagem estreita entre as salas.
- ele resistiu?
- os policiais que o prenderam pediram para o gerente do motel abrir a porta do 
quarto dele. Armstrong estava sentado na cama, com a cabea apoiada nas mos, 
chorando 
Feito um beb. E ficava dizendo o tempo todo "o que foi que eu fiz?"
Dean foi para a sada.
- quero contar para o gavin.
- agradea a ele por mim. As pistas que ele nos deu reduziram consideravelmente 
a rea de busca. E fique por perto, est bem? Gostaria que voc estivesse 
presente 
No interrogatrio.
- pretendo estar. Eu volto logo.
Gavin e melissa hatcher estavam sentados no mesmo banco do lado de fora do bci 
onde paris e ele tinham sentado... Quando foi mesmo? Ontem? Meu deus, tanta 
coisa 
Tinha acontecido nesse curto espao de tempo, com o caso, com eles...
Quando a porta dupla de vidro se fechou atrs dele, dean levantou o polegar para 
gavin e melissa.
- ele acabou de ser preso. Esto trazendo para c agora. Voc fez um timo 
trabalho, filho - dean ps o brao no ombro de gavin e deu-lhe um abrao rpido. 
- estou 
Orgulhoso de voc.
Gavin enrubesceu modestamente.
- ainda bem que o pegaram. Dean virou para a menina e disse:
- obrigado a voc tambm, melissa.  preciso muita coragem para se apresentar.
Quando dean chegou  delegacia de polcia, melissa e gavin j estavam com 
curtis. Ele e alguns outros detetives escutavam o relato detalhado do tempo que 
melissa 
Tinha ficado com brad armstrong.
Melissa parecia gostar de ser o centro das atenes, mas a aparncia dela estava 
um horror. Ento lavou a maquiagem borrada do rosto e escovou o cabelo para no 
Ficar despontando da cabea como as pontas de uma maa medieval. Algum, 
provavelmente uma policial, havia encontrado um cardig para melissa pr sobre o 
top exguo, 
Que provara ser uma distrao at para os detetives mais velhos.
A menina ficou contente com o cumprimento de dean, mas lambeu os lbios, 
nervosa.
- eu sou obrigada a v-lo?
- precisamos que voc o identifique oficialmente como o homem que a atacou.
- no foi exatamente um ataque. Eu estava chapada, mas sabia o que estava 
fazendo quando sa do bar com ele.
- voc  menor de idade. Ele fez sexo com voc. Isso  crime. Ele tambm bateu 
em voc e tentou prend-la contra a sua vontade. Podemos mant-lo preso sob 
essas 
Acusaes enquanto esperamos o relatrio da autpsia de janey do mdico-legista. 
Sei que no ser fcil para voc v-lo de novo, mas a sua ajuda  essencial. Os 
Seus pais j chegaram?
- ainda no. Ficaram histricos quando liguei para eles, mas no to furiosos 
como pensei que ficariam. Acho que imaginaram que eu tambm podia ter aparecido 
morta. 
O gavin pode ficar comigo?
- se voc quiser. Gavin?
Gavin ergueu os ombros, assentindo.
- claro.
- tudo bem, ento, dr. Malloy - disse melissa. - podem trazer o pervertido. Fico 
o tempo que precisarem de mim.
- aqui  paris.
- sou eu.
O simples som da voz de dean fez o corao dela palpitar e provocou um sorriso 
idiota.
- voc perdeu o nmero particular que eu te dei? Por que est ligando para essa 
linha?
- queria ver como  ser um ouvinte comum.
- voc pode ser um ouvinte, mas certamente no  comum.
- no? Que bom - havia um sorriso por trs da voz dele tambm, mas dean logo 
ficou srio. - prenderam o armstrong. Deve chegar aqui a qualquer minuto.
- graas a deus. - paris ficou aliviada, mas logo sentiu um aperto no corao 
pela mulher dele. - voc viu a toni?
- h poucos minutos. Ela est confusa, mas acho que ficou contente do marido ter 
sido capturado antes de poder machucar mais algum.
- ou ele mesmo.
- a possibilidade de suicdio me ocorreu tambm. Voc est ficando to boa 
quanto eu no meu trabalho.
- nem chego perto. Opa, espere um segundo. Tenho de botar a vinheta da estao 
no ar - ela cuidou daquilo e voltou para o telefone. - pronto, tenho alguns 
minutos.
- no vou tomar seu tempo. Prometi ligar assim que soubesse de alguma coisa.
- e eu agradeo. O meu programa agora vai ser muito mais tranqilo, sabendo que 
ele est preso. Eu no conseguia me concentrar, e toda vez que atendia uma 
chamada 
Prendia a respirao, com medo de ser ele.
- agora no precisa mais se preocupar.
- gavin ainda est com voc?
- est fazendo companhia para melissa. O que ele fez foi maravilhoso, hein?
- eu achei.
- eu tambm. Demonstra maturidade e noo de responsabilidade.
- e confiana em voc, dean. Essa foi a conquista mais significativa.
- depois de alguns desvios, acho que agora ele est no caminho certo.
- tenho certeza disso.
- e por falar em jovens rebeldes, lancy ray fisher foi libertado.
- estou pensando em contrat-lo.
- o qu?
Paris riu do susto de dean.
- nunca trabalhei com um produtor, apesar de a administrao ter me oferecido 
um. Seria uma boa maneira de lancy aprender, ter alguma experincia.
- o que o stan vai achar disso?
- no cabe a ele decidir.
- alguma reao pelo que aconteceu mais cedo? Paris hesitou e depois disse:
- ele est de mau humor, mas vai superar.
Dean j tinha coisa demais na cabea para paris contar sua mais recente 
altercao com stan. Tinha sido perturbadora. Depois de tudo que foi dito, ser 
que os dois 
Podiam reparar os estragos e estabelecer um relacionamento de trabalho 
confortvel? Era pouco provvel.
No entanto, a perspectiva de uma dissidncia no local de trabalho no a 
incomodava como teria acontecido uma semana antes. Ento a vida dela existia em 
funo do 
Trabalho. Qualquer coisa que afetasse seu emprego provocava um efeito profundo 
nela, porque era tudo que tinha. Mas isso agora tinha mudado.
Como se seguisse os pensamentos de paris, dean disse:
- quero passar a noite com voc.
A declarao evocou lembranas dos momentos breves, mas preciosos, que eles 
tiveram aquela noite na cama, e provocou um calor que percorreu todo o corpo de 
paris.
- eu devo desligar quando os ouvintes dizem coisas como essa.
Dean deu uma risadinha.
-  o que eu quero, mas no sei quanto tempo vo precisar de mim aqui.
- faa o que tem de fazer. Voc sabe que eu compreendo.
- eu sei - disse ele, suspirando. - mas a noite de amanh vai demorar muito a 
chegar.
Paris sentia a mesma coisa. Com todo profissionalismo possvel, ela disse:
- ouvinte, quer fazer um pedido?
- quero sim.
- estou ouvindo.
- quero que voc me ame, paris.
Ela fechou os olhos, prendeu a respirao e disse com suavidade e firmeza ao 
mesmo tempo:
- eu te amo.
- eu tambm te amo.
John rondeau preferiu subir de escada, em vez de esperar o elevador. Suas trocas 
de e-mails com outro policial da polcia de atlanta revelaram uma informao 
nova 
Sobre stan crenshaw e ele estava ansioso para contar para curtis. No queria 
enviar por e-mail, nem dar a notcia por telefone. Rondeau queria falar 
pessoalmente 
Com o detetive.
Mas quando chegou ao bci, encontrou uma grande agitao. Pelo nmero de pessoas 
correndo de um lado para outro, podia ser meio-dia, em vez de mais de meia-
noite. 
Uma polcia feminina passou apressada por ele, rondeau segurou o brao dela e a 
fez parar subitamente.
- o que est havendo?
- por onde voc andou? - disse ela, franzindo a testa e puxando o brao. - 
pegamos o armstrong. J vo traz-lo para c.
Rondeau avistou dean malloy conversando com toni armstrong e um homem de terno 
cinza que tinha a palavra "advogado" carimbada nele todo. Encontrou curtis no 
seu 
Cubculo, curvado sobre o telefone, esfregando a palma da mo no cabelo 
curtinho.
- no, senhor juiz - dizia curtis -, ele no confessou, mas h muitas provas 
circunstanciais apontando para ele. Esperamos que a autpsia produza algum DNA, 
apesar 
Do corpo ter sido lavado...
Curtis parou de falar e parecia que tinha sido interrompido. Esfregou a cabea 
mais rpido.
- , eu sei bem que os testes de DNA demoram muito, mas talvez, quando armstrong 
souber que estamos examinando o dele para ver se combina, ele desembuche. 
Certamente, 
Senhor juiz. Claro que sim. Logo que soubermos mais alguma coisa. Meus psames, 
mais uma vez, para a sra. Kemp. Boa-noite.
Curtis desligou, ficou olhando para o telefone por alguns segundos, depois para 
rondeau.
- o que ?
Rondeau mostrou a pasta que tinha na mo.
- stan crenshaw. O cara tem comportamento fora do padro desde o colgio. 
Levantar a saia das meninas. Exibio indecente. Leitura interessante.
- sei disso, mas ele no  valentino.
- ento o que fao com isso? Jogo fora?
Curtis ficou de p, puxou os punhos da camisa com monogramas e alisou a gravata.
- deixe na minha mesa.
- algum devia dar uma espiada nisso.
Uma sbita mudana no ambiente indicou que alguma coisa importante estava 
acontecendo fora das paredes do cubculo de curtis. Rondeau saiu atrs dele. E 
os dois 
Foram para o centro do bci.
Rondeau reconheceu o dr. Brad armstrong pelas fotos de famlia tiradas do cd. De 
um lado e de outro havia dois policiais uniformizados. Algemado, armstrong 
estava 
De cabea baixa, parecia um homem derrotado. Foi levado para uma sala de 
interrogatrio. Malloy, o advogado e toni armstrong tambm foram para a sala. O 
ltimo a 
Entrar foi curtis, que fechou a porta.
Rondeau, sentindo-se rejeitado, batia a pasta na palma da mo. Se curtis achava 
que tinha capturado valentino, talvez devesse simplesmente deixar o assunto pra 
l 
E esquecer stan crenshaw.
Mas e se, depois de interrogar armstrong, curtis percebesse que tinham prendido 
o cara errado? E se o resultado da autpsia deixasse dvida, ou at refutasse as 
Provas circunstanciais contra ele? E se seu DNA no combinasse com nenhuma das 
amostras coletadas dos restos de janey, se  que iam conseguir fazer isso, j 
que 
Seu corpo tinha sido lavado quimicamente?
Rondeau tomou uma deciso e saiu apressado do bci. Quando passava pela porta 
dupla, avistou gavin malloy e uma menina sentados juntos num banco no vestbulo. 
No 
Os tinha visto quando chegou. Da escada, virara  direita para entrar no bci. Os 
dois estavam sentados  esquerda da escada. Ao som das portas se fechando, a 
menina 
Virou para ele.
Que merda!
No sabia o nome dela, mas a tinha visto inmeras vezes. Se ela o reconhecesse, 
estaria ferrado.
John rondeau correu para a escada.
- ei, gavin, quem  aquele cara?
- hein?
Os ltimos dias tinham sido pesados para ele. Gavin cochilava, com a cabea 
encostada na parede. Melissa cutucou o brao dele.
- depressa! Olhe!
- onde?
Gavin levantou a cabea, abriu os olhos sonolentos e olhou para onde melissa 
apontava. Atravs do corrimo de metal da escada, ainda viu de relance a cabea 
de john 
Rondeau logo antes de chegar ao patamar de baixo e desaparecer.
- o nome dele  john rondeau.
- ele  policial?
- crimes de informtica - resmungou gavin. - foi ele que dedurou o clube do 
sexo.
- srio? Porque eu j vi esse cara em algum lugar. Na verdade, acho que j 
transei com ele.
Maravilha, pensou gavin. Se ela lembrasse que rondeau era algum que saa e 
transava com adolescentes e desse com a lngua nos dentes, rondeau podia pensar 
que ele, 
Gavin, o tinha dedurado.
- no pode ser. Ele tem aquele tipo de cara que sempre lembra algum.
No era uma boa explicao, mas gavin no conseguia pensar em outra.
Melissa ficou pensativa.
- acho que teria de ver o pau dele para ter certeza. Mas eu poderia jurar...
Ento eles ouviram o som que indicava a chegada do elevador. Viraram a tempo de 
ver um casal bonito e bem-vestido. Melissa se levantou.
- seus pais? - perguntou gavin, surpreso de ver que os dois eram to 
apresentveis e respeitveis.
Melissa foi andando desajeitada ao encontro deles, com suas sandlias 
plataforma, puxando, constrangida, a saia curta para baixo.
- oi, me. Oi, pai.
A chegada deles no poderia ser em melhor hora. Gavin no queria mais saber de 
rondeau, e isso inclua at falar sobre ele. Odiava ser o guardio do segredinho 
sujo 
Do policial, mas a lembrana da ameaa contra seu pai faria com que gavin 
levasse aquele segredo para o tmulo.


Captulo trinta e trs

- perdo, toni. Eu sinto muito. Voc  capaz de me perdoar?
O dr. Brad armstrong parecia mais preocupado com a opinio que a mulher tinha 
dele do que com as srias alegaes feitas contra ele, que potencialmente 
poderiam 
Custar-lhe a vida. Apelava melanclica e pateticamente para a mulher.
- vamos resolver isso primeiro, brad. Teremos muito tempo depois para falar de 
perdo.
Toni estava sendo estica, com a voz calma, o que era incrvel diante da 
provao pela qual teria de passar. Devia ter se enrolado com o equivalente 
emocional da 
Melhor fita adesiva para no desmoronar, e permanecia intacta. Dean meneou a 
cabea para ela como se dissesse "segure as pontas" quando toni saiu da sala de 
interrogatrio, 
Deixando o marido sozinho com ele, o advogado e curtis.
Curtis identificou todos ali presentes para constar na gravao, depois comeou 
a contar para bradley armstrong tudo que sabiam sobre ele e por que o 
consideravam 
Suspeito de ter seqestrado e assassinado janey kemp.
- eu no seqestrei aquela menina.
A negao fervorosa no impressionou curtis.
- vamos chegar l. Primeiro, vamos falar daquela vez em que voc molestou paris 
gibson. - armstrong fez uma careta. Estou vendo que se lembra desse incidente - 
observou 
Curtis. Voc tem raiva da srta. Gibson at hoje, no ?
- ela fez com que me demitissem de um emprego lucrativo.
- voc nega ter passado a mo nela?
Brad abaixou e balanou a cabea indicando que no.
- responda em voz alta para o gravador, por favor.
- no, eu no nego isso.
- ligou para o programa dela no rdio recentemente?
- no.
 j ligou para l alguma vez?
- posso ter ligado.
- se eu fosse voc, no me esquivaria da parte fcil, dr. Armstrong - aconselhou 
curtis. - j ligou para ela alguma vez, com o programa no ar? Sim ou no?
O dentista levantou a cabea e suspirou.
- sim, eu telefonei para ela, disse uma grosseria e desliguei.
- quando foi isso?
- h muito tempo. Logo depois que nos mudamos para austin e descobri que paris 
tinha um programa de rdio.
- foi s essa vez? - perguntou dean.
- eu juro.
- voc sabia que havia um envolvimento da srta. Gibson com o dr. Malloy e um 
homem chamado jack donner?
Dean olhou para curtis e j ia perguntar de onde tinha sado aquela pergunta, 
mas armstrong respondeu sem lhe dar essa chance:
- saiu no noticirio em houston.
Ento dean entendeu a validade da pergunta do detetive. Valentino tinha dito que 
a morte de jack pesava na conscincia deles, indicando que conhecia a histria.
- de onde voc telefonou para ela?
- da minha casa. Do meu celular. No lembro, mas certamente nunca telefonei para 
falar de janey kemp.
Curtis j sabia que no havia nenhuma ligao para a estao de rdio nos 
registros do telefone celular ou da casa de armstrong, mas s tinha pedido essa 
informao 
Dos meses anteriores. Armstrong podia estar dizendo a verdade, ou podia ter 
usado um telefone pblico para fazer as ligaes de valentino, ou ento talvez 
tivesse 
Usado um celular que no podia ser rastreado.
Curtis perguntou se ele tinha disfarado a voz quando ligou.
- no precisava. Ela jamais reconheceria a minha voz. Ns s tnhamos nos 
visto... Naquele dia.
- voc se identificou para ela? - perguntou curtis.
- no. Eu s disse "v se foder", ou algo parecido, e depois desliguei.
- de onde tirou valentino?
Brad olhou para o advogado dele, depois para dean, como se pedisse uma 
explicao.
- o qu?
- valentino - repetiu curtis.
As notcias citavam as ameaas por telefone a paris gibson como elemento-chave 
no caso, mas tinham omitido o nome da pessoa que ligava para evitar os 
confessores 
Crnicos que embaralhavam a investigao com pistas falsas.
- voc escolheu esse nome por causa do ator dos filmes mudos? - perguntou 
curtis. - e por que setenta e duas horas? Tirou esse prazo do nada? Por que no 
quarenta 
E oito, que se aproxima mais do que realmente aconteceu, no  mesmo?
Armstrong virou para o advogado.
- do que  que ele est falando?
- deixa pra l. Falaremos disso depois - disse curtis. - falenos sobre janey 
kemp. Onde a conheceu?
Com o advogado monitorando bem de perto cada palavra, armstrong admitiu que 
freqentava o site do clube do sexo e que acabou se tornando um de seus membros, 
indo 
Aos locais especficos de reunio.
- eu inventava motivos para sair de casa.
- voc mentia para a sua mulher.
- isso no  crime - disse o advogado.
- mas fazer sexo com menores de idade  - acusou curtis. Quando encontrou janey 
pela primeira vez, dr. Armstrong?
- no me lembro da data exata. Uns dois meses atrs.
- em que circunstncias?
- eu j sabia quem ela era. J a tinha visto de longe, feito perguntas, e 
descobri que o apelido que usava no site era gata de botas. Li as mensagens que 
ela deixava 
Nos fruns, sabia que ela era... -armstrong gaguejou e refez a frase. - eu sabia 
que ela era sexualmente ativa e que se dispunha a fazer quase qualquer coisa.
- ou seja, ela era uma presa para predadores como voc. O advogado ordenou que 
brad no respondesse.
Curtis fez um gesto desconsiderando a afirmao e quase se desculpando.
- na noite que conheceu janey fez sexo com ela? -fiz.
- janey kemp tinha dezessete anos - esclareceu o advogado.
- recm-feitos - disse curtis.
Com a voz angustiada, armstrong disse:
- vocs precisam entender que essas meninas estavam l para isso. Estavam  
procura disso. Nunca tive de forar nenhuma delas a fazer sexo comigo. Na 
verdade, uma 
Delas - no janey, uma outra - cobrou cem dlares por cinco minutos do tempo 
dela, depois foi direto para seu prximo cliente. Disse que estava juntando 
dinheiro 
Para comprar uma bolsa vuitton.
- voc tem prova disso?
- ah, claro, ela me deu um recibo - respondeu armstrong sarcasticamente.
Curtis no achou graa nenhuma e continuou, impvido. Dean acreditava que o 
dentista estava dizendo a verdade sobre a prostituio, porque coincidia com o 
que gavin 
Havia contado.
Curtis continuou o interrogatrio:
- na noite que conheceu janey, onde fez sexo com ela?
- num motel.
- no mesmo em que o encontramos hoje? Ele fez que sim com a cabea.
- eu mantenho um apartamento permanente l.
- que aluga com esse propsito?
- no responda - instruiu o advogado.
- voc tirou fotos de janey? - perguntou curtis.
- fotos?
- , fotografias. Com tema diferente daquelas que tira da sua famlia nas frias 
- acrescentou o detetive secamente.
- pode ser. Eu no lembro.
Curtis semicerrou os olhos, focalizando bem o dentista.
- o seu antro de perverso est sendo vasculhado neste exato momento. Por que 
no nos conta o que podemos encontrar e economiza o nosso tempo?
- eu tenho revistas pornogrficas. Vdeos. Tirei fotos de... De mulheres de vez 
em quando, por isso pode ser que... Sim, deve ter algumas fotos de janey.
- voc revelou essas fotos l no seu quarto escuro improvisado?
Armstrong pareceu sinceramente confuso.
- eu no sei revelar filmes.
- ento onde mandou revelar suas fotos de "mulheres"?
- mandei o filme para um laboratrio fora da cidade.
- que laboratrio?
- no tem nome.  s um nmero de caixa postal. Posso dar esse nmero.
- eu vou adivinhar.  um lugar que revela filmes que atende a clientes 
especializados como voc?
Envergonhado, brad meneou a cabea.
- no uso muito, mas j usei.
As respostas de armstrong para aquela linha de perguntas eram inconsistentes em 
relao ao que janey contara para gavin sobre a paixo que o seu novo namorado 
tinha 
Por fotografia. Ou ele estava dizendo a verdade ou mentia muito bem.
Curtis deve ter pensado a mesma coisa, porque deixou esse assunto de lado por um 
tempo e perguntou sobre a ltima vez que armstrong havia visto janey.
- foi h trs noites. Acho que foi na noite em que ela desapareceu.
- onde foi que a viu?
- num lugar  beira do lago travis.
- voc foi at l com o propsito especfico de encontr-la?
- fui - respondeu armstrong antes do advogado poder aconselh-lo a no fazer 
isso.
Armstrong viu tarde demais a mo do homem levantada.
- no  crime marcar e comparecer a um encontro - disse brad para ele.
O advogado virou para curtis.
- s estou concordando que o meu cliente entre em detalhes aqui porque ele nega 
veementemente ter tido qualquer coisa alm de contato fsico com a vtima, que 
era 
Adulta e tinha consentido. Isso no pode ser considerado uma confisso de 
qualquer alegao de seqestro ou assassinato.
Curtis assentiu com a cabea e sinalizou para armstrong continuar.
- janey estava  minha espera no carro.
- que horas eram? - perguntou dean, lembrando que gavin tinha dito que ele 
tambm havia estado no carro de janey e que ela parecia estar esperando outra 
pessoa.
- no lembro exatamente - disse armstrong. - por volta das dez, talvez.
- o que vocs fizeram no carro dela? - perguntou curtis.
- fizemos sexo.
- tiveram uma relao sexual?
- felao.
- voc usou camisinha?
- usei.
- e depois, o que aconteceu?
- eu... Eu queria ficar mais um tempo com ela, mas ela disse que tinha o que 
fazer. Acho que estava esperando outra pessoa.
- quem?
- outro homem. Insistiu para eu ir embora, mas prometeu encontrar comigo na 
noite seguinte, no mesmo lugar,  mesma hora. Quando sa, ela ficou no carro, 
ouvindo um cd. Fui l na noite seguinte. Ela no estava. S fiquei sabendo que 
havia desaparecido quando li no jornal e vi a foto dela.
- por que no se apresentou, ento? - perguntou curtis.
- tive medo. Voc no teria?
- eu no sei. Voc me diz. Eu teria?
- eu tinha violado os termos da minha condicional. Uma menina com quem eu tinha 
feito sexo algumas vezes estava desaparecida - ele ergueu os ombros num gesto de 
Impotncia. -  s fazer as contas.
Curtis deu um sorriso de desprezo.
- eu j fiz, dr. Armstrong. Pelos meus clculos, voc queria mais de janey do 
que ela estava disposta a dar aquela noite. As coisas ficaram violentas. Voc 
tende 
A se tornar violento quando uma mulher no d o que voc quer, na hora que voc 
quer, no  verdade?
- s vezes fico com raiva, mas estou tratando disso.
- no com a rapidez necessria. E nesse meio-tempo, a sua raiva levou a melhor 
e, sem se dar conta, voc acabou estrangulando janey. Talvez ela tivesse morrido 
naquela 
Hora mesmo, talvez tivesse apenas perdido a conscincia e morrido mais tarde.
"em todo caso, voc entrou em pnico. Levou-a para aquele belo quarto, naquele 
seu motel vagabundo, e ficou imaginando o que ia fazer com ela, mas no fim rolou 
o 
Corpo dela para dentro do lago, rastejou para o seu esconderijo e pediu a deus 
para no ser acusado da morte dela."
- no! Eu juro que no a forcei a fazer nada, e no a matei de jeito nenhum!
O advogado massageava os olhos como se pensasse de que maneira ia construir uma 
defesa com as negaes frenticas do seu cliente. Curtis parecia srio e 
obstinado 
Como um ndio de tabacaria.
- no acho que fez isso intencionalmente - disse dean calmamente.
Armstrong virou para ele com a expresso desesperada de um homem que est se 
afogando,  procura de um salva-vidas.
O papel do policial bonzinho coube a ele porque desempenhava bem. Curtis era o 
duro. Nos minutos seguintes, dean seria o melhor amigo de brad armstrong e sua 
nica 
Fonte de esperana. Dean cruzou os braos sobre a mesa e chegou o corpo para a 
frente.
- voc gostava de janey, brad? No se importa que o chame de brad, no ? 
- Claro que no.
- voc gostava dela? Como pessoa, quero dizer.
- para ser sincero, no muito. No me entenda mal, ela era maravilhosa - 
subitamente cauteloso, brad olhou de lado para o advogado.
- sensual e liberal? - disse dean. - o tipo de menina que todos queramos 
namorar no colgio?
- ela era exatamente assim. Mas eu no gostava particularmente da personalidade 
dela.
- por que no?
- como a maioria das meninas bonitas, ela era presunosa e egocntrica. Tratava 
as pessoas como se fossem lixo. Ou se fazia do jeito dela ou no tinha conversa.
- ela o rejeitou alguma vez?
- s uma.
- por outro cara?
Brad balanou a cabea.
- ela disse que estava com tpm, que no estava com vontade. Dean sorriu para ele 
como amigo.
- ns todos passamos por isso.
Ento dean recostou na cadeira, cruzou os braos sobre o peito e o sorriso foi 
substitudo pela testa franzida.
- brad, o problema  que a maioria dos caras superaria isso. Ah, teriam alguma 
frustrao e talvez uma discusso mais sria, mas depois de um tempo o cara 
normal 
Tomaria uma cerveja ou duas, assistiria a um jogo, talvez at encontrasse uma 
menina mais dcil. Mas voc reage mal  rejeio. Voc no tolera isso. E acaba 
tendo 
De revidar, no ?
Brad engoliu em seco e balbuciou:
- s vezes.
- como fez esta noite com melissa hatcher.
- eu no tive tempo de conversar com o meu cliente .sobre melissa hatcher - 
disse o advogado. - por isso no posso permitir que ele fale sobre ela.
- ele no precisa dizer nem uma palavra - disse dean. - eu vou conversar com ele 
- sem esperar a permisso do advogado, dean continuou: - essa menina anuncia a 
mercadoria. 
Ela fez propaganda para mim, para o sargento curtis aqui e para todos os 
detetives dessa unidade. Qualquer homem traduziria o que ela veste como "venha 
me pegar".
- ento como podem me acusar de...
- no diga uma palavra - avisou irritado o advogado de brad. Dean ignorou o 
advogado e continuou prestando ateno
Apenas em brad.
- infelizmente para voc, brad, o estado do texas pode acuslo. Se voc penetrar 
o rgo sexual, a boca ou o nus de uma criana, isso se chama "violncia sexual 
Com agravante". Correto?
- perguntou dean para o advogado, que assentiu com a cabea.
- quantos anos tem melissa? - perguntou brad.
- dezesseis at fevereiro - respondeu dean. - ela afirma que vocs tiveram 
contato e relao sexual.
- e se... E se foi de comum acordo? - perguntou armstrong, parecendo no ouvir 
os conselhos do advogado, que pedia para ele no dizer nada.
- no importa - respondeu curtis. - voc  um criminoso sexual condenado. 
Segundo o captulo 62, isso torna o que voc fez indefensvel.
Armstrong ps as mos na cabea.
- sua condenao anterior por ato indecente com uma menor de idade foi um delito 
de terceiro grau. Esse  o mximo, brad.  crime de primeiro grau - afirmou 
dean.
- sem falar de assassinato, crime capital - ecoou curtis. Sem reagir  afirmao 
de curtis, dean continuou:
- voc pagou muito caro pelo seu comportamento imprprio e ilegal. Perdeu alguns 
empregos, o respeito dos seus colegas. Est correndo o risco de perder a sua 
famlia.
Os ombros do homem subiram e desceram com um soluo profundo.
- mas, apesar das conseqncias graves do seu comportamento inaceitvel, voc 
no parou.
- eu tentei - exclamou brad. - deus sabe que eu tentei. Pode perguntar para 
toni. Ela pode dizer. Eu a amo. Amo meus filhos. Mas... Mas no consigo me 
controlar.
Dean chegou para a frente de novo.
-  exatamente a que eu quero chegar. Voc no consegue evitar. Melissa deixou 
voc to excitado esta noite que quando ela disse no voc perdeu o controle. 
Voc 
A agarrou, sacudiu, estapeou. Voc no queria, mas no conseguiu controlar o 
impulso, mesmo sabendo o quanto ia se arrepender dos seus atos mais tarde.
"o seu desejo de dominar sexualmente essa menina mandou sua conscincia e seu 
bom senso para o inferno. Tinha de possula, apenas isso. Nada mais importava. 
Nem 
O castigo que teria de enfrentar quando fosse pego. Nem o seu amor por toni e 
pelos seus filhos foi capaz de impedir.  uma compulso que voc no aprendeu a 
controlar. 
Por isso fez aquilo com melissa esta noite e com janey."
- no responda - disse o advogado.
Dean baixou a voz mais um tom e falou com armstrong como se os dois fossem as 
nicas pessoas na sala.
- tenho uma idia bem clara do que aconteceu h trs noites, brad. Ali estava 
uma menina sexy e desejvel que voc pensava
Que gostava de voc como voc gostava dela. Ela se encontrava regularmente com 
voc e voc pensava que era s com voc.
"aquela noite, ela faz voc gozar. E  maravilhoso, mas voc sabe que ela no 
est sendo sincera. Voc sabe que ela  uma mentirosa, que provoca sem piedade. 
Voc 
Sabe que ela est esperando seu novo interesse aparecer para substituir voc.
"quando exige dela uma explicao, ela diz para voc sumir. Voc fica com cime, 
possessivo, e ela no suporta mais suas reclamaes. Acreditou mesmo que ela 
desistiria 
Dos outros homens por voc?, ela pergunta. Pobre idiota iludido.
"voc fica furioso. E voc pensa: 'quem ela pensa que  para me tratar desse 
jeito? Telefonando para paris gibson e falando de mim no rdio? Quem ela pensa 
que ?'"
Os olhos de dean hipnotizavam o suspeito.
- quando entrou no carro de janey aquela noite, acho que voc ainda no tinha 
planejado o seqestro e o assassinato. Acho que s planejava confront-la, 
acertar 
As contas com ela, esclarecer tudo.
"e talvez, se ela no tivesse debochado de voc, acabasse acontecendo exatamente 
isso. Mas janey riu da sua cara. Ela o castrou fazendo pouco de voc, insultou-o 
De um jeito que voc no podia tolerar. Voc perdeu o controle. Queria puni-la. 
E foi o que fez. Criou um castigo de violncia sexual, que combinava com o que 
ela 
Havia feito com voc. Voc a machucou at resolver que tinha se vingado, deixou 
para l o prazo que tinha dado para paris e a estrangulou at a morte."
Armstrong olhava para dean horrorizado, chocado. Virou para curtis, cuja 
expresso continuava fria e imutvel. Ento cruzou os braos em cima da mesa e 
apoiou a 
Cabea neles. Com a voz atormentada e entrecortada, ele gemeu:
- oh, deus. Meu deus!
Curtis e dean atenderam ao pedido do advogado de ficar um tempo sozinho com seu 
cliente e saram da sala. Curtis sorria e esfregava as mos, curtindo o golpe de 
Misericrdia.
- ele ainda no assinou a confisso - lembrou dean.
-  questo de papel e caneta. Alis, voc  bom nisso.
- obrigado - disse dean, distrado.
Aquele tinha sido o primeiro round do que devia ser um longo e exaustivo 
interrogatrio, mas algumas coisas o incomodavam.
- eu no perguntei especificamente se ele tinha ouvido janey no rdio, falando 
sobre o amante ciumento em quem ia dar o fora.
- mas voc aludiu a isso e ele no negou.
- ele negou ter ligado para paris para falar de janey.
- antes at de eu perguntar, o que para mim quer dizer "culpado" - argumentou o 
detetive.
- ele sabia da conexo com paris porque saiu nos jornais. Os registros 
telefnicos dele refutam a alegao de que ele telefonou para ela.
- h algumas maneiras de fazer aquelas ligaes sem aparecer nos registros.
- dar telefonemas estranhos no era parte do modus operandi de armstrong antes. 
Por que agora?
- talvez ele precisasse de uma nova emoo. Os telefonemas de valentino foram um 
tempero a mais para ele e ao mesmo tempo deixavam paris atordoada. Ele queria 
ter 
Prazer e se vingar. Os telefonemas realizavam as duas coisas.
Isso fazia sentido, mas s depois de amoldar bem para encaixar direito.
- as ligaes de valentino possuem uma crueldade que simplesmente no vejo em 
armstrong. Ele  doente, mas no acho que seja cruel.
Curtis franziu a testa para dean, irritado.
- esquea a motivao por um segundo e pense nos fatos.
- quais?
- a ocupao dele. Ele  dentista.
- a lavagem com produtos qumicos - disse dean, pensando em voz alta.
O mdico-legista tinha conseguido confirmar que, como o de maddie robinson, o 
corpo de janey tinha sido lavado com adstringentes.
- certo.  o tipo de coisa que um homem da medicina faria.
-  o tipo de coisa que um psicopata meticuloso tambm faria. Algum com a 
compulso de esfregar tudo muito bem para se livrar da culpa.
- armstrong pertence s duas categorias.
Dean virou para trs e olhou para a porta fechada da sala de interrogatrio.
- janey foi amarrada. Foi torturada. Tinha marcas de mordidas, pelo amor de 
deus.
- vamos tirar a impresso da mordida dele para comparar.
- o que estou dizendo  que nenhum delito anterior de armstrong incluiu 
violncia, nem indicou nenhuma propenso  violncia. Ele era um pervertido, mas 
no um pervertido 
Violento.
- o que  isso, malloy? - perguntou curtis, aborrecido. A prpria mulher dele 
nos disse que a tendncia  violncia estava aumentando. Voc disse que era uma 
progresso 
Natural para esse tipo especfico de psicose. Est querendo mudar de idia?
- eu sei o que eu disse, e estava certo.
- tudo bem, ento. Ele deu uns trancos em melissa hatcher esta noite.
- h um abismo imenso entre dar umas sacudidas numa mulher e torturar e depois 
estrangul-la at a morte.
- no meu livro no. E provavelmente no no livro da mulher que leva os trancos.
- no seja obtuso, curtis - disse dean, irritado. - no estou desculpando 
ningum. S estou dizendo...
- ah, merda, eu sei o que voc est dizendo - resmungou curtis, e extravasou sua 
frustrao bufando. Depois de uma breve pausa para acalmar os nimos, ele 
perguntou: 
- mais alguma dvida?
- a fotografia.
- armstrong admitiu que poderia ter tirado algumas fotos de janey.
- algumas. Poderia. Ele falou sobre a fotografia como se no fosse grande coisa. 
Janey insinuou o contrrio. Antes de comear de novo com o armstrong, voc se 
importa 
Se eu chamar o gavin para c para fazer mais perguntas sobre isso?
Curtis deu de ombros.
- sou a favor de qualquer pessoa que ajude a trancar esse cara.
Dean foi at o corredor e fez sinal para gavin. Ele se levantou e deixou melissa 
sentada com um casal que dean imaginou ser o pai e a me dela.
- o que foi, pai? - perguntou gavin. - ele confessou?
- ainda no. Enquanto isso, quero que voc conte para o sargento curtis e para 
mim tudo que janey falou sobre o valentino. Qualquer detalhe que voc lembre. 
Est 
Bem?
- eu j fiz isso uma dzia de vezes.
- mais uma vez. Por favor.
Encontraram curtis pegando um copo de caf. Ofereceu para os dois, mas eles 
recusaram. Curtis bebeu um gole do copo de plstico e disse:
- vou me arriscar a chover no molhado, mas mesmo uma observao que janey tenha 
feito sem pensar pode ser importante, gavin.
- gostaria de poder me lembrar de mais alguma coisa, senhor. Ela me disse que o 
cara era mais velho. Mais velho do que ns, quero dizer. Que ele era legal, 
sabia 
Como a mulher gostava de ser tratada.
 ns estamos mais interessados na fotografia - disse dean.
- ela disse que ele era manaco por cmeras - disse gavin. Iluminao, lentes, 
tudo muito elaborado. Ele mesmo inventava as poses para ela. Mexia nela, sabe, 
nos 
Braos, nas pernas. Na cabea. Tudo.
- ela poderia estar exagerando para impressionar voc? Para voc pensar que ela 
era uma modelo, como na revista penthouse?
-  possvel - respondeu gavin. - mas se estava exagerando, certamente estudou 
tudo direitinho, porque sabia muita coisa. Ela mencionou velocidade de 
obturador, 
Coisas assim. Disse que ele usava um monte de equipamento para cada foto sair 
direito e ficava furioso quando ela no cooperava.
- ele no tirava apenas umas fotos obscenas - dean comentou com curtis. - se 
voc analisar a foto que janey deu para gavin, d para ver que foi tirada por um 
amador 
Tentando ser artstico.
- e voc acha que armstrong no seria capaz disso?
- capaz ele seria - disse dean. - mas se voc est traindo a sua mulher, que 
provavelmente est  sua espera acordada, vai gastar tanto tempo assim com 
fotografias?
Enquanto curtis ainda meditava sobre aquilo, por acaso olhou por cima do ombro 
de dean.
- o que voc est fazendo aqui?
Dean virou para ver quem tinha chamado a ateno de curtis e viu o policial 
griggs andando na direo deles. O sorriso do novato se desmanchou com a 
carranca de 
Curtis e o tom de desaprovao dele.
- eu... Fui dispensado, senhor. Disseram que eu podia ir embora. Mas estava 
ansioso para saber se armstrong tinha confessado, por isso em vez de...
- voc deixou paris l sozinha? - perguntou dean.
- bem, senhor, no...
- quem disse para voc sair de l?
- john rondeau.
Com o canto do olho, dean notou a reao de gavin  meno do nome de rondeau. 
Ele no reagiu com a antipatia que era de esperar, mas com medo.
- gavin? O que foi? - o filho de dean olhou para o pai com a cara branca. - 
gavin?
- pai... - o menino teve de engolir com dificuldade antes de continuar:  eu 
preciso te contar uma coisa.


Captulo trinta e quatro

Atravs das paredes de vidro, a iluminao fluorescente brancoazulada da entrada 
da estao de rdio diminua a escurido em volta, mas s um pouco. As luzes do 
Centro da cidade eram bloqueadas por morros. A lua era quase um risco e no 
produzia luz suficiente. Naquela hora da noite passavam poucos carros pela rua 
estreita. 
O prdio comercial mais prximo era uma loja de convenincia a oitocentos metros 
de distncia, que tinha fechado s dez.
Do ponto privilegiado do prdio da fm 101.3, nada era visvel, a no ser os 
morros pontilhados de cedros, rochas de calcrio e, de vez em quando, um rebanho 
de gado 
De corte. Era o lugar ideal para a torre de transmisso que piscava intermitente 
suas luzes vermelhas como aviso para avies particulares que voavam baixo.
Rondeau ficou parado ao lado do carro dele at as lanternas traseiras da viatura 
policial de griggs desaparecerem atrs de uma colina. Ele franziu o cenho com 
desprezo 
Para os policiais que iam embora.  claro que queria que eles fossem mesmo. Mas 
no deviam ter verificado a ordem, que ele tinha dito que vinha direto de 
curtis, 
Em vez de acreditar na palavra dele? Aquele tipo de descuido era inaceitvel. 
Daria queixa deles no dia seguinte. No ia conquistar a simpatia dos dois, mas 
fazer 
Amigos no significava progresso na carreira.
Foi caminhando para a entrada do prdio e levava com ele a pasta de informaes 
sobre stan crenshaw. Era um perfil perturbador, de um homem cuja famlia 
desestruturada 
E inseguranas pessoais levaram a delitos sexuais desde a infncia, prenncios 
coerentes das aberraes de valentino.
Porm, o que mais irritava rondeau era a injustia que aquilo representava. 
Crenshaw havia escapado com sua conduta ilegal. O tio o livrara de todos os 
casos. Fazendo 
Isso, wilkins crenshaw
Tinha aos poucos criado um monstro, capaz de seqestrar, estuprar, torturar e 
assassinar uma jovem adorvel.
Graas ao foco mope concentrado em brad armstrong, o sargento curtis havia 
descartado o contedo picante daquela pasta. Primeiro, rondeau ficou ofendido 
com o descaso, 
Mas acabou sendo uma vantagem para ele. Sem querer, curtis entregou de bandeja 
uma tima oportunidade para rondeau se tornar heri.
Em vez de apertar a campainha, ele bateu na porta de vidro.
No teve de esperar muito para ver pela primeira vez a figura medocre de stan 
crenshaw. Ele surgiu de um corredor escuro que partia do vestbulo, aproximou-se 
da 
Porta desconfiado e espiou pelo vidro que rondeau sabia que devia estar 
refletindo como um espelho, por causa da escurido que havia por trs. Crenshaw 
quase teve 
De pr as mos em concha do lado dos olhos para poder enxergar quem estava 
batendo.
Examinou rondeau de cima a baixo, com a condescendncia dos que nasciam em bero 
de ouro, depois espiou o estacionamento atrs do policial, onde a ausncia da 
viatura 
De polcia era flagrante.
- onde esto os policiais?
Rondeau, j sentindo o gosto do sucesso, apresentou seu distintivo.
- esse,  claro, foi johnny mathis com seu clssico "misty". Certamente uma boa 
msica para namorar. Espero que voc tenha algum esta noite, ouvindo as canes 
Clssicas de amor da fm
101.3. Sou paris gibson, tocando para vocs  meia-noite "i don't know how to 
love him", de melissa manchester. As linhas telefnicas esto abertas. Liguem 
para 
Mim.
Quando a msica comeou a tocar, paris desligou o microfone. Duas linhas 
telefnicas piscavam. Ela apertou um dos botes, mas ouviu o tom de discar. 
Desculpou-se 
Mentalmente com o ouvinte que obviamente havia desistido pela demora.
Paris apertou o segundo boto que piscava.
- aqui  paris.
- al, paris.
O corao dela chegou a parar e uma descarga de adrenalina o fez bater de novo, 
com fora, como os ps de um atleta partindo numa corrida.
- quem fala?
- voc sabe quem  - a risada dele era ainda mais assustadora do que a voz 
sussurrante. - seu mais fiel f, valentino.
Paris, angustiada, olhou para trs, torcendo para stan ter voltado 
silenciosamente para o estdio. Naquele momento teria gostado de levar um susto 
com ele ali atrs 
Dela. Mas estava sozinha.
- como...
- eu sei, eu sei, o seu namorado pensa que capturou o culpado. Esse erro egosta 
dele seria cmico se no fosse to pattico
- ele deu risada de novo e provocou arrepios nos braos de paris.
- eu fui um mau menino, no , paris?
Paris estava com a boca seca. O corao continuava a pular no peito e a pulsao 
vibrava ruidosamente em seus ouvidos. Procurou se disciplinar para manter a 
calma 
E raciocinar. Precisava alertar dean, o sargento curtis, griggs no 
estacionamento, algum, que tinham prendido o homem errado e que valentino 
continuava solto. Mas 
Como?
Mas que idia era aquela? Tinha um microfone nas pontas dos dedos! Centenas de 
milhares de pessoas escutavam o seu programa.
S que pensou melhor quando j ia ligar o microfone. Ser que devia divulgar 
pela rdio que a polcia de austin tinha cometido um erro? E se aquela ligao 
fosse 
Falsa, algum fazendo uma brincadeira cruel com ela? E se provocasse pnico nas 
pessoas?
Era melhor mant-lo na linha at resolver o que fazer.
- acima de tudo, voc  um mentiroso, valentino. Voc encurtou o prazo.
- isso  verdade. No tenho palavra.
- voc matou a janey antes de me dar uma chance de salv-la.
- injusto, no ? Mas eu nunca disse que era um cara honrado, paris.
- ento por que telefonou para mim? Se pretendia mat-la desde o incio, para 
que fazer essa elaborada campanha pelo telefone?
- para balanar o seu mundo. E funcionou, no funcionou? Voc est se achando 
uma merda por no ter conseguido salvar a vida daquela puta.
Paris no quis morder a isca. J tinha trilhado aquele caminho e janey havia 
morrido mesmo assim. A nica maneira de se redimir era identificar aquele filho-
da-me 
E lev-lo a julgamento, e no podia fazer isso discutindo com ele.
Podia ligar para dean pelo seu celular, mas... Droga! Estava na sala dela, 
dentro da bolsa. Ser que podia criar um problema tcnico para atrair stan? Em 
breve, 
A msica de manchester ia terminar. Era a ltima de uma srie. O silncio na 
transmisso faria stan ir para o estdio, investigar qual era o problema.
Enquanto paris raciocinava, valentino continuou falando:
- ela precisava morrer, sabe, por ter me trado. Ela era uma vagabunda sem 
corao. Gostei de v-la morrer bem devagar. Vi o momento em que ela percebeu 
que jamais 
Fugiria de mim. Ela sabia que no ia sobreviver.
- isso deve ter sido uma viagem cabea para voc.
- ah, certamente. Apesar de ter achado muito tocante o jeito que ela implorou 
com o olhar para eu poupar sua vida.
Aquela afirmao fez paris esquecer a deciso recente de no se deixar levar por 
nada que ele dissesse.
- seu doente, filho-da-me.
- voc acha que sou doente? - perguntou ele normalmente.
- acho isso estranho, paris. Eu torturei e matei janey, sim, mas voc torturou e 
matou seu noivo, no foi? No era uma tortura para ele saber que voc o tinha 
trado 
Com o melhor amigo dele? Voc se acha doente?
- eu no dirigi o carro de jack para aquela mureta, foi ele que fez isso. O 
acidente foi culpa dele. Foi ele que determinou seu destino, no eu.
- isso est me parecendo racionalizao - disse ele, com o tom de reprovao de 
um padre no confessionrio. - no vejo diferena entre o seu pecado e o meu, s 
que 
A tortura do seu noivo durou muito mais e ele morreu muito mais devagar. O que a 
torna bem mais cruel do que eu, no ? E  por isso que voc tem de ser punida.
"seria justo deixar voc continuar despreocupada e viver feliz para sempre com 
malloy? Acho que no", disse valentino, cantarolando com malcia. "isso no vai 
acontecer. 
Vocs nunca ficaro juntos, porque voc, paris, vai morrer. Esta noite."
O telefone ficou mudo. Paris pegou imediatamente seu telefone particular. Sem 
rudo de discar. Nada. Silncio. Numa rpida sucesso, ela experimentou todas as 
linhas 
Telefnicas, mas sem sucesso. Estavam todas mudas.
A compreenso foi chegando como uma sombra invasora. Ou ele tinha acesso e 
capacidade para desligar o equipamento telefnico computadorizado de fora do 
prdio ou... 
E era disso que paris tinha medo... Tinha simplesmente interrompido o servio de 
telefonia de dentro do prdio.
Paris pulou do banco. Abriu a porta pesada, toda acolchoada, e gritou no 
corredor escuro.
- stan!
A msica de manchester estava terminando. Paris correu de volta para a mesa de 
controle e apertou o boto do microfone.
- oi, aqui  paris gibson - a voz dela soou fina e alta, nada parecida com seu 
contralto normal -, isso no  uma...
O som estridente de um alarme interrompeu o que ela dizia.
Paris virou para o lado de onde vinha o som. Era do scanner, que gravava tudo 
que ia para o ar. Ningum percebia que existia. O alarme s alertava quando 
havia uma 
Interrupo na transmisso.
Dominada pelo pavor, paris apertou diversas vezes o boto do microfone, mas, 
como todos na mesa de controle, no acendia.
Correu para a porta novamente.
- stan!
O eco do grito parecia persegui-la enquanto corria para sua sala. A bolsa estava 
onde a tinha deixado, em cima da mesa, mas cada de lado. O contedo estava todo 
Espalhado sobre a mesa. Com as mos trmulas, ela remexeu nos cosmticos, lenos 
de papel, dinheiro solto, com a esperana de encontrar o celular, mas j 
prevendo 
Que no estaria l.
E no estava.
E faltava mais uma coisa. Suas chaves.
Procurou freneticamente no meio da correspondncia espalhada pela mesa, e at 
ficou de joelhos para espiar embaixo dela, mas sabia que o chaveiro e o telefone 
celular 
Tinham sido levados pelo mesmo indivduo que havia cortado as linhas telefnicas 
e desativado a transmisso. Todas as linhas de comunicao inutilizadas pelo 
homem 
Que matou janey e prometeu mat-la tambm.
Valentino.
Sua respirao estava to ofegante que no ouvia mais nada. Parou de respirar 
por uns segundos para ver se escutava alguma coisa. P ante p, foi at a porta 
da 
Sala, mas parou antes de atravess-la. O corredor, como sempre, estava escuro. 
Aquela noite a escurido familiar no provocava a sensao de segurana e 
conforto. 
Possua um atributo sinistro, talvez porque o prdio estivesse silencioso como 
um tmulo.
Onde o stan tinha se metido? Ser que no tinha notado que no estavam 
transmitindo? Se ele tivesse ido at o estdio e visto que ela no estava l, 
por que no 
Estava correndo pelo prdio  sua procura, para saber o que tinha acontecido?
Mas, antes mesmo do seu crebro formar essa pergunta, j tinha a resposta: stan 
no podia ir ver o que estava acontecendo com ela.
Valentino devia ter dado cabo dele, possivelmente at antes de ligar para ela. 
Ele podia estar no prdio havia algum tempo sem que ela soubesse, isolada como 
estava 
Dentro do estdio  prova de som.
Como valentino conseguiu passar por griggs e carson? E depois, como fez para 
abrir a porta do prdio? Era preciso ter a chave para destrancar a cavilha por 
dentro 
E por fora. Ser que ele convenceu stan a abrir a porta? Como?
No tinha respostas para essas perguntas.
Ficou tentada a bater a porta da sala, trancar-se l dentro e ficar esperando o 
socorro chegar. Aquela altura, ouvintes de toda a regio j deviam estar 
querendo 
Saber o que tinha feito a rdio sair do ar. At dean podia estar sabendo. O 
sargento curtis. Logo algum chegaria correndo para salv-la.
Enquanto isso, contudo, ela no podia se esconder ali. Griggs e carson podiam 
estar feridos. E stan.
Paris saiu para o corredor. De costas para a parede, para poder olhar para os 
dois lados, ela foi avanando aos poucos, na direo da frente do prdio. 
Enquanto 
Seguia pelo corredor, foi apagando todos os interruptores de luz que encontrava. 
Uma grande vantagem que tinha sobre valentino era o fato de conhecer a planta do 
Prdio. Estava acostumada a se orientar na semiescurido.
Com movimentos rpidos, mas com o mximo de silncio e cautela possveis, paris 
foi seguindo para a entrada. Cada vez que se aproximava de uma intercesso de 
corredores, 
Temia o que podia estar l  sua espera, mas, ao virar no ltimo corredor, viu 
que estava livre at o saguo bem iluminado. Correu e atravessou o saguo, com a 
inteno 
De se lanar contra a porta e socar o vidro para chamar a ateno dos policiais 
que a protegiam.
Mas o carro da polcia no estava l e a porta da frente estava trancada.
Com um grito sufocado, paris recuou e se afastou da porta, at bater na mesa da 
recepcionista. Apoiou-se nela para recuperar o flego e resolver o que ia fazer.
Subitamente, algum agarrou seu tornozelo. Paris gritou.
Ela olhou para baixo e viu a mo de um homem saindo de baixo da mesa. Mas antes 
de tentar se desvencilhar dela, os dedos relaxaram e a mo caiu sem vida no 
carpete 
Sujo.
Paris deu a volta na mesa, tropeando nos prprios ps, mas parou de repente ao 
ver o corpo de barriga para baixo no cho. Caiu de joelhos, segurou o homem 
pelos 
Ombros e virou-o de frente.
John rondeau gemeu. Suas plpebras tremiam, mas permaneciam fechadas. Ele 
sangrava profusamente de um ferimento na cabea.
Paris sentiu uma onda de alegria ao murmurar o nome dele.
- john. Por favor, acorde. Por favor!
Ela bateu no rosto dele, mas john s gemeu novamente, e a cabea rolou para o 
lado. Ele estava inconsciente.
Perto da mo esticada do policial havia uma pasta de documentos que parecia 
oficial. Paris leu o nome impresso na etiqueta: stanley crenshaw.
O estmago dela colou nas costas.
- oh, meu deus.
Stan? Ento era stan o tempo todo?
E por que no?, raciocinou ela. A inaptido dele podia ser um excelente 
disfarce. Teve tempo e oportunidade para cometer os crimes. Tinha os dias e as 
noites livres, 
Antes e depois do programa dela. Tinha conhecimento tecnolgico suficiente para 
redirecionar chamadas telefnicas. Era fissurado em eletrnica e aparelhos. 
Certamente 
Entre os seus brinquedos devia haver equipamento fotogrfico que ele podia pagar 
facilmente. Era suficientemente bonito para atrair uma adolescente em busca de 
emoes.
E tinha a vida inteira de raiva e ressentimento acumulados, motivao mais do 
que suficiente para matar uma mulher que o tivesse humilhado. E com uma clareza 
arrepiante, 
Paris entendeu que exatamente naquela noite ela tambm havia rejeitado stan.
- o socorro chegar logo - sussurrou paris para rondeau. Ele no reagiu. Tinha 
mergulhado numa inconscincia profunda. O policial estava fora de combate e ela, 
sozinha.
Mas no ia ficar esperando valentino encontr-la. Era ela que ia descobrir onde 
ele estava.
Apalpou s pressas a roupa de rondeau. No sabia se investigadores de crimes no 
computador andavam armados ou no, mas esperava que sim. No gostava de armas, 
achava 
Repugnante toda a idia em torno de armas, mas usaria uma se fosse preciso para 
salvar sua vida.
Paris deu um suspiro de alvio quando sentiu um volume sob o palet dele. 
Afastou o palet e descobriu que o coldre preso ao cinto estava vazio.
Stan deve ter tido a mesma idia. Estava armado.
Depois de murmurar que tudo ia acabar bem para tranqilizar rondeau - que 
esperava que fosse verdade -, paris abandonou a falsa segurana do seu 
esconderijo atrs 
Da mesa.
Antes de sair do saguo, paris apagou a luz fluorescente, mas lembrou que stan 
conhecia o prdio to bem quanto ela, por isso a escurido no seria mais uma 
vantagem 
Exclusiva.
Acontece que no ia mais se esconder. Stan e ela estavam sozinhos no prdio, 
como tinham ficado centenas de noites antes daquela. No ia brincar de gato-e-
rato feito criana com ele. Se partisse para a ofensiva e o confrontasse, tinha 
certeza de que poderia ficar conversando com ele at o socorro chegar.
A sala da engenharia de som estava deserta, o banheiro masculino e o refeitrio 
tambm. Todas as salas, inclusive a dela, estavam vazias. Aos poucos, ela foi 
chegando 
Aos fundos do prdio, onde havia um grande depsito. A porta estava fechada.
A maaneta de metal estava fria quando paris a segurou e abriu a porta. Foi 
recebida pelo cheiro de mofo do lugar pouco usado e de coisas velhas. O lugar 
era cavernoso, 
Mais escuro ainda do que o resto das salas. A porta aberta desenhava uma nesga 
de luz no piso de concreto, to fraca que podia ser ignorada.
Paris hesitou ali na porta, at os olhos se adaptarem  escurido mais profunda. 
Ento ela notou a espcie de despensa onde eram guardados o equipamento e o 
material 
De limpeza de lancy/ marvin. A porta estava entreaberta. Escutando com muita 
ateno, paris teve certeza de ouvir a respirao de algum vindo l de dentro.
- stan, isso  bobagem. Saia da. Pare com essa loucura antes que algum mais se 
machuque, inclusive voc.
Reunindo toda a coragem que tinha, paris entrou no depsito.
- eu sei que voc agora tem uma arma, mas no acredito que vai atirar em mim. Se 
quisesse me matar, j teria feito isso qualquer noite dessas.
Ser que a respirao dentro da despensa estava mais agitada? Ou ser que ela 
estava imaginando coisas? Ou ser que o que ouvia era um eco da prpria 
respirao?
- sei que voc est zangado comigo por eu ter rejeitado seu afeto, mas at esta 
noite eu nem sabia que voc sentia isso por mim. Vamos conversar.
Paris avanou nas pontas dos ps pelo piso de concreto, indo para a despensa, 
com os ouvidos atentos ao menor som por trs das paredes que indicassem que o 
socorro 
Estava a caminho. Naquele momento mesmo, ser que os atiradores j estavam se 
posicionando? Ser que policiais do batalho especial j estavam escalando a 
parte 
De fora do prdio para chegar ao telhado? Ou ser que ela havia assistido a 
filmes de ao demais?
Quando estava a poucos passos da porta da despensa parcialmente aberta, paris 
parou.
-stan?
Ela estendeu o brao bem para a frente e empurrou a porta, que se abriu 
totalmente.
Nenhum disparo perturbou o silncio. Paris lembrou do que ele tinha feito com 
janey. Agora que sabia que iam prend-lo, devia estar desesperado, sem 
conscincia 
Nenhuma, capaz de fazer qualquer coisa. A situao exigia um treino que paris 
no tinha. Dean tinha.
Dean. Com medo e saudade, o corao de paris bradou silenciosamente o nome dele 
ao dar o ltimo passo para chegar  porta aberta.
Avistou stan e ficou atnita.
A respirao dele era ruidosa porque sua boca estava selada com uma fita 
isolante que tambm tinha sido usada para amarrar seus tornozelos e pulsos. As 
pernas estavam 
Dobradas de modo que os joelhos batiam no queixo e ele havia sido literalmente 
enfiado na pia industrial de ao inoxidvel.
- stan! O qu...
Paris estendeu a mo para arrancar a fita isolante da boca dele quando os olhos 
de stan, j arregalados de pavor, olharam para alguma coisa atrs dela e ficaram 
Ainda maiores.
Paris girou rapidamente.
- surpresa! - disse john rondeau. Mas era a voz de valentino.


Captulo trinta e cinco

- porra, porra! - repetia dean, e apertava os dgitos emborrachados do seu 
telefone celular.
Dirigia o carro apenas com uma das mos e manuseava o celular com a outra. Tinha 
rediscado diversas vezes o nmero particular que paris lhe dera. Ela no 
atendia. 
Discou o nmero da estao de rdio repetidamente, mas s ouvia a gravao 
padro que dizia que paris ia atender assim que pudesse. Telefonou para o 
celular dela, 
Mas caiu na caixa postal.
- por que voc no me contou sobre o rondeau? - curtis, muito tenso, tambm 
usava seu celular, esperando mais informaes sobre rondeau.
- voc soube na mesma hora que eu.
O detetive estava ao lado dele quando gavin revelou o que sabia sobre rondeau. 
Seria difcil dizer quem agiu primeiro. Dean lembrava de ter empurrado curtis 
para 
Fora do seu caminho enquanto corria para fora do prdio.
Estava um pouco  frente quando curtis ordenou o envio de unidades para a 
estao de rdio.
- a swat tambm! Agora, j, rpido!
Dean no ia ficar l parado esperando as ordens do sargento serem cumpridas e, 
aparentemente, curtis tambm tinha pressa. Saram em disparada pela porta dupla, 
desceram 
A escada, dois ou trs degraus de cada vez, e chegaram  garagem. O carro de 
dean estava mais prximo. E  velocidade que ele dirigia, chegariam antes dos 
carros 
Da polcia na rdio.
- voc no me contou que rondeau abordou seu filho no banheiro.
- era pessoal. Eu pensei que rondeau no passava de um babaca.
- um babaca com... - curtis parou de falar e ficou ouvindo algum no celular. - 
,  - disse ele -, o que voc descobriu?
Enquanto curtis recebia as informaes sobre john rondeau, dean discou os 
nmeros de paris novamente. Obteve o mesmo resultado, xingou prodigamente e 
pisou firme 
No acelerador.
Como se tivesse uma relao direta com a presso no acelerador, o rdio do carro 
emudeceu. Os ouvidos de dean esperavam ouvir a voz de paris, por isso o sbito 
chiado 
De esttica foi to estarrecedor quanto um grito de pavor.
O significado daquilo abalou seu autocontrole. Apertou, furioso, os botes do 
rdio. Todas as outras estaes soaram em alto e bom som. No era defeito do 
rdio. 
A 101.3 tinha parado de transmitir.
- a estao acabou de sair do ar.
Curtis, que estava concentrado na conversa ao celular, virou para dean.
- hein?
- ela est fora do ar. Parou de transmitir.
- meu deus - disse ento curtis ao celular. - chega, por enquanto - e desligou.
- o que foi? Fale comigo - disse dean, fazendo uma curva praticamente em duas 
rodas.
- rondeau no tinha pai. Nunca teve um pai em casa. Agora esto verificando se 
ele morreu quando john era criana, ou se algum dia houve um sr. Rondeau. Nenhum 
modelo 
De comportamento masculino significativo, como um tio, um chefe de escoteiros...
- j entendi. Continue.
- a me trabalhava para sustentar john e a irm dele, um ano mais velha.
- o que as duas dizem dele?
- nada. As duas morreram.
Dean virou a cabea rapidamente para curtis.
- ele se referiu a elas no presente.
- elas foram assassinadas em casa quando john tinha catorze anos. Foi ele que 
encontrou os corpos. A irm afogada na banheira. A me com um picador de gelo 
enfiado 
Na medula enquanto dormia.
- quem fez isso?
- no se sabe.  um caso arquivado.
- no  mais.
Dean apertou o volante.
- no podemos afirmar isso - disse curtis, lendo os pensamentos de dean. - ele 
foi interrogado, mas nunca considerado um suspeito de fato. A me e os filhos 
eram 
Muito chegados. A me trabalhava muito para sustent-los. Eram crianas que 
ficavam sozinhas em casa. Tinham de contar um com o outro. Muito ntimos.
- aposto que eram - disse dean, tenso. - muito ntimos.
- voc est pensando em incesto?
- o comportamento de valentino  sintomtico. Por que isso tudo no estava na 
ficha de rondeau?
- os fatos esto. A polcia de austin investiga cuidadosamente cada candidato.
- mas ningum enxergou alm da tragdia dele ter perdido toda a famlia. Ningum 
pensou em incesto. O que aconteceu com o pequeno john depois do duplo 
assassinato?
- foi adotado. Viveu com o mesmo casal at ter idade para se virar sozinho.
- outras crianas nessa casa?
- no.
- que sorte. Ele se dava bem com o pai adotivo?
- no h registro de qualquer problema. Eles o adoravam.
- especialmente a mulher.
- eu no sei - disse curtis. - mas falaram dele com admirao. Disseram que era 
o filho perfeito. Respeitoso. Bem comportado.
- muitos psicopatas so assim.
- ele teve um timo desempenho acadmico - continuou curtis. - nenhum problema 
na escola. Fez dois anos na faculdade antes de se candidatar  academia de 
polcia. 
Queria se tornar policial...
- deixe-me adivinhar. Para evitar que outras mulheres morressem do jeito que a 
me e a irm morreram.
- mais ou menos - disse curtis. - um detalhe minsculo...
- o qu?
- quando morreu, a irm estava grvida de cinco meses. Dean arriscou um olhar de 
interrogao.
- no - disse curtis. - eles verificaram. No era filho do rondeau.
- eu poderia ter dito que no era - disse dean, carrancudo.
- foi por isso que ele a matou.
O telefone celular de curtis tocou.
 sim  ele atendeu irritado.
Dean j podia ver as luzes da torre de transmisso da rdio. Estavam a o qu? 
Dois quilmetros? Trs? Seguia atrs da van da swat. A equipe especial os tinha 
alcanado 
Alguns quilmetros antes e dean deixou que passasse.
A van ia em alta velocidade, mas dean forava o motorista a acelerar ainda mais. 
Eram os dois veculos da frente de uma caravana que inclua diversas unidades da 
Polcia. O ltimo da fila era uma ambulncia. Dean procurou no pensar nisso.
Curtis desligou o celular.
- eles foram ao apartamento de rondeau. No era grande coisa, mas tinha um 
equipamento fotogrfico sofisticado. lbuns cheios de fotos pornogrficas. 
Muitas de janey. 
Fios de cabelo louro comprido na roupa de cama. Ele  o nosso homem.
Dean olhava para a frente e apertava tanto os dentes que o maxilar chegava a 
doer.
Curtis verificou a pistola no coldre preso ao cinto e a outra, no tornozelo.
- voc tem uma arma?
Dean indicou que sim com um movimento brusco da cabea.
- passei a us-la quando ele comeou a ameaar paris.
- tudo bem, mas oua bem o que eu vou dizer. Quando a gente chegar l, voc vai 
ficar fora do caminho e deixar aqueles caras fazerem o trabalho deles - ele 
apontou 
Para a van da swat.
- entendeu?
- entendi. Sargento.
Curtis no ignorou a lembrana das respectivas patentes, mas no recuou.
- se voc entrar l e sacar essa arma, vai ferrar a nossa priso e vamos acabar 
tendo de soltar o cara por alguma tecnicalidade legal idiota.
- eu j disse que entendi - disse dean, irritado.
- ento voc est calmo?
- eu estou legal.
Curtis guardou a pistola no coldre do tornozelo e resmungou:
- est nada.
- certo - disse dean. - se ele machucar paris, eu vou mat-lo.
Ela olhou boquiaberta para a cara sorridente de rondeau, mas o espanto foi 
apenas momentneo. Ento reagiu rapidamente. Empurrou o peito dele com toda a 
fora, mas 
Ele a jogou contra as prateleiras de ferro da despensa e ao mesmo tempo disparou 
a pistola contra stan.
O disparo deixou paris surda. Ou talvez tivesse sido seu prprio grito.
Rondeau deu um tapa nela.
- cale a boca!
Ele agarrou paris pelos cabelos, arrastou-a para fora da despensa e fechou a 
porta com um chute. Depois empurrou-a com tanta violncia que paris caiu no piso 
de 
Concreto.
- al, paris - disse ele com a voz enregelante que ela j conhecia to bem.
- voc o matou?
- crenshaw? Espero que sim. Foi esse o objetivo de enfiar uma bala direto no 
corao dele. Que cara medocre. Mas era mais forte do que parece. Ele fez isso 
em mim 
- disse ele, apontando para o ferimento na cabea que ainda sangrava. - primeiro 
ele foi solcito. Mostrou como interromper a transmisso. Sob a mira da arma,  
Claro. Depois ele fez essa tentativa ridcula, mas valorosa, de proteger voc, e 
me acertou com uma garrafa de snapple.
Rondeau continuava falando com a voz de valentino.
- a voz... Esse  um truque e tanto.
- no ? Para o caso de algum dos meus companheiros policiais ser tambm f de 
paris gibson. No queria que identificassem a minha voz quando ligava.
- voc era o valentino desde o comeo - a boca de paris estava to seca que a 
lngua grudava no cu da boca a cada palavra que dizia.
 . E isso nos leva at... Vejamos - ele coou o rosto com o cano da pistola. - 
algum tempo antes de maddie robinson aparecer.
- ento voc matou duas mulheres. Ele sorriu, complacente.
- na verdade no, paris.
- mais de duas?
- h-h.
Faa o homem falar. Quanto mais tempo ele ficar falando, mais tempo voc ficar 
viva.
- por que as matou?
Rondeau voltou a falar com sua voz normal:
- porque elas no mereciam viver.
- elas o rejeitaram, como a janey fez.
- janey, maddie, a minha irm.
- voc assassinou a sua irm?
- no foi assassinato. Eu fiz justia.
- compreendo. O que aconteceu? O que a sua irm fez? Ele deu uma risada 
agradvel.
- tudo. Ns fazamos tudo um com o outro. Eu dormia entre as duas, sabe? Entre 
ela e a minha me. Est entendendo? - ele levantou e abaixou as sobrancelhas.
Rondeau queria choc-la e tinha conseguido, mas paris procurava manter a 
expresso neutra. No ia dar a ele a satisfao de ver a repulsa que sentia.
- mantnhamos tudo em famlia. O nosso segredinho - disse ele, sussurrando como 
um ator no palco. - no conte para ningum - mame avisava. - porque, se voc 
contar, eles vo lev-lo embora e tranc-lo onde ficam os meninos e as meninas 
que brincam com os pintinhos e as xoxotinhas dos outros. Promete? timo. Agora 
chupe as maminhas da mame e ela far uma coisa muito especial com voc.
Paris ficou nauseada.
Ele continuou daquele jeito blas:
- mas ento comeamos a crescer. Ela arrumou um emprego na loja de discos. 
Passava a tarde toda l, em vez de ficar em casa comigo, fazendo o que mais 
gostvamos de fazer. Comeou a ficar na loja at mais tarde, com um dos caras 
que trabalhava l. No tinha mais tempo para mim.
"dizia que no estava a fim. Que estava muito cansada, mas a verdade  que 
ficava fodendo com aquele cara o tempo todo.
E mame achava que era maravilhoso a mana ter se apaixonado. No  romntico? 
No est feliz por ela, johnny?"'
Rondeau mergulhou num silncio pensativo, depois deu um suspiro como se fosse 
chorar.
- eu as amava.
Aproveitando a preocupao dele, paris olhou para a porta e avaliou a distncia.
A risada dele atraiu o olhar dela novamente.
- nem pense nisso, paris. Essa pequena viagem pelas minhas lembranas no me 
distraiu do que eu vim fazer.
- se voc me matar...
- ah, eu vou te matar, mas eles vo culpar stan crenshaw.
- ele est morto.
- mortinho da silva. Tive de mat-lo. Sabe, quando cheguei aqui, encontrei voc 
morta, estrangulada pelo crenshaw, que era um filho-da-me pervertido e doente 
desde 
Criana. Est tudo l no arquivo dele, a receita perfeita de um psicopata e 
tarado sexual.
"de qualquer maneira, avaliei a situao e tentei captur-lo. Durante a briga, 
ele conseguiu acertar a minha cabea, que, alis, foi o que inspirou aquela 
brincadeirinha 
Que fiz com voc. Bem esperto, no acha? Voc caiu direitinho, no caiu?"
- ca - admitiu ela.
- desculpe, mas no pude resistir. Especialmente aquela parte do seu tornozelo - 
disse ele, e deu uma risadinha. - onde  que eu estava? Ah, sim, eu vou contar 
que 
Finalmente consegui dominar crenshaw e estava prendendo seus tornozelos e pulsos 
com fita isolante que encontrei na despensa quando ele tentou escapar. 
Infelizmente 
No tive escolha. Tive de atirar nele.
- muito simples - disse ela. - mas no perfeito. Os especialistas da cena do 
crime vo encontrar discrepncias.
- tenho resposta para qualquer pergunta que surgir.
- tem certeza de que pensou em tudo, john?
- eu fiz a minha pesquisa. Sou um bom policial.
- que ataca mulheres.
- eu nunca "ataquei" as mulheres. Minha me e minha irm nem foram vtimas. Elas 
me treinaram. Toda mulher que tive desde ento se beneficiou com o que elas me 
ensinaram, 
E todas consentiram em ser minhas parceiras. No incio, eu nem sentia muita
Atrao pela maddie. Mas ela ficou atrs de mim. E depois foi ela que quis 
terminar. Vai entender - ele balanou a cabea, como se no acreditasse.
"e se voc est se referindo s meninas do clube do sexo como vtimas, no 
estava prestando ateno. Elas so putas  procura de aventuras. Eu no sou nada 
inibido. 
Elas me adoram
- sussurrou ele, agitando a lngua para paris.
E mais uma vez paris engoliu a nsia de vmito que sentia.
- parece que janey no adorava voc.
- a janey no gostava de ningum alm da janey. Mas adorava o que eu fazia com 
ela. Era uma vadiazinha sem corao que usava as emoes das pessoas como alvo 
para 
Prtica de tiro. E voc simpatizou com ela, paris. Voc a ps no rdio para 
reclamar de mim. E sabe por qu? Porque voc  exatamente igual a ela.
"voc tambm brinca com as emoes das pessoas. Pensa que  o mximo. Tem o 
malloy, e at o curtis babando por voc, implorando qualquer migalha de ateno 
que voc 
Possa dar para eles."
De repente, rondeau olhou para o relgio.
- por falar em malloy,  melhor eu cuidar logo disso. Voc j est fora do ar h 
cinco minutos.
Cinco minutos? Parecia uma eternidade.
- o pessoal vai comear a notar e tenho certeza de que o seu amigo psiclogo vai 
invadir isso aqui feito a cavalaria e...
Da frente do prdio partiu um som como o de uma exploso de vidro quebrando, 
seguido de gritos e passos de pessoas correndo.
Paris chutou o joelho de rondeau com toda a fora.
A perna dele dobrou e ele berrou de dor.
Paris se levantou e correu para a porta.
S ouviu o disparo depois de sentir o impacto da bala.
Foi mais potente do que jamais poderia imaginar. A dor que sentiu, queimando, 
deixou paris sem ar e ela quase desmaiou imediatamente, mas a adrenalina fez com 
que 
Continuasse a correr, passou pela porta, saiu da linha de viso dele e ento 
caiu.
Tentou gritar e alertar a polcia para que soubessem onde estava, mas s 
conseguiu emitir um gemido fraco. A escurido se fechou sobre ela e o corredor 
apagado comeou 
A se alongar e a estreitar, como o tnel de um pesadelo.
Dean devia estar liderando a invaso. At rondeau tinha dito isso. Paris 
precisava avis-lo. Tentou se levantar, mas as pernas e os braos tinham virado 
gelatina, 
E sentia uma vontade enorme de vomitar. Abriu a boca para gritar, mas sua voz, 
bem impostada e cuidadosamente treinada, falhou completamente.
Rondeau estava chegando perto da porta. Paris podia ouvir seus gemidos de dor 
enquanto ele saltitava no piso de cimento do depsito. Logo chegaria ao 
corredor. Rondeau 
Levaria vantagem sobre qualquer um que aparecesse na esquina cega no fim daquele 
corredor.
- dean - coaxou paris.
Mais uma vez, tentou ficar de p. Chegou a se apoiar nos joelhos, mas balanou 
sem equilbrio e depois caiu de novo, batendo com fora na parede. A dor foi 
como 
Ferro em brasa queimando sua carne at o osso. Deixou um rastro de sangue na 
parede quando escorregou para o cho.
Seus ouvidos zuniam, mas deu para perceber que as vozes estavam mais perto. 
Fachos de lanterna riscavam as paredes loucamente no fim do corredor.
Ouviu outro som e virou bem na hora que rondeau apareceu na porta da despensa. 
Ele grunhia de dor e se apoiava no batente. Paris ficou satisfeita com o ngulo 
estranho 
Da perna direita dele. Rondeau tinha o rosto coberto de suor e contorcido numa 
feia mscara de fria olhando para ela.
- voc  igualzinha a elas - disse ele. - eu preciso matar voc.
- parado.'
O grito ricocheteou nas paredes como os fachos das lanternas.
Mas rondeau ignorou o aviso. Levantou a pistola e mirou diretamente em paris.
A barragem de tiros foi ensurdecedora e encheu o corredor de fumaa.
Quando caiu para a frente, paris ficou imaginando vagamente se estava perdendo a 
conscincia ou morrendo.

#break
#captulo trinta e seis
- quem foi que acertou ele?
- pode se dizer que foi um trabalho de equipe. Rondeau no nos deu escolha. 
Alguns de ns acertamos nele.
Paris recostou no travesseiro do leito do hospital, aliviada com a resposta de 
curtis. No ia querer que dean carregasse o peso de ter tirado a vida de john 
rondeau. 
Ficou sabendo mais tarde que ele foi o primeiro a entrar no corredor, como sabia 
que seria. Mas curtis e alguns policiais da swat estavam l tambm. Qualquer 
bala 
Disparada contra rondeau podia ser o tiro fatal.
Aquela manh curtis estava mais alinhado do que nunca, como se tivesse se 
arrumado todo para visit-la. Vestia um terno cinza bem moderno. As botas tinham 
um brilho 
Extra. Paris sentiu cheiro de colnia. Ele levou uma caixa de bombons godiva 
para ela.
Mas a atitude de curtis era profissional.
- rondeau sabia bastante de informtica para aprender a redirecionar ligaes 
telefnicas - disse curtis. - o nosso pessoal finalmente rastreou aquela ltima 
ligao 
At um telefone celular. Mas ele tambm tinha previsto isso. O telefone no era 
registrado. Era descartvel. Essa parte foi fcil para ele.
- e ele podia mudar a voz quando bem queria tambm. Era sinistro.
Paris passava alguns minutos sem pensar em rondeau e naqueles momentos 
angustiantes com ele dentro da despensa. Ento, sem mais nem menos, a lembrana 
invadia sua 
Conscincia e ela era forada a reviver a experincia aterradora.
Descreveu esse fenmeno para dean e ele procurou tranqiliz-la, afirmando que a 
cada dia a lembrana voltaria com menos freqncia e ficaria um pouco mais 
fraca. 
Ela no poderia esquecer completamente a experincia, mas ia afundar no seu 
subconsciente. A anlise dele tinha nota de rodap: ele ia providenciar para que 
ela vivesse o presente e para o futuro e no se prendesse ao passado.
- rondeau queria entrar para o bci - dizia curtis. - j tinha comentado isso 
comigo. Disse que queria trabalhar na unidade de violncia contra crianas.
- onde teria acesso ilimitado  pornografia infantil. Curtis meneou a cabea, 
deixando claro sua revolta.
- ele foi para a estao de rdio aquela noite para cumprir seus compromissos 
pessoais e ao mesmo tempo aparecer como policial, entregando valentino.
"com voc e crenshaw mortos, talvez conseguisse. O corpo de janey no tinha o 
DNA do criminoso. Parece que ele ficou sabendo de um reagente que tinha servido 
para 
Isso num caso de homicdio em dallas. - curtis balanou a cabea com tristeza.
- o trabalho na polcia foi uma boa escola para ele.
- quanto ao stan, voc tem alguma notcia sobre o estado dele? - perguntou 
paris.
- foi promovido a bom.
Milagrosamente, stan tinha sobrevivido ao tiro que levou no peito e  cirurgia 
delicada para a remoo da bala. Teve um pulmo inutilizado e danos extensos nos 
tecidos, 
Mas ia sobreviver. Quando ficou bastante estvel para ser removido, "wilkins 
crenshaw o levou no jatinho particular para atlanta.
- pedi para o tio dele ligar para mim assim que stan puder falar ao telefone - 
disse paris. - quero pedir desculpas.
- tenho certeza de que ele no vai guardar rancor contra voc. Vai dar graas a 
deus de estar vivo.
- rondeau me disse que tinha atirado bem no corao dele.
- se ele estava mirando no corao, devia ter passado mais tempo no exerccio de 
tiro - disse curtis com um sorriso triste.
- sorte de vocs que no fez isso.
Tinham dito para paris que a perda de sangue dela foi grande porque a bala 
entrou nas costas, logo abaixo do ombro, e atravessou seu corpo. Ia ficar com 
uma cicatriz 
Feia e seu saque fortssimo no tnis seria coisa do passado. Porm, estava viva.
Se a bala tivesse feito um caminho alguns centmetros para baixo, ela teria 
morrido. Dean recomendou que no ficasse pensando nisso tampouco, apesar de ser 
essa a reao normal de um sobrevivente.
- no fique examinando os motivos da sua vida ter sido poupada, paris. Isso  
intil. Jamais encontraria uma resposta. Apenas agradea por estar aqui.  o que 
eu 
Fao - disse dean, com a voz rouca de emoo.
Curtis trouxe paris de volta  conversa, dizendo que os relacionamentos 
incestuosos da infncia de rondeau tinham servido para enfurec-lo.
- acho que nem ele sabia a raiva que sentia - disse ele. -aprendeu a ocultar 
essa raiva muito bem, mas alimentou uma fria profunda contra as mulheres, 
graas ao 
Que a me abusiva fez com ele.
- dean j explicou isso para mim.
- estou repetindo o que ele disse - admitiu curtis, e depois perguntou se paris 
tinha visto o jornal aquela manh. - o juiz kemp est usando o assassinato de 
janey 
Na sua plataforma de campanha.
 isso  pior do que mau gosto.
- que gente - disse o detetive, com desprezo.
- o que vai acontecer com brad armstrong? - perguntou paris. - ele vai para a 
priso?
- ele tem de enfrentar a acusao de crime sexual qualificado, que pressupe uma 
sentena sria, se for condenado. Melissa hatcher, entretanto, admitiu que 
consentiu 
E se disps a fazer vrias coisas com ele antes de resolver parar. Ele pode 
tentar um acordo para obter uma acusao menor em troca de uma sentena mais 
branda, 
Mas estou achando que vai ter de cumprir pena. Vamos torcer para ele usar esse 
tempo para se curar.
- gostaria de saber se a mulher vai ficar com ele.
Paris olhou para o arranjo de flores que toni armstrong havia mandado.
- isso ns vamos ver - disse curtis. - mas, se tivesse de apostar, eu diria que 
sim. - ele ficou calado por um tempo, depois bateu nas coxas, deu um suspiro e 
se 
Levantou. -  melhor eu ir embora e deixar voc descansar.
Paris deu risada.
- j estou at roxa de tanto descanso. No agento mais esperar para receber 
alta.
- est ansiosa para voltar ao trabalho?
- espero voltar j na prxima semana.
- seus fs ficaro contentes. E a equipe do hospital tambm. Disseram que todas 
as flores num raio de duzentos quilmetros esto na entrada principal do 
hospital 
L embaixo.
- dean me levou na cadeira de rodas at l embaixo ontem para v-las. As pessoas 
foram excepcionalmente gentis.
- eu senti falta do seu programa - todo o couro cabeludo de curtis ficou cor-de-
rosa forte quando ele acrescentou: - voc  especial, paris.
- obrigada. Voc tambm , sargento curtis.
Meio sem jeito, ele pegou a mo dela e apertou-a rapidamente antes de soltar.
- tenho certeza de que verei voc por a. Quero dizer, agora que malloy e 
voc... - ele no terminou a frase.
Paris sorriu.
- e, tenho certeza de que vamos nos ver por a.
Dean chegou quando paris dava os retoques finais na maquiagem.
- paris?
- aqui dentro - ela chamou do pequeno banheiro.
Dean chegou por trs e os olhos dos dois se encontraram no espelho em cima da 
pia.
- como estou?
- deliciosa.
Paris franziu a testa, examinando seu reflexo.
- pentear o cabelo com uma mo s no  fcil. Pelo menos  a esquerda que est 
fora de combate.
Dean segurou a mo direita de paris, cujas costas tinham a marca roxa do furo da 
intravenosa que tinham tirado no dia anterior. Ele beijou o ponto machucado.
- para mim voc est maravilhosa.
- a sua opinio conta muito.
Paris virou e ficou de frente para ele e, quando dean s deu um beijinho de 
leve, ela fez cara de decepcionada.
- eu no quero machucar voc - explicou ele, apontando para o brao enfaixado e 
numa tipia.
- eu no quebro.
Com a mo direita, paris puxou a cabea dele para baixo e deu-lhe um beijo de 
verdade, ao qual ele correspondeu na mesma moeda. Beijaram-se com paixo e 
tambm com 
O desespero de saber que quase tinham perdido um ao outro pela segunda vez.
- recebi um carto de pronto restabelecimento de liz douglas - disse paris 
quando se afastaram. - muito simptico da parte dela nessas circunstncias.
- ela  uma dama. Liz s tinha um problema. No era voc. Eles se beijaram de 
novo, dean continuou com os lbios encostados nos dela e sussurrou:
- quando chegar em casa...
- humm?
- podemos ir direto para a cama?
- voc faz...
- tudo. Vamos fazer tudo. - dean deu um beijo rpido e forte e disse: - vamos 
sair daqui.
Pegaram o resto das coisas dela e puseram numa sacola. Paris ps os culos 
escuros. Dean a ps sentada na cadeira de rodas obrigatria do hospital e a 
empurrou at 
O elevador.
Quando estavam descendo para o trreo, paris disse:
- pensei que gavin viria com voc.
- ele mandou lembranas, mas partiu para houston esta manh para passar o fim de 
semana com pat. Quer acertar os ponteiros com ela. Talvez at oferecer um ramo 
de 
Oliveira para o marido dela.
- bom para ele.
- ele no me enganou.
- no acredita que esteja sendo sincero?
- ah, ele foi sincero quanto a acertar as coisas com eles. Mas resolveu fazer 
isso exatamente nesse fim de semana, para ns dois podermos ficar sozinhos.
A porta do elevador se abriu, dean se abaixou e sussurrou diretamente no ouvido 
de paris:
- devo essa a ele.
- e eu tambm - disse paris, retribuindo o sorriso dele.
- voc vai se casar comigo, no vai? Fingindo estar ofendida, paris disse:
- no aceitaria uma lua-de-mel se no nos casssemos.
- gavin vai ficar contente. Ele quer fazer amigos na nova escola e me disse que 
seria mais fcil com uma madrasta famosa e gata.
- ele acha que sou uma gata?
- e bem legal tambm. Voc tem sua aprovao incondicional.
-  bom ser querida.
Deixando o humor de lado, dean passou para a frente da cadeira de rodas e se 
abaixou at ficar com o rosto bem na altura do dela.
- eu quero voc.
Os dois tinham uma platia formada pela equipe do hospital e visitantes no 
saguo. Sem se importar com eles, dean segurou a mo de paris novamente e dessa 
vez apertou 
A palma contra os lbios. Trocaram um olhar transbordante de significado e 
implicaes, depois dean largou a mo dela e perguntou:
- pronta?
- pronta.
- mas previna-se, paris. Vai enfrentar um desafio. H um monte de cmeras do 
outro lado dessa porta. Toda a mdia de dalas at houston e el paso mandou um 
reprter
E um fotgrafo para c para cobrir a sua sada do hospital. Voc  notcia.
- eu sei.
- e tudo bem?
- tudo bem. Na verdade... - ela tirou os culos escuros e sorriu para ele - ... 
J era hora de eu me expor  luz.
Com um enorme sorriso, dean empurrou a cadeira de rodas para as portas 
automticas. Elas se abriram e os flashes das cmeras comearam a espocar.
Paris nem piscou.


agradecimentos
Realmente no gosto de ter de pedir ajuda e informao s pessoas. Um exemplar 
autografado do livro e o agradecimento no final parecem reconhecimento 
insuficiente 
De todo o trabalho que esses profissionais tiveram comigo.
Laura albrecht, especialista  de informao ao pblico do departamento de 
polcia de austin, nunca perdeu a pacincia comigo, nem quando eu ligava para 
ela repetidamente 
Com "s mais uma pergunta". Ela abriu portas que normalmente ficariam fechadas. 
Obrigada tambm aos detetives do bureau central de investigaes, cujo trabalho 
difcil 
Que executam costuma ser ignorado e no recompensado. Eles foram cordiais e 
prestativos, mesmo depois que eu expliquei que havia um policial corrupto na 
minha histria.
Na minha prxima vida, quero ser uma dj da hora do rush, como bill kinder da 
kscs-fm. Ele conversa com os fs de segunda a sexta, coisa que eu no fao. Eles 
telefonam 
Centenas de vezes. Que barato! Fez parecer fcil executar uma dzia de tarefas 
ao mesmo tempo. Jamais perdeu o ritmo, nem mesmo para responder s minhas 
perguntas. 
Se traduzi a tecnologia do rdio toda errada, no foi culpa dele.
Alguns infelizes trabalham comigo diariamente. A minha agente, maria carvainis, 
merece mais gratido do que eu jamais seria capaz de expressar. O nome do meio 
de
Amie gray devia ser britannica, pela eficincia com que verifica os fatos e 
compila informaes sobre os tpicos mais estapafrdios. Tambm quero agradecer 
a sharon hubler por todos os anos que organizou a minha vida. Sem ela, eu 
estaria muitas vezes no lugar errado, na hora errada, fazendo a coisa errada. 
Desejo muita felicidade na sua nova vida.
E ao homem querido que vive comigo, michael, muito obrigada
 o meu amor, sempre.
Sandra brown
19 de abril de 2003
